O Culto dos Santos – EB (Parte 2)

Ora Deus, que é o autor
dessa comunhão solidária, não permite que ele se extinga com a morte; na
verdade, a chamada “morte” não é extinção da vida, mas transição de uma
modalidade de vida para outra. Ao contrário, a morte liberta o cristão dos
entraves do pecado e da sedução das paixões, permitindo que o seu amor a Deus e
aos irmãos se torne mais puro. Disto se segue que a comunicação de amor
fraterno entre vivos e defuntos não somente seja possível, mas venha a ser
mesmo uma consequência do aperfeiçoamento do amor dos que passaram para o além.
O Senhor Deus se encarrega de os tornar clientes das necessidades dos seus
irmãos na terra, já que sem essa intervenção de Deus não haveria intercâmbio
entre cristãos peregrinos e cristãos consumados. Por conseguinte, a oração dos
Santos pelos viandantes deste mundo é o desdobramento do seu amor a Deus e ao
próximo, que caracterizou a sua vida na terra e agora é pleno ou livre de
obstáculos. Os justos falecidos querem ajudar-nos a atingir o termo de nossa
vocação, que é “participar da sorte dos Santos na luz” (Cl 1, 12). O amor e a
bondade dos Santos, isto é, aquilo que constitui a santidade, permanecem para
sempre.

Foi esta argumentação que
moveu os mestres da Tradição cristã a professar a intercessão dos Santos pelos
irmãos na terra. Eis aqui três testemunhos:

Orígenes de Alexandria (+
250), no seu Tratado sobre a Oração, recolhe as passagens bíblicas que falam da
intercessão dos Santos e dos profetas, e propõe a seguinte reflexão: as
virtudes cultivadas nesta vida são definitivamente aperfeiçoadas no além. Ora a
mais valiosa de todas é a caridade; esta portanto na outra vida é ainda mais ardente
do que na vida presente. Por conseguinte, os Santos falecidos exercem seu amor
para com os irmãos na terra mediante a intercessão dirigida a Deus em favor das
necessidades desses peregrinos. Ver “Sobre a Oração” n.º 11,2.

S. Tomás de Aquino (+ 1274)
professa semelhante doutrina. Pergunta, na Suma Teológica 11/11/83, 11, se os
Santos na pátria rezam por nós. E responde afirmativamente; sim, a oração pelos
outros decorre do amor ao próximo. Ora, quanto mais perfeitos no amor forem os
Santos na outra vida, tanto mais hão de rezar pelos peregrinos na terra, a fim
de os ajudar a chegar à vida eterna.¹

Até mesmo o pensador
protestante Gottfried W. Leibniz (+ 1716) declara não entender por que não se
deve recorrer aos Santos na oração. Mais: chama a atenção para a estrutura
cristocêntrica e teocêntrica dos nossos pedidos aos Santos, que, conforme
Leibniz, obedecem ao seguinte modelo:

“Considera, ó Deus, as
tribulações que eles (os Santos) suportaram por tua graça em prol do teu nome;
ouve as suas orações, às quais o teu Filho unigênito conferiu força e valor”.¹

O motivo pelo qual os
bem-aventurados respondem às nossas preces, é o seu amor muito vivo:

“Os bem-aventurados  olham agora para as nossas vicissitudes muito
mais do que durante esta vida terrena e vêem tudo de mais perto (…). O seu amor e
a sua vontade de ajudar são muito mais ardentes e as suas orações muito mais
eficazes do que durante a vida terrena. É certo que Deus escuta também as
orações dos vivos e que nós esperamos proficuamente que as nossas orações se
unam às dos irmãos. Não vejo, por isto, razão pela qual devamos duvidar da
idéia de invocar um bem-aventurado ou um anjo santo e de implorar a sua
intercessão e a sua ajuda” (obra citada, p. 190).

Merece especial atenção o
fato de que a oração aos Santos e a intercessão dos Santos não derrogam à
unicidade do Salvador e Mediador Jesus cristo. Ao contrário, esse intercâmbio
entre vivos e mortos decorre da obra redentora de Cristo e dá glória ao
Salvador; é expressão da excelência dessa salvação. Mais ainda: os Santos são
relativos a Jesus Cristo; tudo devem a Este e em tudo encaminham os seus irmãos
para Jesus, como notava o Concílio do Vaticano II citado à p. 268 deste
fascículo.

Os Santos não são doadores
nem fontes de graças; são apenas advogados, que intercedem por eficácia da
mediação salvífica de Jesus Cristo.

Questões complementares

1. À luz destas verdades,
compreende-se também a legitimidade do culto das relíquias. Estas são
fragmentos dos ossos dos Santos ou objetos que serviram ao seu uso. Ora todas
as culturas praticaram o respeito e a veneração (não a adoração) tanto dos
despojos mortais como dos pertences de seus heróis. Que se pode objetar a uma
viúva que tenha diante dos olhos a fotografia do marido e conserve
carinhosamente os objetos usados por ele? Como seria violento e antinatural
impedir a tal viúva a veneração das relíquias do marido, é também violento,
para um cristão, impedir-lhe que guarde a estima aos sinais materiais que
lembram os heróis da fé.

É certo outrossim que a
profissão de que os homens ressuscitarão no fim dos tempos, incutiu grande
apreço aos despojos mortais dos Santos, elevados à dignidade de templos do
Espírito Santo durante a vida presente (cf. 1Cor 6,15-20). – Verdade é que Deus
não recolherá as cinzas esparsas do cadáver para provocar a ressurreição, mas a
matéria primeira (no sentido aristotélico-tomista) unida à alma do indivíduo
assumirá as feições do respectivo corpo, tornando-se a carne gloriosa
correspondente a tal alma.

Os abusos registrados no decorrer
da história quanto ao culto dos Santos não são razão suficiente para se
condenar a devoção aos mesmos e às suas relíquias.

2. É claro, porém, que a
veneração dos Santos em suas diversas modalidades fica sendo algo de
facultativo para cada fiel católico. Contudo seria muito estranho que um
católico não tivesse devoção alguma a Maria Santíssima, a mais bendita de todas
as mulheres (cf. Lc 1, 42) e a Mãe da Vida, a nova Era; a devoção a Maria
decorre da própria vocação do cristão a ser “um outro Jesus” (cf. Rm 8,
29).  Com efeito; quanto mais alguém é um
outro Jesus, tanto mais também é devoto filho de Maria, pois Jesus foi todo o
Filho do Pai (como Deus) e todo filho de Maria (como homem). Assim a devoção a
Maria resulta logicamente do Cristocentrismo da piedade cristã.

3. Ainda uma observação: há
Santos tidos como protetores em especiais situações de necessidade: assim Santa
Edviges seria a intercessora dos endividados; Santa Rita de Cássia, a dos fiéis
envolvidos em problemas insolúveis; Santo Antônio de Pádua, o tutor dos
namorados e noivos… Essa relação entre o Santo e determinada carência dos
irmãos peregrinos deve ter fundamento na vida do respectivo Santo; é de crer
que este tenha obtido grandes graças de Deus outrora em ocasiões semelhantes às
dos seus devotos. – Tal relacionamento é aceitável, mas não deve degenerar em
superstição.

4. Verifica-se assim a
legitimidade e até mesmo a conveniência do culto dos Santos. Quem compreendeu
bem o que é o Cristianismo, não o pode imaginar sem essa comunhão viva entre os
membros do Corpo de Cristo, quer estejam ainda peregrinando na terra, quer já
se achem na glória do céu. Somente os abusos e as caricaturas puderam
desfigurar essa tão bela realidade, levando muitos cristãos a negá-la; negam-na
simplesmente porque estão equivocados a respeito.

5. A imagem do Santo deve pairar nitidamente ante os
olhos do cristão, pois o Santo é o reflexo mais límpido de Deus e é o ser
humano realizado por excelência. O bom médico, o bom músico, o bom cientista
podem ser homens maus, mas o Santo será sempre um homem bom (ou uma mulher
boa); será um homem tão perfeito quanto possível dentro das limitações humanas.
Há, pois, necessidade enorme de Santos em nosso mundo; são o tesouro e a
riqueza da Igreja (a concretização dos méritos de Cristo, fonte de toda
santidade) e o autêntico patrimônio da humanidade. Por isto o mundo não pode
deixar de clamar: “Senhor, dá-nos Santos!”

A propósito muito se
recomenda o livro de Wolfgang Beinert, O Culto aos Santos Hoje. Ed. Paulinas,
São Paulo 1990.

Ver também PR 336/1990, pp.
220-236 (Cristianismo e paganismo).

Apêndice

Um testemunho eloquente

Para ilustrar as verdades da
fé, são muito significativos os exemplos dos próprios Santos e justos que as
viveram e vivem concretamente. – Daí a conveniência de se citar aqui o
testemunho de fim de vida do Pe. Júlio Fragata S. J., que faleceu em Portugal
aos 27/12/1985.

Nascido em 1920, o Pe.
Fragata S. J. foi professor universitário em Braga e no Porto e Superior
Provincial da Província Portuguesa da Companhia de Jesus. Era homem de grande
erudição associada a modéstia e discrição. Revelou a riqueza de sua vida
espiritual no fim da sua existência terrestre, como se poderá depreender dos
trechos e notícias que se seguem:

1. Às vésperas de ser operado
de um câncer no estômago, registrava em seu “Diário Espiritual”:

“Tenho sentido certa alegria
em deixar este mundo como, quando e onde o Senhor quiser, entregando-lhe totalmente
todo o meu fim de carreira aqui. Mas hoje, na Eucaristia, senti que, assim como
Jesus, deixando este mundo, começou a fazer ainda maior bem nele, também só
desejo deixar este mundo para que, do outro mundo, tenha ocasião de fazer ainda
maior bem. Só “passando a fazer bem” se dá real glória a Deus; e creio que o
Senhor disporá que termine a minha vida neste mundo quando estiver em
circunstâncias de fazer, do outro mundo, maior bem neste mundo. Quero pedir a
Nossa Senhora que me ampare nesta vida, para que nela seja de tal modo
purificado que, ao sair deste mundo, possa logo começar a fazer maior bem aqui.
Senti rápida, mas elevada consideração neste pensamento”

2. Freqüentemente sublinhava
que o sofrimento era uma riqueza que não se podia desperdiçar, que a sua
partida para Deus ia ser benéfica, uma graça para ele e para os irmãos. Assim,
afirmava no seu Depoimento, transbordante de esperança e otimismo cristãos:

“Na expectativa de tudo o
que me pode acontecer, desejo evitar esbanjar aquilo que mais se esbanja neste
mundo, que é o sofrimento. Porque o sofrimento sem amor é um esbanjamento.

No Calvário, três estão
crucificados: o mau ladrão, que não aceita o sofrimento, apesar de padecer; o
bom ladrão, que o aceita e por isso ouve de Jesus as consoladoras palavras:
“Hoje estarás comigo no Paraíso”. Mas há também o sofrimento de Cristo, onde
culmina o amor numa eficácia da Redenção. Pedir-Te-ei demasiado, Senhor, se o
sofrimento que me espera for mais que mera aceitação, tornando-se entrega
voluntária como a Tua, em holocausto pela salvação do mundo? … Tu conheces a
minha fragilidade e como preciso do Teu perdão; penetras também a minha ânsia
de ser contigo “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Aceita, Pai, a
minha entrega  e dá-me a força do Teu
Espírito para que habite em mim a fortaleza de Cristo” (25/09/85).

3. Atesta o Pe. Manuel
Morujão, Superior da Comunidade jesuíta na Faculdade de Filosofia de Braga, de
que o Pe. Júlio Fragata era membro:

“Das ideias que mais freqüentemente
lhe ouvi repetir nos seus últimos meses, era o sublinhar insistente que a sua
partida para a Casa do Pai ia ser um bem para nós, que por nós iria interceder
junto de Deus, que de lá nos poderia ser mais útil e fazer maior bem. Poucos
meses antes da sua partida, conversávamos à mesa sobre qual seria a nossa
ocupação na eternidade. De súbito nos interrompeu, com voz de quem conhece a
verdade por dentro: – No céu, ama-se! O descanso eterno é sumamente ativo em
amor, em Deus-Amor.

Demos a palavra ao Pe.
Fragata através desta página do seu “Diário Espiritual”:

“Tenho recebido tantas
visitas, telefonemas, cartas, mostras de dedicação e carinho por parte de médicos,
pessoas que me tratam (…), que não sei como demonstrar o meu reconhecimento (….)

Bem sei que tudo é graça Tua
e que Tu és Aquele que compensa todo o bem que se faz. Julgo que me prometeste
compensar todas as atenções para comigo nesta doença, dum modo muito
singularmente especial, como se elas fossem dirigidas diretamente a Ti.
Obrigado! Mas também sei que assim como neste mundo toda a dedicação deve ser
reconhecida por aquele que a recebe, no outro mundo Tu me darás possibilidades
misteriosas, mas eficazes e reais, de poder mostrar este reconhecimento. Julgo
que isto é uma consequência necessária da nossa unidade em Ti, em comunhão de
Santos.

Momentos depois tive a
convicção de que o Senhor me atendia este desejo e que faria com que, do Céu,
fizesse muito bem em união com Cristo. Também senti que Ele estará comigo até a
morte dando-me grande fortaleza.

Acredito, Senhor, nas
surpresas do Teu Amor, mesmo quando estas são dolorosas. Entrego-me à Tua
vontade, que quero fazer minha” (05/10/1985).

O Pe. Fragata partiu para
chegar mais até nós. Separou-se de nós para se tornar mais próximo nosso.
Perdeu a vida para a ganhar mais em plenitude (…) Mais
perto de Deus, mais perto de nós. Partiu com um propósito: fazer maior bem.
Quem está em Deus, não pode deixar de cumprir!”

(Passagens extraídas de
COMMUNIO, edição portuguesa, janeiro/fevereiro 1986, pp. 87-89).

Eis um dos mais belos
comentários de quanto foi dito sobre a comunhão e a intercessão dos Santos. O
Pe. Júlio Fragata S. J. teve consciência destas realidades transcendentais e
quis vivê-las plenamente; elas o ajudaram a considerar a “morte” com um olhar
diferente, profundamente cristão; ele sabia que não se tornaria estranho a seus
irmãos peregrinos na terra, mas exerceria viva solidariedade com eles!

 

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¹ Diz a propósito a Bíblia
de Jerusalém em nota de rodapé a 2Mc 15, 14: “Esse papel conferido a Jeremias e
a Onias é a primeira atestação da crença numa oração dos justos falecidos em
favor dos vivos”.

¹ Canonizar é inserir no cânon
ou catálogo dos Santos.

¹ “Cum oratio pro aliis
facta ex caritate proveniat… quanto sancti Qui sunt in patria sunt
perfectioris caritatis, tanto magis orant pro viatoribus, Qui orationibus
adiuvari possunt”.

¹ Leibnizens System der
Theologie. Nach dem Manuskripte von Hannover ins Deutsche übersetzt von R. Räss
und Dr. Weis. Mogúncia, 3.ª edição 1825, p. 158.

  

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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