Moral: Catecismo da Igreja Católica (Parte 4)

Adivinhação e Magia

2115

Deus pode revelar o futuro a seus profetas ou a outros
santos. Todavia, a atitude cristã correta consiste em entregar-se com confiança
nas mãos da providência no que tange ao futuro, e em abandonar toda curiosidade
doentia a este respeito. A imprevidência pode ser uma falta de
responsabilidade.

2116

Todas as formas de
adivinhação hão de ser rejeitadas: recurso a Satanás ou aos demônios, evocação
dos mortos ou outras práticas que erroneamente se supõe “descobrir” o futuro341.
A consulta aos horóscopos, a astrologia, a quiromancia, a interpretação de
presságios e da sorte, os fenômenos de visão, o recurso a médiuns escondem uma
vontade de poder sobre o tempo, sobre a história e, finalmente, sobre os
homens, ao mesmo tempo que um desejo de ganhar para si os poderes ocultos.
Essas práticas contradizem a honra e o respeito que, unidos ao amoroso temor,
devemos exclusivamente a Deus.

341 Cf. Dt 18,10; Jr 29,8.

2117

Todas as práticas de magia ou de feitiçaria  com as quais a pessoa pretende domesticar os
poderes ocultos, para colocá-los a seu serviço e obter um poder sobrenatural
sobre o próximo – mesmo que seja para proporcionar a este a saúde -, são
gravemente contrárias à virtude da religião. Essas práticas são ainda mais condenáveis
quando acompanhadas de uma intenção de prejudicar a outrem, ou quando recorrem
ou não à intervenção dos demônios. O uso de amuletos também é repreensível. O
espiritismo implica freqüentemente práticas de adivinhação ou de magia. Por
isso a Igreja adverte os fiéis a evitá-lo. O recurso aos assim chamados
remédios tradicionais não legitima nem a invocação dos poderes maléficos nem a
exploração da credulidade alheia.

A Irreligião

2118

O primeiro mandamento de Deus reprova os principais
pecados de irreligião: a ação de tentar a Deus em palavras ou em atos, o
sacrilégio e a simonia.

2119

A ação de tentar a Deus consiste em pôr à prova, em
palavras ou em atos, sua bondade e sua onipotência. Foi assim que Satanás quis
conseguir que Jesus se atirasse do alto do templo e obrigasse Deus, desse modo,
a agir342. Jesus opõe-lhe a Palavra de Deus: “Não tentarás o Senhor teu Deus”
(Dt 6,16). O desafio contido em tal “tentação de Deus” falta com o respeito e a
confiança que devemos a nosso Criador e Senhor. Inclui sempre uma dúvida a
respeito de seu amor, sua providência e seu poder343.

342 Cf. Lc 4,9.

343 Cf. 1Cor 10,9; Ex
17,2-7. Sl 95,9.

2120

O sacrilégio consiste em profanar ou tratar indignamente
os sacramentos e as outras ações litúrgicas, bem como as pessoas, as coisas e
os lugares consagrados a Deus. O sacrilégio é um pecado grave, sobretudo quando
cometido contra a Eucaristia, pois neste sacramento o próprio Corpo de Cristo
se nos torna substancialmente presente344.

344 Cf. CIC, cân 1367; 1376.

2121

 A sintonia é definida como a compra ou a venda de
realidades espirituais. A Simão, o mago, que queria comprar o poder espiritual
que via em ação nos Apóstolos, Pedro responde: “Pereça o teu dinheiro, e tu com
ele, porque julgaste poder comprar com dinheiro o dom de Deus” (At 8,20). Desta
maneira, Pedro obedecia à Palavra de Jesus: “De graça recebestes, daí de graça”
(Mt 10,8)346. É impossível apropriar-se dos bens espirituais e comportar-se em
relação a eles como um possuidor ou um dono, pois a fonte deles é Deus. Só se
pode recebê-los gratuitamente dele.

345 Cf. At 8,9-24.

346 Cf. Is 55,1.

2122

 “Além das ofertas estabelecidas pela autoridade
competente, o ministro nada peça pela administração dos sacramentos, tomando
cuidado sempre que os necessitados não sejam privados da ajuda dos sacramentos
por causa de sua pobreza.”347 A autoridade competente fixa estas “ofertas” em
virtude do princípio de que o povo cristão deve cuidar do sustento dos
ministros da Igreja. “O operário é digno de seu sustento” (Mt 10,10)348.

347 CIC, cân. 848.

348 Cf. Lc 10,7; 1Cor
9,4-18; 1Tm 5,17-18.

O Ateísmo

2123″muitos de nossos contemporâneos não percebem de modo
algum esta união íntima e vital com Deus, ou explicitamente a rejeitam, a ponto
de o ateísmo figurar entre os mais graves problemas de nosso tempo.”349

349 GS 19,1.

2124

O termo ateísmo abrange fenômenos muito diversos. Uma
forma freqüente é o materialismo prático, de quem limita suas necessidades e
suas ambições ao espaço e ao tempo. O humanismo ateu considera falsamente que o
homem é “seu próprio fim e o único artífice e demiurgo de sua própria
história”350. Outra forma de ateísmo contemporâneo espera a libertação do homem
pela via econômica e social, sendo que “a religião, por sua própria natureza, impediria
esta libertação, na medida em que, ao estimular a esperança do homem numa
quimérica vida futura, o desviaria da construção da cidade terrestre”351.

350 GS 20, 1.

351 GS 20, 2.

2125

Na medida em que rejeita ou recusa a existência de Deus,
o ateísmo é um pecado contra a virtude da religião352. A imputabilidade desta
falta pode ser seriamente diminuída em virtude das intenções e das
circunstâncias. Na gênese e difusão do ateísmo, “grande parcela de
responsabilidade pode caber aos crentes, na medida em que, negligenciando a
educação da fé, ou por uma exposição enganosa da doutrina, ou por deficiência
em sua vida religiosa, moral e social, se poderia dizer deles que mais escondem
do que manifestam o rosto autêntico de Deus e da religião”353.

353 Gs 19,3.

2126

Muitas vezes o ateísmo se funda em uma concepção falsa da
autonomia humana, que chega a recusar toda dependência em relação a Deus354.
Contudo, “o reconhecimento de Deus não se opõe de modo algum à dignidade do
homem, já que esta dignidade se fundamenta e se aperfeiçoa no próprio Deus”355.
“A Igreja já sabe perfeitamente que sua mensagem se coaduna com as aspirações
mais íntimas do coração.”356.

356 GS 21, 7.

O Agnosticismo

2127

O agnosticismo se reveste de muitas formas. Em certos
casos, o agnóstico se recusa a negar a Deus; ao contrário, postula a existência
de um ser transcendente, que não poderia revelar-se e sobre o qual ninguém
seria capaz de dizer nada! Em outros casos, o agnóstico não se pronuncia sobre
a existência de Deus, declarando que é impossível prová-la e até afirmá-la ou
negá-la.

IV. “Não farás para ti
imagem esculpida de nada…”

2129

O mandamento divino incluía a proibição de toda
representação de Deus por mão do homem. O Deuteronômio explica: “Uma vez que
nenhuma forma vistes no dia em que o Senhor vos falou no Horeb, do meio do
fogo, não vos pervertais, fazendo para vós uma imagem esculpida em forma de
ídolo…” (Dt 4,15-16). Eis aí o Deus absolutamente transcendente que se
revelou a Israel. “Ele é tudo”, mas, ao mesmo tempo, ele está “acima de todas
as suas obras” (Eclo 43,27-28). Ele é “a própria fonte de toda beleza criada”
(Sb 13,3).

2130

No entanto, desde o Antigo Testamento, Deus ordenou ou
permitiu a instituição de imagens que conduziriam  simbolicamente à salvação por meio do Verbo
encarnado, como são a serpente de bronze”357, a Arca da Aliança e os
querubins358.

357 Cf. Nm 21,4-9; Sb
16,5-14; Jo 3,14-15.

358 Cf. Ex 25, 10-22; 1Rs
6,23-28; 7,23-26.

2131

Foi fundamentando-se no mistério do Verbo encarnado que o
sétimo Concílio ecumênico, em Nicéia (em 787), justificou, contra os
iconoclastas, o culto dos ícones: os de Cristo, mas também os da Mãe de Deus,
dos anjos e de todos os santos. Ao se encarnar, o Filho de Deus inaugurou uma
nova “economia” das imagens.

2132O culto cristão das imagens não é contrário ao primeiro
mandamento, que proíbe os ídolos. De fato, “a honra prestada a uma imagem se
dirige ao modelo original”359, e “quem venera uma imagem venera  a pessoa que nela está pintada”360. A honra
prestada às santas imagens é uma “veneração respeitosa”, e não uma adoração,
que só compete a Deus.

O culto da religião não se
dirige às imagens em si como realidades, mas as considera em seu aspecto
próprio de imagens que nos conduzem ao Deus encarnado. Ora, o movimento que se
dirige à imagem enquanto tal não termina nela, mas tende para a realidade da
qual é imagem361.

359 S. Basílio, Spir. 18,45:
PG 32,149c.

360 II Conc. De Niceia,
Definitio de sacris imaginibus: Ds 601; cf. Conc. De Trento, 25ª sessão,
Decretum de invocatione, veneratione et reliquiis Sactorum, et sacris
imaginibus: Ds 1821-1825. Conc. Vaticano II, SC 125: AAS 56 (1964) 132; id., LG
67: AAS 57 (1965) 65-66.

361 Sto. Tomás de Aquino, S.
Th., II-II, 81,3 ad 3.

2133″Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com
toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6,5).

2134

O primeiro mandamento convida o homem a crer em Deus, a
esperar nele e a amá-lo acima de tudo.

2135

“Adorarás o Senhor teu Deus” (Mt 4,10). Adorar a Deus,
orar a Ele, oferecer-lhe o culto que lhe é devido, cumprir as promessas e os
votos que foram feitos a Ele são os atos da virtude de religião que nascem da
obediência ao primeiro mandamento.

2136

O dever de prestar um culto autêntico a Deus incumbe ao
homem, tanto individualmente como em sociedade.

2137

O homem deve “poder professar livremente a religião,
tanto em particular como em público”362

362 DH 15.

2138

A superstição é um desvio do culto que rendemos ao
verdadeiro Deus. Ela se mostra particularmente na idolatria, assim como nas
diferentes formas de adivinhação e de magia.

2139

A ação de tentar a Deus, em palavras ou em atos, o
sacrilégio, a simonia são pecados de irreligião proibidos pelo primeiro
mandamento.

2140

Enquanto rejeita ou recusa a existência de Deus, o
ateísmo é um pecado contra o primeiro mandamento.

2141O culto às imagens sagradas está fundamentado no mistério
da encarnação do Verbo de Deus. Não contraria o primeiro mandamento.

2160

“Senhor, nosso Deus, quão poderoso é teu nome em toda a
terra” (Sl 8,11).

2161

O segundo mandamento prescreve respeitar o nome do
Senhor. O nome do Senhor é santo.

2162O segundo mandamento proíbe todo uso inconveniente do
nome de Deus. A blasfêmia consiste em usar o nome de Deus, de Jesus Cristo, da Virgem
Maria e dos santos de maneira injuriosa.

2163

O juramento falso invoca Deus como testemunha de uma
mentira. O perjúrio é uma falta grave contra o Senhor, sempre fiel a suas
promessas.

2164

“Não jurar nem pelo Criador, nem pela criatura, se não for
com verdade, necessidade e reverência”376

376 Sto. Inácio de Loyola,
Ex. Spir. 38.

2165

No Batismo, o cristão recebe seu nome na Igreja. Os pais,
os padrinhos e o pároco cuidarão para que lhe seja dado um nome cristão. O
patrocínio de um santo oferece um modelo de caridade e um intercessor seguro.

2166

O cristão começa suas orações e suas ações pelo
sinal-da-cruz, “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém”.2167Deus chama cada um por seu nome377.377 Cf. Is. 43,1

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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