Mas por que você não reza aos santos? (Parte 6)

Por que nós honramos, imitamos e invocamos os santos
Diga-se o que disser, as pessoas interessam-se pelos Santos. Não só os católicos mostram curiosidade pelas vidas deles, mas sim toda gente, não-católicos, até mesmo anticatólicos, e os que absolutamente não têm religião.
Alguns anos atrás, a British Broadcasting Company, na Inglaterra, patrocinou uma série de alocuções feitas por Monsenhor Ronald Knox, concernentes aos santos. A Inglaterra não é um país particularmente religioso, e o assunto é um assunto impopular. Mas o efeito dessas alocuções foi inteiramente surpreendente, e causou admiração até mesmo aos austeros diretores da BBC.
Por que será que os santos têm tão largo atrativo? Será que o povo inconscientemente sonha que a sua vida poderia ser como a dos santos? Será que ele mede a sua incerteza, confusão e frustração pelos santos que trilharam com passo seguro uma senda que levava direito a uma meta conhecida? Será que, no meio dos seus apuros, eles desejariam poder enfrentá-los como o fizeram esses homens e mulheres que pareciam ter maiores apuros?  Será que eles anseiam por trilhar essas sendas secretas e misteriosas da experiência mística que tantos santos trilharam, mas que ficam sendo para outros um desvio intrigante, embora perdido?
“Minha vida poderia ser como essa”, parece dizer o leitor das vidas dos santos, “não monótona, não cheia de lamuriosas transigências, não devoradas pelo verme da inveja ou da cobiça, ou pelo lobo voraz da lascívia, mas sim gloriosa e grande”.
O mundo está sempre a dizer com Santo Agostinho: “Se outros o fizeram, por que não posso fazê-lo eu?” É por isto que os santos devem ter sempre atração para todos os homens. Por mais céptico que um homem seja, não pode negar a possibilidade de a felicidade residir nessa improvável direção. Aí residiu ela certamente para os santos.
O incitamento a  imitar essa gente é forte e o instinto é profundo. Desde o tempo de crianças, nós, católicos, aprendemos muitas lições boas e sólidas pela imitação.
Mas devemos imitar o modelo genuinamente bom. Nada é mais nocivo do que aprender penosamente um saber e depois finalmente descobrir que o modelo era defeituoso e o saber eivado de inépcia na sua própria fonte.
Por isto, imitando a virtude humana, devemos ter a certeza de que o modelo é bom. Há grande perigo nisso, porque nada se parece tanto com a coisa real como a contrafação.
No desejo de alcançar a felicidade, os homens deformaram a verdade da doutrina cristã. Alguns, que pareciam muito santos, disseram que Deus é um Deus temível, e que por isso o homem deveria ficar tão longe dele quanto possível. Outros puseram grande energia em fazer bem aos outros, mas se esqueceram da necessidade de aperfeiçoar o seu próprio espírito.
Muitas dessa pessoas esforçaram-se por alcançar o céu; mas algumas tomaram a trilha errada. Certamente, a Igreja que Jesus Cristo fundou deve ter algo a dizer sobre este importante problema do destino humano.

A Igreja assegura
A Igreja Católica esta cônscia dessa obrigação, e sabe que tem um poder divinamente dado para distinguir entre a piedade verdadeira e a falsa, para separar o santo do pecador, e assim cunhar, com aprovação, modelos que possam ser seguramente imitados.
Anteriormente descrevemos a laboriosa investigação que a Igreja Católica leva a efeito sobre a reputada santidade dos seus membros. A prudência humana certamente não poderia fazer mais para se certificar de haverem essas pessoas sido verdadeiramente santas.
Mas, quando a Igreja Católica finalmente pronuncia de modo solene que alguém é um santo, não se apóia apenas na prudência humana. Tem em mão clara evidência disso na forma de milagres operados por Deus pela  intercessão do santo em perspectiva. Este é o selo da aprovação divina sobre a santidade da pessoa investigada.
Cristo disse à sua Igreja: “Eis que eu estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos” (Mt 28, 20). Esta é uma promessa de especial auxílio divino para a Igreja. Por causa dessa promessa, ao canonizar um santo, a Igreja Católica é infalível; isto é, não pode cometer erro – não pode transviar a Igreja inteira.

Os Santos no céu
O decreto de canonização de Santa Teresa do Menino Jesus – do qual falamos no capítulo precedente – confirma, sem sombra de dúvida, que ela certamente está no céu, e que a imitação das suas virtudes é um caminho seguro para que todos também ali cheguem.
Fora de qualquer dúvida, os santos estão no céu. Ora, é verdade que existe uma barreira entre os mundos do céu e da terra, porém ela não é intransponível. Para os santos, especialmente, ela é facilmente passada.
No céu os santos sabem das condições a terra. A sua felicidade no céu consiste em compreenderem a Deus. Eles participam do interesse de Deus por nós. Certamente, Deus não é indiferente ao que está acontecendo aos seus filhos da terra por ele criados. Os santos, que tanto se assemelham a Deus no seu amoroso interesse por nós, são forçados a acompanhar com consideração as nossas sortes.
Podemos invocá-los, e eles podem ouvir as nossas preces. Como? No céu todos os seus desejos razoáveis são satisfeitos pelo poder de Deus. É razoável que eles desejem conhecer os pedidos a eles dirigidos. Deus habilita-los a conhecer as nossas preces. O tempo e a distância não são empecilho; estas de que tratamos são coisas do espírito. Por mais secreta que seja, eles conhecem a nossa prece. Querem ajudar-nos, por mais desesperada que seja a nossa necessidade.
E podem ajudar-nos. Este é talvez o fato mais importante de todos. Eles são amigos de Deus, muito chegados a ele pela sua santidade, que os fez “participantes da sua natureza divina”, como diz S. Pedro. Certamente eles têm grande influência junto ao “Pai das luzes” de quem vem “todo dom melhor e todo dom perfeito” (Tgo 1, 17).
Essa intervenção a favor de nós mortais não é imaginária. É fato estrito. Passe-se de largo, se se quiser, por todos esses favores pessoais que têm chovido sobre todos nós, e venha-se aos fatos públicos da história.

Os Santos podem ajudar-nos
A 7 de outubro de 1571, uma grande frota turca aproximava-se das praias da Europa com o confesso propósito de destruir o poder dos príncipes cristãos da Europa Ocidental. Em Roma e por toda a Itália o povo reunia-se para recitar orações especiais a Maria, a Santa Mãe de Deus, pedindo a sua intervenção contra aquela nova ameaça vinda do Oriente. Naquele dia, na baía de Lepanto, contra incríveis superioridades, as forças cristãs sob o comando de Dom João d’Áustria acometeram e destruíram completamente a ameaça turca. O povo cristão com razão viu no acontecimento uma prova do poder da oração a um santo.
As vidas exemplares dos santos podem ser um poderoso incentivo para que outros levem vidas boas. Nenhuma condição de vida é por demais humilde, nenhuma rotina de vida é por demais estreita, nenhum grau de malfazer é por demais profundo para estar além do remédio da santidade. Nenhuma senda da vida humana fica imperlustrada por pés santos.
Tudo o que é necessário é conhecer e querer. Conhecer as vidas dos santos é o começo da santidade. Nas vidas dos santos há alguma que é semelhante à nossa. Nas crises que eles depararam e superaram esta alguma semelhante à nossa necessidade presente. Nós nunca estamos sós; andamos com santos.
Essas vidas precisam ser estudadas e invocadas. Devemos fazer todo esforço humano para nos mantermos lembrados delas. Estátuas e quadros são grandes auxílios para isto. Dias especiais de honra tributada a santos particulares renovam o nosso interesse por eles. Novenas (nove dias consecutivos de devoção), demonstrações públicas especiais, a coroação da imagem da Santíssima Mãe de Deus no último de Maio, as peregrinações a esse e àquele santuário, a dedicação de igrejas a um santo particular – todos estes são apenas alguns dos meios honestos, humanos, de nos ajudar a recordar e imitar os santos.

Não supersticioso
Este é o resumo e substância da devoção católica aos santos. Certamente nós consideramos idolatria invocá-los como se eles fossem Deus e pudessem ajudar-nos pelo seu próprio poder. Certamente acharíamos superstição o termos a mostra exterior de devoção, e depois esperarmos resultados infalíveis de algum rito mágico que pratiquemos.
Porém cada uma dessas admiráveis criaturas de Deus diz-nos, na sua maneira especial: “Podeis ser eternamente felizes”. E elas podem ajudar-nos a virmos a ser felizes. Por esta razão as invocamos e procuramos imitá-las.
Dentro da vasta órbita dos santos é natural que cada pessoa ache alguns pelos quais sente especial atração. Estes podem vir a ela por estarem designados para ela de uma forma ou de outra como padroeiros, ou pode ela modelar livremente a sua devoção àqueles a quem admira.

Tomar nomes de Santos
No Batismo, a cada criança católica é dado o nome de um santo. Isto é simplesmente direito. A cerimônia do batismo muitas vezes é chamada “cristianizar”, isto é, “fazer semelhante a Cristo”. É apropriado que um novo cristão tome o nome de um dos heróis da fé cristã.
Além disto, o nome faz honra ao santo, tal como um homem na terra é honrado por ter um filho com o seu nome. E, do mesmo modo que um homem acompanha com interesse e afeição a carreira do seu homônimo, assim também o santo no céu se interessa pelos seus homônimos na terra e os ajuda.
Na ocasião em que é recebido o Sacramento da Confirmação, os católicos às vezes juntam ao seu o nome de outro santo. A Confirmação introduz um homem numa nova fase da sua vida, a de soldado de Cristo. É apropriado ter outro santo a velar por ele na sua nova condição.
Não somente os indivíduos têm patronos, mas os grupos igualmente. A piedade cristã tem sugerido que certas profissões sejam colocadas sob a proteção de santos que tiveram similar estado na vida. Os médicos são abençoados tendo como seu padroeiro S. Lucas, “o médico caríssimo” (Col 4, 14). Santo André é o padroeiro dos pescadores, como é apropriado; S. José, dos carpinteiros; S. Marcos, dos notários (ele era secretário de S. Pedro).
Outros padroeiros foram sugeridos, numa época de fé, por ligações mais remotas. S. Cristóvão foi por muitos séculos o padroeiro dos carregadores. Mas, com a vinda do automóvel e a grande necessidade de proteção celeste que este envolvia, tornou-se padroeiro dos motoristas. Você verá com freqüência em carros de propriedade de católicos uma medalha em honra dele.
Há talvez um toque de alegria infantil na escolha de alguns santos padroeiros. Santo Estêvão, que foi o primeiro cristão a morrer pela sua Fé – foi apedrejado até morrer – tornou-se o santo padroeiro dos pedreiros. Dimas, o bom ladrão, tornou-se o padroeiro dos sentenciados e dos condenados à morte.

Santos favoritos
Nenhuma condição de vida deixa de ter o seu padroeiro. Os agricultores têm Santo Isidoro; os vinhateiros, S. Vicente Mártir; os caçadores, Santo Humberto; os sapateiros, S. crispim. Há até um padroeiro dos comediantes, S. Vito.
Especialmente durante a Idade Média, quando a fé e uma imaginação pueril eram tão fortes, é que santos padroeiros foram designados para tantas ocupações. As uniões obreiras da época, as pequenas associações comerciais, cada uma tinha o seu santo padroeiro.
Dessa profusão de padroeiros, alguma coisa mais devia ainda derivar. Conhecendo tão bem as vidas dos santos, aquela gente escolhia certos deles que pudessem ser invocados para necessidades especiais. Conta-se a história de S. Brás, a quem, enquanto aguardava o martírio na prisão, trouxeram uma criança em perigo de estrangulamento por causa de uma espinha de peixe que se lhe atravessara na garganta. Pela oração do santo, a aflição dissipou-se. Em igrejas católicas, a 3 de fevereiro de cada ano é dada uma bênção especial aos fiéis, rogando a S. Brás protegê-los contra as doenças da garganta.

Nossas preces ouvidas
Santo Antônio de Pádua é invocado quando se precisa de assistência para achar alguma coisa perdida. Isto aparentemente se origina de uma história de que um noviço, no mosteiro dele, uma vez fugiu levando consigo um livro mui valioso. Pela oração de Santo Antônio, o rapaz foi colhido por uma violenta tempestade. Assustado, resolveu não somente devolver o livro, mas emendar sua vida.
Não se deve imaginar que seja uma superstição infantil que sugere tais devoções. A oração pode ajudar-nos mesmo nos negócios diários mais comuns. Certamente é mais apropriado rezar a algum santo que tenha ligação, embora remota, com a nossa necessidade, do que rezar sozinho, sem o auxílio das orações dele.
Usualmente, cada católico tem alguns santos especiais que admira de modo particular, ou que têm alguma ligação com o seu trabalho. Esses ele é concitado a imitar e a invocar freqüentemente, conforme o sugerir a sua piedade.
Em épocas recentes, a  Igreja Católica declarou oficialmente certos santos patronos universais de obras particulares. S. José, o pai adotivo de Cristo, é o Patrono da Igreja Católica inteira. S. Vicente de Paulo é o padroeiro de todas as obras de caridade. Santo Tomás de Aquino é o patrono das universidades e escolas. S. Francisco Xavier e Santa Teresa do menino Jesus são padroeiros das Missões.

Santos “Padroeiros”
Assim, todo movimento e toda boa-obra em que os homens se empenham são santificados com serem dedicados a algum santo. Por essas empresas sabemos que os santos velam com interesse e auxílio. Eles têm influência junto de Deus; e essa influência está à nossa disposição. E torna-se efetiva por meio da oração.
Sim, nós honramos os santos por estarem tão perto de Deus. imitamo-los para podermos aproximar-nos mais de Cristo; rezamos a eles para que eles juntem as suas preces às nossas feitas ao nosso Deus  que é o Pai de todos nós.
 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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