O Escândalo do Judiciário

A problemática dos crucifixos leva-nos a parafrasear o que S. Paulo diz
na sua Primeira carta aos Coríntios (1,23): Nós pregamos Cristo
crucificado, escândalo para o Judiciário e loucura para a Liga das
Lésbicas, mas para os cristãos, que constituem 92% da população
brasileira, marcados pela Cruz de Cristo através do Batismo, é poder de
Deus e sabedoria de Deus.


Muitas pessoas comentaram e manifestaram sua apreensão diante da atitude
do Conselho da Magistratura frente aos Crucifixos, no intuito de
descaracterizar a sociedade brasileira de sua cultura. Quer-se assegurar
total estranheza ao Cristianismo, como se a questão fosse religiosa e
não cultural.. Por isso é preciso enfatizar, para os que pretendem assim
dar um golpe à Igreja Católica, que não se trata de um problema que
relacione Igreja e Estado, cujas relações foram firmemente consolidadas,
num respeito mútuo, pelo Pacto entre o Brasil e a Santa Sé, assinado em
2008, em Roma e homologado pelo Congresso Nacional, com força de
tratado internacional. O problema dos crucifixos, ao invés, envolve o
Judiciário e a Sociedade brasileira. Trata-se de uma questão
democrática, de maioria.


A pergunta é se o Judiciário, com esta decisão, ainda representa a
sociedade brasileira ou se está voltando as costas para ela, rejeitando
seus símbolos mais caros, de Amor, Justiça e Verdade, para eventualmente
privilegiar uma representação lésbica da mitologia grega, pela  deusa
Themis, de olhos vendados. Por ironia dos fatos, corre a acusação de uma
discriminação contra o sexo oposto, rejeitando o homem Jesus, mártir da
injustiça, para acolher uma mulher mitológica.


O fato de uma liga de lésbicas ter conseguido êxito na sua devassa aos
valores cristãos do Ocidente aparece como sinal de grupos extremamente
minoritários e radicais assumirem supremacia, com o apoio do Judiciário,
sobre as Tradições que marcam nossa civilização solapando a base da
sociedade brasileira. Se este grupo – que não representa todas as
lésbicas, visto que outras professam a fé cristã – e o Judiciário se
envergonha da sociedade brasileira, tentando solapar seus fundamentos de
convivência, não há que estranhar que também a sociedade, marcada por
uma tradição de quinhentos anos de fé, se envergonhe deles.


Reafirmamos nossos valores sociais e nossos símbolos mais sagrados para
atestar a busca da paz social, da fraternidade universal, do amor
incondicional, da salvação que vem de Deus, da honestidade que garante a
contextura social, da fé no transcendente a garantir perenidade à vida
humana. A Cruz para nós, bem como para grande parte da humanidade, mesmo
fora do Cristianismo, sintetiza a dimensão transcendente do amor a Deus
com a dimensão imanente do amor ao próximo.


Convém frisar que não foi a Igreja católica que colocou os crucifixos
nos tribunais de Justiça. Tirando-os dali os juízes da Magistratura
ofendem sua própria tradição e todos os juízes que os precederam, que os
tinham como símbolo de fé e imparcialidade. Esperam os que o Crucifixo
continue a constituir a força de Deus e a sabedoria de Deus também para
os servidores do Judiciário. Quem tem fé sabe e experimenta. Não se
deve, porém, esquecer que o modo de viver de uma sociedade não é
determinado por uma minoria, nem pode ser por ela obstacularizado, se
não se quiser configurar uma ditadura e suprimir a democracia.


Dom Dadeus,
Arcebispo  Porto Alegre – RS

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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