O Eneagrama – EB

Em síntese: A temática do Eneagrama apresenta dois aspectos bem distintos: o psicológico e o “místico”. O aspecto psicológico tem o valor que os psicólogos julguem dever atribuir-lhe. Não o discutimos neste artigo.

O aspecto místico é inconsistente pode ser dissociado do aspecto científico ou psicológico. O fato de que correntes de pensamento utilizaram o símbolo da estrela de nove pontas e desenvolveram suas ideias religiosas em conexão com esta imagem, não depõe necessariamente contra tal figura e muito menos depõe contra o sistema psicológico correlativo.

Nova Era, como amálgama de concepções diversas e heterogêne­as, pode incluir em seu leque o símbolo do Eneagrama e as idéias esotéricas ou panteístas que lhe são associadas pelos “místicos”. Neste  caso, o Eneagrama se torna inaceitável para o cristão, na medida em que possa sugerir ou incutir panteísmo, magia> reencarnação… Todavia mesmo então o aspecto psicológico conserva a validade que os cientistas lhe atribuem.

O  Eneagrama é um sistema de psicologia que procura fazer que as pessoas compreendam a si mesmas e compreendam as outras; para tanto, indica nove (ennéas) tipos (grámmata, em grego) de personali­dade; num desses tipos cada indivíduo se enquadra com maior ou me­nor precisão. Embora seja um produto de pura psicologia, o Eneagrama tem sido associado a concepções religiosas e “místicas” que, aos olhos de alguns observadores, tornam o Eneagrama espúrio ou suspeito de conivência com a Nova Era.

Examinemos um e outro dos aspectos do Eneagrama, valendo-nos, para o aspecto psicológico, da obra de Helen Palmer: Eneagrama. Ed. Paulinas 1993 (citado como HP).

1. QUE DIZEM OS PSICÓLOGOS?

“O Eneagrama é um antigo ensinamento sufi, que descreve nove tipos diferentes de personalidade e suas inter-relações. Esse ensinamento pode-os ajudar a identificar nosso próprio tipo e a lidar com nossos problemas, a compreender nossos colegas de trabalho, pessoas amadas, familiares e amigos” (HP, p. 23).

O Eneagrama ensina a encarar os hábitos que geralmente são considerados meramente neuróticos como pontos de acesso, em potencial, para estados superiores de consciência. Supõe-se que o indivíduo possa e deva evoluir para graus de personalidade mais perfeita, de modo que as tendências neuróticas podem ser vistas como mestres e bons amigos que levam o indivíduo à próxima fase do seu desenvolvimento.

A representação dos nove tipos de personalidade se faz mediante uma estrela de nove pontas envolvida dentro de um circulo. Cada ponta corresponde a um tipo de personalidade:

1) O Perfeccionista; 2) O Dador; 3) O Desempenhador; 4) O Romântico Trágico; 5) O Obsevador; 6) O Advogado do Diabo; 7) O Epicurista; 8) O Patrão; 9) O Mediador.

Cada um desses números pode também representar uma paixão:

1) Raiva; 2) Orgulho; 3) Engano; 4) Inveja; 5) Avareza; 6) Medo; 7) Gula; 8) Luxúria; 9) Preguiça.

Eis a descrição de cada tipo de personalidade:

1) O Perfeccionista é crítico de si e dos outros. Sente-se superior aos demais. Adia as suas decisões por medo de cometer um erro. Usa muito os verbos dever e precisar.

2) O Dador é empenhado em satisfazer às necessidades alheias. Tem muitos eu; mostra um eu diferente a cada bom amigo. Procura ser amado e apreciado, tornando-se até indispensável a outra pessoa. É agressivamente sedutor.

3) O Desempenhador é competitivo, obcecado pela imagem do vencedor. Procura ser estimado por causa dos serviços que presta; pode parecer mais produtivo do que de fato é. Sujeito a trabalhar em excesso e, por isto, sofrer do coração, de pressão alta. É impaciente com aque­les que querem trabalhar em ritmo mais lento.

4) O Romântico Trágico é atraído pelo inacessível; o ideal nunca é o aqui e agora. Trágico, triste, sensível, concentrado na perda de um amigo ou num amor ausente.

5) O Observador mantém distância em relação aos outros. Defende a sua privacidade, e evita envolver-se. Sente-se esgotado por compromissos e pelas necessidades alheias. É desligado de pessoas, sentimentos e coisas.

6) O Advogado do Diabo é medroso, atormentado pela dúvida. Receia tomar iniciativas, porque isto, pode levar a disputas, Identifica-se com os injustiçados; é antiautoritário.

7) O Epicurista é o diletante, amante volúvel, superficial, aventu­reiro; gosta de comer bem. É pouco dado a compromissos, pois prefere manter as opções em aberto. Geralmente alegre, estimula o ambiente. Inicia empreendimentos, mas não costuma acompanhá-los até o fim.

Leia também: Compreendendo a Nova Era – EB (Parte 1)

Compreendendo a Nova Era – EB (Parte 2)

Compreendendo a Nova Era – EB (Parte 3)

8)  O Patrão é extremamente protetor. Toma a defesa de si mesmo e dos amigos combativos; assume o controle; não receia brigar. Tem suas manifestações de raiva e de força, mas respeita oponentes que resistam e lutem.

9) O Mediador é excessivamente ambivalente. Considera todos os pontos de vista. Substitui os próprios desejos pelos desejos alheios e deixa  objetivos concretos para atender a atividades não essenciais. Conhece as necessidades alheias melhor do que as próprias. Tende ao devaneio.

Até aqui fala a psicologia, sem tocar em filosofia ou religião. O Eneagrama, na medida em que é esta classificação, fica no plano das ciências experimentais; há de ser discutido entre psicólogos. Acontece, porém, que se lhe atribuem conotações de ordem “mística”, que o tor­nam controvertido em âmbito mais amplo, ou seja, em ambientes filosó­fico-religiosos. Examinemos, pois, o aspecto “místico” do Eneagrama.

2. A “MÍSTICA” DO ENEAGRAMA

A imagem da Estrela de nove pontas, que representam os nove tipos de personalidade, era utilizada pelos muçulmanos sufistas, que professam concepções esotéricas. E que é o sufismo?

O sufismo (do árabe suf, pano de lã, túnica, que os primeiros sufistas usavam por ascese) é uma corrente de espiritualidade muçulmana que no século X começou a se opor ao racionalismo e ao formalismo jurídico de alguns mestres. Teve origem na Pérsia, onde sofreu a influência das escolas filosóficas e religiosas que durante séculos antes do Islã ali se confrontaram, tais como o neoplatonismo, o hinduísmo, o Cristianismo e o maniqueísmo. O sufismo assim construído procura cultivar o amor a Deus e a contemplação até o êxtase mediante a ascese e a purificação do coração. Tal escola de espiritualidade não deixa de ter seus aspec­tos esotéricos e fantasiosos, que lhe valeram suspeitas e desconfiança da parte de outras correntes. A Sra. Dorothy Ranaghan, por exemplo, afirma que “o sufismo contemporâneo se tornou um misto de panteísmo, magia e racionalismo, com crença em telepatia, televiagens, premonição, transmigração de almas e negação de um Deus pessoal” (texto citado por Ralph Rath, Nova Era, um Perigo para os Católicos. Ed. Louva a Deus, Rio de Janeiro, pp. 174s).

Há também quem diga que o Eneagrama corresponde à Arvore da Vida da Cabala; cf. HP, p.31.

O que o Ocidente sabe de esotérico sobre o Eneagrama, se deve a George lvanovtch Gurdjieff, oculista americano, que viveu na Rússia de 1877 a 1947, Segundo dizem, Gurdjieff teve grande influência sobre o movimento dito New Age (Nova Era). Observa Dorothy Ranaghan:

“Os escritos de Gurdjieff são cheios de descrições de influências planetárias, corpos astrais, clarividência, experiências telepáticas e explicações do verdadeiro significado de interesses ocultos como kindalini e Taro”. Para Gurdjieff, o Eneagrama tem poderes secretos não particularmente aliados à tipologia da personalidade. “O Eneagrama é um símbolo  universal”, acreditava Gurdjieff. “Todo conhecimento pode ser incluí­do no Eneagrama e, com a ajuda dele, ser interpretado” (textos trans­critos da citada obra de Ralph Rath, pp.174s).

As concepções filosófico-religiosas que vêm assim associadas ao Eneagrama, são devidas a premissas pessoais e subjetivas Derivam-se, em grande parte, da “mística dos números” ou do hábito de atribuir valor qualitativo a certos números coisa arbitrária, visto que os núme­ros como tais são qualitativamente neutros. Eis como Helen Palmer, em estilo relativamente sóbrio, propõe esse “misticismo” dos números:

“A estrela de nove pontas mapeia a relação entre duas leis fundamentais do misticismo: a lei do Três (trindade), que identifica as três forças presentes no início de um evento, e a lei do Sete (oitava), que governa as fases de implementação desse evento, à medida que se desenrola no mundo físico.

A lei do Três é representada pelo triângulo interno do Eneagrama. O triângulo transmite a ideia da necessidade de três forças para a criação, em vez das duas visíveis: causa e efeito. Este conceito está preservado na trindade cristã do Pai, do Filho e de Espírito Santo, e nas três forças divinas da criação no hinduísmo, as chamadas Brahma, Vishnu e Shiva. Estas três forças também poderiam ser chamadas criativa, destrutiva e preservadora, ou ainda, ativa, receptiva e reconciliadora. Gurdjieff, uma fonte básica do sistema do Eneagrama, as chamava simplesmente força Um, força Dois e força Três, e foi sua a observação de que a humanidade era cega para essa terceira força” (ob. cit., p.59).

O raciocínio nos diz que 1) o simbolismo dos números é algo de arbitrário; o número 13, para uns, é de mau agouro, ao passo que, para outros, é alvissareiro ou de bons presságios¹; e 2) dado que o simbolismo se fundamente em alguma semelhança, nenhum número, como também nenhuma figura geométrica, emite energia criadora ou destruidora. Em conseqüência, não há por que temer a presença de símbolos, diagramas e gráficos; como tais, nada podem fazer; está claro, porém, que, se alguém se deixa sugestionar por pretensa eficácia desses sinais, está sujeito a se prejudicar, porque está, condicionado para se sentir débil, perseguido, condenado… O símbolo, porém, como tal não possui virtude nem benéfica nem maléfica.

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3. CONCLUSÃO

A temática do Eneagrama apresenta dois aspectos bem distintos:

o  psicológico e o “místico”. O aspecto psicológico tem o valor que os psicólogos julguem dever atribuir-lhe. Não o discutimos  aqui.

O aspecto “místico” é inconsistente; pode ser dissociado do aspec­to científico ou psicológico. O fato de que correntes de pensamento utilizaram o símbolo da estrela de nove pontas e desenvolveram suas idéias religiosas em conexão com essa imagem não depõe necessaria­mente contra tal figura e muito menos depõe contra o sistema psicológi­co correlativo.

Nova Era, como amálgama de concepções diversas e heterogêne­as, pode incluir em seu leque o símbolo do Eneagrama e as idéias esotéricas ou panteístas que lhe são associadas. Neste caso, o Eneagrama se torna inaceitável para o cristão, na medida em que pos­sa sugerir ou incluir panteísmo, magia, aspecto psicológico conserva a validade que os psicólogos lhe atribuem.
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¹ Cf. PR 27/1960, pp. 91-99 e Curso sobre Ocultismo da Escola “Mater Ecclesiae”, Módulo 20. Para citar um caso apenas, mencionamos o dos Estados Unidos da América: o número 13 era ali de bom agouro, porque inicialmente eram treze os Estados que constituíam a união norte-americana; além disto, o lema da união consta de treze letras (e pluribus unum); a águia norte-americana está revestida de treze penas  em cada asa; Jorge Washington hasteou o estandarte republicano com uma salva de treze tiros. E pluribus unum de muitos faz-se um só.

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 401 – Ano 1995 – p. 450

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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