Mensagem para a Jornada Mundial da Aids

Do  presidente do Conselho Pontifício para a Pastoral no Campo de Saúde,& Cardeal Javier Lozano Barragán

Queridos irmãos e irmãs em Cristo:

1. Enquanto a comunidade internacional se prepara para celebrar também este ano a Jornada Mundial da AIDS, em qualidade de presidente do Pontifício Conselho para a Pastoral no Campo de Saúde, desejo unir-me aos esforços e iniciativas realizados em todo o mundo no quadro tanto da prevenção como da assistência aos enfermos, para enviar em nome da Igreja Católica, às organizações e instituições internacionais, aos governos, às organizações não-governamentais, assim como às agências e às associações católicas que estão comprometidas no território com o afã de deter o terrível flagelo, uma Mensagem de amor e de esperança às famílias e às pessoas afligidas pelo terrível mal.

2. Em nome do Santo Padre João Paulo II, vos exorto, queridos irmãos e irmãs em Cristo, a fim de que, junto a vós homens e mulheres de boa vontade, não deixeis passar em vão este momento propício; aproveitai esta circunstância favorável para estudar e buscar juntos caminhos novos e meios adequados que levem as pessoas e, em particular, os jovens, a adotar comportamentos e costumes de vida respeitosos dos autênticos valores da vida e do amor. Trata-se de apresentar este caminho mestre como prevenção eficaz contra o contágio e a difusão do HIV/AIDS, já que o fenômeno da AIDS é uma patologia do espírito que, além do corpo, implica toda a pessoa, as relações interpessoais, a vida social e familiar e com freqüência está acompanhado por uma crise dos valores morais. A esse respeito, João Paulo II manifesta que não estamos longe da verdade se afirmamos que, paralelamente à difusão da AIDS, está se manifestando algo assim como uma imunodeficiência no âmbito dos valores existenciais, que deve ser reconhecida como verdadeira patologia do espírito. (Discurso aos participantes da IV Conferência Internacional: Viver: por quê? A AIDS, 13-15 de novembro de 1989, em Dolentium Hominum 13 (Ano V-n. 1) 1990, n. 4, pág. 7).

3. Do ponto de vista estatístico, a pandemia do HIV/AIDS aumenta de modo espantoso:

Segundo as estatísticas oficiais da UNAIDS, no final de 2002

. 42 milhões de pessoas vivem com o HIV/AIDS, das quais 19,2 milhões são mulheres e 3,2 milhões são crianças abaixo de 15 anos;
. 5 milhões de novas infecções do HIV/AIDS em 2002, das quais 2 milhões são mulheres e 800 mil são crianças abaixo de 15 anos;
. 3,1 milhões de pessoas morreram de AIDS, em 2002, das quais 1,2 milhão foram mulheres e 610 mil crianças abaixo de 15 anos.

4. Desde a aparição desta terrível enfermidade, respondendo ao chamado do Santo Padre João Paulo II que estimulava uma maior mobilização das forças e dos recursos e um compromisso concreto por parte da Igreja tanto para prevenir como para assistir de diferentes modos os enfermos da AIDS, a Santa Sé, as Conferências Episcopais, as Dioceses, as Congregações Religiosas, os Hospitais e os Centros sócio-sanitários, as Organizações e associações católicas redobraram seus esforços para realizar atividades e iniciativas com o objetivo de limitar o fenômeno, recordando sobretudo à comunidade eclesial e à sociedade em geral a importância de respeitar os valores morais e religiosos da sexualidade e do matrimônio, como, por exemplo, a fidelidade, a castidade e a abstinência, e oferecendo concretamente aos enfermos em suas variadas estruturas uma digna assistência humana, social, médico-sanitária e espiritual.

5. O compromisso e a atividade da Igreja nos vários continentes se referem à prevenção, à educação e à assistência aos enfermos e a seus familiares.

Na África, (por exemplo, em Angola, Burundi, Camarões, Costa do Marfim, Gana, Guiné, Mali, República Centro-Africana, Senegal, Uganda, Zâmbia), a Igreja leva adiante programas educativos e pastorais a favor da formação de agentes sociais, pastorais e sanitários, de sensibilização das populações, de ajudas humanitárias assim como de assistência domiciliar e hospitalar aos enfermos.

Na América (por exemplo no Canadá, Estados Unidos, México, Argentina, Equador, Haití, Honduras, Venezuela, Brasil), a Igreja é promotora de campanhas de sensibilização de programas formativos com publicações ad hoc e auxilia os enfermos e os órfãos nos hospitais e centros de tratamento.

Na Ásia, (por exemplo, na Índia, Singapura, Taiwan, Malásia), a Igreja sensibiliza a opinião pública sobre o fenômeno do HIV/AIDS, sobre suas causas e riscos, empregando os meios tradicionais e modernos da comunicação, organizando inclusive cursos ad hoc; desta forma, dispõe de um programa específico de assistência aos órfãos e de atenção aos enfermos em domicílio e das casas de saúde e hospitais.

Na Europa, (por exemplo, na Áustria, Bélgica, França, Alemanha, Irlanda, Escócia, Inglaterra, Gales, Itália, Croácia, ex-Iugoslávia), a Igreja emprega jornais, televisão, rádio e internet para difundir os programas lançados pelas comissões nacionais para prevenir, educar as populações, assim como para assistir social, humana e pastoralmente os enfermos nos hospitais e nos centros especializados no tratamento da AIDS.

Na Oceania, (por exemplo, na Austrália, Nova Zelândia, Papua-Nova Guiné), a Igreja oferece uma formação específica aos agentes sociais, pastorais e sanitários e assiste os enfermos nos hospitais e nos centros de atenção.

Numerosos são os institutos religiosos e as associações laicais que colaboram na pastoral a favor dos enfermos da AIDS e nos lugares de cura. Atividades e projetos importantes e capilares são realizados pelos Camilianos no Brasil, Itália, México, Índia, Quênia, Tailândia, Haití, Polônia, Burkina Faso; pelos irmãos de São João de Deus na Espanha, Polônia, Alemanha e Áustria; pela Associação de São Vicente, na Índia, Irlanda e Holanda; pela Comunidade de Santo Egídio, em Moçambique; pela Fraternidade de Comunhão e Libertação, (AVSI) em Uganda, Quênia, Ruanda, Burundi, Nigéria, Romênia; pela Cáritas em Filipinas, Bolívia, Áustria; pelas Religiosas de Madre Teresa em Cazaquistão; pelo Hospital Pediátrico Bambin Gesú de Roma em Romênia; pelos Farmacêuticos Católicos, em várias partes do mundo.

6. As principais atividades pastorais se concentram na formação de agentes da saúde, dos sacerdotes, das famílias e da juventude, na prevenção mediante a educação sanitária, a publicação de documentos da Igreja, da organização de congressos e do intercâmbio teológico e de experiências; com a ajuda e a assistência dos capelães, médicos e enfermos que, graças ao diagnóstico, ao aconselhamento, aos medicamentos, ao sacramento da penitência e à caridade para com os enfermos internados nos centros e nos hospitais, a Igreja contribui para melhorar as condições físicas, psíquicas e espirituais dos pacientes; a atenção e o acompanhamento dos enfermos e das pessoas soropositivas se consegue graças a programas específicos em torno à sexualidade, à transfusão sanguínea, à transmissão materno-fetal, à assistência aos órfãos, aos presos e no que concerne à sua reintegração social e eclesial.

Se as causas da enfermidade são pansexualismo e a toxicomania, os condicionamentos são a pobreza, a urbanização, a desocupação, a mobilidade, as migrações e os mass-media.

7. O pensamento de João Paulo II se articula em torno à natureza do fenômeno (patologia do espírito), à prevenção fundada na sacralidade da vida e na sexualidade responsável, na transcendência e na educação à castidade, na conduta do enfermo, isto é, no amor a Deus, na conduta sexual, na transmissão de mãe para filho, na oferta do sofrimento em sua relação com o mistério da cruz e na esperança da ressurreição; o pensamento de João Paulo II se dirige em particular aos profissionais da saúde que encontram no Bom Samaritano o paradigma do amor misericordioso que supera as barreiras humanas; às autoridades civis que devem proporcionar às populações uma informação correta e uma ajuda aos pobres; aos homens de ciência chamados pelo Papa a reforçar sua solidariedade para com os enfermos, fazendo tudo o que está a seu alcance para que avance a pesquisa biomédica sobre o HIV/AIDS com o fim de encontrar medicamentos novos e eficazes que consigam deter o fenômeno.

8. Em nível pessoal, a Igreja convida cada um a intensificar a prevenção segundo a doutrina da Igreja, a viver a virtude da castidade em uma sociedade pansexualista, a aproximar-se ao sacramento da reconciliação, a reavivar nos enfermos o sentido cristão da vida com a esperança na ressurreição, a dispensar uma formação ad hoc aos agentes da saúde e reservar uma assistência especial aos enfermos terminais.

Em nível comunitário, recomenda-se o seguinte: apoio às atividades paroquiais relacionadas com o HIV/AIDS; criação de novos centros e residências para enfermos de AIDS; coordenação em nível diocesano e nacional de ações e iniciativas pastorais referentes ao fenômeno da AIDS; atenção às políticas dos governos em matéria de AIDS, com o objetivo de influir positivamente nelas; emprego correto dos meios de comunicação; divulgação do manual de pastoral sobre o fenômeno da AIDS que está por ser publicado pelo Pontifício Conselho para a Pastoral no Campo de Saúde; apoio econômico e financeiro a iniciativas e projetos sobre a AIDS.

Globalmente, as contribuições que hoje oferecem no plano social os organismos eclesiais alcançam 12% e pelas ONGs católicas, 13%; chega-se a um total de 25% que permite que a Igreja seja o primeiro partner do Estado no campo social. Para as intervenções sanitárias, o compromisso da Igreja é de 19% o qual representa um terço das contribuições estatais e o dobro das intervenções das ONGs não-católicas (10%) e dos privativos (11%).

9. Convido a comunidade internacional, os governos em geral e a Igreja em particular, a:

–promover campanhas de sensibilização e de educação da população fundadas não em políticas que alimentam modelos de vida e comportamentos imorais e hedonistas que favorecem a difusão do mal, mas em seguras referências e autênticos valores humanos e espirituais capazes de fundar uma educação e uma prevenção pertinente em favor da vida do amor responsável; a virtude da castidade demonstra ser a mais importante para prevenir eficazmente contra o HIV/AIDS;

–ocupar-se das necessidades sociais, humanitárias e sócio-sanitárias das crianças órfãs cujo número aumenta com o propagar-se da pandemia;

–comprometer-se a favor da globalização do bem-comum internacional da saúde;

–evitar toda forma de exclusão, de discriminação e de estigmatização ante as pessoas soropositivas ou dos enfermos da AIDS, aceitando-as fraternalmente na família, na sociedade e na comunidade eclesial como membros a pleno título da Igreja;

–facilitar aos enfermos o acesso aos fármacos genéricos contra as enfermidades e no possível aos antibióticos com o fim de deter a escandalosa mortalidade que grita vingança a Deus nos países pobres;

–assistir e acompanhar espiritual e pastoralmente os enfermos e a seus familiares, em particular os que devem descontar uma pena no cárcere, a fim de que não lhes falte o apoio espiritual e, em particular, os sacramentos tão necessários neste momento particular da vida;

–descobrir nos enfermos o rosto de Cristo, médico dos corpos e das almas.

10. Ao renovar a todos vós: bispos, sacerdotes, religiosos/as e agentes sociais, pastorais e agentes de saúde, e voluntários, a estima e o reconhecimento da Igreja por vosso inestimável serviço em favor de nossos irmãos e irmãs prostrados no corpo e no espírito pelo flagelo da AIDS, desejo assegurar-lhes também que não deixarei de elevar minhas orações à Virgem Santíssima, Salus Infirmorum e Consolatrix Afflictorum, por vossa benemérita obra assim como pelos sofrimentos dos enfermos e de seus familiares.

Cidade do Vaticano, 1º de dezembro de 2003.

+ Javier Cardeal Lozano Barragán

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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