O cuidado devido aos mortos – Santo Agostinho (Parte 2)

CAPÍTULO VI

Lemos na “História
Eclesiástica” de Eusébio, escrita em grego e traduzida para o latim por
Rufino, o seguinte acontecimento: na Gália, os corpos dos mártires de Lião
foram atirados aos cães. A carne e os ossos que restaram foram reduzidos a
cinzas, até a última parcela, e foram jogadas finalmente no rio Ródano, para
que não sobrasse nada de sua memória.

Ora, devemos crer que se
Deus permitiu tal destruição é para demonstrar aos cristãos que, ao confessarem
a Cristo, desprezando esta vida, os mártires devem desprezar ainda mais a
sepultura, pois se a detestável crueldade com que foram tratados os corpos
desses mártires pudesse afastar do bem-aventurado repouso a alma vitoriosa,
Deus certamente não o teria permitido. Está bem claro o que o Senhor afirmou:
“Não temais os que matam o corpo e depois nada mais podem fazer”21.
Isso não significa que os perseguidores perderiam o poder sobre o corpo dos
fiéis após a morte, mas ainda que detivessem tal poder, nada mais podiam fazer
para diminuir a felicidade das suas vítimas, pois já não podiam atingir a vida
consciente delas no além-túmulo e também não podiam danificar mais os próprios
corpos, do ponto de vista da integridade da sua ressurreição.

1cf. 2Cor 5,10.
2cf. 2Mc 12,43.
3Virgílio, “Eneida” VI,327-328: “Nec ripas datur horrendas, nec
rauca fluenta transportare prius quam sedibus ossa quierunt”.
4cf. Mt 10,30.
5cf. Lc 12,4.
6cf. Sto. Agostinho, “A Cidade de Deus” I,12-13.
7cf. Lc 21,18.
8cf. Mt 10,28.
9cf. Sl 78,2-3.
10cf. Sl 115,15.
11v. Lc 16,22.
12Lucano, “Farsália”,VIII: “Coelis tegitur, qui non habet
urnam”.
13cf. 1Cor 15,52.
14cf. Gn 25,9; 35,29; 47,30; 50,2.13.
15cf. Tb 2,9; 12,12.
16cf. Mt 26,10-13.
17cf. Jo 19,38-42.
18Sto. Agostinho, “A Cidade de Deus” I,12-13.
19Clara menção à Missa de Finados.
20Através da ressurrreição.
21Lc 12,4.

CAPÍTULO VII

Existe no coração humano um
sentimento natural que não permite ninguém detestar sua própria carne21. Assim,
se alguém vem a saber que, após sua morte, seu corpo não receberá as honras de
sepultura, conforme o costume da cada raça e nação, sente-se perturbado como
homem. Teme que seu corpo, antes da morte, não atinja o destino pretendido após
a morte.

É isto que lemos no livro
dos Reis22, quando Deus envia um profeta a outro profeta (um homem de Deus) que
havia transgredido a Sua Palavra, para anunciar-lhe que seu corpo, como
castigo, não seria levado à sepultura de seus pais. Eis o que diz as
Escrituras: “Aquele profeta disse ao homem de Deus que tinha vindo de
Judá: ‘Eis o que diz o Senhor: porque não obedeceste à Palvra do Senhor e não
guardaste o mandamento que o Senhor, teu Deus, havia te imposto, voltando e
comendo pão e tomando água, o teu cadáver não será levado ao sepulcro de teus
pais'”.

Medindo a importância desta
punição em relação ao Evangelho – onde está escrito que, estando morto o corpo,
os membros nada devem temer – não podemos dizer que isso tenha sido uma
punição, exceto se considerarmos o amor que todo homem tem por sua própria
carne: o profeta, em vida, com certeza sentiu temor e tristeza com a idéia de
um tratamento que não poderia sentir após a morte. E era justamente essa a sua
punição; esse sentimento de dor diante da idéia do que sofreria o seu corpo,
ainda que, de fato, não viesse a sofrer em absoluto no momento em que a ameaça
se concretizasse.

Ora, o Senhor quis apenas
punir a desobediência do seu servo, não por má vontade, mas por ter sido
enganado pela mentira de um outro profeta. Não se pode pensar que a mordida da
fera selvagem o tenha matado para que a sua alma fosse lançada no Inferno, pois
o mesmo leão que o agredira montou guarda de seu corpo, sem fazer mal algum ao
jumento que assistia destemidamente ao funeral do seu dono, ao lado da terrível
fera. Esse fato notável é sinal de ter sofrido o profeta tal morte como castigo
temporal e não como punição eterna.

O Apóstolo lembra que muitos
são punidos com doença ou morte por causa de seus pecados, fazendo esta
observação: “Se nos examinássemos a nós mesmos, não seríamos julgados; mas
com seus julgamentos, o Senhor nos corrige, para que não sejamos condenados com
o mundo”23.

O velho profeta, que
enganara o homem de Deus, sepultou-o com muita honra e tomou os procedimentos
necessários para que, mais tarde, ele mesmo fosse sepultado junto a aquele.
Esperava que aqueles ossos encontrariam graça quando chegasse o tempo em que,
conforme a profecia do homem de Deus, Josias, rei de Judá, exumaria os ossos de
muitos mortos para profanar com eles os altares sacrílegos erguidos aos ídolos.
Contudo, passados mais de 300 anos, Josias poupou o sepulcro onde havia sido
enterrado o homem de Deus que predissera esse fato. E, assim, graças a esse
homem de Deus, a sepultura do profeta que o enganara não foi violada.

O efeito que leva alguém a
odiar a própria carne24, o havia feito prever o destino do seu corpo, mesmo
tendo matado sua alma por uma mentira. Cada um ama sua própria carne por
instinto. Assim, um profeta sofreu à idéia de que não iria repousar no sepulcro
de seus pais e o outro tomou o cuidado de prover à segurança de seus ossos,
fazendo-se enterrar em sepulcro que ninguém haveria de violar.

CAPÍTULO VIII

Porém, os mártires venceram
esse apêgo ao próprio corpo, em sua luta pela verdade. Não é de surpreender que
tenham desprezado as honras reservadas aos seus despojos. Só estariam
insensíveis a elas após a morte, pois enquanto viviam e tinham sensibilidade,
não se deixaram vencer pelo suplício.

O Senhor não permitiu ao
leão tocar no cadáver daquele homem de Deus, morto por essa mesma fera
assassina que logo depois se tornou seu guardião25. Do mesmo modo, Deus
poderia, se quisesse, ter afastado os cadáveres de seus fiéis dos cães aos
quais foram jogados. Ele poderia, de mil maneiras, dominar a crueldade dos
carrascos, impedindo-os de queimar aqueles corpos e dispersar suas cinzas.
Porém, foi necessário que essa provação se acrescentasse ainda à múltipla
diversidade das tribulações, a fim de que a firmeza da ferocidade da
perseguição, armada contra o corpo deles, não temesse diante da privação das
honras fúnebres do sepultamento.

Em outras palavras: era
necessário que a fé na ressurreição não fosse abalada pela destruição do corpo.
Logo, todas essas provações foram permitidas para que os mártires, após
demonstrarem tão grande coragem nos sofrimentos, se tornassem ainda mais
fervorosos para confessar a Cristo, tornando-se testemunhas também desta
verdade: os que matam o corpo, nada mais podem fazer26. Qualquer que seja o
tratamento imposto aos corpos sem vida, em nenhum efeito resultará pois sendo o
corpo desprovido de vida, que se separou dele, nada mais pode sentir. E aquele
que o criou nada pode perder.

Mas enquanto tratavam com
tanta crueldade os corpos das vítimas – e os mártires suportavam com grande
coragem tais tormentos – entre os irmãos erguia-se grande lamentação. Estavam
aflitos por não terem a liberdade para prestar os deveres fúnebres aos santos,
como é de justiça. A vigilância dos guarda proibia-os de subtrair às escondidas
algum resto mortal desses mártires, como nos atesta a mesma História27.

Após sua morte, os mártires
não padeciam mais nenhum sofrimento, nem mesmo do esfacelamento dos seus
membros, nem das chamas que transformaram em cinzas os seus ossos, e nem da
dispersão destas cinzas. Mas os cristãos eram atormentados por grande dor e
piedade por não poderem sepultar a mínima porção de suas relíquias. Eles
sentiam em sua misericordiosa compaixão todos os sofrimentos que aqueles mortos
não mais podiam experimentar.

CAPÍTULO IX

Foi graças a esse sentimento
de misericordiosa compaixão, que acabo de citar, que o rei Davi louvou e
bendisse aqueles que caridosamente forneceram uma sepultura aos ossos secos de
Saul e Jônatas28.

Mas que tipo de caridade se
pode testemunhar para com aqueles que nada mais sentem? Seria, por acaso,
retornar àquela concepção de que os falecidos privados da sepultura não podem
cruzar o rio do Hades29? Rejeitamos essa idéia contrária à fé cristã! De outra
maneira, teríamos que considerar que o pior castigo imposto aos mártires fora
justamente o fato de terem sido privados da sepultura e, nesse caso, a Verdade
os teria enganado ao dizer: “Não temais aqueles que matam o corpo e depois
disso nada mais podem fazer”30, pois seus perseguidores teriam conseguido
impedir-lhes de chegar à morada tão desejada.

Isso tudo é de uma falsidade
evidente: os fiéis nada sofrem por estarem privados da sepultura da mesma forma
como os infiéis nada aproveitam por a receberem.

Perguntemo-nos, então, por
que aqueles que enterraram Saul e seu filho Jônatas foram louvados, por
executarem uma obra de misericórdia, e abençoados pelo piedoso rei Davi31…

Ocorre que os corações
piedosos obedecem a uma boa inspiração quando, levados pelo sentimento de que
“ninguém odeia a própria carne”32, sofrem ao verem os cadáveres dos
outros receberem maus cuidados, pois não gostariam que seu próprio corpo sem
vida recebessem tal tratamento. E o que desejam que lhes proporcionem quando
não mais existirem, cuidam de proporcionar aos que já não existem, enquanto
eles mesmos ainda gozam dos sentidos.

21cf. Ef 5,29.
22cf. 1Rs 13,21-22.
23cf. 1Cor 11,31-32.
24v. nota 21.
25cf. 1Rs 13,24.
26cf. Lc 12,4.
27Eusébio de Cesaréia, “História Eclesiástica” V,1,61.
28cf. 2Sm 2,4-6.
29Virgílio, “Eneida” VI.
30v. nota 26.
31v. nota 28.
32v. nota 21.

CAPÍTULO X

Também nos são relatadas
várias aparições, que não podemos neglengenciar de abordar na presente
dissertação.

Fala-se que certos falecidos
manifestaram-se a pessoas vivas durante o sono ou através de outro modo. E à
essas pessoas, que ignoravam o lugar onde jazia os cadáveres insepultos, os
mortos indicavam os lugares e pediam para que lhes providenciasse a sepultura
da qual foram privados.

Dizer que tais visões são
falsas parece-nos afrontar e contradizer testemunhos escritos de alguns autores
cristãos, bem como a íntima convicção que têm as pessoas que testemunharam tais
fatos. Eis, portanto, a resposta mais sensata: não é necessário pensar que os
falecidos agem na realidade, quando parecem dizer, indicar ou pedir em sonho
aquilo que nos é relatado, pois muitas vezes as pessoas vivas também aparecem
em sonhos, sem disso terem consciência. E será dessas mesmas pessoas a quem
apareceram nos sonhos que saberemos terem dito ou feito tal ou tal coisa
durante a visão… Portanto, alguém pode me ver, durante o sonho, anunciando
certo acontecimento passado ou predizendo um fato futuro, sendo que eu mesmo
ignore totalmente a coisa, sem poder questionar o próprio sonho que o outro
teve, ou se ele estava acordado enquanto eu dormia, ou se ele dormia enquanto
eu estava acordado, ou se nós dois estávamos dormindo ou acordados ao mesmo tempo
ao ter ele o sonho em que me via.

Logo, o que há de estranho
nos vivos verem os mortos em sonhos, que nada sabem ou sentem, dizendo certas
coisas que, ao acordarem, percebem que são verdadeiras? Eu estou mais inclinado
a crer na mediação dos anjos, que receberiam do alto a permissão ou a ordem de
se manifestarem em sonhos para indicar os corpos a serem enterrados, sendo que
aqueles que viveram nesses corpos tudo ignoram a esse respeito.

Essas aparições podem ter
sua utilidade, seja para o consolo dos vivos – que vêem a imagem dos seus
falecidos queridos – seja para recordar aos homens o dever de humanidade que é
o sepultamento dos falecidos. Isso não traz auxílio para os mortos, mas a sua
negligência poderia ser classificada de impiedade culposa.

Algumas vezes ocorrem visões
que levam a cometer erros grosseiros aqueles que as tiveram. Imaginemos alguém
que teve o mesmo sonho que Enéas33… O poeta afirma ter visto no Inferno, em
visão poética e falaciosa, a imagem de um morto que não fora sepultado e põe a
mensagem na boca de Palinuro; e quando Enéas acorda, procura e encontra o corpo
do defunto no exato lugar em que jazia, como soubera pelo aviso que teve no
sonho, e o sepulta conforme o pedido que recebera no mesmo sonho. Como a
realidade era igual à que teve no sonho, passou a crer que é necessário sempre
enterrar os mortos para que seja permitido às almas atingirem a sua última
morada. Sonhou, assim, que as leis do Inferno nos impedem de entrar na morada
eterna enquanto os nossos corpos não recebem uma sepultura. Ora, se algum homem
adotar tal crença, não estará ele se afastando demais do caminho da Verdade?

CAPÍTULO XI

O homem é tão fraco que crê
que viu a alma de alguém caso este morto lhe apareça em sonho. Mas se sonha com
uma pessoa viva, fica-se demonstrado que não viu nem o corpo nem a alma dela,
mas somente a sua imagem, como se os mortos não pudessem aparecer do mesmo modo
que os vivos, sob a forma de imagens semelhantes.

Eis a narração de um fato
que ouvi em Milão: certo credor reclamava o pagamento de um dívida e exibia a
cautela assinada por um senhor recém-falecido ao seu filho, que ignorava que o
pai havia efetuado o pagamento do empréstimo [antes de falecer]. O jovem, muito
aborrecido, estranhava o fato de seu pai não ter-lhe falado nada sobre a
existência dessa dívida, embora o testamento tenha sido feito. Em sua extrema
angústia, eis que vê o seu pai aparecer-lhe em sonho indicando o lugar onde se
encontrava o recibo que anulava a cautela; ao encontrar o recibo, mostrou-o ao
credor e anulou a reclamação mentirosa, recuperando o documento assinado que
não fora devolvido a seu pai quando do pagamento da dívida.

Eis aí um fato em que se
supõe que a alma do defunto tenha se preocupado com o seu filho, vindo a seu
encontro enquanto dormia, para avisar-lhe o que este ignorava, livrando-o de
uma séria preocupação.

Praticamente na mesma época
em que me contaram esse fato, enquanto eu ainda residia em Milão, aconteceu a
Eulógio, ótimo professor de Cartago e meu discípulo nessa arte, como ele mesmo
me recordou, o seguinte acontecimento (que ele próprio me narrou quando
retornei à África): ele estava fazendo um curso sobre as obras de Cícero e
preparava uma lição sobre certa passagem obscura que não conseguia compreender.
Tal preocupação não o deixava dormir, mas eis que, de repente, eu lhe apareço
durante o sono e explico-lhe as frases que lhe eram incompreensíveis. Ora,
certamente não era eu, mas a minha imagem – sem eu o saber! Eu estava bem
longe, do outro lado do mar, ocupado com um outro trabalho ou talvez dormindo,
sem sentir qualquer tipo de preocupação com as dificuldades dele…

Como, então, se produziram
tais fenômenos? Não sei. Mas seja como for, por que razão devemos acreditar que
os mortos nos aparecem em sonhos, na mesma forma de imagem, como acontece com
os vivos? Uns e outros ignoram completamente serem objeto de aparições e também
não se preocupam em saber para quem, onde e quando aconteceram.

CAPÍTULO XII

Algumas visões, ocorridas
durante o estado de vigília, são semelhantes aos sonhos. Acontecem a pessoas
que estão com os sentimentos conturbados, como os frenéticos e os loucos de
todo gênero. Conversam consigo mesmos, como se falassem com outras pessoas
presentes ou ausentes, vivas ou falecidas, cujas imagens aparecem-lhes à frente
dos olhos. Mas os vivos não sabem que essas pessoas imaginam estar conversando
com eles, já que de fato não se encontram lá, nem falam nada. Essas visões
imaginárias surgem da perturbação dos sentidos. Do mesmo modo, aqueles que já
deixaram esta vida aparecem a pessoas que têm o cérebro perturbado, como se
estivessem presentes, sendo que, de fato, não estão lá, mas bem longe, e nem
supõem que alguém tenha percebido as suas imagens em uma visão imaginária.

Abordemos um outro fato
semelhante: existem pessoas que ficam sem o domínio dos sentidos ainda mais do
que ao dormir. Absorvidas que ficam em suas visões imaginárias, julgam ver
vivos e mortos. Ao retornar ao uso da razão, declaram os nomes dos falecidos
que viram, e as pessoas que os escutam acreditam que realmente tal fato se
verificou. Os ouvintes, contudo, não percebem que nessas mesmas visões
apareceram pessoas vivas que não estiveram lá de verdade e que sequer souberam
do ocorrido.

Isso aconteceu com um homem
chamado Curma, habitante de Tullium, município próximo a Hipona, que era membro
do Conselho Municipal, pequeno magistrado da aldeia e simples camponês. Caindo
doente, entrou em profundo estado de letargia e ficou como que morto durante
vários dias; como exalava pouquíssimo ar pelas narinas, indicando um grau
mínimo de vida, não foi sepultado; mas não mexia nenhum membro e seus olhos e
outros sentidos permaneciam insensíveis a qualquer tipo de estímulo. Mesmo
assim, tinha visões como aqueles que dormem e as contou alguns dias depois,
quando se libertou do sono. Assim disse quando abriu os olhos: “Vão
imediatamente à casa do Curma ferreiro e vejam o que está acontecendo por
lá”. Ao chegarem lá, ficaram sabendo que esse Curma havia falecido no
exato momento em que o primeiro saía do estado letárgico e retornava à vida com
sentidos. Interessados pelo ocorrido, os assistentes interrogaram-no e ele lhes
disse que o Curma ferreiro havia recebido ordem de comparecer perante Deus no
mesmo momento em que ele havia sido reenviado para este mundo. Lá, no outro
mundo que voltara, ficara sabendo que não era o Curma da Cúria Municipal que
deveria se apresentar à mansão dos mortos, mas o Curma ferreiro. Nas visões que
teve durante os sonhos, o Curma da Cúria Municipal reconheceu entre os mortos
alguns vivos que conhecera aqui, sendo tratados de acordo com os méritos que
cada um teve durante a vida.

Eu talvez acreditaria nessa
história se todas as pessoas que viu fossem realmente falecidas, isto é, se o
doente não tivesse visto em seus sonhos outras pessoas que ainda vivem, como,
por exemplo, clérigos da sua região e, entre outros, um padre que lhe disse
para se batizar em Hipona, a quem ele respondeu: “Eu já fui
batizado”. Portanto, em sua visão, ele percebera também padres, clérigos e
eu mesmo, ou seja, seres vivos. E entre estes, vira outros mortos.

Portanto, por que não
havemos de crer que ele viu esses mortos da mesma forma como viu a nós, isto é,
viu uns e outros sem que ninguém soubesse disso e estando todos eles distantes?
Pois tivera para si uma rerpresentação imaginária de pessoas e lugares; ele viu
a propriedade onde aquele padre morava com seus clérigos, viu Hipona onde eu o
tinha batizado – como alegara. Mas, de fato, ele não estivera nesses lugares
onde tinha a ilusão de ter estado; ele ignorava o que aí se fazia no momento da
visão. Se ele realmente tivesse estado ali, certamente saberia o que ali se
fazia. Portanto, foi uma espécie de visão em que os objetos não se apresentam
como são na realidade, mas sob a sombra de suas imagens.

Finalmente, esse homem ainda
contou que, na última das suas visões, ele fora levado ao Paraíso e lá lhe
disseram, antes de o devolverem aos seus: “Ide e faze-te batizar se
quiserdes um dia estar nesta morada de bem-aventurados”. Avisado de
receber o batismo de minhas mãos, ele respondeu que já o recebera, mas a voz
que lhe falava insistiu: “Ide e faze-te batizar realmente porque o teu
batismo é imaginário”. Assim, após sua cura, ele veio a Hipona próximo do
tempo da Páscoa; e fez-se inscrever na lista dos aspirantes [ao batismo], sendo
desconhecido de mim e de muitos outros. Não confiou suas visões a mim ou a
outros padres… Recebeu o batismo e, terminados os dias santos, retornou para
a sua casa. Fiquei sabendo da história dois anos depois – ou até mais – por um
amigo comum que foi fazer uma refeição em minha casa, quando falávamos sobre
esse tipo de assunto. Mais tarde, consegui, depois de muita insistência, que me
contasse a história, na presença de seus concidadãos, gente honrada, que se
apresentaram como testemunhas da realidade dos fatos: a sua estranha doença,
seus longos dias de morte aparente, o caso do outro Curma, ferreiro – conforme
narrado acima -, enfim, todos os pormenores que se lembrava. E todos
testemunharam já terem ouvido essa narração de sua boca, à medida que ele a
divulgava.

Conclui-se, assim, que ele
vira seu batismo, a mim, Hipona, a basílica e o batistério não na realidade,
mas na imagem, da mesma forma como vira outras pessoas vivas, sem que elas
tenham percebido isto. Logo, por que não admitir que ele viu os mortos sem que
estes tenham percebido?

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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