O cuidado devido aos mortos – Santo Agostinho (Parte 3)

(33)Virgílio,
“Eneida” VI,337.

CAPÍTULO XIII

Por que não podemos atribuir
a anjos essas operações permitidas pela Providência Divina, que sabe se servir
sabiamente dos bons e dos maus, conforme a inescrutável profundidade de seus
julgamentos? Essas visões podem servir tanto para instruir quanto para enganar
os vivos, para consolá-los ou assustá-los, sendo cada um tratado com
misericórdia ou com rigor por aquele que a Igreja não celebra em vão “a
misericórdia e a justiça”34.

Entenda como quiser isto que
vou falar agora: se acaso os mortos intervissem nos problemas dos vivos,
aparecendo-nos e falando-nos durante o sono, a minha piedosa mãe (para não
falar de outras pessoas) não me abandonaria uma noite sequer, pois ela sempre
me seguiu por terra e mar, sempre partilhou comigo a sua vida. Para mim é
difícil crer que uma vida mais feliz a tornou indiferente para comigo, a ponto
de não mais me consolar nas tristezas, justo eu que fui seu grande amor e a
quem ela jamais quis ver triste!

Certamente as palavras do
Salmo são verdadeiras: “Meu pai e minha mãe me abandonaram, mas o Senhor
me acolheu”35.

Ora, se os nossos pais nos
abandonaram, como podem eles se interessarem por nossos problemas? E se ficam
indiferentes, que outros mortos poderiam se inquietar pelo que fazemos ou
sofremos? Assim declara o profeta Isaías: “Porque tu é que és o nosso Pai.
Abraão não nos conheceu, nem Israel soube de nós”36.

Se os grandes patriarcas
desconheceram o destino do povo do qual eram a fonte e cuja raça saiu como
fruto de sua fé em Deus, como seria possível aos mortos intervir, para conhecer
e proteger nos negócios e empreendimentos dos vivos? E como poderíamos declarar
bem-aventurados os santos que morreram antes das nossas infelicidades se eles
continuassem sensíveis às desolações da vida humana? Acaso não estaríamos
enganados se disséssemos que eles se encontram em um lugar de absoluta
tranquilidade se porventura eles se inquietassem com a atormentada existência
dos vivos? O que significaria, então, esta promessa feita por Deus em benefício
do piedoso rei Josias, de que ele morreria antes dos males que estavam para se
abater sobre sua nação e seu povo, para que não sentisse tristeza de ver tal
tragédia? Eis a Palavra de Deus: “Direis ao rei de Judá que vos enviou a
consultar o Senhor: ‘Eis o que diz o Senhor Deus de Israel: como ouviste as
palavras do livros e o teu coração se atemorizou a ponto de te humilhares
diante do Senhor, após ouvir as palavras contra esta terra e seus habitantes,
que virão a ser objeto de espanto e reprovação, e também por rasgardes as
vestes e chorardes diante de Mim, eu te escutei – diz o Senhor – e por isso te
farei descansar com teus pais e sereis sepultado em paz, para que teus olhos
não vejam o mal que farei cair sobre esta terra”37.

Aterrorizado por essas
ameaças de Deus, Josias chorou e rasgou suas vestes, mas a certeza de que sua
morte precederia as desgraças que estavam por vir, bem como a certeza de que
fora chamado a gozar a paz no repouso, sem ter que ver aqueles males,
devolveram-lhe a serenidade da alma.

Portanto, as almas dos
mortos encontram-se em um lugar onde não podem ver o que se passa ou acontece
aos homens da terra. E como poderiam partilhar das misérias dos vivos se estão
a suportar as próprias penas, caso as tenham merecido, ou estão em paz
repousando, como foi prometido a Josias? Aí não sofrem nem por si, nem por
outros, pois se livraram de todas as penas por suportarem a dor pessoal e a
compaixão por outrem quando viviam sobre a terra.

CAPÍTULO XIV

Alguém me dirá por objeção:
se os mortos não se interessam pelos vivos então porque aquele rico que passava
tormentos no Inferno suplicou a Abraão para que enviasse Lázaro a seus cinco
irmãos vivos, para convencê-los a mudar de vida e, assim, evitarem aquele lugar
de sofrimentos?38. Será que é possivel deduzir dessa passagem que ele sabia o
que seus irmãos faziam ou sofriam nesse tempo? Estava ele preocupado com os
vivos, sem saber o que faziam, da mesma forma como nos preocupamos com os
mortos, sem sabermos o que fazem? Na verdade, se não nos interessássemos por
eles, também não oraríamos na intenção deles. Aliás, Abraão não enviou Lázaro à
terra, mas respondeu ao condenado que seus irmãos tinham Moisés e os profetas;
deveriam ouvi-los se desejassem escapara daqueles suplícios…

Neste ponto, pode-se
novamente objetar: “como poderia Abraão ignorar o que se passava sobre a
terra, já que sabia viver Moisés e os profetas, isto é, seus escritos, e que,
seguindo-os, escapariam dos tormentos do Inferno? Ele não sabia também que o
rico havia gozado as delícias e que o pobre Lázaro vivera na miséria e no
sofrimento, pois disse: ‘Filho, lembra-te de que recebeste teus bens em vida e
Lázaro, por sua vez, os males’39? Logo, Abraão conhecia os fatos referentes aos
vivos e não aos mortos”. É certo, mas esses fatos ele podia não ter
conhecimento no momento em que ocorreram, mas após o falecimento dos dois e sob
as indicações do próprio Lázaro. Desse modo, a palavra do profeta não está
desmentida: “Abraão não nos conheceu”40.

CAPÍTULO XV

Convenhamos que os mortos
ignoram o que acontece na terra, pelo menos no momento em que ocorrem. Pode vir
a conhecer mais tarde, por intermédio daqueles que vão ao seu encontro, uma vez
falecidos. Certamente, não ficam sabendo de tudo, mas apenas aquilo que lhe for
autorizado saber e que têm necessidade de saber.

Os anjos, que velam sobre as
coisas deste mundo, também podem lhes revelar alguns pontos que julguem
convenientes a cada um, por Aquele que tudo governa, pois se os anjos não
tivessem o poder de estarem presentes tanto na morada dos vivos quanto na dos
mortos, o próprio Senhor Jesus não teria dito: “Aconteceu que o pobre
[Lázaro] morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão”41. Eles estão,
assim, ora na terra, ora no céu, já que foi da terra que levaram aquele homem
que Deus os confiou.

As almas dos mortos também
podem conhecer alguns acontecimentos aqui da terra por revelação do Espírito
Santo, acontecimentos estes cujo conhecimento seja necessário. E isto não se
restringe somente a fatos passados ou presentes, mas também futuros. É assim
que os homens – não todos, mas apenas os profetas – conheceram durante sua vida
mortal, não todas as coisas, mas apenas aquelas que a Providência Divina
julgava bom lhes revelar.

A Sagrada Escritura
atesta-nos que alguns mortos foram enviados a certas pessoas vivas e, da mesma
forma, algumas pessoas foram até a morada dos mortos: Paulo foi arrebatado até
o Paraíso (42); e o profeta Samuel, após sua morte, apareceu a Saul, ainda vivo, e
lhe predisse o futuro (43). É bem verdade que alguns não admitem que tenha sido
Samuel que apareceu, já que sua alma não acatava a tais procedimentos mágicos,
como dizem. Julgam, assim, que foi outro espírito que se submete a essa arte
maléfica que se revestiu de uma imagem semelhante a dele. Mas o livro do
Eclesiástico, atribuído a Jesus, filho de Sirac – cujas semelhanças de estilo
poderiam ser do próprio Salomão -, relata-nos um elogio aos Patriarcas onde
afirma que “Samuel profetizou mesmo depois de morrer”44, e isto não
poderia se referir a outra coisa a não ser essa aparição do defunto Samuel a
Saul. Alguém poderia discutir a autoridade desse livro, sob o pretexto de que
não se encontra no cânon dos hebreus, mas existe um outro texto que nos convida
a admitir esse envio de mortos aos vivos: trata-se da passagem das aparições de
Moisés e Elias no [monte] Tabor. O que dizer de Moisés, cujo livro do
Deuteronômio nos certifica da sua morte (45), aparecendo vivo ao lado de Elias –
que não morreu – como lemos no Evangelho?(46)

CAPÍTULO XVI

Tudo o que foi escrito até
agora serve para resolvermos esta questão: como os mártires que se interessam
pelas coisas humanas se manifestam, atendendo as nossas orações, uma vez que os
mortos ignoram o que fazem os vivos?

Com efeito, sabemos, não por
vagos rumores, mas por testemunhas dignas de fé, que o confessor Félix – cujo
túmulo tu veneras piedosamente como santo asilo – deu não apenas mostras de
seus benefícios, mas até de sua presença, ao aparecer aos olhos dos homens
durante o cerco da cidade de Nola pelos bárbaros.

Esses fatos excepcionais
acontecem graças à permissão divina e estão longe de entrar na ordem
normalmente estabelecida para cada espécie de criatura. Não podemos concluir
pelo fato da água ter se transformado em vinho pela palavra do Senhor (47), que a
água tenha poder de operar por si mesma essa transformação pela propriedade
natural de seus elementos, visto que tratou-se de uma operação divina
excepcional e até única! Também o fato de Lázaro ter ressuscitado48 não
significa que todo morto possa se levantar quando quiser ou que possa ser
normalmente acordado como qualquer homem adormecido. Uns são os limites do
poder humano; outras são as marcas do poder divino. Uns são fatos naturais;
outros, miraculosos, ainda que Deus esteja presente na natureza para a manter
na existência e a natureza tenha seu lugar inclusive para os milagres.

Assim, é necessário não crer
que todos os defuntos – sem excessão – podem intervir nos problemas dos vivos
apenas pelo fato de que os mártires tenham obtido curas ou prestado outros
socorros. É preciso compreender, ao invés, que é por causa do poder de Deus que
os mártires intervêem nos nossos interesses, pois os mortos não possuem tal
poder por sua própria natureza.

Há, porém, uma questão que
ultrapassa os limites da minha inteligência: como os mártires, que sem sombra
de dúvida socorrem seus devotos, aparecem (… ), em pessoa e no mesmo momento? em
vários lugares e afastados uns dos outros? sua ação se faz notar apenas onde se
encontra o seu túmulo ou em qualquer outro lugar? se permanecem confinados na
morada reservada a seus méritos, longe de qualquer relacionamento com os
mortais, contentam-se em interceder pelas necessidades daqueles que lhes
suplicam? oram da mesma forma que nós oramos pelos mortos, sem estar presentes
e sem saber onde estão e o que fazem?

Não será Deus, o Deus
onipotente e onipresente, que não se acha confinado em nós e muito menos
afastado de nós, que atende as orações dos mártires, servindo do ministério dos
anjos, cuja ação se estende sobre todas as coisas, para distribuir o consolo
aos homens que Ele julga ser necessário para enfrentar as misérias da vida
presente? Não será Ele que, com poder admirável e infinita bondade, faz
resplandecer os méritos dos mártires onde Ele o quer, quando quer, como quer,
especialmente nos locais onde se ergueram suas sepulturas, por saber que a
lembrança dos sofrimentos suportados em confissão a Cristo, nos é útil para nos
confirmar na fé?

Repito: esta é uma questão
muito elevada e complexa para mim, de forma que não a posso explicá-la a
fundo… Dessas duas hipóteses que indiquei, qual será a verdadeira? Talvez os
dois processos sejam empregados em conjunto, de maneira que, às vezes, os
mártires nos atendem com sua presença pessoal, e, às vezes, por intermédio dos
anjos que tomam a sua forma. Não ouso decidir e preferiria esclarecer-me junto
a homens sábios que conheçam o assunto. Não digo que ignore ou imagine que
saiba pois é impossível que não haja alguém que saiba porque Deus, em suas
liberalidades, concede certos dons a alguns e outros dons a outros, conforme o
ensino do Apóstolo que diz que a ação do Espírito Santo manifesta-se em cada um
de acordo com uma utilidade comum. Eis o que diz Paulo:

“Cada um recebe o dom
de manifestar o Espírito para utilidade de todos. A um, o Espírito dá a
mensagem da sabedoria; a outro, a palavra da ciência segundo o mesmo Espírito;
a outro, o mesmo Espírito dá a fé; a outro, ainda, o único e mesmo Espírito
concede o dom das curas; a outro, o poder de fazer milagres; a outro, a
profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, o dom de falar em
línguas; a outro, ainda, o dom de as interpretar. Mas tudo isso é realizado
pelo único e mesmo Espírito, que distribui os seus dons a cada um conforme lhe
apraz”(49).

Ora, entre todos esses dons
elencados pelo Apóstolo, quem recebeu o dom do discernimento dos espíritos é
que conhece essas questões – que agora tratamos – da forma como é necessário
conhecer.

CAPÍTULO XVII

Creio que esse é o caso do
famoso monge João, a quem o imperador Teodósio Magno consultou a respeito de
uma guerra civil. De fato, ele possuía o dom da profecia… Mas eu não duvido
que os dons [do Espírito] sejam distribuídos um por pessoa, isto é, acho que é
possível a uma mesma pessoa receber diversos dons.

Certa vez, esse monge João
soube que uma mulher muito piedosa desejava vê-lo. Então, através de seu
marido, ela insistiu em marcar uma entrevista, mas ele recusou, como costumava
a fazer quando se tratava de mulheres. Contudo, disse ao marido: “Ide e
dize à tua esposa que ela me verá esta noite durante o sono”. E, de fato,
ela o viu dando-lhe conselhos convenientes a uma mulher cristã casada. Quando
acordou, essa mulher contou tudo a seu marido, que conhecera pessoalmente esse
homem de Deus e o reconheceu tal como ela o descreveu. O casal, então, revelou
esse fato a um senhor que me comunicou, senhor esse sério, nobre e digno de fé.

Ora, se me fosse possível
encontrar esse santo monge que, como me disseram, se deixava interrogar
pacientemente, sabendo responder tudo com grande sabedoria, perguntar-lhe-ia
algo que nos interessa aqui: se ele realmente se apresentou a essa mulher que
dormia, pessoalmente, sob os traços aparentes do seu corpo, tal como os nossos
corpos se apresentam a nós mesmos durante nossos sonhos; ou se a visão ocorreu
pelo ministério dos anjos ou outra modalidade, enquanto ele mesmo fazia outra
coisa ou até mesmo dormia, tendo seus próprios sonhos… E, caso confirmasse
esta segunda hipótese, perguntar-lhe-ia se foi por uma revelação do Espírito de
profecia que pôde prometer sua aparição naquela noite, durante o sonho da
mulher.

Ora, se ele se apresentou
pessoalmente em sonho à mulher, ele o fez por uma graça extraordinária e não
por meios naturais, isto é, por um dom de Deus e não por seu próprio e natural
poder. Mas, se essa mulher o viu enquanto ele fazia uma outra coisa (por
exemplo: estivesse ele dormindo e tendo seus próprios sonhos), o fato se
assemelhará ao que lemos nos Atos dos Apóstolos, quando o Senhor Jesus, falando
a Ananias sobre Saulo, revela-lhe que Saulo vê Ananias ir até ele, ao passo que
este nada sabia sobre isso (50).

Porém, qualquer que fosse a
resposta dada pelo monge João, esse homem de Deus, às minhas perguntais, eu
ainda o teria questionado sobre os mártires. Perguntar-lhe-ia se eles aparecem
pessoalmente durante o sono ou outro modo, sob figura que lhes apraz. E
perguntaria, principalmente, como explicar o fato de dêmonios que habitam
pessoas possessas queixarem-se de ser atormentados pelos mártires, a ponto de
suplicarem que sejam poupados. Ainda lhe perguntaria se a sua intervenção se
produz por ordem de Deus e pelo ministério dos anjos, para a glorificação dos
santos e utilidade dos homens, já que os mártires encontram-se em repouso,
longe de nós, em visões mais altas, contentando-se em orar por nossa intenção.
De fato, em Milão, junto à sepultura de Gervásio e Protásio, quando se
pronunciava os nomes desses heróis e dos falecidos comemorados com eles, os
demônios gritavam o nome de Ambrósio, que ainda era vivo, suplicando-lhe que os
poupasse. E o bispo encontrava-se longe dali, ignorando o que se passava e
entretido com outras ocupações (…).

Será que podemos pensar que
os mártires às vezes agem por presença efetiva e outras vezes pelos ministérios
dos anjos? Podemos discernir o modo empregado por eles? Sob quais sinais
podemos reconhecer isso? Somente quem recebeu esse dom do Espírito Santo é que
pode discernir, pois é o Espírito que distribui os favores particulares a cada
um, conforme lhe apraz.

Creio que o monge João, a
meu pedido, poderia me esclarecer sobre essas dificuldades. Em sua escola eu
poderia aprender o verdadeiro e correto conhecimento, ou até mesmo poderia crer
– mesmo sem o compreender – naquilo que me afirmasse saber com certeza. Talvez
até ele me responderia com as seguintes palavras da Escritura:

“Não procures saber o
que excede a tua capacidade e não especules o que ultrapassa as tuas forças;
mas creia sempre no que Deus te mandou” (51).

Com gratidão, eu também
acolheria esse conselho, pois não é de pouco proveito, nas coisas obscuras e
incertas – e que não podemos compreender, adquirir a convicção clara e correta
de que elas não devem ser investigadas, ou seja, convencer-se de que não é
nocivo ignorar aquilo que se quer saber, imaginando que poderíamos tirar
proveito em o saber.

34cf. Sl 100,1.
35cf. Sl 26,10.
36cf. Is 63,16.
37cf. 2Rs 22,18-20.
38cf. Lc 16,27.
39cf. Lc 16,25.
40v. nota 36.
41cf. Lc 16,22.
42cf. 2Cor 12,2.
43cf. 1Sm 28,15-19.
44cf. Eclo 46,23.
45cf. Dt 34,5.
46cf. Mt 17,3.
47cf. Jo 2,9.
48cf. Jo 11,44.
49cf. 1Cor 12,7-11.
50cf. At 9,12.
51cf. Eclo 3,22.

CAPÍTULO XVIII

Conforme o que expomos
anteriormente, eis o que devemos pensar a respeito dos benefícios prestados aos
mortos a quem dedicamos os nossos cuidados: nossas súplicas só lhes serão
proveitosas se forem oferecidas de modo conveniente, no sacrifício do altar, em
nossas orações e esmolas. Também é necessário dizer que [nossas súplicas] não
serão proveitosas a todos a quem pretendemos ajudas, mas tão somente àqueles
que tornaram-se dignos, durante a vida, de receber tal benefício. Contudo, como
não podemos discernir quem sejam, convém apresentar súplicas a todos os
regenerados, para que não omitemos alguém entre aqueles que possam se servir
desses benefícios. Melhor ainda é que haja sobras dessas boas obras, mesmo
oferecidas para aqueles que não podem se beneficiar delas, para que não venham
a faltar para aqueles que podem tirar proveito. Entretanto, é mais natural que
sejam oferecidas pelos amigos, a fim de que tais cuidados também sejam
prestados mais tarde à nós.

Tudo o que se faz quanto ao
sepultamento digno dos falecidos não é para obter a sua salvação, mas para
cumprir um dever de humanidade, conforme o sentimento natural de que
“ninguém odeia a sua própria carne”52. Portanto, é certo que se tenha
pelo corpo do próximo o cuidado que ele próprio não pode mais se dar por ter
deixado esta vida. E, já que esse cuidado é tido até mesmo por aqueles que
negam a ressurreição da carne, nada mais justo que aqueles que crêem [na
ressurreição] o façam ainda com maior solicitude. Assim, que o cuidado
tributado a esse corpo sem vida – mas que haverá de ressuscitar e permanecer
por toda a eternidade – se constitua no testemunho claro dessa mesma fé.

Quanto à sepultura próxima
ao túmulo dos mártires, eis a única utilidade que me parece trazer para o
defunto: colocando-a sob a proteção dos mártires, ela torna mais viva a
caridade daqueles que oram por ele.

Tais são as respostas que
posso apresentar às tuas questões. Desculpa-me se me estendi por demais, mas
isso decorre do prazer e afeição que sinto ao conversar contigo. Peço-te que me
escrevas, para que eu possa conhecer as impressões que Vossa Venerável Caridade
sentiu ao ler este trabalho.

Sem sombra de dúvida, o
portador desta carta torna-la-á mais agradável. Trata-se do nosso irmão no
sacerdócio, Candidiano, que conheci por ter-me trazido as tuas cartas. Acolhi-o
de corações e vejo-o partir com pesar, pois sua presença na caridade de Cristo
foi grande consolo para mim. Graças à sua insistência – devo confessar – vi-me
obrigado a responder-te, pois o meu coração está sobrecarregado por muitas e
muitas preocupações; se ele não me lembrasse frequentemente, certamente teria
me esquecido e o teu pedido ficaria sem resposta.

52cf. Ef 5,29.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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