Não sei o que há do outro lado – EB

Em síntese: A revista VEJA apresentou depoimentos  de pessoas amedrontadas pela perspectiva da morte. Na verdade, o cristão sabe que a morte não é uma ruptura, mas o pleno desabrochamento de uma realidade germinal, depositada na alma do fiel batizado e alimentado pelos sacramentos. Os Santos chegaram a ansiar pela morte como sendo o fim de uma gestação ou a passagem para a plena luz após o claro-escuro do regime de fé.

A revista VEJA, edição de 6/10/99, pp. 78-84, publicou depoimento de médicos e pacientes relativos à morte. Predomina aí o medo,… medo do incerto ou do desconhecido. Outra é a concepção autenticamente cristã concernente a essa temática. A seguir, serão explanadas uma e outra atitude.

“A gente não sabe como é do outro lado”

À p. 81, escreve o articulista:

“A mudança que tirou a morte do espaço público, transformando-a num exercício de silêncio, começou a acontecer no século XIX. Esconder a notícia da doença funesta, fingir que nada está acontecendo, ocultar o medo são comportamentos que coincidem com mudanças sociais e avanços da medicina. Enquanto a expectativa de vida aumenta, a composição familiar encolhe e se desenvolve uma sensibilidade voltada para poupar o doente do sofrimento de saber o destino que o aguarda; cada vez mais se dissimula o inevitável. O espetáculo da morte, com seus odores, seus gemidos, suas excreções, vai se tornando insuportável. “Avanços em matéria de conforto, privacidade e higiene pessoal tornaram as pessoas mais sensíveis. Nossos sentidos não toleram mais as visões e os cheiros que até o século XIX eram parte do cotidiano, juntamente com o sofrimento e a doença”, enumera o historiador. No decorrer do século XX, a morte silenciosa. Abreviam-se os ritos: vão-se as carpideiras, as vestes negras das viúvas e as portas cerradas em sinal de luto. Nos países anglo-saxões, até expressões de dor em público são tacitamente proscritas, como coisa de mau gosto, quando não de histeria. As lágrimas secam. Na década de 50, a morte passa para os domínios das UTIs, torna-se asséptica e invisível. É como se abandonasse a vida pública para confinar-se à solidão de hospital.
O homem moderno vive como se jamais fosse morrer. Evita-se o assunto até diante da inexorabilidade da perda. Foi o que aconteceu com a ex-decoradora paulista Vitória Herzberg. Ela perdeu um filho aos 18 anos, vítima de câncer. Todo o processo da doença levou sete meses e, mesmo quando a morte era inevitável, a família continuou recusando-se a falar dela. Hoje, Vitória arrepende-se. Considera que, ao negar-se a conversar sobre o assunto com o filho, fez com que ele se sentisse solitário diante do aterrador medo do fim”.
Mais adiante lê-se o depoimento de uma jovem estudante de 17 anos, vítima de câncer generalizado:
“A morte está mais próxima de mim do que dos outros. Os outros sabem que ela vai acontecer, só que eu espero por ela. Quer dizer, espero mais ou menos, porque eu não quero morrer.
Eu tenho medo. Todo mundo tem, né? Mas parece que a pessoa que está perto de morrer, fica com mais medo ainda. A gente não sabe como é do outro lado. Mesmo aqui em casa, nós somos evangélicos, dizemos que quem prepara a alma vai para o céu. Mesmo sabendo disso, eu tenho medo. Sei lá o que tem depois, né? Quando eu penso nisso, fico apavorada”.

A propósito observe-se: entende-se que o mundo atual  secularizado ou alheio a Deus queira evitar pensar na morte; para quem não tem fé, somente as realidades sensíveis têm significado (e que pobre significado!). Mesmo assim parece que o bom senso leva a pensar no termo final da existência terrestre, pois afinal a morte é, como se diz, a única certeza que alguém tem desde que nasce. Já os antigos romanos recomendavam: “In omnibus respice finem. Em tudo que faças, considera o fim”.
O horror da morte pode ocorrer também em pessoas de fé, como atesta a jovem estudante atrás citada. Há em todo ser humano um instinto inato de autoconservação, que repele a destruição do existente. Todavia a fé aprofundada leva a ver que a morte não é a destruição da pessoa humana; é, antes, passagem para a plenitude de uma realidade embrionária depositada no cristão pelo Batismo e alimentada pelos sacramentos; existe continuidade entre a vida presente e a futura; o Deus que faz a bem-aventurança dos justos na pátria celeste, está presente a todo cristão que Lhe seja fiel; o Deus do além (do outro lado) é o Deus do aquém (do lado de cá).
A consciência destas verdades inspirou a São Paulo o desejo de morrer para passar do regime da fé ao da visão de Deus face-a-face:
“Para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro. Mas, se o viver na carne me dá ocasião de trabalho frutífero, não sei bem o que escolher. Sinto-me diante de um dilema: o meu desejo é partir e estar com Cristo, pois isto me é muito melhor o permanecer na cerne é mais necessário por vossa causa” (Fl 1,21-23).

Ou ainda:
“Estamos sempre confiantes, sabendo que, enquanto habitamos neste corpo, estamos fora da nossa mansão, longe do Senhor, pois caminhamos pela fé e não pela visão… Sim, estamos cheios de confiança, e preferimos deixar a mansão deste corpo para ir morar junto do Senhor” (2Cor 5,6-8).
“Chegou o tempo de minha partida. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Desde já me está reservada a coroa da justiça, que me dará o Senhor, justo Juiz, naquele Dia; e não somente a mim, mas a todos os que tiverem esperado com amor a sua Aparição” (2Tm 4,6-8).
Na literatura dos Santos encontram-se ecos de tais anseios.
Sejam citados apenas os dizeres de Santa Teresa de Ávila (+ 1582):
“Senhor, é tempo de nos vermos!”
“A vida é, como uma só noite em má pousada”.

Examinemos, de modo sistemático, o conceito cristão de morte.

Morte: conceito cristão

1. Para o cristão, a morte não deixa de ser um fenômeno natural. Compreende-se que se dê a separação de corpo e alma, visto que os órgãos corpóreos (coração, pulmões, fígado…) se vão desgastando, a tal ponto que, cedo ou tarde, o organismo já não pode preencher as funções da vida; por isto a alma – o princípio vital (espiritual e imortal) – se separa do corpo.
Todavia a morte brutal e dolorosa, como ela é atualmente, decorre do pecado dos primeiros pais.

As Escrituras ensina-o enfaticamente:
“Deus não fez a morte nem experimenta alegria quando perecem os vivos. Criou todas as coisas para que tenham existência” (Sb 1,13s).
“Deus criou o homem para a imortalidade, e o fez imagem de sua  própria natureza. Foi por inveja do diabo que a morte entrou no mundo” (Sb 2,23s).
“Por meio de um só homem o pecado entrou no mundo, e, pelo pecado, a morte; e assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5,12).
2. Eis porém que o Deus de bondade, que criou o homem, não o abandonou à sua triste sorte. Em tempo oportuno, o próprio Deus assumiu a carne humana; tomou sobre si a morte com todas as angústias precursoras e ressuscitou; assim Jesus Cristo venceu a morte e dela nos libertou.
O Senhor obteve o triunfo sobre a morte em favor do gênero humano, a fim que cada indivíduo saiba que, embora deva morrer dolorosamente em conseqüência da culpa original, a morte não é para ele mera sanção, mas é a passagem para a vida definitivamente. Diz o Apóstolo:
“pois que seus filhos participam da carne e do sangue, também Ele quis Ter parte na carne e no sangue, a fim de, por sua morte, reduzir à impotência aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio, e libertar os que, por temor da morte, estavam sujeitos à escravidão durante toda a vida” (Hb 2,14; cf. 2Tm 1,10).
Jesus assim se apresenta como o segundo Adão, que nos comunica a vida, e vida sem fim, em oposição ao primeiro Adão, que nos transmitiu a morte. Cf. Rm 5,12-17.
3. Jesus nos comunica a sua vida mediante o Batismo; este nos incorpora a Cristo Cabeça (cf. 1 Cor 12, 12) ou nos enxerta na verdadeira  Videira (cf. Jo 15, 1-5). Isto quer dizer que a vida de Jesus se prolonga no cristão; é-nos dada sob a forma de um gérmen, que tende a expandir-se cada vez mais através das nossas atividades das nossas atividades e transfigurar o corpo no dia em que este ressuscitar.
4. Esta situação leva o cristão a fazer uma revisão dos valores do mundo presente.

Não há propriamente morte para o cristão. Ele sofre, sim, as misérias da carne como os demais homens; mas as suas mazelas são as de um membro de Cristo; o que quer dizer que elas, fazendo sofrer, levam à verdadeira vida e à glória definitiva. “O corpo do regenerado torna-se a carne do crucificado”, diz S. Leão Magno (+ 461). Quanto mais esse corpo se configura ao de Jesus pelo padecimento, tanto mais também se assemelhará na glória futura; todo sofrimento, portanto, vem a ser um rejuvenescimento ou uma antecipada participação da glória de Cristo, como diz São Paulo:
“Trazemos incessantemente em nosso corpo a morte de Jesus, a fim de que a vida de Jesus se manifeste, também ela, em nosso corpo” (2Cor 4,10).
Sofrer e morrer significam, para o cristão, estender à sua carne os sofrimentos e a morte de Cristo vitorioso; por isto o mesmo Apóstolo pode afirmar:
“Enquanto o nosso homem exterior vai definhando, o nosso homem interior se vai renovando de dia a dia” (2Cor 4,16).
O Cristão pode muito bem dizer: assim como, para quem não tem fé, a vida presente é toda dominada pela tremenda perspectiva da morte, que lhe vai absorvendo as energias, assim para o cristão, a morte presente é toda iluminada pela perspectiva da vida que não é meramente futura, mas que ele já possui em gérmen e que nele vai desabrochando progressivamente até a ressurreição gloriosa.

As consequências do conceito cristão
1. Um fato que exprime tipicamente a mudança da escala de valores decorrente do conceito cristão de morte é o seguinte:
Em sua Retórica (II, 12s), o filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.) procura caracterizar a juventude e a velhice da vida humana. Afirma então que os jovens vivem para os valores morais e artísticos; concebem um ideal de virtude e de heroísmo, cuja beleza os atrai e ao qual se entregam sem medir forças e bens materiais. Numa palavra: vivem para o belo (pros tò kalón), não para o útil ou o interesse pessoal (tò symphéron). A razão disto é que sentem em si uma vitalidade ardorosa, ainda não contraditada por reveses.
Conseqüentemente, para Aristóteles, os anciãos, experimentando em si o definhar lento das forças físicas, vivem não mais para um ideal de beleza e bravura,  mas para o interesse particular; vivem para aquilo que lhes possa trazer proveito físico e conservar a existência. Numa palavra: vivem não mais para o belo, mas para o útil ou o interesse pessoal (pròs tò symphéron).
Esta caracterização do ancião não deixa de impressionar; é uma desdita às aspirações mais espontâneas e nobres da natureza humana. É lógica, porém, aos olhos da razão natural: a vida é o fundamento de qualquer ideal que o homem possa conceber. Ora Aristóteles e seus contemporâneos só conheciam a vida neste corpo; por isto julgavam que as aspirações variam de acordo com o grau de vitalidade que o homem experimenta nas sucessivas fases da sua existência terrestre.
O quadro é triste. Pergunta-se, porém que o homem está necessariamente fadado a renegar seus ideais mais nobres?
A esta pergunta responderemos apontando o caso de outro pensador – o Apóstolo São Paulo – que viveu três séculos após Aristóteles e tomou conhecimento da mensagem cristã. Esta lhe inspirou um modo de ver bem diferente das concepções do filósofo grego. Com efeito; basta notar que o Apóstolo escreveu treze cartas, sendo as três últimas (as Pastorais: ½ Tm e Tt) datadas dos anos de Paulo sexagenário, encarcerado em Roma e consciente de que estava prestes a ser condenado à morte. Pois bem; ao passo que nas dez epístolas anteriores o Apóstolo empregara vinte vezes o adjetivo kalón (belo e bem moral), nas três pastorais ele o usou vinte e quatro vezes, e geralmente como aposto aos diversos substantivos com que descrevia a vida cristã1.
A mente de S. Paulo aparece assim impregnada pelo ideal da beleza e pelas aspirações supremas na idade decrépita, muito mais ainda do que  no vigor dos anos. O Apóstolo assim punha em xeque as previsões do filósofo grego. – E qual a razão deste contraste? – É que justamente o Apóstolo percebia o sentido que a morte tomou após Cristo, sentido que o homem antes de Cristo não podia perceber: Paulo já não considerava a morte como fim da existência humana, mas como passagem para outra vida, muito mais rica e fecunda do que a terrestre; por isto também, quanto mais próximo se achava da morte, tanto mais afirmava os valores nobres, pois sabia que o seu definhar na vida terrestre era, na realidade, um rejuvenescimento para a vida definitiva.
Eis como a morte, para o cristão, importa um autêntico desabrochar, em vez de extinção da personalidade. Ela pode e deve ser dita “transfiguração” do discípulo de Cristo.
2. Conscientes deste valor da morte, os antigos cristãos chamavam-na o seu natalício propriamente dito. Bem se entende isto, pois a morte é a consumação do Batismo ou da regeneração sacramental iniciada na pia batismal e desdobrada lentamente nesta existência terrestre. É por isto que S. Inácio de Antioquia (+110 aproximadamente), condenado a ser lançado às feras no Coliseu de Roma, escrevia aos fiéis amigos que tencionavam interceder junto às autoridades romanas para lhe evitar o martírio:
“É bom para mim morrer a fim de me unir ao Cristo Jesus… Aproxima-se o momento em que serei dado à luz… Não ponhais empecilho a que eu viva, não queirais que eu morra” (Aos Romanos 6,1s).
O cristão, sim, só é homem perfeito na medida em que é filho do dia, da luz, da vida definitiva. É desta que ele vive, trazendo-a arraigada em seu íntimo. Em consequência, a morte pode tornar-se meta ardentemente desejada, como revela o mesmo S. Inácio:
“Escrevo a vós, possuído do amor da morte…; há, em mim, uma água viva que fala e dentro de mim diz: “Vem para o Pai” (Aos Romanos 7,2)1.
3. Estas verdades podem ser expressas ainda do seguinte modo: o cristão nasce em duas etapas. A primeira ocorre após nove meses de gestação no seio materno; o bebê que então vem à luz, chora, porque perde o aconchego e a proteção de que desfrutava no seio materno. Aos poucos, porém, vai-se adaptando ao novo ambiente, adquire sua autonomia e encontra seu lugar ao sol; aí prepara novo tipo de aconchego, ao qual espontaneamente se apega e do qual não quer ser desinstalado; vive então uma nova fase de sua gestação, já não aos cuidados de sua mãe, mas sob os seus próprios cuidados; sim, o que nasceu do seio materno, foi um ser ainda embrionário, cheio de potencialidades não desabrochadas; estas são desdobradas e atualizadas pelo indivíduo no decorrer desta vida terrestre; é ele quem vai definir sua estatura física e espiritual ou sua configuração definitiva. Quando o Pai o julga oportuno, chama-o para a mansão definitiva num momento dito “morte”, que na verdade é a Segunda etapa do nascimento dessa pessoa; é então que acaba de nascer, pois se acha com a sua personalidade acabada. Desta maneira vê-se mais uma vez que a morte, para o cristão, não é propriamente morte, mas passagem para a plenitude da vida.
4. Deve-se mesmo dizer que, em seu sentido mais profundo, a morte, abraçada em união com a de Cristo, é a resposta positiva e generosa que o cristão dá ao convite do Pai, em oposição à recusa que o primeiro homem deu ao mesmo convite (incorrendo por isto na condenação à morte). Sereno, pois, e alegre caminha o cristão na terra de encontro ao seu nascimento para a vida eterna. Na realidade, só há um tipo de angústia que o afeta: o pecado, pois este significa justamente separação de Deus ou da verdadeira vida. Diante do pecado, sim, o cristão ressente todo o horror que a perspectiva da morte física suscita no não cristão. Caso, porém, esteja isento de pecado, o discípulo de Cristo não se deixa abalar pelas vicissitudes desta peregrinação nem pela própria morte; sabe que nada disto lhe pode tirar o verdadeiro tesouro que ele traz em seu íntimo, vida que Deus lhe deu e que só Deus, ou a sua infidelidade voluntária, podem extinguir. A convicção desta verdade levava o Apóstolo a dizer:
“Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada?… Em todas estas coisas somos mais do que vencedores, graças àquele que nos amou. Pois estou convencido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem as coisas presentes nem as futuras, nem as potestades, nem a altura nem a profundidade nem qualquer outra criatura nos poderá separar do amor que Deus tem para conosco em Cristo Jesus nosso Senhor” (Rm 8,35.37-39).
Ou ainda:
“Tudo é vosso… tanto o mundo como a vida e a morte, o presente e o futuro. Tudo é vosso; vós, porém, sois de Cristo, e Cristo é de Deus (Pai)”” (1Cor 3, 21-23).

“Ver a Deus” – aspiração de todos os homens

Desde remota antigüidade, os homens sempre exprimiram o desejo de ver a Divindade, tal como eles a entendiam; a Divindade teria a face da Beleza Infinita.. É o que atestam a filosofia dos hindus, o platonismo grego, as religiões ditas “de mistérios”. Para os pagãos, a visão de Deus significa salvação, plenitude de vida… Entre os israelitas, que professavam a fé no Deus vivo, era intenso o desejo de ver a face de Deus; cf. Ex 33, 17-23; Sl 17, 15; Jo 14, 8. Todavia nem a pagãos nem a judeus foi concedido ver a face de Deus neste mundo. Cristo é que nos mereceu a realização deste anseio natural mediante o seu sangue. Esta mensagem, expressa no Novo testamento, corresponde a uma das aspirações mais espontâneas da natureza humana.
Para o cristão, a futura visão de Deus já tem seu fundamento nos dons que o Batismo lhe comunicou e que nele vão desabrochando durante esta vida; a visão beatífica não é senão a consumação de uma caminhada iniciada na terra. Com efeito, já neste mundo o cristão, em estado de graça, participa da vida divina; possui dentro de si o princípio que o habilita a ver Deus como Deus vê a si mesmo. A continuidade entre a vida presente e a futura é expressa mediante significativas imagens tiradas dos livros sagrados:

sementeira – messe: Gl 6, 8s; 2Cor 9, 6;

habitação de peregrino no estrangeiro – entrada na pátria: 2Cor 5, 6s;

habitação em tenda – casa definitiva: 2Cor 5, 1-4;

posse velada – posse revelada: Cl 3, 3s.

É Jesus quem diz:

“Aquele que beber da água que lhe darei, jamais terá sede; ao contrário, a água que lhe darei, tornar-se-á nele uma fonte de água que jorrará para a vida eterna” (Jo 4, 14).

Tal água sempre foi entendida como símbolo da graça conferida pelo Batismo. Também chamam a atenção estas outras palavras do Senhor:

“Em verdade, em verdade, eu vos digo: aquele que ouve a minha palavra e crê…, possui a vida eterna” (Jo 5,24).

São muitos significativas as formas verbais de presente e de futuro.

Todavia, por mais que se reconheça a continuidade existente entre a graça na terra e a glória no céu, é preciso afirmar que as notas de dessemelhança ainda são maiores. Eis outra imagem que ajuda a perceber a semelhança e a dessemelhança entre os dois termos: entre a larva e a borboleta há, sem dúvida, continuidade de vida; todavia na primeira nada se nota da riqueza de cores e agilidade que caracterizam a Segunda; há mesmo um contraste de aparências; a larva é feia, quase repugnante, ao passo que a borboleta é muito bela e atraente. É surpreendente o fato de que o mesmo princípio vital se pode revestir de aspectos tão diferentes. Assim a vida celeste, embora já se tenha iniciado para nós neste mundo, fica sendo um mistério, do qual só podemos falar em termos que mais dessemelhança implicam do que a afinidade com a vida futura; trata-se, com efeito, de algo que o olho não viu, o ouvido jamais ouviu… (1Cor 2, 9).

***
1 Assim bela luta (2Tm 4, 7); bela milícia (1Tm 1, 18; 2Tm 3, 3); bela doutrina (1Tm 4, 6); belo testemunho ( 1Tm 3, 7); bela lei (1Tm 1, 8); belo fundamento (1Tm 6, 19); belo ministro (de  Cristo) (1Tm 4, 6)…
1 A água viva de que fala Inácio, é símbolo do Espírito Santo, conforme Jo 7,37-39.

 

Revista “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 453 –  Ano 2000 –  p. 64

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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