O Futuro da Fé: Crise da Catequese – Parte 2

A verdade deveria libertar o
homem das paixões

Em suma, a verdade nos fará
livres (Jo 8,32).  Se a transmissão de
uma verdade toma o homem escravo das suas paixões, a causa disto não é a
verdade, mas a maneira como esta terá sido apresentada.  O professor não é um projetor de cinema, nem
um computador que transmite tudo aquilo que dentro dele é colocado.  O professor é uma pessoa que pensa.  Está preparado para transmitir uma mensagem
da maneira mais adaptada aos seus jovens discípulos.  Compreendemos assim a enorme confiança que
Deus mesmo deposita no homem e na mulher, atribuindo-lhes o encargo vital e
delicado de transmitir aos seus semelhantes verdades que procedem de Deus,
quando Ele mesmo as poderia revelar diretamente a cada indivíduo.  A nós compete honrar tal confiança pela
honestidade do nosso  ensino.

Muitas “verdades
científicas” não passam de teorias

Em terceiro lugar, a verdade
é católica, ou seja, universal. Não depende nem da geografia, nem da política,
nem da raça, nem mesmo da história. 
Somos, por vezes, levados a pensar que a verdade pode mudar com os
anos.  O átomo, por exemplo, foi
inicialmente considerado como a menor partícula. Veio o dia em que alguém
conseguiu fragmentá-lo; por conseguinte, já não e o que pensava.  Será isto uma prova científica de que as
verdades mudam ?  Certamente não.  A verdade não mudou, foi o homem que se
enganou na sua primeira maneira de explicar: ele julgava ser o átomo a menor
partícula, quando na verdade não o era.

Muitas proposições que
chamamos “verdades científicas”, são apenas teorias.  Alguns cientistas dizem que descendo de um
peixe dos trópicos.  Isto me agrada como
teoria, porque os peixes são bonitos, ao passo que eu não o sou !

O depósito da Fé não muda
com o tempo

Semelhante observação seja
feita em matéria de doutrina católica. Temos que usar de grande prudência ao
falar de “verdade”.  A verdade cristã não
mudará jamais; todavia nem tudo o que ensinam os homens da Igreja, é verdade
imutável.  O que o Cristo ensinou, o que
foi divinamente revelado, é a verdade; esta vale tanto em Paris quanto em Pequim. 
O conjunto das verdades reveladas, nós o chamamos
freqüentemente “depósito da Fé”.  Nem o
magistério da Igreja tem o direito de modificar o que Deus disse. Eis por que,
entre outras coisas, o casamento ficará sendo sempre indissolúvel; visto que
Jesus o proclamou tal, a Igreja não o pode retocar.  Mas no concernente ao culto, `a organização
de diversas atividades religiosas, às obras de penitência, aos dias santos,
etc. há lugar para alterações. Inspiradas pelas circunstâncias locais e as
necessidades de determinada fase da história. 
Nesses setores pode-se legitimamente discutir a conveniência, a
necessidade, a utilidade de adaptações. 
Foi este precisamente o objetivo do Concílio do Vaticano II … Concílio
pastoral destinado a propor métodos, enfatizar urgência, pôr em dia o apostado,
levando  em conta as necessidades dos
nossos tempos.

Nenhuma das medidas de atualização
afetou o depósito da Fé.  Costumáveis
dizer “Credo in unum Deus”; agora dizeis “Creio em um só Deus”.  O idioma mudou, mas a verdade não se
modificou.  O sacerdote, durante a Missa,
ficava voltado para a parede da Igreja; agora ele está virado para os
fiéis.  Mas o sacerdócio ministerial é
sempre o mesmo e não pode ser confundido com o sacerdócio comum dos fiéis.

As mudanças introduzidas na
Liturgia

As recentes modificações
introduzidas na vida  da Igreja
perturbaram inutilmente algumas pessoas. 
Em vários casos, as razões que motivaram as mudança não foram claramente
explicadas: raramente os fiéis receberam esclarecimentos a respeito da
distinção entre a substãncia e os elementos acidentais da Fé.

Houve também aqueles que não
se limitaram às mudanças prescritas e quiseram, por iniciativa própria,
introduzir mudanças substanciais: por exemplo, a distribuição da Eucaristia a
pessoas que não crêem na real presença eucarística de Cristo.  Tais exageros, porém, não impedem que
legítimos aperfeiçoamentos se imponham periodicamente na vida pastoral da
Igreja.

O ensinamento dos Apóstolos:
critério último (…)

O quarto traço
característico da verdade da Igreja é a sua apostilicidade. Isto quer dizer que
o Depósito da Fé (que não se identifica com normas meramente disciplinares e
administrativas) deve ser encontrado tal qual, ao retrocedermos até os tempos
apostólicos.  A Igreja ensina que tudo o
que é necessário à salvação deve encontrar-se na Escritura e na Tradição, que
se encerra com a geração dos Apóstolos (Constituição Del Verbum nº 4 e 8), ou,
para fixar uma data …, com a morte do último sobrevivente dos Apóstolos, São
João Evangelista.

A apostolicidade da verdade
católica é um critério extremamente útil de ortodoxia, pois todo ensinamento
que contradiga ao que disseram os Apóstolos, deve ser, sem mais,
rejeitado.  Como já vimos, a verdade é
una.  Visto que a verdade proclamada
pelos Apóstolos é firme, tudo o que lhe seja contrário, há de ser excluído do
nosso ensinamento.

A autêntica interpretação da
Escritura

Talvez nem tudo o que os
Apóstolos ensinaram, tenha sido sempre perfeitamente claro, mesmo para os
Apóstolos.  Pois eles também, como todos
os justos, viviam da Fé (Rm 1,17).  Transmitiram
à Igreja, e portanto a nós, o que aprenderam de Cristo, o Enviado do Pai.  No decorrer dos séculos, deu-se um
desdobramento gradual desse ensinamento originário de Cristo (Constituição Del
Verbum nºs. 8 e 24). O Cardeal John Henry Newman chamava isso “o
desenvolvimento da doutrina”.  E a
doutrina católica, como era de se esperar, continua a se desenvolver, pois a
Verdade Eterna é inesgotável e oferece sempre novo alimento à contemplação
humana.

Todavia o desenvolvimento da
doutrina não constitui uma nova revelação; nada muda no significado essencial
da Palavra. Verifica-se apenas uma floração, um alargamento nas conseqüências,
uma compreensão mais ampla das aplicações, sempre em fidelidade à Palavra
originária.  Sendo assim, para julgarmos
a autenticidade de determinada doutrina, temos que poder relacioná-la com o
ensinamento dos Apóstolos.  Não queremos
dizer que se deva retroceder até a Escritura mesma.  Com efeito, “há muitas outras coisas que
Jesus fez e ensinou e que não estão escritas neste livro” (Jo 21,15).  Mas o direito de interpretar com autoridade o
ensinamento dos Apóstolos não  compete ao
simples cristão: “O encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus,
escrita ou oral, foi confiado exclusivamente ao Magistério vivo da Igreja”
(Constituição Del Verbum nº 10).

A consciência deve-se conformar
à Lei de Deus

Poderíamos perguntar aqui
como a consciência de cada cristão se deve comportar no tocante à fé; com
efeito, dizem-nos que devemos obedecer à nossa consciência.  Que acontece se a consciência nos dita uma
coisa e a Igreja nos ensina outra ?  Que
haveremos de escolher ?

Será preciso distinguir
entre o fato e a boa vontade.  Se um
motociclista é multado por um guarda de trânsito por haver violado um sinal
vermelho, poderá talvez responder com toda a sinceridade: “Eu não o tinha visto”.
Mas, embora esteja inocente diante de Deus como um cordeirinho, não é menos
verdade que ele infringiu o regulamento.

Semelhante situação ocorre a
propósito da lei moral.  Assim como o
motociclista tinha a obrigação de observar os sinais do trânsito, homens e mulheres
tèm o dever de se informar a respeito das normas de condutas promulgadas pela
Igreja.  Todos estão obrigados a formar e
educar a sua consciência conforme as normas cristãs.

Se alguém, homem ou mulher,
não está de acordo com a Igreja sobre determinado ponto, e deliberadamente
procede em sentido contrário, prestará contas no dia do juízo.  Quando o Soberano Juiz lhe perguntar: “Sabias
que a Igreja ensinava isto ou aquilo?”, terá essa pessoa a coragem de responder:
“Sim, Senhor, mas eu não estava de acordo”?1 
Se, porém, alguém viola a Lei de Deus em boa fé, carece de culpa.

A verdade é luz

[1]Caros irmãos e irmãs em
Cristo, como catequistas, vós e eu temos a obrigação de ensinar a verdade aos
jovens e a todos aqueles que vos pedem conselhos e regras de conduta na sua
luta para chegar à vida eterna.  A Igreja
nos envia não para que apregoemos nossas pessoas ou nossas opiniões próprias,
mas para pregarmos “Jesus Cristo”, e Jesus Cristo crucificado” (1 Cor 3,2).  Incumbe-nos o dever de ajudar nossos catecúmenos
a edificar sobre sólidos fundamentos a sua vida espiritual.  Os sólidos fundamentos não se constroem com
tijolos rachados, com cimento ralo e segundo linhas mal traçadas.  Ensinai a doutrina sólida, a verdade inteira,
nada mais do que a verdade, sem a misturar com o que agrade aos ouvidos, dos
homens (cf. 2Tm 4,3).  Pois a Palavra de
Deus é a Verdade mesma e os jovens que vos procuram Têm o direito, direito pago
pelo sangue de Cristo, de conhecê-Lo como Ele quer ser conhecido, como “a luz
que brilha nas trevas e que as trevas não podem obscurecer” (Jo, 1,5).

O texto do Cardeal Oddi,
claro como é, dispensa comentário.  A
quem deseja continuar a refletir sobre o tema, recomenda-se o livro “A Fé em
crise ? O Cardeal Ratzinger se interroga”. 
Editora Pedagógica e Universitária, Praça Com José Gaspar, 106,3º sblj.
Nº 15 – 01047 – São Paulo-SP; telefone (11) 259-9222.

[1] Talvez alguém indague com que autoridade a
Igreja promulga normas morais. A resposta é a seguinte: Cristo confiou à sua
Igreja o ministério de ensinar (cf. Mt 28, 18-20), de ligar e desligar ou impor
e dispensar (cf. Mt 16, 16-69; Mt 18,17s). São Paulo fala da “Igreja do Deus
Vivo, coluna e alicerce da Verdade” (1 Tm 3,15). A Igreja é o Cristo prolongado
(CI 1,24); o Espírito Santo lhe assiste para que apreenda e transmita toda a
Verdade (cf. Jo 14, 16s). Por isto toca à Igreja a função de esclarecer os
fieís a respeito do caminho que leva a Deus e à santidade – o que equivale a
traçar normas éticas. (Nota do tradutor).

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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