O Exército da Salvação: O que é? EB (Parte 1)

Em síntese:  O Exército da Salvação foi fundado em 1878 por William Booth e sua esposa Catarina. Constitui um reavivamento do
Metodismo, que, por sua vez, é um “revival” do Anglicanismo. O Exército não pretende ser Igreja nem seita, mas, sim, uma corporação, que copia a organização e adota a nomenclatura do exército inglês; as mulheres predominam entre os oficiais dessa milícia. Os salutistas intencionam converter os homens a Cristo pregando o Evangelho e dando o testemunho da sua própria conversão. Todavia sabem que é difícil anunciar o Evangelho a quem esteja “com os pés molhadas”; por isto empenha-se pela assistência social, que se exprime na fórmula “Sopa, sabão, salvação”. O Credo do Exército consta de onze artigos inspirados pela teologia protestante; não tem igrejas, mas salas de reuniões ou pregações ao ar livre; não reconhece os sacramentos, nem mesmo o Batismo.

Em suma, o Exército da Salvação é caracterizado por forte nota subjetivista, que muito o distancia da índole objetiva da autêntica obra de Cristo.

Comentário:

De vez em quando, veem-se nas ruas das grandes cidades fardadas que, em nome do “Exército da Salvação”, angariam fundos para atender ou ao Natal dos pobres ou, em geral às necessidades dos irmãos indigentes. O nome da organização a quem pertencem, merece consideração: trata-se de uma denominação protestante oriunda no séc. XIX com as características de um “revival” ou reavivamento (= despertar da fé e do zelo religiosos após um período de declínio).

Veremos, abaixo, algo da biografia e da personalidade de William Booth, fundador do Movimento; a seguir, analisaremos algumas das características do Exército da Salvação – o que nos levará a uma conclusão.

1. William Booth: vida e personalidade

William Booth nasceu em Nottingham (Inglaterra) aos 10 de abril de 1829. Foi, um dos dois dias depois, batizado na Igreja Anglicana. Teve infância pobre. Aos doze anos de idade, começou a trabalhar como aprendiz numa banca de empréstimos sob penhora em Nottingham. Nos sete anos subsequentes, exercendo o seu mister, conheceu a miséria do subproletariado; isto lhe incutiu horror por tal trabalho e o desejo de se aplicar totalmente à reabilitação espiritual e material dos menos favorecidos.

Aos quinze anos de idade, William experimentou a sua “conversão religiosa” e resolveu tornar-se pregador metodista ¹ – o que bem correspondia ao ardor do seu temperamento. Embora fosse de condição humilde, William pregava nas ruas, impressionando vivamente a todos pela sua fé e o seu ardor.

Em 1849, com vinte anos de idade, deixou Nottingham com destino a Londres, levando apenas umas poucas moedas no bolso. Na capital continuou a trabalhar em banca  de penhora, pois este era o ramo em que mais perícia tinha. Dedicava todo o seu tempo livre à pregação. Aderiu a uma organização chamada “Nova Liga Metodista” e iniciou um curso de pregação para ser pastor metodista. Em 1855, casou-se com uma de suas ouvintes – Catarina Munford -, a qual também era grande oradora. Ambos se entregavam totalmente a campanhas revivalistas que eram anunciadas por cartazes como o seguinte:

O SR. E A SRA. BOOTH EM WALSALL

“Um comício campal monstro terá lugar num campo perto de Halberton Lake no sábado 28 de junho. Serão feitos discursos pelos Revs. William Booth, Thomas Whitehouse e muitos ministros da vizinhança e também por convertidos pugilistas, cavaleiros, caçadores e outros, vindos de Birmingham, Liverpool e Nottingham.

A Sra Booth pregará na capela de Whetemers Street às 6 horas da tarde.

Os serviços começarão às 9 horas da manhã”

Em 1858, William Booth foi ordenado Ministro metodista na Nova Liga. Todavia, já que esta queria fixá-lo em uma paróquia, Booth e sua esposa deixaram a Liga, e puseram-se a pregar em diversos lugares para onde eram chamados, independentemente de qualquer estrutura de Igreja. Assim esboçou-se um novo reavivamento sob a direção do casal; este, porém, teve que enfrentar um problema sério e imprevisto: os convertidos pela palavra de Booth recusavam-se a ingressar em alguma das comunidades eclesiásticas já existentes. Em consequência, o casal viu-se obrigado a criar a sua própria organização religiosa, à qual deram o nome de “Missão cristã”; tinha características metodistas, ficando William Booth como “Superintendente Geral” – título que em breve cederia ao de General. Em 1878, a “Missão Cristã” tomou o nome de “Exército da Salvação” (Salvation Army); tinha por fim levar “o Sangue de Cristo e o Fogo do Espírito Santo a todas as partes do mundo”. Trazia uma bandeira azul (símbolo da santidade) e vermelha (símbolo do Sangue de Cristo) com uma estrela de ouro (imagem do Espírito Santo). A divisa do Exército era “Sangue e Fogo”. Os discípulos de Booth eram buliçosos, não hesitando em promover manifestações nas ruas, que suscitavam reações violentas e rixas. Os moleques interrompiam as reuniões, assaltando brutalmente os membros (homens e mulheres) do “Exército”; os próprios “soldados” do General Booth eram detidos pela polícia e multados ou presos como perturbadores da paz. Todavia aos poucos os salvacionistas foram conquistando a simpatia de todos, até mesmo das autoridades públicas; obtiveram o patrocínio do Príncipe de Gales, mais tarde rei Eduardo VII, para cujo coroação o General Booth foi oficialmente convidado.

A tática do Exército consistia em realizar reuniões ao ar livre, com tamborins e trombetas, para atrair muita gente; os temas religiosos deviam ser enquadrados dentro das melodias de cantos populares; a pregação era informal, baseando-se muitas vezes em testemunhos de convertidos; estes, narrando o que haviam sido e o que se tinham tornado, deviam encorajar os pecadores a mudar de vida. Os salvacionistas também procuravam colóquios pessoais mediante visitas às prisões, aos teatros, às fábricas e a outros lugares pouco frequentados por arautos do Evangelho.

A princípio, Booth só pensava na salvação das almas. Todavia em breve percebeu que “é difícil salvar um homem que tenha os pés molhados” (W. Booth), ou seja, um homem mal nutrido, mal vestido, mal alojado. Por conseguinte, William Booth resolveu dar como fundamento à sua pregação a trilogia “Sopa, Sabão e Salvação”. Em colaboração com W. T. Stead, escreveu o livro “In Darkest England and the Way Out”; era uma sincera exposição dos males sociais existentes na Inglaterra; a esses ele propunha dez tentativas de remédio: 1) colônias-cidades; 2) colônias-fazendas na Inglaterra; 3) Colônias ultramarinas no Canadá, na Austrália, na África do Sul; 4) Brigadas de Salvamento domésticas; 5) Reformatórios para mulheres decaídas; 6) Campanhas para a Recuperação dos Alcoólicos; 7) Brigadas para as Prisões; 8) Banco dos Pobres; 9) Advogado dos Pobres; 10) Casa de Convalescença, chamada “White-Chapel-by-the-Sea”.

A fim de executar seus planos, apelou para o público no intuito de obter um milhão de libras; sem grande demora, conseguiu mais de 100.000 libras, com as quais deu início à sua obra. Acusado de fraude, aceitou um controle público de suas contas, sendo finalmente declarado isento de qualquer suspeita pela comissão fiscal. O respeito então substituiu a crítica em relação ao Exército da Salvação. Hoje em dia este mantém ampla rede de obras assistenciais (berçários, asilos, orfanatos, pensionatos…), de tal modo que muitas pessoas consideram o Exército, antes do mais, como organização humanitária; todavia tal não é o modo de pensar de Booth e de seus discípulos; para estes, o Exército da Salvação é uma corporação evangélica, que tende a converter os homens para Cristo (segundo
as principais linhas do Credo protestante) e que exprime sua fé e seu amor cristãos em obras humanitárias e sociais.

Finalmente, aos 83 anos de idade, faleceu William Booth em 1912; o Exército da Salvação já estava então amplamente difundido e contava com alguns milhares de oficiais e soldados.

William Booth foi certamente um homem de profundas convicções religiosas; estava persuadido de que até a escória da humanidade pode ser recuperada para Cristo caso se lhe prestem benevolência e compreensão; movido por tais ideias, trabalhou ardorosamente até o fim dos seus dias. Soube ser desinteressado de si e sincero; embora lutasse com pouca saúde, exiguidade de recursos financeiros e numerosos adversários,  perseverou tenazmente, sem titubeio.

Herdeiro da mentalidade protestante, era assaz individualista. Desde o início da sua missão, julgou que não poderia trabalhar sob as ordens e diretrizes de outros. Por isto foi-se separando de qualquer comunidade religiosa (anglicana e metodista) e criou a sua própria organização, dentro da qual exercia autoridade absoluta; não suportava oposição dentro do Exército. Em 1878, determinou que cada General deveria, em vida, indicar sigilosamente o nome do seu sucessor, nome que seria divulgado logo após a morte do General.

Todavia em 1878 no “Ato de Fundação” William Booth, tendo em vista o mínimo de crenças características de seus adeptos, formulou-se em onze artigos, que são a expressão do Credo salvacionista.

1) A Bíblia é a Palavra de Deus inspirada e a única regra de fé divinamente dada.

2) Há um só Deus, Criador de todas as coisas.

3) Há três Pessoas iguais na indivisa Divindade.

4) Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.

5) Pela queda dos nossos primeiros pais, todos os homens se tornaram pecadores totalmente depravados e justamente expostos à ira de Deus.

6) Pelos seus padecimentos e morte, Jesus Cristo expiou por todos, de modo que todo aquele que o quiser pode ser salvo.

7) A salvação se dá pelo arrependimento, pela fé em Cristo e pela regeneração operada pelo Espírito Santo.

8) A justificação se faz pela graça mediante a fé em Cristo, tendo aquele que crê o testemunho dela em si mesmo.

9) A continuação no estado de salvação depende da contínua fé obediente em Cristo.

10) É privilégio de todos os crentes, o “serem totalmente santificados”, isto é, o terem as suas más inclinações tão completamente apagadas pelo Espírito de Deus que não cometerão pecados atuais de qualquer espécie.

11) A imortalidade da alma, a ressurreição do corpo, o juízo final no fim do mundo, com eterna felicidade para os justos e castigo sem fim para os maus devem ser inequivocamente professados.

Estes onze artigos de fé básicos são impostos como condição impreterível pelo Exército da Salvação a quem quer que deseje tornar-se seu membro. O primeiro desses artigos refere a doutrina protestante de que “só a Bíblia é suficiente fonte de fé”. O artigo quinto professa a doutrina calvinista da “depravação total” da natureza humana como consequência do pecado original. O artigo sétimo silencia os sacramentos (nem o Batismo é ministrado no Exército da Salvação). O artigo oitavo professa a fé como princípio de justificação, sem mencionar as boas obras (o que é consoante o Protestantismo). Em síntese, as doutrinas fundamentais da Reforma figuram no Credo salvacionista.

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
Autor: Estevão Bettencourt, Osb
Nº 196, Ano 1976, p. 164

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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