O Espiritismo

Examinemos a origem, a história e alguns dos fenômenos portentosos do espiritismo.

1. Origem e história

Em 1948, na cidade de Hydesville (Nova Iorque), EUA, surgiu o primeiro núcleo do espiritismo moderno. Certa noite, o pastor protestante John Fox, sua esposa e as duas filhas, Margarida e Catarina, estavam a conversar sobre estranhos fenômenos de assombração. Catarina, então, produziu estalos com os dedos; notaram todos que alguém os repetia. Por sua vez, Margarida produziu estalos e encontrou eco. Apavorada, a Sra. Fox perguntou: “É homem ou mulher que está batendo?”, mas não obteve resposta. Insistiu então: “É espírito? Se é espírito bata duas vezes”. Produziram-se duas breves pancadas. Conclui assim, que um espírito “desencarnado” estava em comunicação com a família.

Segundo se diz, os próprios espíritos indicaram às irmãs Fox, em 1850, nova forma de comunicação: que os interessados se colocassem em torno de uma mesa, em cima da qual poriam as mãos; às interrogações que fizessem aos espíritos, a mesa responderia com golpes e movimentos indicadores de letras do alfabeto e de palavras.

As duas irmãs Fox, tidas como “médiuns”, confessaram posteriormente que recorreram a truques e fraudes para produzir as pancadas que a mãe, muito crédula, atribuiu a um espírito do além. O texto dessas confissões e retratações de Margaret e Kate Fox foi publicado pela imprensa norte-americana – no New York Herald de 27/5/1888 e 10/9/1888, assim como no The World 22/10/1888. Acha-se tal texto reproduzido em fac-símile inglês e em tradução portuguesa no livro de frei Boaventura Kloppenburg, O Espiritismo no Brasil, Ed. Vozes, págs. 426-447.

Apesar das fraudes ocorridas em sua origem, as novas práticas se espa­lharam pelos Estados Unidos, Canadá e México; atravessaram o Atlântico, chegando à Escócia e à Inglaterra. Em 1854, na França, Léon-Hippolyte-Denizart-Rivail (Allan Kardec) codificou a doutrina espírita em diversas obras muito divulgadas no Brasil. Vejamos algo da doutrina espírita.

2. linhas doutrinárias

O espiritismo kardecista costuma professar os seguintes pontos:

1) O homem se compõe de alma ou espírito, dotado de inteligência, vontade e consciência moral. A alma se acha encarnada num corpo, que vem a ser “o alambique no qual o espírito tem que entrar para se purificar”. Existe também o perispírito, envoltório fluido, leve, imponderável, que serve de intermediário entre o espírito e o corpo.

As almas foram todas criadas simples e ignorantes, em igualdade de condições. Enveredaram, porém, pelos diversos caminhos do bem e do mal, em virtude da sua liberdade de arbítrio. Devem, mediante sucessivas encarnações, purificar-se dos pecados e das paixões imoderadas a fim de atingir a perfeição – o que, por certo, necessita de muito tempo. A lei do Karma, segundo a qual cada um, na encarnação seguinte, paga os desvios da vida anterior, rege as reencarnações do espírito.

2) Jesus Cristo não passa de um espírito muito evoluído através das suas sucessivas reencarnações. Deus enviou o espírito de Jesus à terra não propri­amente para que se purificasse, mas para que ensinasse aos homens deste planeta pouco evoluído o caminho do bem e do amor, na qualidade de Divino Missionário. Jesus foi o maior dos enviados de Deus, e somente nesse sentido pode ser dito Deus. Jesus se tornou, assim, “o governador espiritual deste planeta”.

Essa maneira de conceituar Jesus Cristo bem mostra que o espiritismo não pode ser fundido com o cristianismo, pois, para os cristãos, é essencial professar que Jesus é Deus feito homem. A encarnação de Deus Filho nada tem a ver com a reencarnação espírita.

3) A salvação decorre não da graça de Deus, mas do esforço pessoal de cada indivíduo que procure se purificar do “pecado original”, ou seja, dos pecados cometidos em encarnações anteriores. Uma vez livre das reencarnações, o espírito do indivíduo deve gozar de felicidade no Reino dos Céus. Os espíritas rejeitam peremptoriamente o conceito bíblico de inferno, porque simplesmente este nunca lhes foi retamente apresentado.

Como se vê, não pode haver espiritismo cristão.

3. Fenômenos mediúnicos

O que muito atrai ao espiritismo são os fenômenos extraordinários, ditos “mediúnicos” Examinemos dois deles.

1) Adivinhação do pensamento – Há pessoas que adivinham o pensamento dos outros. Tem-se, então, a impressão de que são iluminadas por algum espírito do além. A verdade, porém, é outra.

Está averiguado, por experiências múltiplas, que todo ato psíquico pro­duz um reflexo fisiológico, e esse reflexo se irradia por todo o corpo do sujeito e cada uma de suas partes; tal é a lei do Bain, autor das respectivas experiências.

Isso quer dizer que quando alguém pensa ou concebe ideias ou quando é afetado por algum sentimento, ocorrem na constituição corpórea deste sujeito movimentos e sinais muito tênues, que uma pessoa sensitiva é capaz de perceber; interpretando tais sinais, tal pessoa poderá dizer as ideias ou sentimentos que o sujeito concebeu. Essa super sensibilidade é chamada “hiperestesia indireta do pensamento” (HIP), que pode ser acentuada pelo delírio ou pelo transe do “adivinhador”; ela só se exerce na presença física da pessoa cujos pensamentos são captados.

Em consequência desse fenômeno, pode acontecer que alguém respon­da a uma pergunta latente no íntimo de outra pessoa, antes que esta abra a boca para interrogar. A HIP do pensamento é facilitada no caso de pessoas que estejam acostumadas a conviver entre si. Conta-se, mesmo, a seguinte ocorrência: imaginemos que alguém esconda determinado objeto numa sala. Essa pessoa, depois, coloca-se dentro de uma caixa de papelão, de modo que apenas os pés apareçam. Ora, há “sensitivos” que conseguem encontrar o objeto escondido somente pelo fato de observar atentamente os movimentos involuntários e mínimos dos pés deixados de fora.

Essas observações bem mostram que a adivinhação do pensamento alheio pode ocorrer sem intervenção de espíritos do além.

2) Curas maravilhosas – No tocante às curas “maravilhosas”, deve-se fazer uma distinção entre doenças funcionais e doenças orgânicas.

As doenças funcionais são aquelas que dependem de um trauma ou bloqueio psíquico (asma, úlcera estomacal, gagueira ), o qual impede o bom funcionamento do organismo. Elas são curáveis desde que intervenha um desbloqueio ou algo que dissipe o trauma ou sugestão negativa que domina o paciente. Tal desbloqueio ocorre, não raro, quando a pessoa é colocada em presença de um curandeiro e deste recebe um tratamento que o paciente julga ser eficaz; o tratamento pode ser simplório, mas é capaz de libertar a pessoa e lhe permitir o gozo normal de suas funções orgânicas. Não há aí a mínima intervenção do além

Quanto às doenças orgânicas (tumores, dilaceração de tecidos, fraturas ósseas ), são tratadas no espiritismo mediante “intervenção cirúrgica” atribuída a um “médico do espaço”, como seria o “dr Fritz”; nos casos de Zé Arigo é de Edson de Queiroz. A propósito, é preciso notar o seguinte: as interven­ções cirúrgicas do dr Fritz deveriam ser submetidas a rigorosos exames científicos. Não se pode falar de cura extraordinária se não se tem certeza de que houve realmente cura.

É preciso, portanto, reunir toda a documentação do paciente que permi­ta diagnosticar o mal antes da intervenção cirúrgica; depois desta, é necessá­rio submeter o enfermo a exames médicos durante um ano, aproximadamen­te, para se averiguar a duração da pretensa cura. Ora, isso não costuma ser feito quando se trata de operações espiritas. Um estudioso sério não pode afirmar coisa alguma se não tem documentação e comprovantes para aquilo que pretende afirmar.

Além disso, é preciso mencionar que, em não poucos casos de curas espíritas, foi evidenciada a fraude ou o truque por parte dos médiuns; estes se serviram de tripa ou de moela de galinha, que foi introduzida no organismo do paciente e, a seguir, extraída, para dizer que haviam retirado do mesmo uma película ou um corpo estranho.

Dizem ainda que as operações do dr. Fritz são indolores… A propósito, observamos que existe não só a anestesia química, mas também a hipnótica ou sugerida; o médium recomenda ao paciente que pense em Jesus Cristo e procure estar unido a Ele durante a intervenção!

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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