O Espírito Santo no Antigo Testamento

L’OSSEERVATORE ROMANO Nº 20
(272) 16.05.98

 Na preparação para o Grande
Jubileu do Ano 2000, o corrente ano é dedicado de modo particular ao Espírito
Santo. Procedendo no caminho iniciado para a Igreja inteira, depois de ter
concluído a temática cristológica, hoje começamos uma reflexão sistemática
sobre Aquele “que é Senhor e dá a vida”. 
Em múltiplas ocasiões falei amplamente a respeito da terceira pessoa da
Santíssima Trindade. Recordo, em particular, a Encíclica “Dominum et
vivificantem” e a catequese sobre o Credo. 
A perspectiva do iminente Jubileu oferece-me a ocasião para voltar de
novo à contemplação do Espírito Santo, a fim de perscrutar com espírito
adorante a ação que Ele realizar no fluxo do tempo e da história.

2. Na realidade esta contemplação não seria fácil, se o próprio
Espírito não viesse em ajuda da nossa debilidade (cf. Rm 8,26). Como discernir,
com efeito, a presença do Espírito de Deus na história ? Só podemos dar uma
resposta a esta pergunta recorrendo às Sagradas Escrituras que, inspiradas pelo
Paráclito, nos revelam progressivamente a Sua ação e a Sua identidade. Elas
manifestam-nos, de certo modo, a “linguagem” 
do Espírito, o Seu “estilo”, a Sua “lógica” .  A realidade em que Ele atua, é possível
lê-la também com olhos que penetram para além duma simples observação exterior,
captando atrás das coisas e dos eventos os traços da Sua presença.  A própria Escritura, desde o Antigo
Testamento, ajuda-nos a compreender que nada de quanto é bom, verdadeiro e
santo no mundo, se pode explicar independentemente do Espírito de Deus.

3. Uma primeira velada referência ao Espírito encontra-se desde
as primeiras linhas da Bíblia, no hino a Deus criador com que se abre o livro
do Gênesis: “O Espírito de Deus movia-Se sobre a superfície das águas” (Gn
1,2).  Para dizer “espírito”  usa-se aqui a palavra hebraica ruach que
significa “sopro”  e pode designar tanto
o vento como o respiro.  Como se sabe,
este texto pertence à chamada “fonte sacerdotal”  que remonta ao período do exílio babilônico
(VI séc. a . C.), quando a fé de Israel tinha chegado explicitamente à
concepção monoteísta de Deus.  Ao tomar
consciência do poder criador do único Deus, graças à luz da revelação, Israel
chegou a intuir que Deus criou o universo com a força da Sua palavra.  Unido a esta, emerge o papel do Espírito,
cuja percepção é favorecida pela mesma analogia da linguagem que, por
associação, vincula a palavra ao sopro dos lábios: “Pela palavra do Senhor
foram feitos os céus, pelo sopro (ruach) da Sua boca, todos os seus exércitos”
(Sl 33,6).  Este sopro vital e
vivificante de Deus não está limitado ao instante inicial da criação, mas
sustém em permanência e vivifica toda a criação, renovando-a continuamente: “Se
lhes enviais o Vosso espírito, voltam à vida, e renovais a face da terra” (Sl
104,30).

 

 

4.         A novidade mais característica da revelação bíblica é ter
divisado na história o campo privilegiado da ação do Espírito de Deus. Em cerca
de 100 passagens do Antigo Testamento o ruach JHWH indica a ação do Espírito do
Senhor que guia o Seu povo, sobretudo nos grandes momentos do seu caminho.  Assim, no período dos juízes, Deus fazia
descer o seu Espírito sobre homens débeis e transformava-os em guias carismáticos,
investidos de energia divina: é o que aconteceu com Jedeão, Jefte e em
particular com Sansão (cf. Jz 6,34; 11, 29; 13, 25; 14.6.19).

Com o advento da monarquia
davídica esta força divina, que até então se manifestara de modo imprevisível e
intermitente, alcança uma certa estabilidade. 
Isto é bem constatado na consagração régia de David, a propósito do qual
a Escritura diz: “A partir daquele dia o Espírito do Senhor apoderou-Se de
David”  (1 Sm 16,13).

Durante e depois do exílio
na Babilônia toda a história de Israel é relida como um longo diálogo
estabelecido por Deus com o povo eleito, “pelo Seu Espírito, pelo ministério
dos profetas do passado” (Zc 7,12).  O
profeta Ezequiel torna explícito o ligame entre o espírito e a profecia, por
exemplo quando diz: “Então desceu sobre mim o espírito de Deus e disse-me:
“Diz: Assim fala Deus…”. (Ez 11,5).

Mas a perspectiva profética
aponta sobretudo no futuro o tempo privilegiado em que se cumprirão as
promessas no sinal do ruach  divino.  Isaías anuncia o nascimento de um
descendente, sobre o qual “repousará o espírito … de sabedoria e de
entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de
temor do Senhor” (Is 11,2-3).  “Este
texto – como escrevi na Encíclica Dominum et vivificantem – é importante para
toda a pneumatologia do Antigo Testamento, porque constitui como que uma ponte
entre o antigo conceito bíblico do espírito, entendido primeiro que tudo como
“sopro carismático”, e o “Espírito” como pessoa e como Dom, Dom para a pessoa.  O Messias da estirpe de David (“do tronco de
Jessé”) é precisamente essa pessoa, sobre a qual “pousará”  o Espírito do Senhor” (n. 15).

5.  Já no Antigo Testamento emergem dois traços da misteriosa
identidade do Espírito Santo, depois amplamente confirmados pela revelação do
Novo Testamento.

O primeiro traço é a
absoluta transcendência do Espírito, que por isso chamado “santo” (Is 63,
10.11; Sl 51,13).  Para todos os efeitos
o Espírito de Deus é “divino”.  Não é uma
realidade que o homem pode conquistar com as suas forças, mas um Dom que vem do
alto: só se pode invocá-lo e acolhê-lo. 
Infinitamente “outro” a respeito do homem, o Espírito é comunicado com
total gratuidade a quantos são chamados a colaborar com Ele na história da
salvação. E quando esta energia divina encontra um acolhimento humilde e
disponível, o homem é arrancado do seu egoísmo e libertado dos seus temores, e
no mundo florescem o amor e a verdade,  a
liberdade e a paz.

Outra característica do
Espírito de Deus é o poder dinâmico que Ele revela nas Suas intervenções na
história.  Às vezes corre-se o perigo de
projetar sobre a imagem bíblica do Espírito concepções ligadas a outras
culturas como, por exemplo, a concepção do “espírito” como algo evanescente,
estático e inerte.  A concepção bíblica
do ruach está, ao contrário, a indicar uma energia supremamente ativa,
poderosa, irresistível:  o Espírito do
Senhor – lemos em Isaías – “é torrente transbordante” (30,28).  Por isso, quando o Pai intervém com o seu
Espírito, o caos transforma-se em cosmo, no mundo acende-se a vida, e a história
põe-se novamente em caminho.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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