Mulheres que querem abortar receberão aconselhamento contrário nos EUA

The New York Times



A.G. Sulzberger



A placa na frente anuncia
testes de gravidez gratuitos, informações sobre aborto e exames para
doenças sexualmente transmissíveis. Mas esta não é uma clínica de aborto
–é a sede do Alpha Center, uma organização de Sioux Falls, Dakota do
Sul, dedicada a encorajar as mulheres a terem seus filhos.



Uma lei assinada pelo governador Dennis Daugaard na terça-feira (22)
transformou o Estado no primeiro a exigir que as mulheres que optam pelo
aborto tenham que primeiro atender a uma consulta nos centros de
auxílio à gravidez, para aprender que tipo de assistência está
disponível “para ajudar a mãe a ter o bebê e cuidar dele”.



A lei, que foi aprovada com facilidade numa Assembléia Legislativa onde o
número de republicanos é maior do que o de democratas numa proporção de
três para um, também estabelece o mais longo período de espera do país
–três dias– entre a visita inicial a uma clínica de aborto e a
realização do procedimento.



Muitos Estados exigem que as mulheres sejam aconselhadas por médicos ou
outros membros da equipe da clínica, antes da realização do aborto,
sobre temas como os riscos à saúde. O que torna a nova lei de Dakota do
Sul diferente é que esse aconselhamento obrigatório será efetuado por
pessoas cuja principal qualificação é a oposição ao aborto.



“Acho que todos concordam com o objetivo de reduzir o aborto encorajando
as mulheres a considerar outras alternativas”, disse o republicano
Daugaard na terça-feira.



A lei atraiu uma oposição veemente dos defensores do direito ao aborto,
tanto locais quanto nacionais, que descreveram as exigências como
obstáculos inconstitucionais para as mulheres que buscam o aborto. A
Planet Parenthood disse que vai aos tribunais para contestar a lei, que
deverá entrar em vigor em 1º de julho nos tribunais.



Peggy Gibson, representante democrata do Estado, que votou contra a
medida, disse que a lei é uma “intromissão do governo nas decisões
médicas da população”.



“As mulheres de Dakota do Sul não deveriam ter de se submeter a uma aula
particular dada por um conselheiro ou voluntário sem qualificação ou
certificação, baseada na fé, num centro para a gravidez e contra o
aborto”, disse Gibson.



Em assembleias legislativas de todo país, os republicanos usaram seu
sucesso nas eleições de meio de mandato em novembro para aprovar leis
com o objetivo de reduzir os abortos.



Mais de metade dos Estados introduziram leis como estas, restringindo a
cobertura médica para o aborto, exigindo que as mulheres façam um
ultrassom antes do aborto, e proibindo o aborto depois de 20 semanas,
disse Elizabeth Nash, que acompanha as leis sobre aborto no Instituto
Guttmacher, um centro de pesquisa.



A legislação de Dakota do Sul, conhecida como HB 1217, é o projeto de
lei mais abrangente a se tornar lei, disse Nash. Apesar de uma taxa de
aborto que está entre as mais baixas do país, o Estado se tornou um
campo de batalha para este tema nos últimos anos, quando a assembleia
aprovou inúmeras leis com o objetivo de reduzir os abortos, algumas das
quais foram revogadas por tribunais e pelos eleitores em dois
referendos.



As leis que permaneceram já são restritivas para os padrões nacionais. O
Estado, por exemplo, exige a espera de um dia e o aconselhamento pela
equipe da clínica, e exige que as mulheres recebam a informação de que o
aborto “terminará com a vida de um ser humano vivo, inteiro, separado e
único.”



As visitas obrigatórias a centros de auxílio à gravidez, que estão
crescendo em número em todo o país nos últimos anos, são uma mudança
tática significativa por parte dos oponentes do aborto.



Esses centros –tanto seculares quanto religiosos– poderão se
qualificar para fornecer serviços de aconselhamento de acordo com a lei,
desde que sua principal missão seja “educar, aconselhar e ajudar as
mulheres a manter um relacionamento com seus filhos ainda não nascidos”.



“Há uma garantia maior de que uma mulher que esteja considerando o
aborto seja totalmente informada sobre todos os riscos e sobre todas as
opções”, disse Roger Hunt, legislador republicano que redigiu o projeto
de lei. “Isso não está sendo feito atualmente.”



A lei parece ter aumentado as tensões entre as clínicas de aborto e os
centros de auxílio à gravidez, que com frequência operam com proximidade
e estão listados lado a lado na lista telefônica sob o verbete aborto
(o Centro Alpha estava num espaço que antes era de uma clínica da
Planned Parenthood). Cada lado acusa o outro de manipular e coagir as
mulheres.



Leslee Unruh, fundadora do Alpha Center e líder dos esforços
anti-aborto, disse que as sessões de aconselhamento de sua clínica serão
feitas apenas por profissionais médicos e garantirão que as mulheres
não serão pressionadas por um namorado, marido ou pelos pais a tomarem
uma decisão. O centro já fornece sessões de aconselhamento para mulheres
que se arrependem da decisão de abortar.



Ela rejeitou as críticas à lei, dizendo que as mulheres continuam livres
para fazer um aborto se assim optarem. “Do que eles têm tanto medo?”,
perguntou Unruh. “De que as mulheres possam mudar de ideia?”



A clínica Planned Parenthoos é a única que oferece abortos não
emergenciais no Estado. Ela não tem médicos locais dispostos a fazer
abortos, então os médicos vêm toda semana de Minnesota.



As pacientes costumam atravessar o Estado para fazer um aborto, então,
de acordo com a nova lei elas teriam que fazer várias viagens ou
encontrar um lugar para ficar durante o período de espera de três dias.



Sarah Stoez, presidente da Planned Parenthood, disse que a clínica é
cuidadosa, assegurando que as pacientes tomem a decisão por conta
própria, e às vezes rejeitando alguma mulher que pareça estar tomando a
decisão sob pressão.



Por outro lado, disse ela, os funcionários dos centros de “auxílio à
gravidez” são conhecidos por fornecer informações equivocadas sobre os
riscos físicos e psicológicos associados ao procedimento e usam táticas
como mostrar fotos ou citar escrituras para influenciar a decisão de uma
mulher.



“Eles não têm licença, não são regulados, não são acreditados e são abertamente ideológicos”, disse Stoesz.



Ela acrescentou que a ideia de que as mulheres grávidas agora são
“obrigadas por lei a serem coagidas por pessoas que nem mesmo são
profissionais médicos ‘não que devam ser coagidas por alguém’ é
realmente além dos limites do aceitável.”



Tradução: Eloise De Vylder





http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2011/03/27/mulheres-que-querem-abortar-receberao-aconselhamento-contrario-nos-eua.jhtm


Nesta imagem sem data, a clínica Alpha Center, em Sioux Falls

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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