Meu clube, minha vida

Domingo à tarde, Estádio do Barradão. Mas o jogo poderia ser também no Estádio de Pituaçu. É dia de jogo – melhor: de clássico. Jogos desse nível se repetem neste domingo, pelo Brasil afora. Nas arquibancadas, milhares de pessoas, divididas em dois grupos, vibram, gritam e pulam. De sábado para domingo, os torcedores tiveram um sono agitado. Dormiram (os que conseguiram!) pensando no jogo. Haviam passado a semana toda discutindo, lendo e fazendo prognósticos sobre este clássico.

Para chegar ao estádio mais cedo, almoçaram correndo e, de ônibus ou de carro, passaram horas trancados num trânsito congestionado. Quem não havia comprado ingresso antes, enfrentou uma fila enorme para fazê-lo. A passagem pelos portões de entrada não foi fácil – mas quem estava preocupado com isso? Foi preciso esperar um bom tempo para o jogo começar. Quem se importava com o sol e a chuva? Nessa espera, cada grupo já antegozava a alegria da vitória. Aliás, todos esperavam sair dali vitoriosos. Nem seria problema, então, enfrentar um novo congestionamento para chegar a casa. A segunda-feira seria bem mais agradável, as conversas mais animadas e até as dívidas ficariam momentaneamente esquecidas.

Mas o jogo acabou, seu time perdeu e a tristeza invadiu. E agora, José? Ou então, o jogo acabou, seu time ganhou e a alegria reinou. Até quando, José?

Seu time perdeu: continua a esperança de levantar o próximo campeonato (nem que leve quinze ou vinte anos!), ou, ao menos, de vencer a partida do domingo seguinte – o que já é alguma coisa. Mas convenhamos: é uma esperança frágil. Tão frágil e insegura como um prédio construído sobre areia.

Seu time venceu e ficou campeão: não haverá, contudo, muito tempo para viver os momentos de euforia. No domingo seguinte terá início outro campeonato, seu time jogará de novo e poderá ser derrotado. Tudo começará mais uma vez (até quando?), porque não há vitória definitiva de time algum. Por mais importante que seja o título levantado, haverá sempre um jogo em seguida. E, com ele, a possibilidade de uma derrota.

E então? O futebol não tem sentido? É prejudicial ter simpatia por um clube? Ter simpatia não é negativo. O que não tem sentido é buscar no futebol uma segurança que ele não tem possibilidade de lhe dar. Não é só no futebol que você procura o que se poderia traduzir como “a Grande Felicidade”. Mas não será ele um exemplo clássico do que acontece em sua vida?

Você busca a realização, a segurança e a paz em realidades que não têm condições de satisfazê-lo plenamente. Daí seu vazio, sua tristeza e suas esperanças medíocres. Medíocres, porque, quando concretizadas, elas mesmas estão marcadas pela insatisfação: você sabe que amanhã ou na próxima semana começará tudo de novo (até quando?).

O futebol, ou qualquer outra realidade do seu dia a dia, quando visto de acordo com o que lhe pode realmente proporcionar tem condições de distraí-lo, de dar um novo ânimo a sua vida e até de ser fonte de novas e ricas amizades. Agora, uma alegria sem altos e baixos, uma paz que ninguém lhe poderá tirar e uma esperança que não deixa em você o sabor da instabilidade, só poderá dar-lhe quem as tiver. Segundo o apóstolo Paulo, essa esperança tem um nome e um rosto: Jesus Cristo. Quando você o encontrar, e quanto mais o encontrar, maior será sua paz, sua segurança e alegria. (Experimente, José!).

P.S.: Para que não me chamem de pessimista, ou de ser contra o futebol, adianto-lhes que nasci e cresci em uma família que “respirava” futebol. Meu pai havia sido jogador do time de minha cidade e tornou-se presidente de liga desportiva local; meus irmãos se tornaram advogados esportivos e, depois, juízes de tribunais esportivos; um deles, inclusive, foi auditor do Supremo Tribunal de Justiça Desportiva, que funciona junto à CBF, e autor de vários livros sobre o tema. Eu mesmo, nos tempos de seminário, fui jogador (ponta direita), com lugar garantido no time de minha série, pois éramos somente 11. Sou torcedor de um só time (espero que guardem segredo: do Flamengo!). Feitas essas observações, penso que lerão novamente o texto acima com outros olhos…

Dom Murilo Krieger
Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil
Fonte: CNBB

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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