Mas por que você não reza aos santos? (Parte 4)

Mais do que bondade
Há algumas pessoas que são apenas naturalmente boas dentro de certos limites. Têm uma disposição alegre, ficam facilmente satisfeitas, não desejam a riqueza ou a mulher ou a reputação de nenhum homem. Nunca realizam muito. São medíocres de modo muito bonito. Não são santas.
Há outras que são conduzidas por um desejo incansável de melhorar as condições sob as quais os outros vivem, de reformar ou organizar. Mas permitem que isso lhes entorte as vidas. Na pior da hipóteses, tornam-se uns terríveis fanáticos que destroem mais do que constroem. Na melhor das hipóteses, são gênios incômodos. Não são santas.
E, quanto à generalidade dos homens que vivem suas vidas com variantes graus de virtude e de vício, ninguém os consideraria sequer como candidatos à santidade. Um homem é humano; deve fazer algum bem, porque há uma bondade inerente em todos nós. Só quando a bondade se manifesta em toda parte e sem restrição é  que nós temos algo de inteiramente inexplicável no terreno humano. Então temos a santidade.
A Igreja Católica tem uma craveira final para medir a união com Deus daqueles que são reputados santos. É o poder que essas pessoas têm, especialmente depois da morte, de rogar a Deus com tal eficácia, que Deus opera milagres por causa das orações delas.

Poder de Deus
Um milagre é um acontecimento maravilhoso inteiramente fora do poder de qualquer pessoa ou de qualquer coisa afora Deus. Porque um homem voar com apenas um par de asas seria coisa inteiramente extraordinária. Mas por tudo  quanto sabemos, isso pode vir a ser possível. Simplesmente por ainda não ter sido feito, não quer dizer que não possa vir a ser feito.
Mas transportar-se de um lugar para outro simplesmente com pensar sobre onde se quereria estar, isto é completamente impossível do ponto de vista natural. Um homem ser curado por alguma droga milagrosamente é coisa compreensível, mesmo se a droga milagrosa não pode ser conhecida no momento. Mas ser curado instantaneamente, de uma doença incurável, sem uso de nenhuma droga ou tratamento, mas somente pela oração, isto é compreensível por nenhuma teoria natural.
Onde ocorre um milagre real, aí sabemos que o pode de Deus esteve em obra. Esses milagres reais têm ocorrido muitas vezes na história do mundo. Foram de ocorrência quase diária na vida de Cristo. E ocorrem muitas vezes pela intercessão dos santos.
De muitos santos é dito que, a pedido deles, milagres se operavam enquanto eles ainda viviam. O pastor da cidade rural de Ars na França, há  uns cem anos, S. João Vianney, sabia-se que multiplicara o suprimento de comida de um orfanato rezando sobre  ele. E isso não era uma história piedosa. Foi fato bem averiguado.
No santuário de Lourdes, na França, numerosas curas médicas operam-se anualmente pela intercessão de Maria, Mãe de Deus. O mesmo é verdade de muitos outros santos; mediante a oração a eles, doenças orgânicas incuráveis findaram subitamente, deixando pequeno ou nenhum vestígio da sua presença. Estes são sinais extraordinários e incontestáveis de aprovação dados por Deus.
Uma vez mais, devemos insistir em que não  tratamos aqui de histórias rumorosas, fantasiosas, contadas por velhas ou sonhadas por moças histéricas. Tratamos de fatos. A evidência médica dos milagres operados em Lourdes, por exemplo, tem vindo firmemente amontando-se por um século, e dela nunca foi dada explicação natural satisfatória. Esses fatos têm sido examinados e reexaminados pelos métodos mais modernos, oferecidos ao mundo em geral papa crítica, e têm resistido à prova do teste científico.
A Igreja Católica exige hoje que se prove haverem tais milagres depois da morte vindo pela intercessão daquele que é reputado santo. É a prova final que não admite dúvida. Se Deus se dignou de operar um milagre pela intercessão de tal católico, então fora de toda dúvida essa pessoa está no céu. Não há dúvida de que ela é santa.
Esta é a espécie de gente que a igreja Católica honra com o título de santo. Eles praticaram tal variedade de virtudes em tão alto grau, que a isso devem ter sido movidos por um poder sobre-humano. Esse poder eles o hauriram na sua religião, a religião que é a única religião verdadeira.
Assim, quando alguém que examina as pretensões da Igreja Católica pergunta: Onde estão os vossos santos?, pode a Igreja já apontar milhares e milhares deles que têm exornado a Igreja Católica. Eles formam uma linha ininterrupta para trás, até o próprio Nosso Senhor. Tal linha de santidade só é achada entre aqueles que viveram na fé católica e de acordo com a fé católica.

Eis aqui alguns santos…
E como viveram
Estivemos tratando dos santos em teoria; agora consideremo-los na carne. Um breve sumário de algumas das suas vidas darão realidade ao que estivemos a dizer.
Em regra geral, a idéia comum de um santo é de todo errada. Um santo usualmente é pintado como um homem alto, emaciado, de  mãos postas em oração, usando roupas fora de moda, com um sorriso triste e sofredor na face – como um homem completamente não-prático.
Essa pintura não é nem mesmo superficial. Por que se haveria de pensar dos santos sempre como magos? Em matéria de fato, S. Francisco de Bórgia eram um homem grande, tão redondo que se dizia que o seu cinto abarcaria três pessoas comuns. Santo Tomás de Aquino dizia-se que era um homem tão volumoso, que era preciso cortar uma meia-lua na mesa para que ele pudesse comer. Talvez esta história seja exagerada; mas é difícil pensar que uma história como essa tivesse origem se ele fosse um mero esqueleto.
Por que haveriam os santos de ter sempre as mãos postas em oração? Por certo os santos rezavam freqüentemente. Mas tudo quanto um homem faz pode ser convertido em oração. S. Francisco Xavier sabia-se que gostava de jogar cartas. São João Bosco jogava futebol com seus órfãos, e certamente não tinha então as mãos postas.
E por que o sorriso triste, melancólico? S. Francisco de Assis foi, sem dúvida, uma das personalidades neste mundo tristonho. Uma simples vista d’olhos à sua vida prová-lo-á.
S. Tomás More foi um dos homens mais espirituosos da sua época. Foi autor do famoso livro “Utopia”, e ai do solene tolo que não percebesse ser tudo aquilo brincadeira!
Há  na Igreja Católica um antigo chiste que diz: “Um santo triste é um triste santo”.
Finalmente, por que haveria o santo de ser encerrado no seu mundo estreitamente fechado, como um besouro  num jarro de vidro? A verdade é que alguns santos foram solitários, vivendo em lugares afastados e nunca saindo para o meio do público geral. Porém mesmo alguns ermitães tomaram parte vital e decisiva no mundo que os cercava. S. Jerônimo foi um dos mais urbanos e loquazes comentadores sobre os homens e negócios que o mundo já conheceu; e Jerônimo era um eremita.
A questão é que o mundo não quer compreender os santos, e por isto tem procurado colocá-los num molde tão repulsivo quanto possível. Então tem-se dito que eles são tão extravagantes e tão raramente encontrados, que podem ser seguramente ignorados.
A verdade é que os santos têm sido tão numerosos e tão atraentes, que a humanidade tem de prestar atenção a eles a despeito de todas essas dificuldades.
A santidade é a perfeição da humanidade, e, onde quer que seres humanos tenham vivido, a santidade tem florescido sob os cuidados da Igreja Católica.
Os santos não foram raras e monstruosas extravagâncias que viveram numa só terra ou época particular. Pertencem a todas as épocas e a todas as nacionalidades. S. Policarpo, natural da Ásia Menor, viveu no século segundo; S. Pio X foi um italiano e um Papa do século vinte. Os quatro homens que são chamados os Padres do ocidente, isto é, Santo Agostinho, S. Jerônimo, Santo Ambrósio e S. Gregório Magno, eram respectivamente da África do Norte, da Iugoslávia e da Itália, e viveram entre os séculos quarto e sexto. Santa Francisca Cabrini era uma freira italiana que fundou hospitais em Nova York e em Chicago. Houve mártires em Nagassaki, no Japão, e padres na Rússia, que foram declarados santos pela Igreja Católica.
O número dos que têm sido oficialmente intitulados “santos” é muito grande, na verdade. Uma lista oficial deles é dada no livro chamado o Martirologio Romano. Para mais de cinco mil registros se encontram nessa lista, muitos deles referindo-se a grupos. E o rol está sendo constantemente aumentado. Mas nem mesmo o Martirológio Romano é uma relação completa, e assim conclui: “E por toda parte muitos outros santos mártires, confessores e santas virgens”.

Sim, novos Santos
Isto, talvez, deveria ser esperado. A Igreja Católica está aparelhada para produzir santos, e o faz em qualquer lugar e em qualquer tempo em que trabalha. O que é talvez mais surpreendente é a enorme variedade de personalidades entre esses santos.
Reis e rainhas, sapateiros e agricultores, sacerdotes, bispos, freiras, soldados, juristas, professores, donas de casa e mulheres profissionais elevaram-se às alturas da santidade. Nenhuma classe tem o monopólio da santidade, embora talvez bispos e religiosos, por força da sua profissão, se tenham mais freqüentemente particularizado para declaração oficial de santidade.
Entre os intérminos exemplos de santidade humana que os santos oferecem, pode-nos ser proveitoso examinar três mais em minúcia. O que mais particularmente nos interessa não é o que eles realizaram, mas sim o que eles foram. Só assim podemos adquirir alguma intuição da bondade sobre-humana das suas vidas.
O primeiro foi um político, presidente da Câmara dos Comuns e finalmente Lorde alto Chanceler da Inglaterra. O seu nome era Thomas More, e o seu século foi o dezesseis, quando Henrique VIII reinava e não se preocupava com Deus nem com o homem, como o injusto juiz do Evangelho.

O jurista santo
Thomas More era um homem casado; de fato, casado duas vezes. Talvez que na sua escolha das esposas apareça uma pista para a sua santidade. Quando ele quis casar-se a primeira vez, sentiu-se atraído pela filha mais moça de John Colte. Seu genro disse o que aconteceu então:
“Conquanto ele se sentisse mais inclinado para a segunda filha, porque a pensava a mais bela e mais favorecida, contudo, quando considerou que seria de grande pesar e também de alguma vergonha para a mais velha o ver sua irmã mais moça preferida antes de si no casamento, então, com certa compaixão, dirigiu a sua fantasia para a mais velha”.
De fato, ele se sentiu inteiramente feliz no amor com Jane Colte, e viveu seis anos em suprema ventura.
Depois Jane morreu, deixando sem mãe quatro filhinhos. Por isto Thomas More, que era um santo muito prático, casou-se com uma viúva, Alice Middleton, que amava ternamente as crianças. Também ela tomou More em mão como se ele fosse uma das crianças, não admitia tolices, e habitualmente não lhe compreendia os gracejos.
Esse foi o golpe mais severo para More, que era conhecido em toda Inglaterra como o mais alegre e o mais espirituoso dos homens. Seu irmão Erasmo, um grande sábio da época, fez notar que ele sempre parecia estar rindo de alguma coisa, e que o seu semblante era mais bem ajustado para a alegria do que para a gravidade e dignidade.
Pois bem: abundância de dignidade veio a Thomas More. Ele veio a ser um destacado jurista. Subprefeito de Londres, alto administrador da Universidade de Cambridge, amigo pessoal do rei Henrique, que costumava visitá-lo quando precisava reanimar-se e finalmente atingiu o mais alto posto na sua terra, o de Chanceler do reino.
Depois veio a ser decapitado – o que era antes triste para um político, mas não de todo mau para um santo.
Isso sucedeu como segue. Henrique VVIII decidira desfazer-se de sua mulher Catarina de Aragão, mas não podia provar ao Papa que se casara invalidamente com ela. Por isto instaurou-se como o supremo chefe religioso da Igreja na Inglaterra e anulou o seu próprio casamento. Subseqüentemente, desposou mais cinco mulheres. Duas delas ele finalmente executou.
Para manter tudo limpo e legal, ele fez leis justificando a sua conduta, e exigiu que todas as pessoas importantes na vida pública assinassem um juramento aprovando-as. Thomas More, que era um jurista, estudou as leis e depois mostrou que elas eram ilegais e contrárias à lei de Deus.

Riu da morte
Ele foi acusado de traição e lançado na Torre de Londres para aguardar a execução. Muitos outros opositores de Henrique ali acabaram nos anos subsequentes. Porém More era diferente. Não se levantou nem denunciou Henrique pelos seus vícios, nem predisse toda sorte de coisas horríveis. Procurou desculpar o rei e rezava por ele. As privações da vida por ele. As privações da vida na prisão não o incomodavam muito; durante anos ele se adestrara na privação, embora sendo um homem muito rico. Não se irava contra ninguém; era vontade de Deus que ele morresse, e ele estava disposto a fazer tudo o que Deus quisesse – até mesmo ter a cabeça cortada.
De fato, ele parecia inteiramente alegre a esse respeito. A Torre de Londres era uma úmida cavidade de uma prisão, mas não podia abater a jovialidade de More. Finalmente levaram-no à execução, e puseram-lhe a cabeça no cepo para lha deceparem. Ele teve um brando remoque a dizer no cadafalso. Arrumou a barba de modo que o machado não a cortasse. A barba, dizia ele, crescera no cárcere e não podia ser acusada de traição. E então o mais santo e o mais alegre dos políticos ingleses morreu.
Jacinta Mariscotti foi justamente tudo o que More não era. Thomas More era um proeminente homem público; Jacinta foi e é quase desconhecida pelos católicos ou por quaisquer outros. More era um homem de jovialidade; Jacinta começou a vida procurando ter muita diversão, mas esta era coisa mui diferente de um honesto passatempo. More era um homem naturalmente bom; Jacinta era uma jovem travessa, com toda perspectiva de levar uma vida inútil e pecaminosa. Tom More é mesmo um nome que soa familiar; Jacinta Mariscotti é estranha e caprichosa.
Jacinta Mariscotti foi uma freira italiana do mesmo século que More. Foi justamente a espécie de pessoa que tantos não-católicos suspeitam que todas as freiras são – uma mulher chorosa, escondendo um coração partido por trás das paredes de um convento. Aos vinte anos de idade, apaixonou-se pelo Marquês Cassizucchi. O Marquês não era Thomas More; casou-se com a irmã mais moça dela. E Jacinta foi para um convento, por não poder suportar a vergonha e a mágoa. Então pôs-se a levar no convento uma vida tão cômoda como podia.
Depois de certo tempo adoeceu, e durante a doença pensou muito. Deus pusera-a num convento, e no entanto ela se desgostava muito de ali estar. Decidiu ser de todo coração o que tinha a pretensão de já ser – uma serva de Deus. Logo que pode, fez uma confissão pública dos seus pecados, acabou com os luxos que lhe fora permitido acumular no convento, jejuou a pão e água, e submeteu o seu corpo ao serviço do seu espírito por longas orações e mortificações. Recordando a vida dela anos depois, as pessoas se admiravam de que ela fosse fisicamente capaz de viver sob as privações que se impunha.
Quando se havia purificado suficientemente das atrações deste mundo, entrou naquela universo que só os santos têm conhecido. Há um reino de conhecimento muito além do mero conhecimento mental, no qual a alma entra em contato quase imediato com Deus. Ele está tão perto da espécie de conhecimento que os bem-aventurados gozam no céu como pode ser realizado nesta terra. Muitos santos viveram nesse contato direto com o divino; todos eles conheceram-no de algum modo. Mas para alguns, como Jacinta Mariscotti, esses êxtases e iluminações espirituais tornaram-se quase experiências diárias.

Caridade, Misericórdia
Ela também achou que lhe importava muito o que estava acontecendo aos seus próximos. Durante uma epidemia na sua cidade natal, trabalhou com heróica caridade para assistir os doentes. Isso lhe deu idéias. Ela organizou grupos de mulheres para visitarem os doentes e moribundos, e para lhes levarem auxílio em suas casas. Fundou uma casa para os velhos. Tornou-se o centro dos empreendimentos de caridade em Viterbo, na Itália.
Isso nunca lhe passou pela cabeça. Ela tornou-se grandemente respeitada por todos – exceto por si mesma. Reteve sempre um conhecimento do que tinha sido quando vivera a vida que era natural para ela. Sabia que era sustentada na sua bondade somente pela graça de Deus. E foi assim que se fez santa.
Finalmente, devemos olhar de novo para aquele notável homem, Vicente de Paulo. De certo modo, ele foi um santo que pareceu desenvolver-se sobre linhas naturais. Não há dúvida de que ele foi um gênio, e se elevaria às cumiadas em qualquer campo de iniciativa. Mas, por ter sido um santo, a sua realização foi muito além do gênio. É simplesmente fácil ver aonde o seu talento natural o levou, e compreender quando e como ele o ultrapassou.
Por exemplo, ele parece ter sido levado para vida sacerdotal por ter alguma inclinação natural para ela, e por ser ajudado por felizes oportunidades. Seu pai era agricultor, e o filho não era de molde diferente. Mas era vivo e esperto, e um amigo de seu pai que tinha dinheiro ofereceu-se para por o menino  na escola. Ele foi para a escola, onde veio a conhecer bons sacerdotes, e, como tantos meninos católicos, quis ser como os homens católicos, quis ser como os homens que ele admirava. Foi feliz em achar trabalho como tutor privado, e assim deu-se à vida de erudito. Foi ordenado sacerdote muito moço, e foi um clérigo decente e competente.

Obras da graça
Não havia nada de notável em tudo isso. Quem quer conhecesse Vicente naquele tempo poderia ter predito que ele continuaria sendo um bom e competente clérigo, e faria muito pela Igreja. Mas não poderia prever o que realmente aconteceu..
Ele tinha as suas faltas. A ambição, por exemplo, governava-o Não era uma ambição presunçosa, vã, mas uma ambição de solidez e de segurança. Ele queria uma boa posição, de modo que pudesse ajudar sua família, uma pontinha de dignidade – quiçá um bispado – de modo que pudesse ter autoridade para fazer o bem.
Era inerentemente um homem impetuoso, apto para tomar nas mãos os acontecimentos e fazer os seus próprios resultados. Quando um maroto defraudou-o de algum dinheiro e fugiu da cidade, Vicente alugou um cavalo e imediatamente partiu atrás dele. Ficou sem dinheiro no caminho, vendeu o cavalo, e finalmente alcançou o seu homem e fê-lo prestar contas.
Entenda-se, ele não era um tratante ou um infame. Era um homem perfeitamente bom, e, aparentemente, um homem comuníssimo. Mas pouco a pouco veio a oferecer cada vez menos resistência à inspiração de Deus que trabalhava nele. Estava diariamente em contato com todos aqueles meios de santificação que Cristo pusera na sua Igreja. Orava sinceramente, oferecia o Sacrifício da Missa, recebia a Eucaristia, ministrava aos homens levando-lhes os Sacramentos. E finalmente começou seriamente a ser santo.
É difícil por o dedo no dia e no acontecimento precisos. Alguns anos após a sua ordenação como sacerdote, ele foi capturado pelos piratas bárbaros numa viagem marítima, e passou dois anos como escravo no Norte da África, até conseguir operar a sua fuga. Essa sua experiência aumentou as suas simpatias pelos oprimidos, e desencantou-o um pouco das luzentes ambições mundanas que alimentara.
Contudo, quando voltou à Europa, teve em mente a sua carreira. Não o fez mal; como um homem ainda moço, principiou a elevar-se nas categorias menores do serviço diplomático papal, e depois veio a ser adido à corte da Rainha da França.
Em Paris, encontrou gente muito mais importante para o seu futuro do que o Rei e a  Rainha. Encontrou um grupo de sacerdotes cujo único objetivo na vida era perfeição de suas próprias vidas. Ele estava maduro para essas ambições espirituais; e seguiu a direção deles. Já agora sentia-se mais interessado em fazer  a vontade de Deus do que a sua própria.
Pôs-se completamente a cargo do Padre de Bérule, e achou-se designado para uma série de ocupações mais propriamente espantosas. Primeiramente foi, como pastor, para uma igreja de campo, tarefa para a qual parecia admiravelmente apto.
Depois foi tutor privado dos jovens filhos de Filipe Emanuel de Gondi, Comandante da Armada Francesa, tarefa para a qual absolutamente não era apto. Depois esteve como pastor no sul da França, porém alguns meses depois voltou ao serviço dos de Gondi.
Estava aprendendo a fazer o que Deus queria, e não o que ele mesmo queria. E finalmente aprendeu uma grande lição. Como capelão dos de Gondi, viajou muito, e pôs um olho na condição espiritual da gente que vivia nos Estados deles. Ele e a Senhora de Gondi vieram a se dar conta de que aquela não era uma condição muito saudável, de que alguém devia ir para o meio deles e ensinar-lhes a sua religião e estimulá-los a uma melhor pratica da mesma. Embora procurasse, a boa senhora não pode achar ninguém para fazer a obra. E, assim, inesperadamente o lugar de Vicente na vida veio a lume – ele fundou uma associação de padres para pregarem à pobre gente do campo.

Para ajudar os pobres
Por esse tempo era ele um homem largamente viajado e experimentado, e o que viu da condição da França espantou-o. Os católicos franceses eram grandemente ignorantes, a nobreza corrupta, os padres negligentes nos seus deveres, e às vezes também ignorantes de quais eram os seus deveres ou de como cumpri-los. A França tinha de ser reformada, e ele conheceu que devia ajudar nisso.
Isto era em 1625, quando ele tinha pelo menos quarenta e cinco anos de idade. Mais da metade da sua vida se passara até que ele achasse a sua obra. Mas tinha sido uma metade de vida passada em achar-se a si mesmo e em descobrir que a sua força não residia nos seus próprios esforços, mas simplesmente na graça de Deus.
Anos mais tarde ele devia postar-se diante dos seus sacerdotes e admitir com completo espanto não saber como a obra que realizara tinha vindo a termo. Ele não a planejara nem lhe forçara o êxito, arrostara as crises como elas ocorriam e confiara em Deus para vê-las passar. O que tinha sido feito viera a termo mediante a graça de Deus, e não mediante os seus próprios esforços.
O que Deus fez por meio dele é quase incrível. Nenhum dos seus biógrafos descreve ano por ano o que ele fez de 1625 em diante. A vida dele foi demasiado complicada para isso.
A sua comunidade de sacerdotes, de dois companheiros que periodicamente punham por debaixo da porta a chave da sua casa emprestada e iam pregar missões, cresceu até ser um exército de sacerdotes trabalhando por toda a França e Polônia, em Roma, Madagascar e Escócia. Ele iniciara um movimento para a educação do clero, o qual dura até hoje.

Irmãs de Caridade
Nesse ínterim, os pobres da França tinham vindo a esperar por Vicente de Paulo para toda espécie totalmente nova de sociedade religiosa para mulheres, as Irmãs de Caridade, e viu-se crescer incrivelmente. Hoje há para mais de vinte mil delas no mundo inteiro.
Ele tinha organizações de mulheres leigas, como as Senhoras de Caridade, as quais assistiam os pobres e os doentes, e (já que muitas delas eram ricas) contribuíam liberalmente. Os fundos que ele levantou aí e noutras partes deram para uma vasta formação de serviços sociais.
Ele tinha orfanatos para crianças que eram abandonadas por pais desalmados, casas de penitência para mulheres decaídas, asilos para os pobres (só um deles ajudava quarenta mil pessoas). Quando a guerra civil irrompeu, ele levantou enormes somas de dinheiro, publicou um jornal, distribuiu alimento aos que eram deixados na necessidade, comprou sementes para os agricultores. Teve até uma organização especial para a nobreza da Lorena que empobrecera por causa da guerra e do exílio.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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