• Mês das missões 21/10

    Mês das missões 21/10 Mês das missões 21/10

    Loja 21/10

    Loja 21/10 Loja 21/10

    Lançamentos 21/10

    Lançamentos 21/10 Lançamentos 21/10

    Professor 21/10

    Professor 21/10 Professor 21/10

    Lançamentos Espiritualidade 21/10

    Lançamentos Espiritualidade 21/10 Lançamentos Espiritualidade 21/10
  • O conceito de Deus na Maçonaria – EB (Parte 2)




    MaçonariaQuanto ao segundo, diz que o receio era de que fosse substituída por uma fórmula materialista e atéia. Ora, continua ele, “nenhum de nós, ao propor essa supressão, entende fazer profissão de ateísmo ou de materialismo (…) a vossa Comissão expressamente declara que, aderindo à proposta, apenas se propõe como finalidade a de proclamar a absoluta liberdade de consciência”. Desmons achava também constituir o art. 1º “uma barreira dogmática” capaz de desanimar os livres pensadores que pretendessem ingressar em Maçonaria. De fato, o Grande Oriente não faz profissão de ateísmo e mais ainda não impõe aos seus adeptos a condição de ateísmo. “O ateísmo é, bem como o teísmo, uma tomada de posição metafísica e, como tal, o racionalismo da Obediência não o subscreveria. O que se suprimiu no Convento foi a obrigação do maçom de crer em Deus. Deus facultativo. Mas foi o suficiente para que, de fato, Deus fosse expulso e que o Grande Oriente fosse marginalizado da Maçonaria universal”.

    A redação nova proposta era a seguinte:

    “A Maçonaria, instituição essencialmente filantrópica, filosófica e progressista, tem por finalidade a busca da verdade, o estudo da Moral universal, das ciências e das artes e o exercício da beneficência. Tem por princípio a liberdade absoluta de consciência e a solidariedade humana. Tem por divisa: liberdade, igualdade, fraternidade”.

    O Ir. Cauzard propôs, depois, o seguinte adendo:

    “A Maçonaria não exclui ninguém por suas crenças”.

    O “TEICÍDIO” se realizou com relativa facilidade. Nem foi preciso votar por meio das bolas (brancas e pretas, como é de praxe na Maçonaria). A proposta passou com dois terços de votos favoráveis” (ob. cit., pp. 144-146).

    Entrementes as Grandes Lojas Unidas da Inglaterra, da Escócia, da Irlanda continuaram a professar a sua crença religiosa, característica da Maçonaria em suas origens. Por isto romperam com o Grande Oriente da França e proibiram qualquer relacionamento entre as Lojas de sua obediência e as Lojas filiadas ao Grande Oriente.

    Todas as vezes que o Grande Oriente da França pediu reconciliação às Lojas inglesas, esta lhe foi denegada, mediante a reafirmação dos princípios fundamentais das Constituições de Londres, como se se dissesse: “Retifica teus rumos, e te reconheceremos”.

    1.3.2. Fora da França

    A atitude do Grande Oriente da França encontrou eco na Bélgica, na Itália, na Espanha e em Portugal. Na Itália, por exemplo, as Assembléias Constituintes de 1869, 1872 e 1896 discutiram a abolição da fórmula “Grande Arquiteto do Universo” (G. A. D. U.); se não foi supressa, foi ao menos esvaziada por exemplo, como se depreende dos seguintes fatos:

    “Em 1874, o Irmão Conrad pedia a abolição também na Itália, mas o Grão-Mestre Massino se opôs. Bacci comenta o caso da seguinte maneira:

    “Não acreditamos que o ir.: Conrad tenha sido muito feliz filósofo quando diz que a conservação do G. A. D. U. importa numa afirmação de um princípio religioso. Sabem, aliás, todos que aquela fórmula, por consenso universal, não admite nenhum significado exclusivo, muito menos um conceito religioso: é uma fórmula que pode acomodar-se a todos os gostos ainda o de um ateu”.

    Dois anos depois, o mesmo Bacci escrevia num editorial de revista:

    “Como se apresenta o ano de 1877? Como um campo de batalha Grave e importantíssima questão agita a Maçonaria mundial. O Congresso de Losana, em primeiro lugar, depois o Supremo Conselho de Charleston, em seguida os Grande Orientes da França e da Bélgica, e dentro em pouco talvez também a Grande Loja da Inglaterra, disputarão em torno da conservação ou abolição da fórmula A.A.D.G.A.D.U.; não apenas, mas se perguntarão qual o princípio filosófico que o justifica…” (extraído do livro de Alberton, pp. 141s).

    1.3.3. Consequências do ato de 1877

    O ato do Grande Oriente da França datado de 1877 redundou em ruptura da Maçonaria em duas correntes:

    1) a tradicional e ortodoxa representada pelas Lojas da Inglaterra, da Irlanda, da Escócia e as que se lhes filiam;

    2) a dissidente, laicista ou mesmo atéia, subsistente no Grande Oriente da França e nas Lojas afiliadas.

    A guinada de 1877 implicou alteração do Rito Maçônico Francês pela eliminação de todas as orações e alusões a Deus Visto que os dirigentes da III República eram maçons militantes, todas as leis anticlericais votadas posteriormente foram em fins do século XIX, e começo do século XX, resoluções de assembléias maçônicas. Assim, por exemplo, em 1899 a Maçonaria francesa votou a supressão da Missa do Espírito Santo por ocasião da abertura do ano judiciário na França. Em 1902, foi proibida, na França, a cerimônia de batismo de navios bem como a celebração de Missas a bordo. Em 1903 uma circular do Grande Oriente admoestou os parlamentos maçônicos no sentido de que, se votassem em favor do auxílio do Estado aos cultos religiosos, violariam os seus compromissos maçônicos. No mesmo ano todos os Religiosos foram expulsos dos hospitais. Em 1903-4 foi prescrito o fechamento de todas as escolas mantidas por Institutos religiosos; estes tiveram seus bens confiscados.

    Finalmente em julho de 1904 o ministério Combes levou a termo o processo de laicização da vida na França, propondo ao Congresso a separação entre a Igreja e o Estado; a ruptura foi aprovada pelos parlamentares (341 votos contra 233 na Câmara dos Deputados; 179
    votos contra 103 no Senado). A lei de separação, de 9/12/1905, garantia geral liberdade de consciência e de culto, mas proibia toda forma de apoio, da parte do Estado, a qualquer culto religioso.

    1.3.4. No Brasil

    A Maçonaria no Brasil sofreu a influência do Grande Oriente de França, movendo a Questão Religiosa. Esta teve seu ponto alto por ocasião da prisão, em 1874, de Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira, bispo de Pernambuco (1871-1877), e de Dom Antônio de Macedo Costa, bispo do Pará.

    Em 1908, o Grande Oriente do Brasil submeteu à apreciação das Lojas a seguinte tese:

    “O atual momento histórico exige a simplificação dos rituais, de modo que domine no interior de todos os templos o princípio da mais larga tolerância, abrigando no meio da Maçonaria os deístas e os ateus, os sectários de quaisquer religiões e os livre-pensadores”.

    A Maçonaria brasileira dividiu-se também em regular e irregular… Em 1973, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil mandou proceder a um levantamento das diversas orientações das Lojas maçônicas do Brasil, chegando à seguinte conclusão:

    R I T O
    Lojas que Percentagem o adotam sobre o total das Lojas

    Rito Escocês Antigo e Aceito                    686                   85,03%

    Rito Francês Moderno                                 48                     5,94%

    Rito Adonhiramita                                        40                      4,95%

    Rito Brasileiro                                                 18                      2,23%

    Rito York                                                           12                      1,48%

    Rito Schroeder                                                3                       0,37%

    De todos estes ritos ou obediências maçônicas, apenas o Rito Francês Moderno é arreligioso ou mesmo anti-religioso. O Rito Escocês Antigo e Aceito, o mais difundido no Brasil, é fiel às tradições religiosas maçônicas; vem a ser o mais rico em simbolismo. Distingue-se
    por duas características essenciais: 1) o hermetismo nos três graus denominados “azuis” (aprendiz, companheiro e mestre); 2) o fenômeno dos Altos Graus (do 4º ao 33º).

    Reflexão

    O Pe. Alberton conclui seu livro, afirmando que a Maçonaria tradicional e regular, professando o Grande Arquiteto do Universo, de um lado, evita todo ateísmo e, de outro lado, não se enquadra em forma alguma de teísmo: ela proclama simplesmente o deísmo ou a
    religião natural ou a teologia natural, filosófica. Maçonaria é filosofia, não é fé:

    “As Grandes Lojas Unidas da Inglaterra, da Irlanda e da Escócia, firmando, invariável e ininterruptamente, o verdadeiro conceito do G. A. D. U. na Ordem, não estão dogmatizando ou estão sendo menos liberais, no sentido empregado pelo Grande Oriente de França. Apenas defendendo um landmark – ou rule ou ainda old charge – fundamental delas. E muito menos ainda estão querendo defender uma determinada religião, o que seria contra todo o espírito e toda a letra das Constituições andersoneanas, mas a religião natural, que se baseia na Teologia Natural (ou Teologia Fundamental, ou ainda Teologia Filosófica), que é a Teodicéia uma das disciplinas ensinadas pela verdadeira Filosofia desde os tempos  dos filósofos gregos e de muito antes de Cristo, sobretudo por Platão e seu genial discípulo Aristóteles, Filosofia esta que, penso, os maçons se vêem impelidos a estudar, já que sua instituição é eminentemente FILOSÓFICA e até, como dizem alguns, MAÇONARIA É FILOSOFIA” (pp. 242s).

    Ora esta conclusão parece-nos um tanto simples demais. Pode-se dizer que dentro da Maçonaria regular há um amplo leque de posições religiosas: existem, sim, Lojas fiéis aos princípios cristãos (geralmente protestantes) dos seus fundadores, como também existem Lojas adeptas de uma teologia meramente natural. Além disto, há Lojas, ditas “da Maçonaria irregular” que rejeitam a proclamação do Grande Arquiteto do Universo. Vê-se assim que as posições da Maçonaria diante da religião são múltiplas – o que torna complexa a face da Maçonaria. É preciso, pois, examinar Loja por Loja para se definir a posição de cada Loja maçônica. É esta a conclusão (aliás, não totalmente nova) que se tira do livro em pauta. A Maçonaria vem a ser aquilo que dela fazem os membros de cada uma de suas Lojas: se estes são religiosos. A Loja tomará atitudes de respeito à fé; se são irreligiosos, a Loja respectiva não respeitará os valores religiosos.

    O livro do Pe. Alberton é muito rico em documentação: a sua leitura é altamente instrutiva. Todavia é pouco sistemático ou ordenado: retorna mais de uma vez ao mesmo assunto depois de o haver abordado. Apresenta várias digressões que consideram a história comparada das Religiões, a história da Filosofia, a Teodicéia, as provas metafísicas da existência de Deus (…). O que o autor do livro transmite ao leitor é interessante e válido: todavia torna a leitura da obra difícil ou pesada, porque contribui para que se perca o fio do pensamento do Pe. Alberton.

    Isto não impede que tal obra tenha seu valor no diálogo entre a Maçonaria e a Igreja Católica, pois esclarece atitudes e princípios. Possa tal escrito cumprir a missão para a qual foi concebido!
    _________________________________

    ¹ Por deísmo entende-se a religião natural ou aquela que a razão humana é capaz de conceber, sem o auxílio da Revelação Divina. Ao contrário, teísmo é a religião iluminada pela Revelação sobrenatural de Deus aos homens, revelação que começa com a manifestação de Deus ao Patriarca Abraão (século XIX a.C.).


    Prof. Felipe Aquino

    assessoria@cleofas.com.br

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.