O Demônio entende português?

inferno_260_210O demônio é um anjo que Deus criou bom e a quem permite tentar os homens para consolidar a fidelidade destes ao Senhor. Não podemos descer a por menores ao tratarmos do conhecimento que o demônio tem das realidades humanas. É certo, porém, que ele não aprende determinadas línguas e ignora outras. O maligno conhece o que vai no íntimo dos homens tão somente na medida em que estes manifestam por sinais o que lhes vai no coração. A Escritura e a Tradição sempre exortaram os fiéis a rezar em voz alta e publicamente, sem receio de quesuas intenções pudessem ser contraditadas pelo Maligno ciente do que pedimos a Deus. Adernais a glossolália é um carisma, um dom esporádico de Deus, que não pode ser institucionalizado ou exercido a gosto do cristão.

* * *

Um caso realmente ocorrido oferece ocasião a reflexões.

Certa vez, num grupo de oração, a pessoa que coordenava perce­beu que um dos participantes orava em voz alta na língua portuguesa. Exclamou então com grande ânimo: Ore em línguas, pois o demônio está entendendo o português!”…

O fato sugere algumas considerações.

REFLETINDO…

Proporemos três ponderações.

1. O que o demônio sabe…

O demônio é um anjo, espírito sem corpo, que Deus criou bom mas que se perverteu por soberba. É dotado de inteligência e vontade mais agudas do que a inteligência e a vontade dos homens, porque não sujeitas aos entraves da corporeidade.

Sendo espíritos sem vinculação com a matéria, os anjos bons e maus não dependem dos sentidos, como nós dependemos. Não preci­sam de abrir os olhos ou os ouvidos para captar impressões visuais ou sonoras e elaborá-las pelo raciocínio, …raciocínio prolongado e sujeito a erros. O conhecimento dos anjos é inato e intuitivo.

Inato: Deus lhes infundiu, desde que os criou, as noções que lhes convinha saber, a respeito de Deus, dos outros anjos, dos homens e da natureza. Intuitivo, isto é, não discursivo; o anjo vai direto ao âmago das coisas1 sem experimentar hesitações – 0 que lhe permite ter um saber muito mais sólido, firme e penetrante do que o nosso saber.

Em consequência, os anjos conhecem os “futuros necessários”, isto é, aquelas coisas que decorrem necessariamente das leis da nature­za, assim como o astrônomo pode prever fenômenos distantes (eclipses, por exemplo) aplicando simplesmente as leis da natureza. Todavia os anjos não podem conhecer os “futuros livres”, isto é, os acontecimentos que dependem da liberdade humana; também não podem conhecer os pensamentos e desejos íntimos dos homens (só Deus os conhece); per­cebem, porém, nossos pensamentos e sentimentos na medida em que os manifestamos de algum modo, mediante sinais e expressões adequa­das.

Dotados de inteligência, os anjos tem necessariamente vontade. Esta é tanto mais perfeita, firme e forte quanto mais perfeito é o conheci­mento que lhe antecede. Ninguém pode querer algo sem o conhecer e há de querê-lo ou repudiá-lo na medida do que conhece.

Estas ponderações são necessariamente sóbrias, visto que não se tem dados seguros para afirmar algo mais sobre o conhecimento do de­mônio. Donde se segue que não tem propósito afirmar que o Maligno aprendeu a língua portuguesa, mas não aprendeu outros idiomas. Isto equivaleria a equiparar o anjo mau a um inimigo humano, que tem limitações linguísticas.

2. O que o demônio pode…

Em sua linguagem sóbria ensina o Catecismo da Igreja Católica:

“394. A Escritura atesta a influência nefasta daquele que Jesus chama de “O homicida desde o princípio” (Jo 8,44) e que até chegou a tentar desviar Jesus da sua missão recebida do Pai. “Para isto é que o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do Diabo” ( Jo 3,9).

A mais grave dessas obras, devido às suas consequências, foi a sedu­ção mentirosa que induziu o homem a desobedecer a Deus.

395. Contudo, o poder de Satanás não é infinito. Ele não passa de urna criatura, poderosa pelo fato de ser puro espírito, mas sempre criatu­ra; não é capaz de impedir a edificação do reino de Deus. Embora Sata­nás atue no mundo por ódio contra Deus e o seu Reino em Jesus Cristo, e embora a sua ação cause graves danos – de natureza espiritual e, indiretamente, até de natureza física – para cada homem e para a socie­dade, esta ação é permitida pela Divina- Providência, que com vigor e doçura dirige a história do homem e do mundo. A permissão divina da atividade diabólica é um grande mistério, mas “nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam” (Rm 8,28).

Verdade é que o Maligno pode querer prejudicar nossas boas in­tenções formuladas na oração. Todavia a Escritura e a Tradição sempre exortam os homens a oração, e à oração em vernáculo, sem jamais pro­por o uso de língua estranha, que é demônio desconheça; levem-se em conta os Salmos e as passagens do Novo Testamento: Lc 11, 9-13; Jo 14,13s; 16,24-27… A oração é a força do cristão, o recurso permanente que Deus lhe deu para resolver seus problemas. Não há Oração perdida ou ineficaz, pois, se o Senhor não concede o que lhe sugerimos, conce­de o que mais convém ao bem do orante: “Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei, e vos será aberto, pois todo aquele que pede recebe, aquele que busca encontra, e a quem bate se lhe abrir” (Mt 7,7).

Donde se depreende não ter propósito a exortação a que alguém ore em línguas para que o demônio não o compreenda e entrave a prece feita em vernáculo.

Examinemos agora de mais perto:

3.  O Dom das Línguas

0 dom das línguas (glossolália) é um carisma, ou seja, uma graça do Espírito Santo concedida para a edificação da comunidade. É o que São Paulo exprime longamente em 1Cor 14,2-15. Por isto quer o Apóstolo que o dom das línguas seja acompanhado do dom da interpretação para que toda a assembleia compreenda o que é dito e daí tire proveito:

“Quando estais reunidos, cada um de vós pode cantar um cântico, proferir um ensinamento ou uma revelação, falar em línguas ou interpretá-­las; mas que tudo se faça para a edificação! Se há quem fale em línguas, falem dois ou, no máximo, três, um após o outro. E que alguém as inter­prete. Se não há intérprete, cale-se o irmão na assembléia, fale a Si mesmo e a Deus” (1Cor 14, 26-28).

A glossolália resulta do entusiasmo do orante, que passa a falar linguagem ininteligfvel, porque a grandeza das obras de Deus não pode ser adequadamente expressa pelo linguajar comum. 0 entusiasmo, porém, pode redundar em desordem na assembléia; dá as medidas de cautela do Apóstolo. Se não há disciplina no exercício do carisma, pode o culto divino assemelhar-se a uma reunião de loucos:

“Se a Igreja se reunir e todos falarem em línguas, os simples ouvintes e os incrédulos que entrarem, não dirão que estais loucos?” (1Cor 14, 23).

Por causa do perigo da indisciplina, São Paulo parece preferir ao dom das línguas o da profecia, que é a proclamação das maravilhas de Deus em linguagem inteligível:

“Se, ao contrário, todos profetizarem, o incrédulo ou o simples ouvinte que entrar, há de sentir-se argüido por todos, julgado por todos; os segredos do seu coração serão desvendados; prostrar-se-á por terra, adorará a Deus e proclamará que Deus está realmente no meio de vós” (1Cor 14, 24).

A glossolália parece ter desaparecido nas comunidades cristãs desde o século IV. S. João Crisóstomo (+ 407) referia que na sua época havia embaraço para explicar o que seria o dom das línguas mencionado pelo Apóstolo; com efeito, ao comentário Cor 12,ls, dizia o Santo:

“Esta passagem é totalmente obscura; tal dificuldade provém do fato de que ignoramos o que ocorria outrora e não mais acontece em nossos dias” (In epist. 1 ad Car. Homilia 29,1).

Orígenes (+ 250) mesmo parece ter ignorado o que fosse a glossolália, pois interpreta a afirmação paulina “Falo em línguas mais do que todos vós” (1Cor 14,18) no sentido de que São Paulo tinha milagro­samente o conhecimento da língua de cada povo que ele evangelizava (In epist. ad Romanos 113). 5. Ireneu (+ 202) e Tertuliano (+ 220) ainda fazem referência ao carisma da glossolália. Há quem julgue que o abuso do pretenso dom de línguas por parte dos hereges montanistas no século III tenha provocado o desinteresse dos fiéis ortodoxos portal carisma nos tempos subseqüentes. Santo Agostinho (+430) escrevia: “Quem poderia pensar hoje que a imposição das mãos provoque o dom das línguas?” (De Baptismo III, 16,21).

Nos tempos posteriores, parece que alguns místicos tiveram o dom da ebrietas spiritualis, embriagues espiritual, estado de alma em que a consolação dada por Deus se apodera do fiel com tal veemência que ele se torna incapaz de exprimir sua experiência em linguagem convencio­nal e se expande com palavras estranhas e desarticuladas. Tal estado dito “de embriaguês” corresponderia ao que os Apóstolos experimenta­ram no dia de Pentecostes, merecendo, por isto, ser tidos como óbrios (cf. At 2,13-15).

Em sua autobiografia S. Teresa de Ávila (+ 1582) refere algo que poderia ser assemelhado ao estado de embriagues espiritual ou à glossolalia:

“Pronunciam-se então muitas palavras para o louvor de Deus, mas sem ordem, a menos que Deus queira a colocar ordem; a mente humana por Si não é capaz de fazê-lo. A alma desejaria proclamar bem alto a glória de Deus. Ela fica fora de Si mesma no mais suave delírio… Ela quisera sei; por inteiro, línguas para louvar a Senhor” (Vida, cap. 16, 3-4).

Visto que tal fenômeno é de ordem muito íntima, reservado à experiência pessoal dos místicos, não nos é possível avaliar a frequência com que tenha ocorrido no passado.

Nos últimos séculos registraram-se certas “explosões” de glossolalia em grupos numericamente restritos. Tais foram os grupos huguenotes (protestantes franceses) dos Pequenos Profetas das Cevenas ou Camisardos (1658-1710), os jansenistas de Paris (1731) e os discípulos de Edward Irving na Inglaterra (1830-1900). Tais casos podem ser tidos como efusões de ânimo entusiástico, sem que existisse algum dom es­pecial do Espírito Santo; houve na história da mística, muitos fenômenos semelhantes aos do êxtase e da linguagem desarticulada provocados por convicções naturais, sem particular intervenção de dons transcendentais.

O século XX, porém, registra o surto de movimentos pentecostais tanto entre os católicos como entre os protestantes. Entre estes últimos instaurou-se a crença de que todo adulto cristão, após a sua conversão e o seu Batismo, deve preparar-se para receber o Batismo no Espírito San­to ou uma nova efusão do Espírito, que o habilitará a dar testemunho em línguas estranhas, como faziam os Apóstolos no dia de Pentecostes (cf. At 2,4); tal dom, dizem, em muitos casos é permanente e vem a ser ex­presso tanto na oração particular como no culto público. O Movimento Pentecostal, iniciado no começo do século XX, tornou-se especialmente vivo e atuante a partir de 1956, aproximadamente entre os protestantes, e 1967 entre os católicos. Nem todos os grupos católicos de oração che­gam a dizer que o Batismo no Espírito Santo é sinal indispensável de conversão, mas todos estimam o dom das línguas; muitos pedem tal ca­risma como sinal normal de que o Espírito Santo entrou na vida do fiel com novo vigor.

Os numerosos casos contemporâneos de glossolalia estão sujei­tos à análise de teólogos e psicólogos. Pode-se indagar, com fundamen­to, se em todos esses casos se trata realmente de inspiração divina. Sem querer negar a intervenção do Espírito Santo em muitas de tais ocasiões, pode-se admitir que outras manifestações se devam ao entusiasmo pes­soal e à sugestão exercida pelo ambiente sobre o orante. São Paulo mesmo lembra aos Coríntios que alguém pode falar em línguas “como  um bronze que soa ou como um címbalo que tine” (cf. 1Cor 13,1).

Em nossos dias não costuma haver intérprete para o dom das lín­guas, de modo que a comunidade não se pode beneficiar dessa linguagem estranha. Há quem explique que mesmo em tais casos o dom tem sua razão de ser: é uma efusão entusiástica do ânimo do orante, que assim louva a Deus. Tal explicação pode ser aceita; São Paulo observava que, em tais circunstâncias, o orante deveria rezar a sós, em casa. Hoje em dia a glossolália toma nova modalidade: quando autêntica, é exercida em público, por efeito de poderosa intuição do orante, sem que a comunidade seja enriquecida pelo carisma.

Haja discernimento! O Apóstolo recomenda:

“Não extingais o Espírito… Discerni tudo e ficai com o que é bom” (1Ts 5, 195)1

A propósito merece especial consideração o artigo de Francis A Sullivan: LANGUES (Don des), en Dictionnaire de Splritualité, L IX, Paris 1976, cols. 223-227.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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