O dia da salvação

Sendo Mãe e Mestra, a Igreja quer conduzir os fiéis ao crescimento na experiência do seguimento de Cristo. A Liturgia nos faz percorrer um caminho em direção à meta, sempre para frente, sempre mais alto. Aprendemos do Senhor que “quem pega no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deus” (Lc 9, 62). A Quaresma que começa será uma nova aventura, com novas descobertas, para que a vida de homens e mulheres renovados no Espírito Santo seja de novo e sempre mais oferecida ao nosso tempo. Nunca é demais dar novos passos, descobrir caminhos de crescimento e renovação de vida.

Os cristãos querem celebrar na Páscoa a graça de terem sido batizados, mergulhados na morte e ressurreição de Cristo, para serem homens e mulheres renovados. Sabem que são limitados e frágeis como todas as outras criaturas humanas. A humildade com a qual celebram este tempo seja sinal também para um mundo extremamente machucado, no qual estão inseridos e compartilham com os outros a maravilhosa aventura da vida.

Jesus permaneceu no deserto por quarenta dias (Mc 1,12-15), no início de seu ministério. Ali enfrentou e venceu a tentação. Em seguida, foi para a Galileia, pregando o evangelho de Deus e convidando à conversão. Sabemos que Ele é Senhor da vida e Salvador do mundo. A todos é oferecida a estrada da salvação, no meio dos embates da existência, tantas vezes semelhante a um dilúvio que arrasta tudo (cf. Gn 9,8-15) ou nos desertos da existência, quando a tentação nos assalta. A oportunidade é oferecida, mas há de ser acolhida no mistério da liberdade humana. Deus impõe nada! Antes, oferece gratuitamente o caminho da realização e da felicidade.

Saber-se destinatário da salvação é descobrir-se feito para a felicidade e não para a perdição. Daí o primeiro olhar de Quaresma, com o qual queremos incluir a todos, para sermos “embaixadores de Cristo” (cf. 2 Cor 5,20-6,2). Em nome dele, todos os cristãos sejam portadores do convite à reconciliação com Deus, sendo seus colaboradores e missionários. Quem quer viver conosco a Quaresma aceite ir ao encontro dos outros, superando barreiras e vencendo distâncias, para levar a feliz notícia da salvação a todos.

E salvação é oportunidade oferecida a cada um de nós. Olhar ao longe para descobrir destinatários da salvação nos faz contemplar, no espelho da Palavra de Deus a ser redescoberta com abundância na Quaresma, para os nossos próprios limites e pecados. O tempo da salvação começará com o encontro maravilhoso chamado Sacramento da Penitência. A Igreja quer chamar de novo homens e mulheres que eventualmente se tenham afastado da confissão a procurarem de novo a graça da proclamação pessoal do amor de Deus, a que todos têm direito, através do ministério dos sacerdotes.

Quaresma é tempo de salvação para todos os que entrarem de novo na escola do autodomínio, equilíbrio dos próprios instintos, ou, se quisermos, com as palavras a serem redescobertas, tempo de jejum, abstinência, penitência. Cada pessoa escolha seu modo de exercitar-se no tempo da graça que chegou.

Quaresma é tempo de salvação para os que descobrem que as feridas de nosso tempo são especialmente as do relacionamento. Começam entre as pessoas, para chegar às nações. Começar em casa o exercício da fraternidade, contribuir para que as estruturas da sociedade sejam aperfeiçoadas (“Que a saúde se difunda sobre a terra”)!

Quaresma é tempo de salvação a ser suplicada a Deus, pois sabemos bem que não somos capazes de edificar sozinhos um mundo novo! “Concedei-nos, ó Deus onipotente, que, ao longo desta Quaresma, possamos progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder a seu amor por uma vida santa”.Assim reza a Igreja no início da Quaresma, apontando para o objetivo do tempo especial de exercício espiritual, iniciado na Quarta-feira de Cinzas. Assim propõe a Igreja a todos!

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Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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