Medicina e Religião

Com o auxílio do Dr. Roque
Marcos Savioli, doutor em Cardiologia pela Faculdade de Medicina da USP ,
Diretor da Unidade de Saúde Suplementar do Instituto do Coração do Hospital das
Clinicas da Faculdade de Medicina da USP e autor dos livros : Milagres que a
medicina não contou; Depressão onde está Deus? e Curando Corações e com os
dados fornecidos por ele, escrevemos este item para o leitor que desejar se
aprofundar no assunto.

A Igreja respeita
profundamente a ciência; de modo especial a medicina, e simplesmente acata
aquilo que a medicina séria comprova e considera válido.

Sabemos que a partir do
século IV, organizações religiosas ligadas à Igreja Católica foram pioneiras na
construção dos primeiros hospitais do ocidente com o objetivo de atender à
população carente que necessitava de cuidados médicos. A partir dessa época, os
mosteiros e as ordens religiosas eram
responsáveis pela formação e habilitação dos profissionais
médicos, mantendo sempre seu perfil humanista. Nesse tempo, o médico e o
religioso eram a mesma pessoa, que curava o corpo, alma e espírito (a tradição
popular portuguesa ainda traz a palavra “cura” como sinônimo de padre).

As grandes transformações
político-sociais que vieram com a Revolução Francesa e a Reforma Protestante, no entanto, iniciaram ideias separatistas também
na relação medicina e religião. A partir da metade do século
XIX, o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, a grande
evolução do pensamento humano e o advento da medicina
científica, separaram totalmente a medicina da

religião, particularmente
após Charles Darwin publicar seu revolucionário livro A evolução das espécies
por meio da seleção natural. Essa obra levou os teólogos a começarem ver a
ciência como uma ameaça à sua fé. A ciência, por sua vez, já há muito tempo via
a religião como uma ameaça à liberdade científica.

No século XX, Freud, um dos
pioneiros da psicologia, admitia que a religião poderia
causar doença psicológica, por ele denominada “neurose obsessiva universal”, e
descreveu as experiências místicas como “regressão ao narcisismo primário”.
Carl Jung, seguidor de Freud, contestava seu mestre ao admitir que a busca de
um bem estar espiritual era fator preponderante para a manutenção da saúde
mental. Jung, fundador de uma das maiores escolas de psicologia do mundo, foi
categórico ao admitir a importância dos rituais católicos na cura dos problemas
emocionais, principalmente a eficácia dos sacramentos, como a confissão e a
eucaristia, embora fosse agnóstico e filho de protestantes.

A partir da segunda metade
do século passado, o enorme progresso das ciências
físicas, químicas e biológicas, aliado ao grande  desenvolvimento tecnológico, foram, cada vez
mais, redirecionando a formação e a atuação do médico. Crescia o interesse
pelas ciências experimentais e diminuía o interesse pelas humanas.

 A medicina delirava sobre suas descobertas e
conquistas, não havendo espaço para Deus nessas vitórias, pois tudo tinha de
ser cientificamente comprovado
para ser verdadeiro. Nos últimos anos do século
passado, no entanto, provavelmente pelo momento escatológico do
milenarismo, com a consequente necessidade de
espiritualização do homem, vários centros mundiais de pesquisas
médicas começaram a mostrar interesse em analisar os efeitos da
espiritualidade e da religiosidade sobre a evolução das doenças, iniciando-se
um movimento de reaproximação da medicina e da religião.

Com o aumento do interesse
dos pesquisadores, vários encontros médicos foram realizados para discutir
“Religião e Medicina”,de modo que começaram a surgir idéias para a realização
de estudos,na tentativa de comprovar a importância da fé na evolução das
doenças.

Uma pesquisa realizada com seis pessoas religiosas e seis
não religiosas, foi feita usando o PET scan, isto é, a tomografia computadorizada
com emissão de positrons,  antes e após
de três leituras diferentes: a recitação do Salmo 22/23; de uma rima infantil e
de uma leitura inespecífica (páginas de lista telefônica). As imagens PET
mostraram ativação significativa de um circuito cerebral frontal parietal das
áreas dorso lateral pré-frontal, dorso medial-frontal e medial-parietal da
córtex dos religiosos durante a leitura do Salmo. (Azari, N.P and cols –
“Neural correlates of religion experience”. European Journal of Neuroscience –
april – 2001).

É provável que essas áreas estejam conectadas com áreas
cerebrais responsáveis pela imunidade do organismo humano. Cada vez mais vai ficando
provado, cientificamente, que a Religião influencia fortemente na saúde das
pessoas; por causa disso, hoje cresce 
bastante o número de pesquisas neste campo. 

O Dr. Roque Savioli, depois de vários estudos
sobre esta questão, está convencido que existe em nosso cérebro um “centro da
fé” , que responde aos estímulos espirituais. Este, ao ser estimulado por um
momento de oração, pode ocasionar resposta dos centros de imunidade orgânica.

Muitos cursos de medicina 
associando Religião e Medicina estão surgindo no mundo todo. Em 2002, 86
das 126 escolas de medicina dos USA ofereceram cursos de espiritualidade e
saúde.

A Harvard Medical School (Escola de Medicina de Harvard,
nos EUA) oferece o curso: “Espiritualidade e cura na medicina”, curso anual,
desde 1995 para todos profissionais de saúde dos EUA.

A Duke University mantém um “Centro de
Estudos de Religião e Espiritualidade e Saúde”.

Dr. Roque Savioli, em aula proferida na TV Canção Nova,
no dia 30/09/2004, em nosso Programa Escola da Fé, apresentou dados muito
interessantes que transcrevo aqui, sobre os efeitos da religião na saúde:

Mortalidade: estudo de 28 anos, com 5286 adultos com
idades entre 21-61 anos, mostrou que nos praticantes de religião, havia 23% a
menos de mortalidade do que nos não praticantes. Strawbridge, W. J. Am. J.
Public Health, 87: 957,1997.

Meta-análise de 42 estudos, com mais de 126.000 casos
revelou que os religiosos tem 29% de possibilidade de viver mais tempo do que
os não religiosos.

Hipertensão Arterial – Koenig, H.G and Cols, estudando
3963 pessoas, notaram que aqueles que praticavam religião(ir a missa mais de uma
vez por semana) tinham menor incidência de hipertensão arterial. (Int.
J.Psychiatriy Med,24:122,1998).

Análise de 16 estudos recentes, 14 deles demonstraram que
o envolvimento religioso estava associado a níveis menores de pressão arterial
diastólica.

Doenças Cardiovasculares – estudo prospectivo de 23 anos
de 10.059 casos, revelou que judeus ortodoxos tem risco coronário 20% menor do
que os não religiosos. (Cardiology, 82: 100,1993).

Na análise de 16 estudos recentes, 12 mostraram que o
envolvimento religioso estava associado a menor incidência de doenças
cardiovasculares ou mortalidade cardiovascular.

Depressão
– Comprovou-se que o envolvimento religioso é fator de prevenção contra a
depressão em adultos com câncer. (Musick, MA; Koenig, H.G.; Hays, J.C.; Cohen,
H. J-J Gerontol., 53, 1998).

            Em
29 estudos que analisaram a relação entre depressão e religiosidade, 24
mostraram que o envolvimento religioso reduz os sintomas depressivos  e previne  
novas crises.

 Ansiedade – Em 114
pacientes com diagnósticos recentes de vários tipos de câncer, níveis maiores
de espiritualidade estavam correlacionados a menores índices de ansiedade
(Kaczorowschi, JM. Hosp. J.: 5,1985).

Em 70 estudos prospectivos e cruzados foi encontrada a
relação entre envolvimento religioso e menor ansiedade ou medo.Uso de drogas ou álcool  –   Estudo prospectivo de 1014 estudantes de medicina revelou,
em 20 anos de “follow-up” (acompanhamento), que nos religiosos o índice de
alcoolismo ou uso de drogas era expressivamente menor do que nos não
religiosos. (Moore,RD and cols. Am.J. Med. 88: 332,1990).

Sistema imunológico – Em 106 portadores de AIDS notou-se
associação entre religiosidade, menores índices de depressão e aumento do
estado imunológico. (Woods, T. E. and cols. Journal of Psychosomatic Research,
46: 165,1999).

 Efeitos benéficos da religiosidade – ajuda a pessoa a
manter uma dieta saudável, livrar-se do tabagismo, alcoolismo e drogas.
Favorece uma mente positiva e otimista que provoca uma  ação sobre o eixo hipotálamo-adrenal-hipofisário
com diminuição da liberação de cortisol e nor-adrenalina.

 Efeitos negativos da religiosidade – Uma religiosidade
fanática e mal orientada, pode causar prejuízos às pessoas, como por exemplo:
descontinuidade de tratamento médico prévio, praticas danosas a saúde física e
mental (jejum exagerado, auto-mutilações), surtos depressivos ou psicóticos
após insucesso no resultado das preces; prática de algumas seitas religiosas
podem estar associadas a maior incidência de doenças mentais.

 Sobre os pacientes americanos: 95% dos americanos
acreditam em Deus;  77 % gostariam que o
seu médico falasse em Deus durante as consultas; 73 % acham que os médicos
deveriam compartilhar suas crenças com os seus pacientes. No entanto, somente 10
a 20 % dos médicos falam de Deus para seus pacientes.

Sobre os médicos: 64 a 95 % acreditam em Deus; 77 % acham
que os pacientes deveriam partilhar suas crenças com eles; 96% admitem ser o
bem estar espiritual importante na saúde; 10 a 20 % não falam em Deus por
acharem que é  perda de tempo, ou por não
se sentirem preparados para tal ou por terem dificuldade em identificar o
paciente adequado.

 Muitas publicações científicas internacionais têm surgido
em todo o mundo. Alguns exemplos são:

– Mueller, Paul, S. and cols – “Religious Involvement,
Spirituality, and Medicine: Implications for Clinical Pratice. Mayo Clin.
Proc., 76: 1225, 2001.

– Koenig, Harold, G. and cols – “Religion, Spirituality,
and Medicine:  Aplication to Clinical
Pratice”. JAMA, 284: 1708, 2000.

– Sloan, R.P. and cols – “Religion,spirituality, and
medicine”. Lancet, 353:664,1999.

 – Helm, H., Hays, J.C., Flint, E., Koenig, H.G., Blazer,
DG (2000). “Effects of private religious activity on mortality of elderly
disabled and nondisabled adults”. Journal of Gerontology (Medical Sciences),
55A, M400-M405.

 – Steffen, P. R., Hinderliter, A. L., Blumenthal, J. A.,
& Sherwood, A. (2001). Religious coping, ethnicity, and ambulatory blood
pressure. Psychosomatic Medicine, 63, 523-530.

– Pargament, KI, Koenig HG, Tarakeshwar, N, Hahn, J
(2001). “Religious struggle as a predictor of mortality among medically ill
elderly patients: A two-year longitudinal study”. Archives of Internal Medicine,
161, 1881-1885.

 – Krucoff MW , Crater SW, Green CL, Maas AC, Seskevich
JE, Lane JD, Loeffler KA, Morris K, Bashore TM, Koenig HG (2001). “Integrative
noetic therapies as adjuncts to percutaneous intervention during unstable
coronary syndromes: The Monitoring & Actualization of Noetic Trainings
feasibility pilot”. American Heart Journal 142,760-797. 

– Ai, A.L., Peterson, C., Bolling, S.F., & Koenig, H.
(2002). “Private prayer and the optimism of middle-age and older patients
awaiting cardiac surgery”. The Gerontologist, in press.

– Koenig HG (2002). “Religion, congestive heart failure
and chronic pulmonary disease”. Journal of Religion and Health, 41(3):263-278.

 – Medical School Curricula in Spirituality and Medicine:

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Author Affiliation – Auguste
H. Fortin VI, MD, MPH, and Katherine Gergen Barnett, Yale University School of
Medicine, New Haven, Conn

 

 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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