O Espírito Santo no Novo Testamento

L’OSSERVATORE ROMANO 16
(288) Nº 21 – 23/05/98

1. A revelação do Espírito Santo, como pessoa distinta do Pai e
do Filho, velada no Antigo Testamento, torna-se clara e explícita no Novo.

É verdade que os escritos
neotestamentários não nos oferecem um ensinamento sistemático sobre o Espírito
Santo.  Contudo, recolhendo os muitos
dados presentes nos escritos de Lucas, Paulo e João, é possível captar a convergência
destes três grandes filões da revelação neotestamentária concernente ao
Espírito Santo.

2.  Em relação aos outros dois sinópticos, o evangelista Lucas
apresenta-nos uma pneumatologia muito mais desenvolvida.

No Evangelho ele tem em
vista mostrar que Jesus é o único a possuir o Espírito Santo em plenitude. Certamente,
o Espírito intervém também em Isabel, Zacarias, João Baptista e sobretudo em
Maria, mas só Jesus, ao longo de toda a Sua existência terrena, detém
plenamente o Espírito de Deus. Ele é concebido por obra do Espírito Santo (cf.
Lc 1, 35).  A respeito d’Ele João
Baptista dirá: ” Eu batizo-vos em água, mas vai chegar Quem é mais poderoso do
que eu (…): Batizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3,16).

Antes de batizar no Espírito
Santo e no fogo, Jesus mesmo é batizado no Jordão, quando desce “sobre Ele o
Espírito Santo em forma corpórea, como uma pomba” (Lc 3,22). Lucas sublinha que
Jesus não só vai ao deserto “levado pelo Espírito Santo”, mas Se dirige para
ali “cheio do Espírito Santo” (ibid., 4, 1), e ali vence o tentador.  Ele empreende a Sua missão, Jesus aplica a Si
mesmo a profecia do livro de Isaías (cf. 61, 1-2): “O Espírito do Senhor está
sobre Mim, porque Me ungiu, para anunciar a Boa Nova aos pobres…” (Lc 4,18).  Toda a atividade evangelizadora de Jesus é
posta assim sob a ação do Espírito.

 Este mesmo Espírito sustentará a missão evangelizadora da
Igreja, segundo a promessa do Ressuscitado aos Seus discípulos: “Eu vou mandar
sobre vós O que Meu Pai prometeu. 
Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com a força lá do
Alto” (Lc 24,49).  Segundo o livro dos
Atos, a promessa cumpre-se no dia do Pentecostes: “Todos ficaram cheios do
Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes
inspirava que se exprimissem” (2,4). 
Realiza-se assim a profecia de Joel: “Nos últimos dias, diz o Senhor,
derramarei o Meu Espírito sobre toda a criatura.  Os vossos filhos e as vossas filhas
hão-de-profetizar” (ibid. 2, 17).  Lucas
vê nos apóstolos os representantes do povo de Deus dos tempos finais, e
ressalta com razão que este Espírito de profecia envolve o inteiro povo de
Deus.

3. São Paulo, por sua vez, evidencia a dimensão renovadora e
escatológica da obra do Espírito, que é visto como a fonte da vida nova e
eterna comunicada por Jesus à sua Igreja.

Na Primeira Carta aos
Coríntios lemos que Cristo, novo Adão, em virtude da ressurreição, Se tornou
“Espírito vivificante”  (15,45): isto é,
foi transformado pela força vital do Espírito de Deus de maneira que Se tornou,
por Sua vez, princípio de vida nova para os crentes. Cristo comunica esta vida
precisamente através da efusão do Espírito Santo.

A existência dos crentes já
não é a de escravos, sob a Lei, mas uma vida como filhos, pois receberam o
Espírito do Filho nos seus corações e podem exclamar:  Abbá, Pai! (cf. Gl 4,5-7; Rm 8, 14-16).  E uma vida “em Cristo”, isto é, de pertença
exclusiva a Ele e de incorporação à Igreja: “Foi num só Espírito que todos nós
fomos batizados, a fim de formarmos um só corpo” (1 Cor 12, 13).  O Espírito Santo suscita a fé (cf. 1 Cor
12,3), derrama a caridade nos corações (cf. Rm 5,5) e guia a oração dos
cristãos (cf. Rm 8,26).

Enquanto princípio de um novo ser, o Espírito Santo
determina no crente também um novo dinamismo operativo: “Se vivemos pelo Espírito,
caminhemos também segundo o Espírito” (Gl 5,25). Esta nova vida está
contraposta à da “carne”, cujos desejos desgostam a Deus e fecham a pessoa na
prisão sufocante do eu que se dobra sobre em si mesmo (cf. Rm 8, 5-9).  Abrindo-se, ao contrário, ao amor doado pelo
Espírito Santo, o cristão pode saborear o fruto do Espírito: amor, alegria,
paz, paciência, benevolência, bondade, fidelidade … (cf. Gl 5, 16-24).

Segundo Paulo, contudo, aquilo que agora possuímos é só
um “sinal” ou primícias do Espírito (cf. Rm 8, 23; cf. também 2 Cor 5,5).  Na ressurreição final, o Espírito completará
a Sua obra-prima, realizando para os crentes 
plena “espiritualização” do seu corpo (cf. Cor 15, 43-44) e envolvendo
de algum modo na salvação o universo inteiro (cf. Rm 8, 20-22).

4. Na perspectiva joanina o Espírito Santo é sobretudo o Espírito
da verdade, o Paráclito.

Jesus anuncia o Dom do
Espírito no momento de concluir a Sua obra terrena: “Quando vier o Consolador,
que vo-hei-de enviar da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do
Pai, Ele testificará de Mim.  E vós
também darei testemunho, pois estivestes Comigo desde o princípio” (Jo 15,26
s).  E ao esclarecer ulteriormente o papel
do Espírito, Jesus acrescenta: “Ele guiar-vos-á para a verdade total, porque
não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e anunciar-vos-á o
que há-de-vir. Ele glorificar-Me-á, porque há-de receber do que é Meu, para
vo-lo anunciar” (Jo 16, 13-14).  O
Espírito, portanto, não trará uma nova revelação, mas guiará os fiéis para uma
interiorização e uma mais profunda penetração da verdade revelada por Jesus.

Em que sentido o Espírito da
verdade é chamado Paráclito? Tendo presente a perspectiva joanina que vê o
processo contra Jesus como um processo que continua nos discípulos perseguidos
por causa do Seu nome, o Paráclito é Aquele que defende a causa de Jesus,
convencendo o mundo “do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16,7s). O pecado
fundamental que o Paráclito fará reconhecer é o de não se Ter acreditado em Cristo. A justiça que
Ele indica é aquele que o Pai prestou ao Filho crucificado, glorificando-O com
a ressurreição e ascensão ao Céu.  O
juízo, neste contexto, consiste em fazer emergir a culpa de quantos, dominados
por Satanás, principe deste mundo (cf. Jo 16,11), rejeitaram Cristo (cf. Dominum
et vivificantem, 27). O Espírito Santo é, pois, com a Sua assistência interior,
o defensor e o patrocinador da causa de Cristo, Aquele que orienta as mentes e
os corações dos discípulos para a plena adesão à “verdade” de Jesus.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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