Nossa Fé está mudando? EB

“Nossa Fé está mudando?”
    por Alfred Läpple

Em síntese: As verdades da fé são reveladas pelo próprio Deus através da Tradição oral (que começa com Abraão no século XIX a.C.) e escrita (a S. Escritura); tal Revelação se encerra com a geração apostólica (séc. I d.C.). Por isto não compete nem à Igreja como tal nem aos teólogos alterar o Credo de acordo com as correntes de pensamento de cada época da história. A intransigência da Igreja em pontos de fé através dos séculos é precisamente o testemunho de que Ela sabe não ser portadora de mensagem meramente humana, mas, sim, responsável por um patrimônio sagrado de verdades a Ela confiadas pelo Senhor Deus para a vida dos homens.

Esta firmeza, porém, não exclui (ao contrário, exige) a procura de apresentação das verdades da fé em fórmulas acessíveis ao mundo de hoje. A pregação é feita ao homem e para o homem, tal como ele é em cada fase da história, com as suas capacidades próprias de ser interpelado.

Eis, em poucas palavras, o que o livro de A. Läpple quer dizer, percorrendo as diversas proposições da fé hoje em dia controvertidas.

O autor do livro “Nossa Fé está mudando?”¹ é muito conhecido no Brasil por outras obras traduzidas para o português. Professor e presidente do Instituto de Catequese e Pedagogia da universidade de Salzburg (Áustria), tem-se dedicado L transmissão das verdades da fé e das conclusões da boa exegese moderna a professores e catequistas.

O livro em foco atende, com sabedoria e lucidez, a uma questão muito freqüente, mostrando que nenhuma inovação houve (nem pode haver) no essencial do Credo, mas que a linguagem teológica pode mudar a fim de se tornar inteligível aos homens de épocas sucessivas. À p. 41, o autor cita Walter Kasper, que diz: “A Igreja não pode anunciar hoje um Evangelho diferente do que anunciou no passado. Mas isto não exclui que anuncie este mesmo e único Evangelho, hoje, de modo diferente, precisamente para que seja compreendido como idêntico”.  Visto o interesse da obra, exporemos, a seguir, alguns de seus traços salientes acompanhados de breve comentário.

1.  A Fé hoje

Alfred Läpple passa em revista todos os artigos do Credo, sem tencionar escrever um compêndio ou manual da doutrina católica.  Apenas procura pôr em relevo o questionamento ou a problemática que a mentalidade moderna levanta a respeito de cada proposição da fé e expõe o modo correto de pensar a propósito da mesma.  A leitura do livro torna-se muito útil porque ajuda o leitor a confrontar o certo e o errado, numa época em que muitos mal-entendidos vão deixando perplexo e inseguro o povo de Deus.

“Este livro quer jogar salva-vidas sobre as ondas agitadas da fé hoje.  Não visa, de forma alguma, a expor uma doutrina completa da fé, mas quer fornecer pontos de orientação e… respostas… a problemas e dificuldades que hoje são objeto de acaloradas discussões, ajudando assim no fortalecimento da fé, na renovação do seguimento de Cristo e no aprofundamento da fidelidade à Igreja” (p. 51).

Deter-nos-emos sobre alguns pontos da obra que parecem merecer especial realce.

1.1.  Fé

O autor faz um balanço das contestações que a fé sofre hoje em dia: “Chama-nos a atenção o fato de que não só a Sagrada Escritura é utilizada contra a tradição da fé, mas também se questionam a pré-existência do Filho de Deus, a concepção de Jesus operada pelo Espírito Santo, os milagres de Cristo, as aparições do Senhor Ressuscitado, a existência dos anjos e dos demônios” (p. 34).

Läpple julga que esses questionamentos podem ter seu sentido providencial; contribuem, sim, para que o cristão compreendia melhor o que professa no Credo e o distinga de interpretações espúrias; de modo semelhante, as heresias tiveram a função, na história da Igreja, de obrigar os teólogos a aprofundar as verdades da fé e esclarecer o seu conteúdo.  Cf. pp. 40-42.

A seguir, são indicados alguns meios de crescer na fé:

–    a oração e uma vida de acordo com a vontade de Deus;
–    a procura da verdade e o desejo de Deus;
–    a aceitação e a superação das diversas situações da vida, a exemplo de Jesus;
–    a constância nas crises de fé;
–    a pregação da Igreja e o testemunho de pessoas fiéis;
–    uma vida no âmbito da comunidade que se reúne sempre, “perseverando no ensinamento dos Apóstolos, na união, na fração do pão e na oração”.  Cf. p. 43.

Doutro lado, o cristão sofre dano na fé

–    se ele cessa de rezar;
–    se pára na fé da sua infância e não continua a se instruir na mensagem revelada, particularmente se está sob constante influência atéia;
–    se abandona a Missa dominical e a vida da comunidade;
–    se se adapta ao espírito contemporâneo e às opiniões da moda, de sorte que a fé já não lhe oriente a vida;
–    se pouco ou nada se importa com a religião e enche a vida com futilidades;
–    se se deixa seduzir pela tentação do bem-estar e se entrega ao poder do pecado;
–    se “usa dois pesos e duas medidas” e recorre à prática da mentira;
–    se se furta às exigências da nossa época e se retira para a esfera meramente privada.  Cf. p. 44.

A propósito do ateísmo de nossos dias, observa Läpple:

“Não é raro ouvir dizer que a geração atual não tem sensibilidade para problemas religiosos, que Deus lhe é indiferente, que não se interessa por Igreja, liturgia e sacramentos.  Tais afirmações genéricas não condizem com a realidade, mesmo quando proferidas com freqüência e em alta voz …

Muitos que em público levantam a voz e falam com segurança de seus ateísmos, sentem-se inquietos no segredo do seu coração, com o receio de que, apesar de tudo, Deus possa existir.  “À meia-noite o homem vai furtivamente ao túmulo de seu Deus; ali, onde ninguém o vê, derrama lágrimas, pois sua alma sabe o que perdeu” (Friedrich Nietzsche)”  (p. 47).

“Por detrás de um Não a um Deus “rude” e inacreditável, esconde-se freqüentemente um secreto e muito autêntico Sim a um Deus maior, mais divino, ainda não encontrado e que no entanto se deseja encontrar.  A geração atual não vive debaixo de um céu “vazio”, mas parece ter dado início a uma purificação considerável, espiritual-religiosa do templo”  (p. 48).

1.2.    Criação ou Evolução?

O texto bíblico (Gn 1,1-2,25) parece insinuar que as criaturas saíram das mãos de Deus em condições acabadas.  Com outras palavras: parece favorecer o criacionismo, com exclusão do evolucionismo. – Ora estudos literários e paleográficos recentes têm mostrado que os dois primeiros capítulos do Gênesis têm seu gênero literário próprio, de modo a não se lhes poder atribuir alguma teoria de ordem científica.  Os autores bíblicos, que a inspiração divina respeitou, não tencionavam entrar nas questões hoje discutidas pelas ciências naturais; a sua finalidade era estritamente religiosa; daí a conclusão de que seria errôneo pedir o patrocínio dos mesmos para alguma tese de geologia ou antropologia.  É o que Läpple sabiamente observa:

“Os escritores bíblicos, pertencentes ao ambiente cultural do antigo Oriente, não conheciam o conceito evolutivo do mundo.  Não podiam, portanto, escrever contra uma teoria de evolução cósmica.  A narrativa bíblica da criação serviu-se certamente, como forma literária de exposição, de uma imagem do mundo hoje obsoleta, sem, no entanto, fazer desta imagem do mundo objeto de fé.  A narrativa bíblica da criação não é nem pró nem contra a tese da evolução do mundo.  Ao invés, é absolutamente aberta a uma evolução do mundo.

Criação e evolução não se opõem quais alternativas reciprocamente incompatíveis.  Antes poder-se-á dizer: a evolução do mundo supõe a criação do mundo.  A criação do mundo por Deus pode-se ter realizado, tendo ele chamado à existência um “átomo original”, no qual já estavam planejados todos os desenvolvimentos e evoluções. A onipotência e oniciência de Deus aparecem assim verdadeiramente sob nova luz, se o universo foi organizado de acordo com o conceito de evolução” (pp. 74s).

1.3.  Anjos e demônios

Os anjos são classicamente entendidos como criaturas espirituais, sem corpo, que Deus criou para sua glória e que, na história da salvação, são mensageiros (ángeloi) do Senhor Deus aos homens.  Criaturas livres, os anjos foram submetidos a uma prova de fidelidade (à semelhança do que ocorreu ao homem no estado original); parte dos anjos pecou então por soberba, sendo, por isto, chamados “anjos maus” ou “demônios”.

Que diz a propósito Alfred Läpple ?

1.3.1.    Anjos bons

“O anjo, assim se ouve dizer hoje, pertence certamente ao céu e à fé das crianças.  No Dicionário de um cristão adulto poderá faltar a palavra “anjo” …  No entanto, Michael Seemann, no 2º volume da obra Mysterium Salutis (Einsiedeln-Zürich-Köln 1967) escreve que negar a existência dos anjos seria negar a autoridade de Jesus.  Esta palavra deveria fazer pensar e abrir caminho à reflexão de que a doutrina dos anjos nem pode ser, nem há de ser, considerada um adorno supérfluo da fé cristã” (p. 64).

“O VI Concílio do Latrão (1215) enunciou com toda a clareza o mistério da liberdade decaída: “Deus criou bons, por natureza, o demônio e os outros espíritos maus, todavia eles se tornaram maus por si mesmo”.  (p. 65).

“Não se pode deduzir nem provar pela Sagrada Escritura que os anjos não existam e que sejam apenas um clichê literário da presença e autoridade de Deus…  A Bíblia não proporciona argumentos para proclamar a “demissão” dos anjos”  (pp. 66s).

“Desde os primórdios, a veneração dos anjos faz parte da fé da Igreja.  Um resumo da doutrina da Igreja acerca dos anjos encontra-se no Catecismo Romano publicado em 1566 de acordo com decreto do Concílio de Trento (1545-1563).  Diz:

“Deus criou do nada inúmeros anjos para que sirvam a Deus e estejam diante da sua face; além disto, distinguiu-os e adornou-os com o dom maravilhoso de sua graça… Pela Providência de Deus foi confiada aos anjos a missão de proteger o gênero humano e assistir a cada homem, a fim de não sofrerem maior dano”.

Certamente houve aqui e acolá alguém que, animado por curiosidade não pia, desejasse saber mais a respeito do número, dos títulos e das hierarquias dos anjos.  Santo Agostinho (354-430) disse o seguinte sobre o assunto: “Quanto a mim, devo confessar que nada sei a respeito”.  Na reforma atual da Liturgia, a Igreja confirmou sua fé na existência e atividade dos anjos.  No calendário litúrgico foram mantidas expressamente as festas dos arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael (29 de setembro) e a festa dos anjos da guarda (2 de outubro).  Em muitas orações como por exemplo no fim do Prefácio da Missa, a Igreja repete incansavelmente sua fé nos anjos e arcanjos, nos querubins e serafins.  A Igreja mentiria a si mesma e aos outros, se falasse acerca dos anjos sem crer na existência deles”  (pp. 67s).

1.3.2.   Anjos maus ou demônios

Eis como A. Läpple encara a questão:

“Ainda recentemente (1978) o teólogo católico Herbert Haag pronunciou-se em favor da abolição da crença do demônio e declarou literalmente: “Protesto contra o fato de que, em nome da Sagrada Escritura, os cristãos sejam obrigados a acreditar no diabo”  (p. 70).

Comenta o Prof. Läpple:

“Talvez haja mais do que um grão de verdade na expressão de Charles Baudelaire (1821-18677): “A astúcia mais refinada do diabo é fazer-nos crer que ele não existe” (p. 69).

“No Novo Testamento, sobretudo o evangelho de Marcos, narra que Jesus agia também como exorcista.  Atacaríamos a veracidade do texto do Novo Testamento e, de modo particular, Jesus de Nazaré, se quiséssemos reduzir o diabo a figura folclórica e lhe concedêssemos, no melhor dos casos, existência somente no papel” (p. 71).

“É comum… escorar-se na Bíblia para contrapor-se à Igreja.  Sem a Igreja a Bíblia é, por certo, uma interessante coleção literária, porém nada mais.  O problema da realidade pessoal do demônio não pode ser abordado e respondido com base apenas na Biblia. Seria violar a tradição da fé e também a consciência da fé da comunidade neotestamentária … querer … desmitizar o diabo a ponto de fazer dele um simples sinônimo da palavra “pecado”.  Convém lembrar que o IV Concílio do Latrão (1215) definiu clara e inequivocamente: “Cremos firmemente e confessamos de coração sincero … que Deus é a origem de todas as criaturas visíveis e invisíveis, das espirituais e corporais … O diabo e os outros espíritos maus foram por Deus criados bons na sua natureza, mas tornaram-se maus por si mesmos”…

Também o Concílio Vaticano II falou do diabo como ser pessoal; tenha-se em vista a Constituição sobre a Liturgia nº 6; o Decreto sobre a Atividade Missionária nºs  3 e 9… Precisamente hoje – quer seja oportuno, quer importuno! – o cristão deve ao mundo o serviço de… desmascará-lo, pois o anonimato sempre foi o elemento preferido dos demônios”  (pp. 71s).

1.4.  O pecado original

No começo de sua explanação verifica Läpple:

“Desde que Herbert Haag proclamou “a demissão do diabo”, clama-se cada vez mais alto por uma revisão da doutrina sobre o pecado original”  (p. 79).

A fé da Igreja ensina que os primeiros homens (dois ou mais,… isto não importa no caso) foram por Deus elevados ao estado de justiça original ou de filiação divina, e convidados, mediante a apresentação de um modelo de vida (a fruta do paraíso), a se confirmar ou não nesse estado.  Todavia disseram Não a Deus, movidos pela soberba; dessa infração resultou a perda dos dons originais; o homem é vítima da desordem dentro de si e fora de si.  Todavia Jesus Cristo, o Redentor, assumiu a sorte do homem pecador, e, mediante a dor e a morte mesmas induzidas pelo pecado, apresentou ao homem um caminho de volta ao pai.

Tal doutrina se baseia estritamente nos dados da fé; a filosofia não a atinge.  Por isto os critérios para confirmá-la ou não hoje em dia não são critérios de filosofia nem de paleontologia ou ciências naturais, mas decorrerão de um reexame das fontes da fé: será que estas realmente ensinam a doutrina do pecado original?  Desde já, pode-se adiantar que não há oposição entre a proposição da fé bem entendida e as conclusões das ciências naturais.

A propósito escreve Läpple às pp.

“Seria posição mesquinha … tentar comprovar a doutrina do pecado original apenas com textos veterotestamentários (Gn 3,1-12; 5,5; 8,21 etc).  Deve-se recorrer também a trechos do Novo Testamento (entre outros Rm 5, 12-21; 1Cor 15, 20-22).  Além disso, a doutrina da culpa hereditária há de ser considerada no conjunto da história da fé e da interpretação da Igreja …

O Concílio de Trento (1545-1563), no decreto sobre o pecado original (promulgado em 17 de junho de 1546), rejeitou energicamente doutrinas erradas, tanto sobre o pecado original quanto sobre a culpa hereditária:

“Se alguém não confessar que Adão, o primeiro homem, tendo infringido o mandamento de Deus no paraíso, perdeu imediatamente a santidade e a justiça em que fora criado, … e com isto incorreu na morte, com a qual Deus o ameaçara antes, e com a morte incorreu no cativeiro sob o poder daquele que desde então teve o domínio da morte, isto é, do diabo, e Adão, por causa desta ofensa do pecado, foi mudado totalmente no corpo e na alma, para pior: seja anátema.

Se alguém afirmar que a prevaricação de Adão prejudicou somente a ele e não a sua descendência, e que perdeu a santidade e a justiça recebidas de Deus somente para si e não para nós também e que, manchado pelo pecado da desobediência, transmitiu a todo o gênero humano apenas a morte e os castigos corporais, mas não o pecado, que é a morte da alma: seja anátema.

Se alguém afirmar que este pecado de Adão, que é em sua origem um só, e é transmitido por propagação e não por imitação, inerente e próprio a cada um, pode ser apagado pelas forças da natureza humana ou por outros remédios que os méritos do único Mediador, nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos reconciliou em seu sangue com Deus…; ou negar que precisamente este mérito de Jesus Cristo é comunicado tanto aos adultos como às crianças, através do sacramento do batismo, quando ministrado devidamente na forma da Igreja, seja anátema”.

Numa imponente perspectiva histórica, o Concílio Vaticano II, em sua “Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo de Hoje” (de 7 de dezembro de 1965), se pronunciou sobre a origem e sobre o poder do mal na história :

“Constituído por Deus em estado de justiça, o homem, contudo, instigado pelo Maligno, desde o início da história abusou da própria liberdade.  Levantou-se contra Deus desejando atingir seu fim fora dele.  “Apesar de conhecerem a Deus, não o glorificaram como Deus.  Os seus corações insensatos se obscureceram e eles serviram à criatura ao invés do Criador!”  (Rm 1,21ss).  Isto, que nos é conhecido pela revelação divina, concorda com a própria experiência.  Pois o homem, olhando seu próprio coração, descobre-se também inclinado para o mal e mergulhado em múltiplos males que não podem provir de seu Criador, que é bom.  Recusando muitas vezes conhecer o Deus como seu princípio, o homem destruiu a devida ordem em relação ao fim último, e, ao mesmo tempo, toda a harmonia consigo mesmo, com os outros homens e com as coisas criadas.

Por isto, o homem está dividido em si mesmo.  Por esta razão, toda a vida humana, individual e coletiva, apresenta-se como uma luta dramática entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas.  Bem mais ainda.  O homem se encontra incapaz por si mesma de debelar eficazmente os ataques do mal, e assim cada um se sente como que carregado de cadeias.  Mas o próprio Senhor veio para libertar e confortar o homem, renovando-o interiormente.  Expulsou o “príncipe  deste mundo” (Jo 12,31), que retinha o homem na escravidão do pecado.  O pecado, porém, diminuiu o próprio homem, impedindo-o de conseguir a plenitude.

À luz desta revelação, a vocação sublime e ao mesmo tempo a profunda miséria que os homens sentem, encontram a sua razão última (art. 13).

Uma luta árdua contra o poder das trevas perpassa a história universal da humanidade: iniciada desde a origem do mundo, vai durar até o último dia, segundo as palavras do Senhor.  Inserido nesta batalha, o homem deve lutar sempre para aderir ao bem; não consegue alcançar a unidade interior senão com grandes labutas e o auxílio da graça de Deus”  (art. 37).

1.5.  A maternidade virginal de Maria

Eis outro tema que provém exclusivamente das fontes da fé e não pode ser discutido com critérios de ordem filosófica ou biológica.  Pergunta-se, pois: a doutrina da virgindade de Maria pertence aos ensinamentos da fé?

À pp. 96-8 da obra de Läpple, lê-se o seguinte :

“O texto de Mt 1, 18-25 propositadamente tenciona ser uma nota explicativa para Mt 1,16 e excluir toda e qualquer interpretação que defenda uma concepção natural da parte de Maria.

Além disto, verifique-se que, desde os princípios, foi incluída nas confissões de fé da Igreja a afirmação (também nas fórmulas breves mais concisas): … concebido do Espírito Santo, nascido da Virgem Maria.  O primeiro Concílio de Constantinopla (381) formulou em seu Símbolo: Creio … num só Senhor Jesus Cristo … que se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem.  O Concílio de Calcedônia (451) confessou sua fé:  Antes de todos os tempos (nosso Senhor Jesus Cristo) foi gerado do Pai segundo a divindade, nos últimos dias, porém, nasceu por nós e para nossa salvação, da Virgem Maria, Mãe de Deus, segundo a natureza humana.  O Concílio Romano do Latrão, sob o papa Martinho I (649), declarou numa formulação propositadamente vigorosa, sem deixar lugar para dúvida alguma: Quem não confessar com os Santos Padres ser Mãe de Deus, no sentido próprio e verdadeiro, a santa, imaculada e sempre Virgem Maria, que concebeu do Espírito Santo, sem sêmen, o próprio  Verbo divino, gerado pelo Pai antes de todos os séculos, e incorrupta o deu à luz, conservando-se ilesa a virgindade mesmo depois do parte, seja anátema.

De fato, é grande audácia atacar o testemunho da Escritura e da Tradição da Igreja … Pertence à fé da Igreja que Maria, quanto Virgem, totalmente à disposição de Deus, e por ele totalmente aceita para seu serviço, deu à luz o Filho”.

1.6.  A ressurreição corporal de Jesus

A ressurreição corporal de Jesus é tida por alguns exegetas liberais (da escola bultmanniana) como um mito, pois ressurreição de mortos é algo que não costuma ocorrer, nem pode ter existência aos olhos da ciência.  Parece, pois, que a proposição “Jesus ressuscitou dos mortos”  significa que a Palavra de Jesus, ameaçada de ser sufocada por seus adversários, superou os antagonismos e se propagou surpreendentemente por todo o Império greco-romano.

Diante desta interpretação, posiciona-se Läpple:

“Em vista das narrativas pascais neotestamentárias, é difícil defender a opinião de que os Apóstolos não tivessem visto o Cristo ressuscitado com seus olhos, nem ouvido com seus ouvidos, nem tocado com suas mãos (At 1,3; 2.23-32; 10,41); é difícil crer que se tratou simplesmente de fenômenos íntimos da alma que só posteriormente (talvez para ilustrar a pregação)  foram traduzidos em narrativas “palpáveis” escritas segundo a maneira mítica de entender o mundo e a existência daquela época” (p. 118).

“As narrativas neotestamentárias da ressurreição e das aparições de Jesus documentam a fé, da Igreja nascente, de que a ação salvadora de Deus foi eficaz.  As experiências e vivências das testemunhas da ressurreição (1Cor 15, 4-8; Mt 28,9s; Lc 24, 13-49; Jo 20, 11-29) têm uma margem histórica, que atesta de maneira fidedigna:  “É  verdade!  O Senhor ressuscitou!”  (Lc 24,34)”  (p. 120).

1.7.  Igreja: ponte ou barreira?

Muito oportunamente o livro em foco considera outrossim a Igreja e sua face humana.  Esta não raro constitui ocasião de problemas e objeções para quem a observa:

“Um problema central que não apenas arranha a pele, mas fere o coração, está na alternativa:  Jesus, sim – a Igreja, não!”  (p. 124).

“Fala-se de modo depreciativo da instituição eclesial e da Igreja institucional.  Acaricia-se a idéia de que a Igreja do Direito seja substituída pela Igreja da caridade, se a Igreja quer mesmo ser digna de confiança atualmente.  Sonha-se com uma Igreja ideal no futuro, porque não se sabe o que fazer com a fisionomia concreta da Igreja” (p. 125).

Sabiamente escreve Läpple:

“A Igreja terá apenas o seu lado exterior, histórico-humano, atacado e muito necessitado de reformas?

Quem diz Sim à Igreja, e muito mais quem diz Não à Igreja, deve perceber o que entende sob o nome da “Igreja” e o que, portanto, rejeita sob a citação da palavra-chave “Igreja”.  Não escapa do fato de que a Igreja se relaciona com Cristo.  Age levianamente demais ao excluir desde o início Jesus Cristo das discussões sobre a Igreja.  A Igreja apoia-se em Jesus Cristo seu fundador.  Jesus Cristo não é só fundador terreno de uma religião, nem mero fundador de uma associação piedosa, da qual os membros posteriormente se lembram apenas em virtude de uma antiga lápide sepulcral.

Quem diz Igreja há de tomar posição diante das sentenças de Jesus Cristo.  Uma dessas importantes proposições diz: “Eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28,20).  Pode-se jogar Jesus Cristo contra a Igreja, se o próprio Jesus Cristo está presente e operante em sua comunidade de fiéis? … A Igreja não é Igreja se considerada apenas sob o ângulo visual de uma instituição dentro do mundo … “Partilhar a determinação fundamental de Jesus Cristo é partilhar a determinação fundamental da Igreja” (Joseph Ratzinger).   A Igreja, como comunidade de fé, recebe da presença do Senhor Jesus Cristo crucificado e ressuscitado vida e missão, mas simultaneamente também a consciência de sua precariedade e de seu encargo de constante correção” (pp. 125s).

2.  Conclusão

Era necessário se publicasse uma obra como a que acabamos de percorrer.  O leitor encontrará na mesma a explanação de outros temas hoje controvertidos.  E poderá perceber o modo de pensar da Igreja e de seu magistério em nossos dias: as verdades da fé não são a mera expressão da sabedoria humana, mas são reveladas pelo próprio Deus através da Tradição oral  (que começa com Abraão no séc. XIX a.C.) e escrita (a S. Escritura).  Tal Revelação se encerra com a geração dos Apóstolos (séc. I d.C.).  Por isto não compete nem à Igreja como tal nem aos teólogos alterar o Credo ou adaptar as proposições da fé as correntes do pensamento e da ética das diversas épocas da história.  Caso isto fosse feito, o Cristianismo deixaria de ser sal da terra, fermento na massa, luz no mundo (cf. Mt 13,33; 5,13s); o Cristianismo se trairia, pois diria ao mundo não ser senão uma projeção da inteligência humana.  A intransigência da Igreja em pontos de fé através dos séculos é precisamente um testemunho de que Ela sabe não ser portadora de mensagem meramente humana, mas, sim, responsável por um patrimônio sagrado de verdades a Ela confiadas pelo Senhor Deus para a vida dos homens.

Esta firmeza, porém, não exclui (ao contrário, exige) a procura de apresentação das verdades da fé em fórmulas acessíveis ao mundo de hoje.  A pregação é feita ao homem e para o homem tal como ele é em cada fase da história, com suas capacidades próprias de ser interpelado.

Eis, em síntese, o que o livro de A. Läpple quer dizer.  E o disse!

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 272 – Ano 1984 – p. 15

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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