O Futuro da Fé: Crise da Catequese – Parte 1

Em síntese: As autoridades
da Igreja têm mostrado, ultimamente, especial solicitude pela íntegra e fiel
transmissão das verdades da fé na catequese. 
Por isso João Paulo II publicou a Exortação Apostólica “Catequese Hoje”
(1980), em eco ao Sínodo Mundial dos Bispos de 1977; o Cardeal Joseph
Ratzinger, DD. Prefeito da S. Congregação para a Doutrina da Fé, pronunciou
famosa conferência sobre o assunto em janeiro de 1983. Em julho do mesmo ano, o
Cardeal Silvio Oddi, Prefeito de S. Congregação para o Clero, proferiu alocução
sobre o mesmo tema no Catechetical Day de Virgínia (U.S.A.).  O texto desta palestra via, a seguir,
reproduzido em tradução portuguesa. Lembra o direito que toca aos catecúmenos
de todas as idades, de receber o íntegro depósito da Fé, sem truncamentos e
atenuações.  A verdade revelada por Deus
é sempre salvífica; ao catequista não é feito alterá-la a título nenhum, pois
isto seria trair o Senhor Jesus.

A fidelidade ao conteúdo das
verdades da fé exige também, da parte do catequista, uma didática adequada, de
modo que se possa adaptar ao grau de compreensão dos seus discípulos em
diversas fases de idade.

É notório que a autoridade
da Igreja se tem preocupado com a transmissão das verdades da fé ou a catequese
hoje. O S. Padre João Paulo II, rematando e enfeixando as observações do Sínodo
Mundial dos Bispos de 1977, publicou em 1980 a Exortação Apostólica Catechesi Tradendae
(Catequese hoje); considera aí os problemas do conteúdo e de forma do ensino
religioso em nossos tempos.

Aos 15-16/01/1981 o Cardeal
Joseph Ratzinger, Prefeito de S. Congregação para a Doutrina da Fé, proferiu em
Lyon e Paris famosa conferência sobre o assunto.  Apontava então, como uma das principais
falhas dos métodos modernos, o descuido de transmitir aos catecúmenos o
conhecimento do Credo, dos sacramentos e dos mandamentos.  Tal falha é conseqüência da supressão dos
manuais de catecismo que existiam outrora. Em vez de recorrer a tais compêndios
da fé, muitos mestres “tentaram reconstruir a doutrina da fé partindo
diretamente da Bíblia”, sem levar em conta a Tradição e o magistério da
Igreja.  A Escritura foi assim sujeita a
re-leitura ou re-interpretaações, que não rara tinham por critério decisivo a
experiência da comunidade ou a dos peritos; tal procedimento tem despojado a fé
do seu conteúdo ou da sua substância.

Eis que em 19/07/83 o
Cardeal Silvio Oddi, Prefeito da S. Congregação para o Clero, proferiu no
Catechetical Day do Estado de Virgíinia (U.S.A.) uma alocução, que faz eco à
Palavra do S. Padre e do Cardeal Prefeito da S. Congregação para a Doutrina da
Fé.  Dada a importância da temática,
apresentamos, a seguir, este texto em tradução portuguesa.  O original inglês encontra-se na revista
Divine Love, 2º trimestre de 1983; endereço: P. O. Box 24, Fresno, Ca 93707,
U.S.A.

O DIREITO À VERDADE INTEGRAL

O direito dos catecúmenos à
verdade

“A catequese é a arte de
levar à maturidade a fé dos que se aproximam, e de fazer destes, mediante a
educação, verdadeiros discípulos de Cristo (João Paulo II, “Catequese Hoje”, nº
19).  Com palavras precisas, catequese é
o modo de procedermos para tornar mais explícita nossa adesão pessoal a Jesus
Cristo (Jo 14,6) após o Batismo.

Nas terras de missão, quem
se esforça por aprofundar a sua fé de principiante, é frequentemente chamado
“catecúmeno”.  Mas aqueles que ainda não
foram batizados e ouvem pela primeira vez a explanação da doutrina da fé, são
também chamados “catecúmenos”.  Nas
dioceses mais antigas, falamos até de catequese de adultos e expressões
semelhantes.  Disto depreendemos que, no
uso popular, a palavra “catequese” serve para indicar a transmissão da Palavra
de Deus em quase todos os níveis, a quase todas as idades, a cristãos batizados
como também a aspirantes ao Batismo.  Em
sentido isto, somos todos … catecúmenos, em paralelo a uma dona de casa
coreana que ouça falar de Jesus pela primeira vez.

Por conseguinte, a palavra
“catequese” é, muitas vezes, tomada em sentido assaz amplo.  Se queremos abordar tal assunto com todas as
suas implicações ele se torna realmente muito vasto.  Eis por que resolvi restringir-me a um só
aspecto: o direito dos catecúmenos à verdade.

À primeira vista, esta
proposição parece clara por si mesma, como o lema que se acha impresso no dólar
norte-americano: “In God we trust” (Em Deus confiamos).  Todos os homens, e não apenas os
norte-americanos, devem pôr em Deus a sua confiança; e todos os homens, não
somente os catecúmenos , tem direito à verdade. 
Todavia é um fato – sabemo-lo bem – que nem todos colocam a sua
confiança em Deus; paralelamente nem em toda parte é respeitado o direito à
verdade.  Por conseguinte, no setor da
catequese é necessário examinar o direito, de todo homem, mulher, e criança, de
ouvir a verdade a respeito de Deus; como corolário deste direito, a Igreja tem
a obrigação de vigiar para que a Verdade de Deus seja fielmente transmitida.

O Catecismo

Os cristãos aprendem que as
quatro notas da Igreja são a unidade, a santidade, a catolicidade e a
apostilicidade.

Parece-me que as mesmas quatro
notas características, com as devidas adaptações também marcam a Verdade.  Desejo examinar cada uma delas, reservando
maior espaço à primeira, que é a unidade e a integridade da verdade, sinal
necessário da autenticidade da doutrina. 
Esta nota nos ajudará a esclarecer o que se entende por “legítimo
pluralismo”.

A Catequese Hoje

Muitos catecúmenos hoje em
dia são instruídos apenas a respeito de uma parte da doutrina da fé.  Em certos periódicos transparece verdadeira
antipatia para com os textos catequéticos que proclamam, sem rodeios, a
doutrina da fé. Talvez seja esta a razão pela qual os jovens negligenciam seus
deveres religiosos. As cartas que me chegam de certas regiões do mundo,
confirmam-me nesta opinião.  Está claro
que, se nós nos contentarmos com ensinar que os Apóstolos viram Jesus depois de
sua morte, sem mencionar os pormenores pitorescos do peixe comido em eles (Lc
14,42), o convite a Tomé para que pusesse a mão no lado aberto de Jesus (Jo
20,27), o encontro de Jesus com Maria Madalena, que a princípio não o
reconhecera, pois não imaginava revê-lo (Jo 20,14), … os catecúmenos são
privados do seu direito à verdade inteira.

A ressurreição corporal de
Jesus

Por que as coisas são
assim?  Porque deixamos os nossos
catequizados expostos ao fluxo de meias-verdades a propósito da ressurreição
corporal de Cristo.  Às vezes, querendo
evitar exageros na interpretação da Escritura, transmitimos uma visão deformada
do relato evangélico e privamos os nossos ouvintes da descrição completa da
ressurreição de Jesus.  Evidentemente, a
verdade completa é que os Apóstolos não foram vítimas de alucinação.  Realmente Jesus em corpo e alma saiu vivo do
sepulcro; muitos o viram, comeram com Ele; aqueles mesmos que a princípio
duvidaram, perguntando se era Ele realmente, foram convencidos.  A seguir, ele se elevou aos céus. Não houve
sombra de alucinação; trata-se da verdade exata (cf. At. 10, 40-43).

A verdade é o reconhecimento
da realidade objetiva

No fundo, que é a verdade ?
Esta é a questão proposta por Pilatos. 
Os filósofos no decorrer dos tempos enfrentaram o problema.  A verdade é a conformação do espírito à
realidade exterior.  Por conseguinte, a
verdade exige que nos submetamos a realidades que stão fora de nós mesmos; e
isto nos é difícil. Temos a tendência a decidir a respeito do que é verdade ou
erro apoiando-nos exclusivamente sobre nós mesmos, sem referência a qualquer
coisa ou pessoa fora de nós.  Somos
sempre os filhos de Adão, herdeiros da sua propensão a centrar tudo sobre si
mesmo.  Todavia a verdade não se
determina por opiniões pessoais; ela se apoia sobre a realidade objetiva.

De fato … O Papa João
Paulo II define a verdade como sendo “o reconhecimento da realidade”  (alocução à Universidade Católica da América,
Washington DC, 10/10/1979).

Somos chamados, em todas as
situações, a praticar essa submissão à verdade, principalmente, quando se trata
da verdade divina.  Muitas vezes, porém,
como Pilatos procuramos cinicamente furtar-nos a ela; ou mesmo, como Satanás,
nós nos colocamos em rebelião flagrante contra a verdade, movidos por um
orgulho disposto a não ceder nem diante do homem nem diante de Deus.  Certas verdades religiosas não são de fácil
aceitação ou porque é demasiado limitada para as apreender. Como quer que seja,
Deus quer que as aceitemos, e aceitemos na Fé.

As “palavras duras” (…) (Jo
6,60)

Lembramo-nos da tristeza com
que Jesus olhou os que dele se afastavam, quando Ele anunciara à multidão a
instituição da Eucaristia e a entrega do seu corpo como comida e do seu sangue
como bebida.  Os ouvintes julgaram as
suas palavras “duras” e se foram (Jo 6,60). 
Mas Pedro e os outros Apóstolos ficaram com Ele.  Assim devemos nós fazer.

A verdade revelada não é
algo a que a razão nos leve, mas ela nos vem pela fé.  Por conseguinte, a vontade deve mover a razão
a aceitar, não porque a inteligência tenha aprendido cabalmente o conceito, mas
porque Deus o revelou  e nós cremos em
Deus.  É preciso ensinar os jovens a
estudar a doutrina da Igreja com o olhar da Fé e ensinar-lhes o que Deus revelou.  É evidente que tais verdades são muito mais
importantes do que o que eles podem imaginar…

Transmitir o ensinamento da
Igreja, e não opiniões

Eis por que os catequistas
se devem preservar, com grande cuidado, de censurar a Palavra de Deus.  O Senhor nada nos ensinou que nos possa fazer
mal.  Todos aqueles que procuram entravar
a marcha do inocente para a verdade inteira, destroem na criança a razão mesma
da sua existência e põem-se em contradição com o objetivo da Encarnação, que é:
arrebatar o homem ao pai da mentira e apresentá-lo ao Pai da Verdade. Criando o
homem e a mulher à sua semelhança (Gn 1,26), Deus deu a todo ser humano o
direito à verdade, isto é, o direito de O conhecer como Ele é, não deformado
pelos homens que tentam rebaixar o Criador ao nível da criatura.

Um dever paralelo toca
naturalmente aos que têm o encargo de formar os jovens: estão obrigados a
respeitar o direito destes a ser instituídos na Verdade, em toda a Verdade, e
nada mais; para tanto, será preciso fazer clara distinção entre aquilo que a
Igreja ensina e as opiniões humanas.

O Papa atual lembrou
energicamente aos professores de Religião:

“Teólogos e exegeses têm o
dever de vigiar com grande solicitude, para que os fiéis não tomem por
proposições certas de fé o que pertence ao setor das opiniões ou dos objetos
discutidos entre os peritos … (Os catequistas) devem acautelar-se para não
perturbar a mente dos jovens introduzindo na catequese teorias estranhas,
questões inúteis e discussões estéreis, coisas que S. Paulo freqüentemente
reprovou em suas
Cartas Pastorais” (“Catequese Hoje” nº 61; cf. 1 Tm 6,22).

A sã pedagogia não se opõe
ao ensino dos mandamentos

Alguns professores de
Religião parecem hoje passar mais tempo dirigindo exercícios literários do que
ministrando aos seus alunos uma doutrina sólida.  Os bons mestres sabem utilizar a aula de modo
a não ocupar o tempo quase todo com motivações, deixando apenas poucos momentos
para a exposição da matéria programada. 
Acontece também às vezes que os programas são muito pobres de conteúdo.

Dizem, por exemplo: o SS.
Trindade é assunto a evitar, porque a criança não aprenderia.  O pecado também, porque a criança corre o
risco de adquirir um complexo de culpa; o Inferno igualmente, porque
traumatizaria a criança.  O divórcio, da
mesma forma, porque a criança conhece numerosas pessoas divorciadas na sua
família.

Sendo assim, tornam-se
necessárias imagens, filmes e discussões para ocupar o tempo que não é mais
consagrado a apresentar a Palavra de Deus. Todavia o espírito da criança, desde
que se abre, precisa de receber algo de substancial.  Nenhum catequista tem o direito de recusar à
criança o conhecimento dos pontos fundamentais da fé.  Não merece o seu salário o professor que não
seja capaz de falar aos seus alunos a respeito da queda, da Redenção, do
pecado, da graça, do juízo, do céu e do inferno, sem traumatizar os seus
discípulos.  Às vezes são
precipitadamente ensinadas às crianças coisas que eles deveriam ignorar na sua
idade; ao mesmo tempo, porém, é-lhes recusado o conhecimento de coisas que elas
precisam de saber em qualquer idade.

Pluralismo somente fora do
depósito da fé

O suave e muito estimado
Papa João Paulo I, que tão cedo nos foi arrebatado, dirigiu-se no último dia da
sua vida aos Bispos das Filipinas, dizendo-lhes enfaticamente: “Um dos mais
estritos direitos dos fiéis é o de receber a Palavra de Deus em toda a sua
pureza e inteireza” (28/9/1978).

No estudo da Teologia e da
Bíblia há certamente vários setores em que a verdade não aparece com clareza ao
espírito humano e a respeito dos quais a Igreja não se pronunciou.  Aí é aceitável um pluralismo de opiniões
entre os estudiosos.  Mas, mesmo em tais
casos, o pluralismo tem seus limites. Uma opinião não pode ser verídica se ela
contradiz a uma sentença certa.  Não se
pode dizer Não às verdades conhecidas, sob pretexto de descobrir o
desconhecido.  Se a negação do que a
Igreja tem por certo é necessária para apreender uma “verdade nova”, aonde
vamos parar ?  Por certo, em tais casos e
“verdade nova” é falsa.  Eis por que toda
sentença de Escritura ou do Magistério há de ser interpretada não isoladamente,
mas no contexto do depósito da fé.

Adaptar a educação sexual à
capacidade da criança

Passemos agora à segunda
característica da verdade: ela é santa. A verdade é santa porque Deus é verdade:
“Eu sou a Verdade”, disse Jesus (Jo 14,6). 
A verdade não ameaça a dignidade e a santificação do homem. Tudo o que
Deus fez e dispõe, tendo a santificar o homem, desde que este o utilize em
conformidade com as exigências da natureza e o ensinamento divino.  Nosso corpo, a natureza em geral, as
descobertas científicas, tudo isto é bom como tal.  Todavia o uso que fazemos de tais bens, será
aferido em função da seguinte pergunta: 
tal uso contribui ou não para a realização da finalidade para a qual
Deus criou o homem ?

A Igreja não tem medo da
verdade … de nenhuma verdade, porque Deus é a Verdade.  Ao mesmo tempo, porém, as circunstâncias nas
quais a verdade é transmitida aos jovens, devem ser seriamente levadas em
consideração pelo professor inteligente. 
A verdade é comparável, sob certos aspectos,  aos bons alimentos que devem ser ingeridos em
quantidade conveniente e temperados agradavelmente para que o homem tire
proveito.  Disseram-me, por exemplo, que
não devem ser dadas aos bebezinhos grandes fatias de filé “mignon”.  Do mesmo modo, se temos que explicar aos
jovens a sexualidade humana, precisamos de tomar muito cuidado para apresentar
a matéria gradativamente, levando em conta a sua capacidade de assimilação.

Respeito à santidade da
verdade

Sempre me surpreendi por ver
que a nossa geração, que se gloria de ter dado passos de gigante no setor da
psicologia humana, parece não compreender o que nossos antepassados sabiam
instintivamente, a saber: tudo o que concerne à reprodução humana, emociona
vivamente os jovens.

Eis por que o respeito ao
corpo humano, santuário do Espírito Santo, que vive nos homens e nas mulheres,
nos meninos e meninas santificadas pela graça divina, exige que se tenha grande
solicitude por adaptar às condições emotivas, intelectuais e fisiológicas dos
catequizandos os dados biológicos, sociais e teológicos relativos à reprodução
humana.  A reverência ao ser humano, o
respeito à santidade da verdade, a solicitude para com a modéstia instintiva e
protetora ditarão ao professor a maneira de se exprimir e de apresentar a
matéria.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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