O inferno não existe? EB

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Em síntese: Leonardo Boff declarou à revista Rio Artes nº 21, 1997, que o inferno não existe; o conceito respectivo terá sido elaborado por teólogos, que não levaram em conta a figura feminina de Deus, que é misericordiosa. Em linguagem irreverente o autor escarnece a noção bíblica de inferno, que ele parece Ter esquecido, embora outrora mostrasse conhecer o conteúdo da Bíblia. Na verdade, o inferno não é o que Dante e a imaginação popular concebem, mas é consequência de livre opção do homem,  o qual se condena a não amar a Deus, que sempre o amará.

O ex-frei Leonardo Boff  publicou na revista Rio Artes, nº 21, 1997, o artigo “O Inferno não existe”, terá sido elaborado o conceito de inferno por homens, à revelia da noção de Deus, que é misericordiosa. Visto que o artigo fez alarde e deixou leitores perplexos, será comentado nas páginas que se seguem.

Os Dizeres do Autor

Eis palavras textuais de Leonardo Boff:

“O inferno é uma imagem religiosa, exigência da cultura do homem-varão. Mas que Deus é esse, que não tem poder sobre o mal?  Não é ele onipotente? Existe a justiça, que condena osperversos. É seu inferno. Mas trata-se apenas de um drama maior. Deus prepara um outro ato, o da vitória adequada à sua natureza divina de amor e perdão (…). Essa representação feminina maternal de Deus ultrapassa o inferno (…).

A misericórdia revela um aspecto essencial da natureza divina: o lado feminino de Deus. Misericórdia significa, etimologicamente, possuir um coração que se compadece da miséria do outro, porque a sente profundamente como sua. Em hebraico é ainda mais forte, pois a palavra misericórdia significa ter entranhas como uma mãe e possuir seios como uma mulher (…).

A existência do inferno é a eterna vergonha para Deus. É como se pudéssemos ver os diabos do inferno alegrando-se com uma vitória parcial sobre Deus, mostrando a língua e o traseiro para Deus e fazendo-lhe trejeitos com as mãos sobre o nariz”.

Não pode deixar de surpreender o leitor a linguagem usada por um autor que outrora escrevia num “teologuês” de fundo germânico. Tem-se aqui uma linguagem de baixo calão, pouco digna da temática abordada e do leitor merecedor de respeito.

O autor levanta o problema da conciliação da existência do inferno com a misericórdia de Deus. A abordagem deste problema requer noções claras de um e outro dos termos que compõem o binômio. Faz-se mister, portanto, procurar elucidar os dois conceitos em pauta.

Inferno existe? Que é?

Existe…

A existência do inferno é explicitamente afirmada nos escritos do Novo Testamento – o que afasta a hipótese de ter sido criada pela imaginação dos homens.

Com efeito,

Em Mt 25, 31-46 Jesus descreve o quadro do juízo final, em que é dito aos infiéis: “Afastai-vos de mim… para o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos, porque tive fome e não me destes de comer…” (vv. 41s). Sem dúvida, nesta passagem o Senhor recorre a linguagem particularmente forte, que é preciso entender como tal.Como quer que seja, significa que há uma sanção condenatória para os que renegam a Deus.

Em Mt 13, 40-42  Jesus termina a parábola do joio e do trigo, dizendo: “Como se junta o joio e se queima no fogo, assim será no fim do mundo: o Filho do Homem enviará seus anjos e eles apanharão do seu Reino todos os escândalos e os praticam a iniquidade e os lançarão na fornalha ardente. Ali haverá choro e ranger de dentes”. É evidente neste texto o uso de metáforas (fornalha ardente, choro e ranger de dentes), mas não é menos evidente que o Senhor se refere a uma sorte punitiva que tocará ao joio ou aos infiéis no além.

Seja mencionada ainda a passagem de Jo 5,28s: “Não vos admireis com isto: vem a hora em que todos os que repousam nos sepulcros ouvirão a voz do Filho do Homem e sairão; os que tiverem feito o bem para uma ressurreição de vida, e os que tiverem cometido o mal para uma ressurreição de julgamento”. Ver ainda Ap 21, 8; 22,15.

É claro assim que a noção de duas sortes póstumas diferentes, correlativas ao tipo de vida de cada indivíduo, é bíblica, e não somente própria do Novo Testamento; já os judeus anteriores a Cristo professavam a mesma concepção, como se depreende de Dn 12,2:

“Muitos dos que dormem no pó da terra, acordarão, uns para a vida eterna, e outros para o opróbrio, para o horror eterno”.

Consequentemente torna-se difícil explicar como alguém que conhece as Escrituras, possa dizer que a noção de inferno foi criada por teólogos.cpa_o_purgat_rio

É de notar, porém, que o grande obstáculo à aceitação do inferno, para muitas pessoas, são as imagens fantasiosas que a poesia e a fantasia popular criaram a respeito do inferno. Na verdade, para muitos o inferno é um tanque de enxofre fumegante com diabinhos e tridentes a torturar os condenados. Ora tal imagem é falsa. Os conceitos materiais e grotescos têm que dar lugar a concepções mais puras e dignas de Deus.

Daí a pergunta:

Em que consiste o inferno?

Antes do mais, é preciso afastar a ideia de que Deus criou o cria o inferno (… ) Este não é um espaço dimensional nem é um lugar, mas sim um estado de alma… estado de alma no qual o próprio indivíduo se projeta quando rejeita radicalmente a Deus pelo pecado grave; começa então o estado infernal, do qual o pecador se pode insensibilizar pelo fato de não dar atenção ao seu íntimo ou à sua consciência, mas que saltará à tona quando ele não mais puder escapar à voz da consciência. Vê-se, pois, que não é Deus quem condena ao inferno; ao contrário, o Senhor Deus quer a salvação de todos os homens, como afirma São Paulo em 1Tm 2,4.  É a própria criatura que lavra a sua sentença ou que se condena quando diz um Não total a Deus, que é o Sumo Bem, o único Bem que o ser humano não pode perder.

Mais precisamente: o inferno  é o vazio absoluto ou a suprema frustração. É o não amar (…) não amar nem a Deus nem ao próximo.  Todo homem foi feito para o Bem Infinito, como notava S. Agostinho (+ 430): “Senhor, Tu nos fizeste para Ti, e inquieto é o nosso coração enquanto não repousa em Ti” (Confissões I 1).  Quem não repousa em Deus, inquieta-se e angustia-se, à semelhança da agulha magnética, que foi feita para o Norte, que a atrai; quando alguém a desvia do seu Norte, ela se agita e só pára quando se lhe permite voltar-se para o Norte.

Consequentemente, vê-se que o inferno é mesmo algo de lógico, pois é a violência que o homem comete contrasi mesmo. Verdade é que ninguém pode definir quantas pessoas morrem avessas a Deus. Bem pode acontecer que na hora da morte muitos pecadores obstinados se convertam e recebam a graça da reconciliação com Deus, como se deu no caso o bom ladrão. Afinal ninguém sabe quantos “bons ladrões” existiram e existirão através dos séculos. Possivelmente um grande número (…) para surpresa de quem só considera a face aparente da história.

E a Misericórdia de Deus?

L. Boff apela para a misericórdia de Deus e julga que a existência do inferno seria motivo de vergonha para Deus… O diabo zombaria do Senhor Deus pelo fato de haver seres humanos condenados ao inferno.

Deve-se responder que, sem dúvida, Deus é infinitamente misericordioso, mas não é “tiranicamente” misericordioso. Com outras palavras: Deus não impõe a sua misericórdia ou o seu perdão a quem não o pede ou não o quer receber. Deus não obriga o homem a amar a Deus. Nisto consiste precisamente a grandeza e a nobreza de Deus. Ele não violenta nem força a criatura a se abrir para a misericórdia. Ora na outra vida não há possibilidade de conversão.  A morte fixa o ser humano em sua última opção, de modo que após a morte ninguém pode mudar suas atitudes. Assim o inferno, em vez de ser motivo de vergonha para Deus, é o testemunho de que Deus respeita a sua criatura e não lhe tira a liberdade que lhe deu para dignificaria.

Pode-se ir mais longe, e dizer que o inferno é a consequência do amor irreversível de Deus. Tal amor se dá e não volta atrás; não pode voltar atrás precisamente porque é divino e não pode contradizer a si mesmo (cf. 2Tm 2,13). Por isto Deus ama a criatura que não O ama e se afastou dele.  O fato de que Deus continua a amar, é que atormenta o réprobo; este percebe que se incompatibilizou com o Supremo Bem e o Sumo Amor.  Donde se segue que o inferno é compatível com a Grandeza e a Santidade de Deus.  Uma imagem servirá para ilustrar de algum modo o que é o inferno: observe-se o caso de um jovem que foge de casa para ir viver com seus colegas numa república de estudantes, porque “papai é cafona e mamãe é quadrada” (…). Pai e mãe que amam o filho, se preocupam, e resolvem enviar recados, perguntando ao jovem como está(…) se precisa de alguma coisa (…) quando voltará (…) Estas interpelações do amor incomodam ou atormentam o filho; este se daria por mais tranquilo se pai e mão desistissem  de o amar seus filhos e de mostrar-lhe o seu amor.  Paralelamente Deus não pode deixar de amar suas criaturas, mesmo quando elas se afastam do Pai celeste; a consciência desse amor atormenta o pecador que se incompatibilizou com Deus.  Se o Senhor retirasse ou cancelasseo seu amor, o réprobo não sofreria tanto, porque estaria totalmente voltado para seus ídolos, sem ser atraído pelo Bem Supremo.  Mas, como dito, Deus não se pode desdizer ou não poder dizer Não após ter dito Sim (aquele Sim proferido quando criou cada ser humano). Nisto está a nobreza de Deus, que é paradoxalmente motivo de tormento para quem não responde ao amor divino. Em suma, é altamente consolador ser amado por Deus, mas também é assustador ser amado por Deus e não O amar.

Eis o que, em poucos parágrafos, se pode responder a Leonardo Boff, a quem Deus queira conceder suas melhores luzes e graças!

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 432 – 1998, p. 212

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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