Necromancia e Contaminação

“Sei que não há contaminação espiritual (vírus ou
bactérias espirituais). Então como entender a contaminação a que se refere Lv
19,31:

“Não vos voltareis para os necromantes nem consultareis
os adivi­nhos, pois eles vos contaminariam. Eu sou o Senhor vosso Deus”?

Há quem interprete esse texto como ameaça de uma certa opres­são
do Maligno que afasta a pessoa da fé, causando-lhe tibieza, acédia… É esta
uma questão que merece análise (F. A.)”.

Meu caro amigo, realmente não existe contaminação
espiritual. Nenhum objeto é portador de desgraça ou infelicidade. Seria
superstição crer que isto possa ocorrer. Não há vírus ou bactérias espirituais.

0 texto de Lv 19,31 se coloca no conjunto do que se chama
“impu­reza ritual”. Esta era, no Antigo Testamento, algo que tornava
a pessoa inepta ou inadequada para o culto divino, sem que por isto houvesse
pecado. A impureza ritual dizia respeito apenas ao foro externo ou jurídico e
não ao foro interno ou da consciência. – É assaz amplo o catálogo dos elementos
que produzem impureza ritual entre os antigos judeus. Provinha do contato com

 

– doença (lepra): Lv 13-14; 2Rs 7,3;

–  imundícies (excrementos): Dt 23,13-15;

– cadáveres: Nm 19,11-14; 2Rs 23,12s;

– alimentos tidos como impuros (porco) ou animais impuros
(lagar­to, rato…): Lv 11,1-47.Eram motivo de impureza ritual também certos fenômenos
fisiológicos, como fluxo de sangue, ejaculação, menstruação, parto… Ver Lv
12,1-8; 15,1-30.

A raiz da suposição de que esses elementos tornavam a pessoa
ritualmente impura, era dupla:

–  preocupação com a higiene. Pode-se admitir que certos pre­ceitos de ordem
médica, na antigüidade, eram levados ao foro da religião para receberem a
chancela e a sanção dos preceitos religiosos;

–  proteção contra o paganismo. Com efeito; os pagãos comiam carne de porco e
ofereciam em seu culto sangue de porco; cf. Is 66,3. Daí o reforço da proibição
de carne de porco, tido como animal, como tal, impuro. Israel acreditava que a
terra de Canaã estava poluída pela presença de seus habitantes pagãos; por isto
os despojos de guerra eram condenados ao anátema; cf. Js 6,24-26; os frutos da
terra foram proibi­dos ao povo de Israel nos três primeiros anos de sua estada
em Canaã; cf. Lv 19,23-25:

“Quando tiverdes entrado na terra e tiverdes plantado
alguma ár­vore frutífera, considerareis os seus frutos como se fossem o seu
prepúcio. Durante três anos serão para vós como coisa incircuncisa e não se co­merá
deles.No quarto ano, todos os frutos serão sagrados em uma festa
de louvor ao Senhor. No quinto ano podereis comer os seus frutos e recolher vós
mesmos o seu produto. Eu sou o Senhor vosso Deus”.

Como motivo especial para se julgar que certas funções
fisiológicas tornavam a pessoa impura, podem-se apontar: a) o abuso que da
sexualidade faziam os pagãos na prostituição sagrada e em suas orgias, e b) a
consciência de que as funções genitais são sagradas ou tocam o domínio do
divino. O sagrado parecia estar repleto de uma força temível; cf. 2Sm 6,6-8; Ex
25,15; Nm 4,5.15.20.

Para livrar-se das impurezas rituais, era necessário não
lavar o corpo ou as vestes:

 “Toda pessoa, cidadão ou
estrangeiro, que comer um animal morto ou dilacerado, deverá lavar suas vestes
e banhar-se com água; ficará impuro até a tarde, e depois ficará puro. Mas, se
ele não as lavar e não banhar seu corpo, levará a peso de sua falta” (Lv
17, 15s).

A impureza ritual era apagada também pela oferta de
sacrifícios expiatórios; cf. Lv 12,6s:

“Quando a mulher tiver cumprido a período de sua
purificação, seja por um menino, seja por uma menina, levará ao sacerdote, à
entrada da Tenda da Reunião, um cordeiro de um ano para holocausto e um
pombinho ou uma rola em sacrifício pelo pecado. O sacerdote as oferecerá diante
do Senhor; realizará por ela o rito da expiação e ela ficará purificada do seu
fluxo de sangue”.

Como se vê, a noção de impureza ritual, no Antigo
Testamento, é complexa; explica-se pela conjugação de diversos fatores, todos
ligados à cultura e á mentalidade dos antigos. O Senhor Deus serviu-se dessas
concepções para levar seu povo a um ideal superior ou a aproximar-se da
santidade de Deus. No Novo Testamento a mesma meta – imitar a Deus – continuou
sendo proposta; deve, porém, ser atingida por vias menos rudimentares ou
primitivas, ou seja, pela prática do amor aos pró­prios inimigos (pois nisto é
que consiste a mais perfeita imitação do comportamento do Senhor Deus).
Comparem-se entre si dois textos básicos:

  Lv 11, 43-45

  “Eu sou Santo

Por isto sereis santos

Para tanto não comereis

Carne de animais impuros”

Mt 5, 44-48

“O vosso Pai Celeste é perfeito

Por isto vós, filhos, sereis perfeitos.

Para tanto amareis os vossos

inimigos”.       Como se vê, a mesma tendência perpassa o Antigo e o
Novo Testamento, exprimindo-se em concepções ora mais rudes, ora mais elevadas,
de acordo com a compreensão e a cultura dos respectivos destina­tários.

Esta explanação dá a ver que é gratuita ou sem fundamento a
interpretação segundo a qual a contaminação de Lv 19, 31 vem a ser, no Novo
Testamento, a opressão do demônio que afasta a pessoa da fé, e causa tibieza. O
demônio existe, sim, e tenta os homens, mas não se pode dizer que todo cristão
que consulte um adivinho ou um necromante está sob a ação do Maligno nem todo
pecado é provocado por tentação diabólica, embora todo pecado, por ser pecado,
faça arrefecer o amor e suscite a tibieza do pecador.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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