Meditações da Via Crucis no Coliseu desta Sexta-Feira Santa – Parte 2

Meditações da Via Crucis no
Coliseu desta Sexta-Feira Santa

Redigidas pelo cardeal Joseph Ratzinger
(continuação)
QUARTA
ESTAÇÃO
Jesus encontra sua Mãe

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.

Do evangelho segundo São Lucas 2, 34-35.51

Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua Mãe: “Ele foi estabelecido para a
queda e o ressurgir de muitos em Israel, e para ser sinal de contradição; e uma
espada Te há-de traspassar a alma. Assim se deverão revelar os intentos de
muitos corações” (…) Sua mãe guardava no coração todas estas
recordações.

MEDITAÇÃO

Na Via-Sacra de Jesus, aparece também Maria, sua Mãe. Durante a sua vida
pública, teve de ficar de lado para dar lugar ao nascimento da nova família de
Jesus, a família dos seus discípulos. Teve também de ouvir estas palavras:
«Quem é a minha Mãe e quem são os meus irmãos? (.) Todo aquele que fizer a
vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe»
(Mt 12, 48.50). Pode-se agora constatar que Ela é a Mãe de Jesus não só no
corpo, mas também no coração. Ainda antes de O ter concebido no corpo, pela sua
obediência concebera-O no coração. Fora-Lhe dito: «Hás-de conceber no teu seio
e dar à luz um filho (.) Será grande (.) O Senhor Deus dar-Lhe-á o trono de seu
pai David» (Lc 1, 31-32). Mas algum tempo depois ouvira da boca do velho Simeão
uma palavra diferente: «Uma espada Te há-de trespassar a alma» (Lc 2, 35).
Deste modo ter-Se-á lembrado de certas palavras pronunciadas pelos profetas,
tais como: «Foi maltratado e resignou-se, não abriu a boca, como cordeiro
levado ao matadouro» (Is 53, 7). Agora tudo isto se torna realidade. No
coração, tinha sempre conservado as palavras que o anjo Lhe dissera quando tudo
começou: «Não tenhas receio, Maria» (Lc 1, 30). Os discípulos fugiram; Ela não
foge. Ela está ali, com a coragem de mãe, com a fidelidade de mãe, com a
bondade de mãe, e com a sua fé, que resiste na escuridão: «Feliz daquela que
acreditou» (Lc 1, 45). «Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará fé
sobre a terra?» (Lc 18, 8). Sim, agora Ele sabe-o: encontrará fé. E esta é,
naquela hora, a sua grande consolação.

ORAÇÃO

Santa Maria, Mãe do Senhor, permanecestes fiel quando os discípulos fugiram.
Tal como acreditastes quando o anjo Vos anunciou o que era incrível – que
haverias de ser Mãe do Altíssimo – assim também acreditastes na hora da sua
maior humilhação. E foi assim que, na hora da cruz, na hora da noite mais
escura do mundo, Vos tornastes Mãe dos crentes, Mãe da Igreja. Nós Vos pedimos:
ensinai-nos a acreditar e ajudai-nos para que a fé se torne coragem de servir e
gesto de um amor que socorre e sabe partilhar o sofrimento.

Todos:

Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

Quæ mærebat et dolebat,
pia Mater, dum videbat
Nati ponas incliti.

QUINTA
ESTAÇÃO
Jesus é ajudado a levar a cruz pelo Cireneu

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.

Do evangelho segundo São Mateus 27, 32; 16, 24

Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e requisitaram-no,
para levar a cruz de Jesus. Jesus disse aos seus discípulos: “Se alguém
quiser seguir-Me, renegue-se a si mesmo, pegue na sua cruz e siga-Me”.

MEDITAÇÃO

Simão de Cirene regressa do trabalho, vai a caminho de casa quando se cruza com
aquele triste cortejo de condenados – para ele talvez fosse um espectáculo
habitual. Os soldados valem-se do seu direito de coacção e colocam a cruz às
costas dele, robusto homem do campo. Que aborrecimento não deverá ter sentido
ao ver-se inesperadamente envolvido no destino daqueles condenados! Faz o que
deve fazer, mas certamente com grande relutância. E todavia o evangelista
Marcos nomeia, juntamente com ele, também os seus filhos, que evidentemente
eram conhecidos como cristãos, como membros daquela comunidade (Mc 15, 21). Do
encontro involuntário, brotou a fé. Acompanhando Jesus e compartilhando o peso
da cruz, o Cireneu compreendeu que era uma graça poder caminhar juntamente com
este Crucificado e assisti-Lo. O mistério de Jesus que sofre calado tocou-lhe o
coração. Jesus, cujo amor divino era o único que podia, e pode, redimir a
humanidade inteira, quer que compartilhemos a sua cruz para completar o que
ainda falta aos seus sofrimentos (Col 1, 24). Sempre que, bondosamente, vamos
ao encontro de alguém que sofre, alguém que é perseguido e inerme, partilhando
o seu sofrimento ajudamos a levar a própria cruz de Jesus. E assim obtemos
salvação, e nós mesmos podemos contribuir para a salvação do mundo.

ORAÇÃO

Senhor, abristes a Simão de Cirene os olhos e o coração, dando-lhe, na partilha
da cruz, a graça da fé. Ajudai-nos a assistir o nosso próximo que sofre, ainda
que este chamamento resultasse em contradição com os nossos projectos e as
nossas simpatias. Concedei-nos reconhecer que é uma graça poder partilhar a
cruz dos outros e experimentar que dessa forma estamos a caminhar convosco.
Fazei-nos reconhecer com alegria que é precisamente pela partilha do vosso
sofrimento e dos sofrimentos deste mundo que nos tornamos ministros da
salvação, podendo assim ajudar a construir o vosso corpo, a Igreja.

Todos:

Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

Quis est homo qui non fleret,
Matrem Christi si videret
in tanto supplicio?

SEXTA ESTAÇÃO

A Verónica limpa o rosto de Jesus

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.

Do livro do profeta Isaías 53, 2-3

O meu Servo cresceu (.) sem distinção nem beleza que atraia o nosso olhar, nem
aspecto agradável que possa cativar-nos. Desprezado e repelido pelos homens,
homem de dores, afeito ao sofrimento, é como aquele a quem se volta a cara,
pessoa desprezível, da qual se não faz caso.

Do livro dos Salmos 27/26, 8-9

Segredou-me o coração: “Procura a sua face!” É, Senhor, o vosso rosto
que eu persigo. Não escondais de mim o vosso rosto, nem rejeiteis com ira o
vosso servo. Vós sois a minha ajuda, o Deus da minha salvação.

MEDITAÇÃO

«É, Senhor, o vosso rosto que eu persigo. Não escondais de mim o vosso rosto»
(Sal 27/26, 8). Verónica – Berenice, segundo a tradição grega – encarna este
anseio que irmana todos os homens piedosos do Antigo Testamento, o anseio que
provam todos os homens crentes de verem o rosto de Deus. Em todo o caso, na Via-Sacra
de Jesus, inicialmente ela limitara-se a prestar um serviço de gentileza
feminina: oferecer um lenço a Jesus. Não se deixa contagiar pela brutalidade
dos soldados, nem imobilizar pelo medo dos discípulos. É a imagem da mulher
bondosa que, perante o turbamento e escuridão dos corações, mantém a coragem da
bondade, não permite ao seu coração de entenebrecer-se: «Bem-aventurados os
puros de coração, porque verão a Deus» – dissera o Senhor no Discurso da
Montanha (Mt 5, 8). Ao princípio, Verónica via apenas um rosto maltratado e
marcado pela dor. Mas, o acto de amor imprime no seu coração a verdadeira
imagem de Jesus: no Rosto humano, coberto de sangue e de feridas, ela vê o
Rosto de Deus e da sua bondade que nos acompanha mesmo na dor mais profunda. Somente
com o coração podemos ver Jesus. Apenas o amor nos torna capazes de ver e nos
torna puros. Só o amor nos faz reconhecer Deus, que é o próprio amor.

ORAÇÃO

Senhor, dai-nos a inquietação do coração que procura o vosso rosto.
Protegei-nos do obscurecimento do coração que vê apenas a superfície das
coisas. Concedei-nos aquela generosidade e pureza de coração que nos tornam
capazes de ver a vossa presença no mundo. Quando não formos capazes de realizar
grandes coisas, dai-nos a coragem de uma bondade humilde. Imprimi o vosso rosto
nos nossos corações, para Vos podermos encontrar e mostrar ao mundo a vossa
imagem.

Todos:

Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

Pro peccatis suae gentis
vidit Iesum in tormentis
et flagellis subditum.

SÉTIMA
ESTAÇÃO
Jesus cai pela segunda vez

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.

Do livro das Lamentações 3, 1-2.9.16

Eu sou o homem que conheceu a miséria sob a vara do seu furor. Ele me guiou e
me fez andar nas trevas e não na luz. (.) Embarrou meus caminhos com blocos de
pedra, obstruiu minhas veredas. (.) Ele quebrou meus dentes com cascalho,
mergulhou-me na cinza.

MEDITAÇÃO

A tradição da tríplice queda de Jesus sob o peso da cruz recorda a queda de
Adão – o ser humano caído que somos nós – e o mistério da associação de Jesus à
nossa queda. Na história, a queda do homem assume sempre novas formas. Na sua
primeira carta, S. João fala duma tríplice queda do homem: a concupiscência da
carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida. Assim interpreta ele a
queda do homem e da humanidade, no horizonte dos vícios do seu tempo com todos
os seus excessos e depravações. Mas, olhando a história mais recente, podemos
também pensar como a cristandade, cansada da fé, abandonou o Senhor: as grandes
ideologias, com a banalização do homem que já não crê em nada e se deixa
simplesmente ir à deriva, construíram um novo paganismo, um paganismo pior que
o antigo, o qual, desejoso de marginalizar definitivamente Deus, acabou por
perder o homem. Eis o homem que jaz no pó. O Senhor carrega este peso e cai…
cai, para poder chegar até nós; Ele olha-nos para que em nós volte a palpitar o
coração; cai para nos levantar.

ORAÇÃO

Senhor Jesus Cristo, carregastes o nosso peso e continuais a carregar-nos. É o
nosso peso que Vos faz cair. Mas sois Vós a levantar-nos, porque, sozinhos, não
conseguimos levantar-nos do pó. Livrai-nos do poder da concupiscência. Em vez
do coração de pedra, dai-nos novamente um coração de carne, um coração capaz de
ver. Destruí o poder das ideologias, para os homens poderem reconhecer que
estão permeadas de mentiras. Não permitais que o muro do materialismo se torne
intransponível. Fazei que Vos ouçamos de novo. Tornai-nos sóbrios e vigilantes
para podermos resistir às forças do mal, e ajudai-nos a reconhecer as
necessidades interiores e exteriores dos outros, e a socorrê-las. Erguei-nos,
para podermos levantar os outros. Concedei-nos esperança no meio de toda esta
escuridão, para podermos ser portadores de esperança no mundo.

Todos:

Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

Quis non posset contristari,
Christi Matrem contemplari,
dolentem cum Filio?

OITAVA
ESTAÇÃO
Jesus encontra as mulheres de Jerusalém
que choram por Ele

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.

Do evangelho segundo São Lucas 23, 28-31

Jesus voltou-Se para elas e disse-lhes: “Mulheres de Jerusalém, não
choreis por Mim; chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos. Pois dias
virão em que se dirá: “Felizes as estéreis, as entranhas que não tiveram
filhos e os peitos que não amamentaram”. Nessa altura, começarão a dizer
aos montes: “Caí sobre nós”, e às colinas: “Encobri-nos”.
Porque se fazem assim no madeiro verde, que será no madeiro seco?”

MEDITAÇÃO

As palavras com que Jesus adverte as mulheres de Jerusalém que O seguem e
choram por Ele, fazem-nos reflectir. Como entendê-las? Não se trata porventura
de uma advertência contra uma piedade puramente sentimental, que não se torna
conversão e fé vivida? De nada serve lamentar, por palavras e sentimentalmente,
os sofrimentos deste mundo, se a nossa vida continua sempre igual. Por isso, o
Senhor nos adverte do perigo em que nós próprios nos encontramos. Mostra-nos a
seriedade do pecado e a seriedade do juízo. Apesar de todas as nossas palavras
de horror à vista do mal e dos sofrimentos dos inocentes, não somos nós
porventura demasiado inclinados a banalizar o mistério do mal? Da imagem de
Deus e de Jesus, no fim de contas, admitimos apenas o aspecto terno e amável,
enquanto tranquilamente cancelámos o aspecto do juízo? Como poderia Deus
fazer-Se um drama com a nossa fragilidade – pensamos cá connosco -, não
passamos de simples homens?! Mas, fixando os sofrimentos do Filho, vemos toda a
seriedade do pecado, vemos como tem de ser expiado até ao fim para poder ser
superado. Não se pode continuar a banalizar o mal, quando vemos a imagem do
Senhor que sofre. Também a nós, diz Ele: Não choreis por Mim, chorai por vós
próprios… porque se tratam assim o madeiro verde, que será do madeiro seco?

ORAÇÃO

Senhor, às mulheres que choravam, falastes de penitência, do dia do Juízo,
quando nos encontrarmos diante da vossa face, a face do Juiz do mundo.
Chamais-nos a sair da banalização do mal que nos deixa tranquilos para podermos
continuar a nossa vida de sempre. Mostrai-nos a seriedade da nossa
responsabilidade, o perigo de sermos encontrados, no Juízo, culpados e
estéreis. Fazei com que não nos limitemos a caminhar ao vosso lado, oferecendo
apenas palavras de compaixão. Convertei-nos e dai-nos uma vida nova; não
permitais que acabemos por ficar como um madeiro seco, mas fazei que nos
tornemos ramos vivos em Vós, a videira verdadeira, e produzamos fruto para a
vida eterna (cf. Jo 15, 1-10).

Todos:

Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

Tui Nati vulnerati,
tam dignati pro me pati,
poenas mecum divide.

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.