Meditações da Via Crucis no Coliseu desta Sexta-Feira Santa – Parte 1

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 24 de março de 2005 (ZENIT.org).- Publicamos as meditações e
orações que o cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina
da Fé, redigiu para a Via Crucis que se celebrará na noite de Sexta-Feira Santa
no Coliseu de Roma.

VIA CRUCIS
NO COLISEU SEXTA-FEIRA SANTA 2005 MEDITAÇÕES E ORAÇÕES

DO CARDEAL JOSEPH RATZINGER

APRESENTAÇÃO

O leitmotiv
desta Via-Sacra é evidenciado já na oração inicial e, depois, na XIV estação.
Trata-se da afirmação pronunciada por Jesus no Domingo de Ramos – logo a seguir
à sua entrada em Jerusalém – como resposta à súplica de alguns Gregos que
queriam vê-Lo: «Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só;
mas, se morrer, dá muito fruto» (Jo 12, 24). Deste modo, o Senhor interpreta
todo o seu caminho terreno como o percurso do grão de trigo, que, só através da
morte, chega a produzir fruto. Interpreta a sua vida terrena, a sua morte e a
sua ressurreição de modo a desembocar na Santíssima Eucaristia, na qual está
compendiado todo o seu mistério. Uma vez que Ele viveu a sua morte como uma
oferta de Si mesmo, como um acto de amor, o seu corpo foi transformado na nova
vida da ressurreição. Por isso, Ele, o Verbo encarnado, tornou-Se agora o nosso
alimento, que conduz à verdadeira vida, à vida eterna. O Verbo eterno – a força
criadora da vida – desceu do Céu, tornando-Se assim o verdadeiro maná, o pão
que o homem comunga na fé e no sacramento. Deste modo, a Via-Sacra torna-se num
caminho que introduz dentro do mistério eucarístico: a piedade popular e a
piedade sacramental da Igreja interligam-se e fundem-se. A devoção da Via-Sacra
pode ser vista como um caminho que leva à comunhão profunda, espiritual com
Jesus, sem a qual ficaria vazia a comunhão sacramental. A Via-Sacra
apresenta-se como um caminho «mistagógico».

Contraposta a esta visão, aparece a compreensão puramente sentimental da
Via-Sacra, para cujo perigo, na VIII estação, o Senhor alerta as mulheres de
Jerusalém que choram por Ele. O mero sentimento não basta; a Via-Sacra deveria
ser uma escola de fé, daquela fé que, por sua natureza, «actua pela caridade»
(Gal 5, 6). Mas isto não quer dizer que se deva excluir o sentimento. Segundo
os Padres da Igreja, o primeiro defeito dos pagãos é precisamente a sua falta
de coração; por isso, os Padres repropõem a visão de Ezequiel que comunica ao
povo de Israel a promessa feita por Deus de tirar do peito deles o coração de
pedra e dar-lhes um coração de carne (cf. Ez 11, 19). A Via-Sacra mostra-nos um
Deus que partilha pessoalmente os sofrimentos dos homens, cujo amor não se
mantém impassível nem distante, mas desce ao nosso meio até à morte na cruz
(cf. Fil 2, 8). Este Deus que partilha os nossos sofrimentos, o Deus que Se fez
homem para levar a nossa cruz, quer transformar o nosso coração de pedra
chamando-nos a partilhar os sofrimentos alheios, quer dar-nos um «coração de
carne» que não fique impassível diante dos sofrimentos alheios, mas se deixe
comover e nos leve ao amor que cura e ajuda. Isto reconduz-nos às palavras de
Jesus sobre o grão de trigo que Ele próprio transforma em fórmula basilar da
existência cristiana: «Quem ama a sua vida perdê-la-á, e quem neste mundo
aborrece a sua vida conservá-la-á para a vida eterna» (Jo 12, 15; cf. Mt 16,
25; Mc 8, 35; Lc 9, 24; 17, 33: «Quem procurar salvaguardar a vida, perdê-la-á,
e quem a perder, conservá-la-á»). Daqui se vê também o alcance do significado
da frase que precede, nos evangelhos sinópticos, esta afirmação central da sua
mensagem: «Se alguém quiser vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua
cruz e siga-Me» (Mt 16, 24). Com todas estas palavras, o próprio Jesus nos dá a
interpretação da «Via-Sacra», ensina-nos como devemos fazê-la e segui-la: a
Via-Sacra é o caminho da perda de nós mesmos, isto é, o caminho do amor
verdadeiro. Ele precedeu-nos neste caminho; este é o caminho que a devoção da
Via-Sacra nos quer ensinar. E isto leva-nos mais uma vez ao grão de trigo, à
Santíssima Eucaristia, na qual se torna continuamente presente entre nós o
fruto da morte e da ressurreição de Jesus. Na Eucaristia, Ele caminha connosco,
como outrora com os discípulos de Emaús, fazendo-Se constantemente nosso
contemporâneo.

ORAÇÃO
INICIAL

V/. Em nome
do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

R. Amen.

Senhor Jesus Cristo, por nós aceitastes a sorte do grão de trigo que cai na
terra e morre para produzir muito fruto (Jo 12, 24). E convidais-nos a seguir-Vos
pelo mesmo caminho quando dizeis: «Quem ama a sua vida perdê-la-á, e quem neste
mundo aborrece a sua vida conservá-la-á para a vida eterna» (Jo 12, 15). Mas
nós estamos agarrados à nossa vida. Não queremos abandoná-la, mas reservá-la
inteiramente para nós mesmos. Queremos possuí-la; não oferecê-la. Mas Vós
seguis à nossa frente e mostrais-nos que só dando a nossa vida é que podemos
salvá-la. Acompanhando-Vos na vossa Via-Sacra, quereis que sigamos o caminho do
grão de trigo, o caminho duma fecundidade que dura até à eternidade. A cruz – a
oferta de nós mesmos – custa-nos muito. Mas, na vossa Via-Sacra, carregastes
também a minha cruz, e não o fizestes num momento remoto qualquer, porque o
vosso amor é contemporâneo à minha vida. Hoje mesmo carregais a cruz comigo e
por mim, e, de modo admirável, quereis que agora também eu, como outrora Simão
de Cirene, carregue convosco a vossa cruz e, acompanhando-Vos, me coloque
convosco ao serviço da redenção do mundo. Ajudai-me para que a minha Via-Sacra
não seja apenas um fugidio devoto sentimento. Ajudai-nos a acompanhar-Vos não
somente com nobres pensamentos, mas a percorrer o vosso caminho com o coração,
antes, com os passos concretos da nossa vida diária. Ajudai-nos para que
sigamos com todo o nosso ser o caminho da cruz, e permaneçamos no vosso caminho
para sempre. Livrai-nos do medo da cruz, do medo perante a troça alheia, do
medo de poder fugir-nos a nossa vida se não agarrarmos tudo o que ela nos
oferece. Ajudai-nos a desmascarar as tentações que prometem vida, mas cujas
ofertas no fim nos deixam apenas vazios e desiludidos. Ajudai-nos a não querer
apoderarmo-nos da vida, mas a dá-la. Ajudai-nos, acompanhando-Vos pelo percurso
do grão de trigo, a encontrar, no «perder a vida», o caminho do amor, o caminho
que verdadeiramente nos dá a vida, e vida em abundância (Jo 10, 10)

PRIMEIRA
ESTAÇÃO
Jesus é condenado à morte

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.

Do evangelho segundo São Mateus 27, 22-23.26

Retorquiu-lhes Pilatos: “E que hei-de fazer de Jesus que é chamado
Messias” Replicaram todos: “Seja crucificado!” Pilatos insistiu:
“Então, que mal fez Ele” Mas eles gritavam mais ainda: “Seja
crucificado!” (…) Soltou-lhes então Barrabás. E a Jesus, depois de O ter
mandado açoitar, entregou-O para ser crucificado.

MEDITAÇÃO

O Juiz do mundo, que um dia voltará para nos julgar a todos, está ali,
aniquilado, insultado e inerme diante do juiz terreno. Pilatos não é um monstro
de malvadez. Sabe que este condenado é inocente; procura um modo de O libertar.
Mas o seu coração está dividido. E, no fim, faz prevalecer a sua posição, a si
mesmo, sobre o direito. Também os homens que gritam e pedem a morte de Jesus
não são monstros de malvadez. Muitos deles, no dia de Pentecostes, sentir-se-ão
«emocionados até ao fundo do coração» (Act 2, 37), quando Pedro lhes disser: A
«Jesus de Nazaré, Homem acreditado por Deus junto de vós, (…), matastes,
cravando-O na cruz pela mão de gente perversa» (Act 2, 22.23). Mas naquele
momento sofrem a influência da multidão. Gritam porque os outros gritam e como
gritam os outros. E, assim, a justiça é espezinhada pela cobardia, pela
pusilanimidade, pelo medo do diktat da mentalidade predominante. A voz subtil
da consciência fica sufocada pelos gritos da multidão. A indecisão, o respeito
humano dão força ao mal.

ORAÇÃO

Senhor, fostes condenado à morte porque o medo do olhar alheio sufocou a voz da
consciência. E, assim, acontece que, sempre ao longo de toda a história, inocentes
sejam maltratados, condenados e mortos. Quantas vezes também nós preferimos o
sucesso à verdade, a nossa reputação à justiça. Dai força, na nossa vida, à voz
subtil da consciência, à vossa voz. Olhai-me como olhastes para Pedro depois de
Vos ter negado. Fazei com que o vosso olhar penetre nas nossas almas e indique
a direcção à nossa vida. Àqueles que na Sexta-feira Santa gritaram contra Vós,
no dia de Pentecostes destes a contrição do coração e a conversão. E assim
destes esperança a todos nós. Não cesseis de dar também a nós a graça da
conversão.

Todos:

Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

Stabat Mater dolorosa
iuxta crucem lacrimosa,
dum pendebat Filius.

SEGUNDA
ESTAÇÃO
Jesus é carregado com a cruz

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.

Do evangelho segundo São Mateus 27, 27-31

Então, os soldados do governador levaram Jesus consigo para o Pretório e
reuniram junto d’Ele toda a companhia. Depois de O terem despido,
envolveram-n’O em um manto encarnado. Teceram uma coroa de espinhos, que Lhe
puseram na cabeça, e, na mão direita, colocaram-Lhe uma cana. Ajoelharam-se
diante d’Ele e escarneceram-n’O dizendo: “Salve, ó rei dos Judeus!”
Depois, cuspiram n’Ele e pegaram na cana e puseram-se a bater-Lhe com ela na
cabeça. No fim de O terem escarnecido, despiram-Lhe o manto, vestiram-Lhe as
suas roupas e levaram-n’O para O crucificarem.

MEDITAÇÃO

Jesus, condenado como pretenso rei, é escarnecido, mas precisamente na troça
aparece cruelmente a verdade. Quantas vezes as insígnias do poder trazidas
pelos poderosos deste mundo são um insulto à verdade, à justiça e à dignidade
do homem! Quantas vezes os seus rituais e as suas grandes palavras,
verdadeiramente, não passam de pomposas mentiras, uma caricatura do dever que
lhes incumbe por força do seu cargo, ou seja, colocar-se ao serviço do bem. Por
isso mesmo, Jesus, Aquele que é escarnecido e que traz a coroa do sofrimento, é
o verdadeiro rei. O seu ceptro é justiça (cf. Sal 45/44, 7). O preço da justiça
é sofrimento neste mundo: Ele, o verdadeiro rei, não reina por meio da
violência, mas através do amor com que sofre por nós e connosco. Ele carrega a
cruz, a nossa cruz, o peso de sermos homens, o peso do mundo. É assim que Ele
nos precede e mostra como encontrar o caminho para a vida verdadeira.

ORAÇÃO

Senhor, deixastes que Vos escarnecessem e ultrajassem. Ajudai-nos a não fazer
coro com aqueles que escarnecem quem sofre e quem é frágil. Ajudai-nos a
reconhecer o vosso rosto em quem é humilhado e marginalizado. Ajudai-nos a não
desanimar perante as zombarias do mundo quando a obediência à vossa vontade é
metida a ridículo. Carregastes a cruz e convidastes-nos a seguir-Vos por este
caminho (Mt 10, 38). Ajudai-nos a aceitar a cruz, a não fugir dela, a não
lamentarmo-nos nem deixar que os nossos corações se abatam com as provas da
vida. Ajudai-nos a percorrer o caminho do amor e, obedecendo às suas
exigências, a alcançar a verdadeira alegria.

Todos:

Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

Cuius animam gementem,
contristatam et dolentem
pertransivit gladius.

TERCEIRA
ESTAÇÃO
Jesus cai pela primeira vez

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.

Do livro do profeta Isaías 53, 4-6

Eram os nossos males que Ele suportava, e as nossas dores que tinha sobre Si.
Mas nós víamos n’Ele um homem castigado, ferido por Deus e sujeito à
humilhação. Ele foi trespassado por causa das nossas culpas, e esmagado devido
às nossas faltas. O castigo que nos salva, caiu sobre Ele, e por causa das suas
chagas é que fomos curados. Todos nós, como ovelhas, andávamos errantes,
seguindo cada qual o seu caminho. E o Senhor fez cair sobre Ele as faltas de
todos nós.

MEDITAÇÃO

O homem caiu e continua a cair: quantas vezes ele se torna a caricatura de si
mesmo, já não é a imagem de Deus, mas algo que mete a ridículo o Criador.
Aquele que, ao descer de Jerusalém para Jericó, embateu nos ladrões que o
despojaram deixando-o meio morto, sangrando na beira da estrada, não é
porventura a imagem por excelência do homem? A queda de Jesus sob a cruz não é
apenas a queda do homem Jesus já extenuado pela flagelação. Aqui aparece algo
de mais profundo, como diz Paulo na carta aos Filipenses: «Ele que era de
condição divina não reivindicou o direito de ser equiparado a Deus. Mas
despojou-Se a Si mesmo tomando a condição de servo, tornando-Se semelhante aos
homens (.) humilhou-Se a Si mesmo, feito obediente até à morte e morte de cruz»
(Fil 2, 6-8). Na queda de Jesus sob o peso da cruz, é visível todo este seu
itinerário: a sua voluntária humilhação para nos levantar do nosso orgulho. E
ao mesmo tempo aparece a natureza do nosso orgulho: a soberba pela qual
desejamos emancipar-nos de Deus sendo apenas nós mesmos, pela qual cremos que
não temos necessidade do amor eterno, mas queremos organizar a nossa vida
sozinhos. Nesta revolta contra a verdade, nesta tentativa de nos tornarmos
deus, de sermos criadores e juízes de nós mesmos, caímos e acabamos por
autodestruir-nos. A humilhação de Jesus é a superação da nossa soberba: com a
sua humilhação, Ele faz-nos levantar. Deixemos que nos levante. Despojemos-nos
da nossa auto-suficiência, da nossa errada cisma de autonomia e aprendamos o
contrário d’Ele, d’Aquele que Se humilhou, ou seja, aprendamos a encontrar a
nossa verdadeira grandeza, humilhando-nos e voltando-nos para Deus e para os
irmãos espezinhados.

ORAÇÃO

Senhor Jesus, o peso da cruz fez-Vos cair por terra. O peso do nosso pecado, o peso
da nossa soberba deita-Vos ao chão. Mas, a vossa queda não é sinal de um
destino adverso, nem é a pura e simples fraqueza de quem é espezinhado.
Quisestes vir até junto de nós que, pela nossa soberba, jazemos por terra. A
soberba de pensar que somos capazes de produzir o homem fez com que os homens
se tenham tornado um espécie de mercadoria para comprar e vender, como que uma
reserva de material para as nossas experiências, pelas quais esperamos de, por
nós mesmos, superar a morte, quando, na verdade, conseguimos apenas humilhar
cada vez mais profundamente a dignidade do homem. Senhor, vinde em nossa ajuda,
porque caímos. Ajudai-nos a abandonar a nossa soberba devastadora e, aprendendo
da vossa humildade, a pormo-nos novamente de pé.

Todos:

Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

O quam tristis et afflicta
fuit illa benedicta
Mater Unigeniti!

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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