O ‘absurdo’ cristão

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, Osb
Nº 219, Ano 1978, p. 93

Março de 1978 é, para o cristão, o mês que, após seis semanas de Quaresma, culmina nos dias santos da Páscoa do Senhor. É nestes que se consuma a mensagem de Cristo, que certamente constituiu novidade grande ou mesmo revolucionária em sua época, novidade que, com o passar do tempo, correu e corre o risco de se tornar rotineira.

Eis porque mais uma vez nos perguntamos: qual seria a grande característica da Boa-Nova de Páscoa?

Proporemos a resposta citando um texto do filósofo grego Aristóteles (+ 322 a. C.) que certamente representa, como um dos seus expoentes, a filosofia grega pré-cristã ou a razão e o bom-senso humanos entregues a si mesmos antes de Cristo.

Dizia Aristóteles em sua Ética Maior: “seria absurdo querer alguém amar a Zeus”¹ (2, 2 1208).

E por que assim pensava Aristóteles?

Porque a Divindade há de ser respeitada em seu poder e majestade. Entre os homens e a Divindade existe relações de dependência e serventia, não, porém, as de amor. Este significaria ousadia da parte do homem. Aristóteles, em outra passagem, chegava a dizer que o Ser Supremo (ou o Ato puro) nem sequer conhece o mundo e o homem, porque estes são finitos; se Deus os conhecesse, seria contaminado pela finitude das realidades contingentes.

Os demais pensadores gregos concordavam com Aristóteles em distanciar do homem a Divindade precisamente para salvaguardar a Majestade da mesma.Ora é sobre este fundo de cena que ressoa a mensagem cristã: “Ele (Deus) primeiro nos amou” (1Jo 4,19). Realmente estes dizeres, em sua brevidade e singeleza, desconcertam o bom-senso dos homens e invertem as categorias religiosas da humanidade. A mensagem cristã apregoa que o diálogo entre Deus e os homens tem a sua iniciativa em Deus. Este interpela, primeiro, o homem, como o Amor fecundo, que dá a vida à criatura e que jamais se retrata ou desdiz, apesar das incoerências do ser humano, porque é Amor divino, e não humano (cf. Os 11, 1. 8s). Deus não pode dizer Não depois de haver dito  Sim,  pois, se o fizesse, não seria Deus (o Absoluto e Imutável), mas homem (contingente e volúvel). Em conseqüência, a atitude do homem diante de Deus é a resposta não é necessário que o homem “faça arte” para captar o amor ou a benevolência de Deus, mas a simples existência de cada criatura é o mais eloqüente testemunho de que o amor de Deus lhe foi dado, e dado irreversivelmente. Basta reconhecê-lo e corresponder-lhe em paz e confiança todos os dias.

Na realidade cotidiana, custa ao homem crer nesta proposição, que vem a ser o âmago da mensagem cristão. Com efeito, a tendência de todo ser humano é a de reduzir Deus às categorias de um grande Senhor, que se faz simpático se os súditos lhe são simpáticos, e vingativo se os mesmos são omissos ou desrespeitosos. Apesar disto, o cristão é chamado a viver diariamente da mensagem de 1Jo 4,19. Todos os dias ele há de lembrar-se de que Deus é surpreendente…; Ele ultrapassa as categorias do homem não para afastar desdenhosamente as suas criaturas, mas para atraí-las mais e mais… Esse mistério do amor de Deus estará patente na consumação da história, pois, como diz São Paulo, “o que o olho não viu, o que o ouvido não ouviu e o coração do homem não percebeu, eis o que deus preparou para aqueles que O amam” (1Cor 2,9).

Pois bem. Páscoa recorda mais uma vez estas grandes verdades da fé cristã. Mostra o amor que, depois de ter criado o homem, se viu preterido mediante o Não dito pelos primeiros pais nos albores da história. Todavia esse amor “não se quis deixar vencer pelo mal, mas optou por vencer o mal com o bem” (Rm 12,21). Por isto o Senhor quis reiniciar a história do gênero humano, criando de novo o homem e oferecendo-lhe reiterado convite para o consórcio da vida eterna; Cristo é o segundo Adão que, em nome dos homens, entra em nova Aliança com o Pai. As conseqüências do pecado, como a cruz e a morte, ficam sendo a herança recebida por nós de nossos primeiros pais, mas dentro dessa realidade dolorosa Cristo coloca valores definitivos, transfigurando a pobreza do homem, que assim se torna prenhe de eternidade.

Possam estas verdades gravar-se profundamente no espírito de quantos lerem os comentários que este fascículo apresenta, numa tentativa de considerar a história de nossos dias à luz dos valores eternos.¹ Zeus é o nome grego equivalente ao latino Júpiter e designa a divindade suprema.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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