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  • O Demônio: Sim ou Não? – EB (Parte 2)

    Categoria: Artigos



    Religioso-21Examinemos agora as declarações do magistério da Igreja, ao qual Jesus prometeu a infalível assistência do Espírito Santo (cf. Jo 14,26; 16, 13-15).

    O Magistério da Igreja

    A Igreja nunca sentiu a necessidade de definir a existência do demônio como tal. A razão disto é que as definições do Magistério supõem sempre a negação de alguma verdade revelada por Deus. Ora nunca na antiguidade e na Idade Média foi negada a existência do demônio. Os erros respectivos versaram sobre a natureza, a atividade, o pecado, a condenação… do Maligno.¹ Por isto as intervenções do Magistério versaram somente sobre aspectos da ação do Maligno no mundo, dando sempre por certa a existência do mesmo.

    Percorramos, pois, algumas declarações do Magistério da Igreja.

    1) O Credo niceno-constantinopolitano ou uma Profissão de fé da Igreja do século IV começa afirmando:

    “Creio em um só Deus, Criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis”.

    O sentido desses seres invisíveis foi posteriormente explicitado: trata-se dos anjos, dos quais alguns pecaram e assim se tornaram anjos maus. Foi o que o Concílio do Latrão IV (1215) declarou: “O diabo e os demais demônios foram certamente por Deus criados bons em sua natureza, mas por si mesmos se tornaram maus” (DS 800).¹ – Este esclarecimento, ao qual se poderiam acrescentar outros semelhantes, de data anterior ou posterior, tinha em vista o dualismo, que admitia dois Princípios coeternos: o do Bem e do Mal, Deus e o Diabo.

    2) O Sínodo regional de Constantinopla em 543, tendo em vista os origenistas, afirma que a punição dos demônios não tem fim e não se pode admitir a restauração (reintegração) dos mesmos na graça de Deus. Cf. Ds 411.

    3) O Concílio de Braga (561) determinou:

    “Se alguém diz que o diabo não foi primeiramente um anjo bom, criado por Deus, e quer sua natureza não foi obra de Deus, mas, ao contrário, diz que emergiu do caos e das trevas e que não tem autor, pois é ele mesmo o princípio e a substância do mal, como afirmaram Maniqueu e Prisciliano, seja anátema.

    Se alguém crê que o diabo fez no mundo algumas criaturas e que por sua própria autoridade continua produzindo os trovões, os raios, as tempestades e as secas, como disse Prisciliano, seja anátema” (DS 457s).

    4) O Concílio de Florença, em seu Decreto para os Jacobitas  (1441), declara:

    “A Igreja firmemente crê, professa e ensina que ninguém concebido de homem e de mulher foi jamais libertado do domínio do diabo a não ser pela fé no Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, Nosso Senhor” (Ds 1347).

    5) O Concílio de Trento afirma, no Decreto sobre a justificação (1547), que os homens, em conseqüência do pecado original, “estavam sob o poder do diabo e da morte” (DS 1521). Ao falar da perseverança, observa que, depois da justificação, os homens ainda têm que enfrentar a luta contra o diabo” (DS 1541). Os que pecam após o Batismo, entregam-se “à servidão do pecado e ao poder do demônio” (DS 1668).

    Referindo-se à Unção dos Enfermos, diz o mesmo Concílio em 1551:

    “Ainda que o nosso adversário (o demônio), durante toda a vida, procure e aproveite ocasiões para poder de um modo ou de outro devorar nossas almas (cf. 1Pd 5,8), em tempo algum ele é mais astuto para nos perder totalmente do que no término iminente da nossa vida” (DS 1694).

    “Graças a este sacramento, o enfermo resiste melhor às tentações do demônio” (DS 1696).

    6) Pio XII, na encíclica Humani Generis (1950), censura a atitude daqueles que perguntavam “se os anjos (e, portanto, também o diabo) são criaturas pessoais” (DS 3891). O Papa tinha em vista os que pretendiam negar a existência do demônio, reduzindo-o a figura literária.

    7) O Concílio do Vaticano II afirma que o “Filho de Deus, por sua morte e ressurreição, nos livrou do poder de Satanás” (Sacrosanctum Concilium 6);… “o Pai enviou seu Filho a fim de por Ele arrancar os homens do poder das trevas e de Satanás” (Ad Gentes 3); (…) “Cristo derrotou o império do diabo” (Ad Gentes 9). Aludindo a Ef 6,11-13, o Concílio fala das “ciladas do demônio” (Lumen Gentium 48).

    8) Paulo VI, em várias ocasiões, referiu-se à existência e à atividade maléfica do demônio. Em sua homilia de 29-06-72 pronunciou famosa frase:

    “Através de uma brecha penetrou a fumaça de Satanás no templo de Deus”.

    Aos 15-11-72 estendia-se sobre a realidade do demônio:

    “É o inimigo número um, tentador por excelência. Sabemos também que este ser obscuro e perturbado existe de verdade e que com pérfida astúcia é atuante; é o inimigo oculto que dissemina erros e infortúnios na história dos homens … É o pérfido e astuto encantador que sabe insinuar-se em nós por meio dos sentidos, da fantasia, da concupiscência, da lógica utópica ou dos desordenados contatos sociais no exercício das nossas atividades, para nestas introduzir desvios, muito mais nocivos porque aparentemente conformes com nossas estruturas físicas ou psíquicas ou com as nossas instintivas e profundas aspirações (…)

    Poderemos supor que esteja atuando sinistramente onde a negação de Deus se faz radical, sutil e absurda; onde a mentira se afirma hipócrita e poderosa contra a verdade evidente; onde o amor é eliminado por um egoísmo frio e cruel; onde o nome de Cristo é impugnado com ódio consciente e rebelde …; onde o espírito do Evangelho é mistificado e contraditado; onde se afirma o desespero com última palavra.

    Deixa o quadro do ensinamento bíblico e eclesial quem se recusa a reconhecer a existência do demônio, ou quem faz do demônio um princípio que existe por si e não tem, como as demais criaturas, a sua origem em Deus, ou ainda quem explica o demônio como sendo uma pseudo-realidade, uma personificação conceitual e fantástica das causas desconhecidas de nossas desgraças” (ver L’Osservatore Romano de 16-11-1972).

    Podemos agora condensar a doutrina do Magistério em cinco proposições:

    1) Os documentos citados convergem em supor a existência do demônio como ser real, ontologicamente bom, dotado de inteligência e vontade, capaz de agir no mundo. Este é um dado de fé.

    2) O diabo depende de Deus Criador. Foi criado por Deus; por conseguinte, foi criado bom. A maldade do diabo se deve ao fato de que pecou. Afastou-se livremente de Deus, condenando-se a estar privado de Deus para sempre, pois os seres espirituais (no caso, os anjos) são imortais por sua própria natureza.

    3) Por permissão de Deus, o diabo atua astuciosamente, tentando levar o homem ao mal, sem poder anular a liberdade humana. O homem, ao pecar, entrega-se à influência do Maligno.

    4) Cristo Redentor nos resgatou do domínio do diabo.

    5) O Magistério da Igreja não se compromete com outras afirmações, como aquelas atinentes ao tipo de pecado dos demônios, ao número e à hierarquia dos anjos maus, às modalidades de sua atuação no mundo.

    A atividade do demônio

    Por ser um espírito sem corpo, o demônio não pode ter relações sexuais com mulheres, como pensavam os antigos. Por ser espírito, goza de conhecimento mais perspicaz do que o do homem; a sua intelecção não passa pelos sentidos, que são sempre muito limitados em sua apreensão. Todavia os anjos maus não são todo-poderosos; estão sob a regência de Deus, que não lhes permite tentar o homem acima das suas forças (1Cor 10,13).

    A atividade ordinária do Maligno consiste em tentar os homens ao pecado. A S. Escritura lhe atribui a tentação dos primeiros pais (cf. Gn 3, 1-5) e acrescenta que Jó (Jó 1-2), Jesus (Mt 4,1-11), São Paulo (2Cor 12,7-9), os Apóstolos todos (cf. Lc 22,31s) foram tentados. Por isto Jesus nos ensinou a pedir: “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal(ou Maligno)” (Mt 6,13). Segundo o desígnio de Deus, a tentação deve contribuir para acrisolar e fortalecer a virtude do homem.

    Os teólogos observam que o tentador não pode agir diretamente sobre o conhecimento e a vontade do homem, nem mesmo os pode penetrar. Por conseguinte, só indiretamente pode tomar conhecimento do que o homem pensa e quer, e só indiretamente, mediante objetos externos, pode influir sobre o conhecimento e o querer do homem. O demônio nunca pode anular a liberdade e a responsabilidade de alguém; não há pecado sem consentimento voluntário e livre.

    O demônio não é a única fonte de tentações. Existem duas outras, que são as próprias paixões existentes no homem e as influências negativas do mundo (ou do mundanismo). Em conseqüência, é difícil dizer de onde provém alguma tentação. Na prática, não se deveria atribuir tanta importância ao demônio; os afetos desregrados que toda criatura humana traz dentro de si, são, muitas vezes, suficientes para explicar tal ou tal tentação. Acima de tudo, importa ao cristão não dar ocasião ao pecado, afastando-se de todas as situações que a ele possam levar direta ou indiretamente. De resto, será sempre possível ao cristão vencer o mal, pois Deus não preceitua coisas impossíveis, mas ao preceituar algo, Ele nos admoesta a fazer o que podemos e a pedir o que não podemos; além disto, ajuda-nos para que o possamos cumprir, como declarou o Concílio e Trento (1547), retomando palavras de S. Agostinho (+ 430); cf. DS 1536.

    “65% dos Teólogos não aceitam …”

    No final do seu artigo, o Sr. Dallegrave afirma:

    “Dentre os 65% dos teólogos católicos que não aceitam a existência absoluta do demônio, cito no momento dois, entre outros, de certa importância por serem muito conhecidos: o Dr. Boaventura Kloppenburg e Oscar G. Quevedo S. J., que escreveram numerosas obras, todas com aprovações eclesiásticas”.

    A propósito observamos:

    1) Donde recebeu o Sr. Dallegrave uma estatística tão precisa, a ponto de saber que 65% dos teólogos católicos não aceitam a existência do demônio? Pode-se perguntar se a fonte seria o livro muito obscuramente citado: “Diabo, Demônios, Possessões” de Walter Karper e K. L.; K. K. e J. M. “Página 111 – Edições Loyola, dirigida pelos padres Jesuítas (sic!). Realmente tal modo de citar é muito pouco científico ou pouco apto a suscitar crédito.

    2) Diante da referência a D. Boaventura Klopenburg, a revista PR escreveu a este teólogo, que também é o Bispo de Novo Hamburgo (RS), pedindo-lhe a eventual confirmação dos dizeres de Dallegrave. Em resposta declarou D. Boaventura Kloppenburg:

    “Novo Hamburgo, 09-09-92

    O artiguinho do Sr. Geraldo E. Dallegrave, na Gazeta do Povo, 23-08-1982, Curitiba, sobre o demônio, não tem nenhum valor, nem exegético, nem teológico, nem histórico. Tem “dalle grave” errori. Que eu alguma vez tenha negado a existência do diabo, é pura invenção. Tentei resumir a doutrina cristã católica sobre o diabo e seus demônios nas pp. 194 e seguintes do meu livro Espiritismo (Edições Loyola). O que lá está, é a expressão de minha fé cristã católica.

    Frei Boaventura Kloppenburg O.F.M.”

    Donde se vê quanto é necessário tenha o leitor um pouco de senso crítico ao percorrer as páginas dos jornais, especialmente quando tratam de religião.

    ¹Os deuterocanônicos são livros que os judeus não aceitam precisamente por terem sido escritos em grego ou em aramaico e não em
    hebraico. Os católicos, porém, os aceitam, baseados na própria tradição dos judeus de Alexandria (Egito).

    ¹Entre outras coisas, os antigos acreditavam que houvesse demônios íncubos e demônios súcubos. Demônio íncubo seria o demônio masculino que viria de noite copular com uma mulher, causando-lhe pesadelos.

    Demônio súcubo seria o demônio feminino que, de noite, copularia com um homem, causando-lhe pesadelos. – É claro que a cópula de demônios e seres humanos é impossível, mas tal crença era transmitida de geração em geração no povo de Deus desde os tempos pré-cristãos; sim, os rabinos julgavam que os filhos de Deus que se uniram às filhas dos homens, conforme Gn 6,1s, eram anjos que copularam com mulheres. Segundo bons exegetas, haveria alusão a esta concepção em Jd 6 e 2Pd 2,4.

    ¹A sigla DS designa: Enquirídio de Símbolos, Definições e declarações da Igreja.


    Prof. Felipe Aquino

    assessoria@cleofas.com.br

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.