O conde que se tornou pregador

A velha catedral de Colônia acolhia naquela ocasião grande número de fiéis que se acotovelavam ao longo da ampla nave, disputando espaço para assistir ao ato que em breve iria começar. Corria o ano de 1115, provavelmente no mês de dezembro, e naquele dia, o arcebispo Frederico ia conferir a vários jovens a ordem do presbiterato. A cerimônia iniciou-se com esplendor, em meio à luz de incontáveis círios.

Bem à frente dos assistentes, chamava a atenção de todos o conde de Gennep, luxuosamente ataviado, com as insígnias de sua alta posição. Muitos ali conheciam sua vida leviana e vaidosa, e estranhavam vê-lo agora em atitude tão recolhida. Um murmúrio de admiração percorreu a assembléia quando, tendo sido chamados os ordinandos, também ele se levantou e foi colocar-se ao lado destes. Mas o jovem aristocrata, imperturbável, fez sinal a um dos seus servidores e este lhe apresentou uma rude túnica de peles. O conde, desfazendo-se de suas ricas roupagens, vestiu aquele hábito de penitência. Era a reparação pública pela vida mundana que até então levara.

Depois, subindo ao presbitério, recebeu sucessivamente o diaconato e o presbiterato. O brilhante fidalgo transformava-se em humilde servo de Jesus Cristo; interiormente revestido da sublime dignidade sacerdotal e, no exterior, à imitação de João Batista, da pobreza daquela veste singular.

A vaidade abafa uma vocação

Norberto, filho primogênito de Heriberto, conde de Gennep, nasceu em 1080, na cidade de Xanten, Alemanha. Seus pais almejavam para ele a carreira eclesiástica, pois fora revelado à piedosa condessa Hedwiges que seu filho seria um grande prelado e prestaria relevantes serviços a Deus.

Mas, desde cedo, o menino começou a manifestar tendências mundanas e ambiciosas que contrariavam os piedosos desejos paternos. A aguda inteligência de Norberto e sua facilidade em assimilar tudo quanto lhe era ensinado talvez tenham contribuído para acentuar nele uma inata inclinação para a vaidade. Com efeito, uma rara eloqüência e notáveis qualidades literárias conferiam grande atração à sua pessoa, e isso não poderia deixar de ensoberbecer um jovem principiante como ele.

Ambição e prestígio na corte

Terminados os estudos, Norberto recebeu a ordem do subdiaconato. Depois disso, sua ascensão foi rápida. Junto ao príncipe-arcebispo de Colônia, iniciou-se nas questões diplomáticas. Pouco tempo depois, transferiuse para a corte do rei da Alemanha, Henrique V. A personalidade irradiante e os modos graciosos do jovem conde chamaram a atenção do soberano, que o nomeou conselheiro de Estado. Norberto movia-se com desembaraço nos luxuosos cenários das intrigas palatinas, deixando todos admirados com seu talento e superioridade de espírito.

O prestígio de que gozava permitia-lhe acariciar sonhos para o futuro, dando vazão a um orgulho que só tendia a crescer e a dominar sua alma. Pouco a pouco, a influência do ambiente mundano ia amolecendo sua natural seriedade e tornando levianos seus costumes.

Entretanto, aquele despreocupado clérigo, tão esquecido de seus deveres religiosos, conservava ainda sentimentos de piedade que lhe aguilhoavam a consciência, provocando em sua alma a insatisfação própria daqueles a quem Deus reserva um chamado ad maiora.

Um sacrilégio choca a alma de Norberto

Em 1110, Henrique V viajou para Roma, a fim de ser coroado imperador pelo Papa. Norberto o acompanhou, junto com outros dignitários e um numeroso exército. Já na Cidade Eterna, o imperador se desentendeu com o Papa e deu ordem a seus soldados de arrancar-lhe os paramentos e as insígnias e levá-lo prisioneiro.
Norberto sofreu um choque ao presenciar aquela cena sacrílega. Na mesma noite, foi prostrar-se aos pés do Pontífice preso, implorando perdão. Era o primeiro passo do filho pródigo na estrada que o traria de volta à casa paterna.

A luta interior

A partir daquele momento, a voz da graça passou a falar com maior veemência no seu interior e ele começou a dar-lhe ouvidos. De volta à Alemanha, após a libertação do Papa, Norberto permaneceu na corte por mais alguns anos, até que, em 1115, Henrique V acabou sendo excomungado.

Por fidelidade à Santa Sé, Norberto abandonou Henrique V e se retirou para suas terras de Xanten. No isolamento da pequena cidade, suas ambições sentiam-se coarctadas. Mas, acostumado aos elogios e ao incenso, o conde ainda desejava vivamente satisfazer seu orgulho.

Convertido por um raio e uma voz

Com esses anseios na alma, partira Norberto para Wreden, distante uns 50 quilômetros de Xanten, numa luminosa manhã de primavera. A certa altura da viagem, o céu começou a cobrir-se de espessas nuvens negras. De repente ressoou um trovão. Norberto esporeou o cavalo, na esperança de alcançar refúgio, mas foi inútil. Um violentíssimo raio caiu aos pés de sua cavalgadura e o animal, assustado, derrubou-o da sela.

O conde permaneceu uma hora desmaiado no lodo, sob chuva torrencial, ante o olhar estarrecido de seu escudeiro. Tendo recuperado os sentidos, ouviu uma voz interior que lhe dizia: “Deixa o mal e faze o bem, procura a paz e segue-a””1. Norberto levantou-se contrito e radicalmente determinado a abraçar para sempre as vias da virtude.

A partir desse dia, passou a levar uma vida de recolhimento e oração, submetendo seu corpo a rigorosas penitências. Instruído por Conon, abade do mosteiro beneditino de Siegburg, começou a sentir novamente o chamado para o sacerdócio e apresentou-se ao bispo de Colônia pedindo ser ordenado. Assim foi que, poucos meses após sua conversão, foram-lhe conferidas no mesmo dia, por um especial favor, as ordens do diaconato e do presbiterato.

Lutas na vida sacerdotal

Após um retiro de 40 dias na abadia de Siegburg, Norberto celebrou em Xanten sua primeira missa e começou a pregar. Falava principalmente sobre o transitório dos bens deste mundo e as obrigações do homem perante Deus. Seu fervor não agradou a certos clérigos que, usando como argumento a conduta pouco recomendável do pregador no passado, organizaram uma oposição contra ele. O ódio chegou até o extremo de pagarem a um homem para insultá-lo e cuspir-lhe no rosto.

Descalço, trajando sua túnica de penitência, Norberto partiu de Xanten e começou a percorrer cidades e povoados. As multidões lhe seguiam, atraídas pela eloqüência com a qual anunciava “a palavra de Deus cheia de fogo, que queimava os vícios, estimulava as virtudes e enriquecia as almas bem dispostas com a sua sabedoria””2.

Sua pregação via-se confirmada pelos milagres, pelo dom de línguas e, sobretudo, por um singular carisma de apaziguar, com sua simples presença, as dissensões e inimizades. O povo corria ao encontro desse sacerdote que já se tornara conhecido pelo afetuoso apelido de “Anjo da Paz”.

Um coração inovador

Apesar dos brilhantes resultados de sua ação missionária, os detratores de Norberto persistiam em difamá-lo e criar obstáculos a seu apostolado. Por isso, em outubro de 1119, foi ele ajoelhar-se aos pés do Papa Calisto II, durante um concílio em Reims, para lhe expor sua situação e seus anseios de se entregar à vida religiosa.

Se o feitio daquele humilde peregrino impressionou favoravelmente o Pontífice, também não passou despercebido aos olhos do bispo de Laon, Dom Bartolomeu de Viry. Este soube discernir em Norberto as características de um chamado excepcional e propôs-se ajudá-lo em tudo quanto pudesse.

Não se enganava o arguto bispo: pulsava em Norberto um coração de inovador, dócil às inspirações do Espírito Santo. Seu projeto era formar uma congregação de clérigos postos em vida comunitária, que buscassem na oração, na penitência, no silêncio e na vida interior; o fundamento do seu apostolado. Ao harmonizar por primeira vez as doçuras da contemplação com a ação evangelizadora, Norberto tornar-se-ia fundador da chamada “vida mista”.

Assim, sob os auspícios do Santo Padre e de Dom Bartolomeu, iniciou ele sua grande obra. Na pantanosa e sombria floresta de Coucy, próxima a Laon, existia um vale conhecido pelo nome de Premontré (prado mostrado). Ali, sobre as ruínas de uma capela abandonada, começou a erguer seu primeiro mosteiro. No Natal de 1121, Norberto e seus numerosos discípulos pronunciaram seus votos de religião, abraçando a regra agostiniana. Estava fundada a Ordem dos Cônegos Regulares de Premontré, hoje conhecidos como Premonstratenses.

Crescimento do instituto e fundação feminina

Pouco a pouco afluíram as vocações, e naquele bosque escuro e desabitado logo foi elevada a igreja de Santa Maria de Premontré. Em torno dela foram construídas as moradias dos clérigos.

A Europa contemplou admirada aqueles homens vestidos de branco, saídos do silencioso vale de Premontré, percorrendo desde as grandes cidades até as menores aldeias, como incansáveis anjos da Boa Nova, inculcando nos corações o amor à Eucaristia e a devoção terna à Virgem Santíssima, que haviam haurido no convívio com Norberto.

Dado o crescimento prodigioso de sua obra, teve ele de empreender contínuas viagens para estabelecer novas fundações na Alemanha, na Bélgica, na França e em outras regiões. Junto aos mosteiros dos cônegos, surgiram depois os das Irmãs da Segunda Ordem, conhecidas como Norbertinas, onde se observava o mesmo rigor de vida, em inteira consonância com o fundador.

Elevação ao episcopado

A Providência, entretanto, reservava a Norberto outra missão. Em 1126, em circunstâncias inesperadas e totalmente contra a sua vontade, foi eleito Arcebispo de Magdeburgo. Poucos dias depois, fez sua entrada nessa cidade, recebendo as homenagens do clero, dos nobres e do povo.

O aspecto do novo Arcebispo não se diferenciava muito ao do pobre penitente que anos atrás percorrera as aldeias, arrastando a todos com a eficácia de sua palavra. Terminadas as cerimônias, dirigiu-se ao palácio episcopal onde doravante deveria residir. Mas o porteiro, ao vê-lo, tomouo por um indigente, e disse-lhe:

– Chegaste tarde, já foi repartida a comida aos necessitados.

Quando lhe avisaram que aquele era seu novo senhor, logo sua rudeza se mudou em confusão. Norberto, porém, sorrindo com afabilidade, respondeu:

– Tu me conheces melhor e viste mais claro do que aqueles que me conduziram a este palácio “3.

Oito anos durou seu ministério pastoral em Magdeburgo. Com sua característica retidão, logo notou os relaxamentos existentes na diocese e tomou enérgicas medidas em prol da ordem. Isso suscitou rancores, e alguns descontentes planejaram matá-lo. Como, porém, esse plano falhou, eles recorreram à arma da calúnia e amotinaram a turba contra o Arcebispo. Também isso foi em vão, pois a bondade e a coragem do santo em pouco tempo fizeram serenar os ânimos e restabelecer a paz.

Grande na humildade, humilde na grandeza

Em inícios de 1130 faleceu o Papa Honório II, e o mundo católico recebeu a desconcertante notícia da eleição de dois sucessores para o sólio pontifício: Inocêncio II e Anacleto II. O perigo de um cisma era iminente.

Movido pelo Espírito Santo, São Bernardo de Claraval logo se levantou, na França, a favor de Inocêncio, conclamando todos a defender o verdadeiro Papa, que chegava a esse reino fugindo do usurpador.

Na Alemanha, o rei Lotário demorava em tomar posição. Só o Arcebispo de Magdeburgo, no qual depositava sua confiança, poderia pesar favoravelmente em sua determinação. Norberto não poupou esforços: apresentando provas e documentos, e valendo-se de sua eloqüência, mostrou-lhe a legitimidade de Inocêncio enquanto sucessor de Pedro. Sua voz foi aceita como um verdadeiro oráculo pelo soberano, e toda a Alemanha colocou-se resolutamente do lado do Papa legítimo.

Assim, Norberto salvou sua pátria do risco de um fatal rompimento com a Igreja. Este foi o último e, talvez, o mais belo lance de sua vida.

De volta a Magdeburgo, seu já abalado estado de saúde agravou-se de modo alarmante. Mesmo assim, durante alguns meses de dolorosa enfermidade, realizou milagres assombrosos, como a ressurreição de três mortos num mesmo dia.
Por fim, a 6 de junho de 1134, na oitava de Pentecostes, sentindo a morte iminente, quis ser colocado, conforme o costume daquela época, sobre uma cruz de cinzas traçada no solo. Nessa posição, à imitação do Redentor, expirou da mesma forma como havia vivido: grande na humildade e humilde na grandeza.

Uma vida definida por uma única palavra: integridade

A partir do instante de sua conversão, a peregrinação de São Norberto neste mundo poderia ser definida por uma única palavra: integridade. Foi por excelência o varão da despretensão, da entrega generosa e desinteressada de si, pela glória da Igreja. Uma vez posta a mão no arado, seus olhos jamais se voltaram para contemplar as brilhantes promessas que o mundo lhe oferecia. Pelo contrário, ele se apresentou ante o olhar surpreso dos seus coetâneos, como o fundador e arquétipo de um novo estilo de vida, austero e abnegado.

É necessário notar, porém, que a rutilância de suas virtudes, acentuada por uma personalidade rica em dotes naturais, dividia as opiniões e separava nitidamente os bons dos maus. São Norberto foi, a exemplo do Divino Mestre, pedra de escândalo e varão de contradição. Sua própria bondade, que cativava as almas santas e impelia os pecadores a abraçarem o bom caminho, era causa de contínuas perseguições.

Ciente de que o verdadeiro sentido da existência se cifra unicamente em agradar a Deus, São Norberto era em vão acossado pelos seus adversários. Seu superior poder desarmava o ódio, fazia procurar a virtude e transformava a ira em amor.

***
Por Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

1 ADRIAANSEN, Vita c. XIII, p. 24.
2 LITURGIA DAS HORAS, vol. II, p. 6.
3 ADRIAANSEN, Vita c. XLIII, p. 215.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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