O extermínio de inocentes na Bíblia

“Amar os inimigos, orar pelos que o perseguem” (Mt 5, 39,44)

A violência que aparece no AT está de acordo com o sentimento e a moral da época. Deus age conforme o nível e o entendimento do homem. Também não podemos tomar todos os relatos de violência ao pé da letra, algumas vezes é apenas figura de linguagem e não realidade. É ainda D. Estevão Bettencourt, no seu livro “Para entender o Antigo Testamento” (Ed. Lumen Chriti, RJ), quem nos ajuda a entender essas cenas de violência que nos assustam.

O extermínio dos inimigos (hérem, anátema) se baseava num grau de cultura pouco evoluída e também numa concepção religiosa estranha para nós hoje. Não se esqueça que Abraão foi tirado da Mesopotâmia pagã que acreditava que os astros eram deuses. Neste contexto, cada povo julgava que, na guerra a honra dos seus deuses estava em jogo; uma derrota militar representava vergonha e escárnio para os deuses da nação vencida, assim como a vitória significava triunfo da divindade.

Aqui na nossa América Central, os maias e astecas faziam milhares de sacrifícios humanos aos deuses, especialmente nas pirâmide do México. Os inimigos vencidos eram sacrificados aos milhares aos deuses porque eles acreditavam que o deus da tribo vencedora devia ser honrado com este sacrifício. Essa carnificina horrorosa só acabou quando os missionários católicos trouxeram o cristianismo para o México a partir de 1526.

Assim, os deuses dos povos vencedores julgavam que deviam ser religiosamente sacrificados e imolados, por um ato de extermínio total, os homens, as famílias, as cidades, os haveres, do povo vencido. O uso era tão comum que não somente os semitas, mas também os germanos faziam o mesmo . O escritor Tácito dizia que “Os vencedores devotaram a Marte e Mercúrio o acampamento inimigo, voto este, em virtude do qual são entregues ao extermínio cavalos, homens e tudo que pertence aos vencidos. ” (Annales, 13,57)

Portanto, esta prática era  muito comum na Antiguidade antes de Cristo; era o rosto mais duro do paganismo. Os gauleses, por exemplo, queimavam as presas ou as atiravam aos lagos. A Bíblia mostra outros exemplos disto (2Cr 32,14; Is 37,11; 2Rs 14,11).

Esta praxe era familiar aos antigos, normal para eles, e Deus respeitou isto nas suas relações com Israel, até poder mudar este costume devagar, de forma que o povo pudesse entender; foi mudando esta realidade, até que Jesus a modificou completamente no Sermão da Montanha. Mas foi necessário um processo; de outra forma o povo não entenderia a Revelação de Deus, e talvez o  rejeitasse por completo.

Para os hebreus o extermínio dos inimigos se tornava religiosamente necessário e imperioso: este povo e ele só, possuía a verdade da fé, para um dia transmiti-la ao mundo; portanto, era de sumo interesse na história sagrada que Israel não deixasse corromper a sua religião. Então, não havia outro jeito a não ser separar Israel do convívio dos outros povos pagãos, por causa da influência e prejuízo que isto causaria a fé de Israel.

Dentro da mentalidade do Antigo Testamento pode-se dizer que o reino das trevas (Satanás) triunfava sobre o reino da luz toda vez que o povo judeu era vencido por seus inimigos. Os inimigos de Israel eram tidos como inimigos de Javé (Num 10,35; Ex 17,16). O povo judeu achava que o próprio Deus exigia o hérem (Js 10,40).

Mas é bom notar que mesmo praticando o extermínio dos inimigos, Israel o fazia de maneira muito menos cruel do que os outros povos, como os assírios, moabitas, etc. Essas passagens mostram a maneira cruel dos pagãos tratar os vencidos (cf. Am 1,3; 2,3; 1,13; Os 14, 1; 2Rs 8,12; 2Rs 25,7; Na 3,10 ). Portanto, o hérem praticado por Israel era atenuado; e assim, Deus já dava a entender ao povo que era imperfeito (cf. Dt 20,10-18; Dt 21, 10-14; Jz 21,13; 2Sm 20,14-22; 2Sm 8,2; 1Rs 20,31).

É claro que houve excessos de crueldade por parte de alguns chefes judeus; e isto não estava de acordo com a vontade de Deus (1Sm 27,8-11; 1Cr 22, 8-10; 28,3). E Deus repreendeu o povo algumas vezes pela crueldade de alguns chefes israelitas e os punia (cf. Os 1, 4ss; 1Rs 9,2-10; 2Rs 10,1-17 ).

Um outro fator a explicar a violência da Bíblia é o fato de que os povos antigos por serem nômades, pastores, eram coletivistas e, não como hoje, individualistas. Não havia o “cada um para si” de hoje. Então, uma pessoa da comunidade que era ferida, atiçava a ira de toda a tribo, que reagia com violência, não apenas contra o agressor, mas contra a sua nação ou tribo.

Em tudo isto vemos a paciência de Deus na sua tarefa de educar o povo.

Às vezes encontramos no Antigo Testamento, especialmente nos Salmos, palavras onde o autor sagrado deseja o mal e até a morte aos inimigos.  São frases que, a principio nos assustam, ofendem a consciência do cristão. Algumas delas são paixão desregrada, e não são  propostas pelo Espírito Santo.

Muitas, porém, não são condenáveis; têm significado bom, até hoje válido. Para entendê-las, e preciso entender que os autores sagrados, ao colocar uma causa perante o Senhor, não o faziam a título pessoal, reivindicando direitos particulares, próprios, mas advogavam os interesses do bem, da justiça ou da verdadeira religião; sua causa se identificava com a de Deus, e os seus inimigos vinham a ser também os inimigos de Deus.

 Com esta mentalidade, e na defesa de Deus, costumavam pedir com rigor o castigo dos adversários. Não podia haver compatibilidade entre o bem e o mal, entre o reino de Deus e o do pecado; e o homem justo devia desejar completa ruína a toda instituição que se opunha a Deus.

Quanto aos termos com que as imprecações são formuladas, elas pertencem ao vocabulário oriental, dado às hipérboles e ênfase.  São muitas vezes tiradas diretamente da linguagem militar ou do direito de guerra de outrora.  É o que dá tanta crueldade  às frases imprecatórias.  Para entender a verdadeira intenção do autor sagrado, é preciso descontar o que essas fórmulas tem de hiperbólico e convencional.

Ao ler a Bíblia devemos ver nas imprecações a expressão do desejo de que a justiça seja feita, os abusos coibidos; entendendo-as como dirigidas contra os males e o Mal, não contra os maus;  mas contra o pecado e contra o reino das trevas.

O cristão tem por lei “amar os inimigos, orar pelos que o perseguem” (Mt 5, 39,44). No entanto, sem desprezar o amor aos homens, ele deve, como Jesus, odiar ao pecado e o reino de Satanás; deve desejar sua extirpação completa. É isto mesmo que deseja o salmista; então, ao rezar os Salmos imprecatórios, tenha em vista os vícios e as instituições inimigas do reino de Cristo, todas as instituições e seitas que se esforçam por disseminar o erro e o pecado no mundo.  É contra isto que devemos proferir os Salmos imprecatórios.

Prof. Felipe Aquino

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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