Maria Santíssima no Corão e no Islamismo – EB

mariaEm síntese: Maomé conheceu os escritos bíblicos assim como tradições judaicas e cristãs. Ao redigir o Corão, deixou transparecer grande estima por Maria SS., à qual dedicou o capítulo (Sura) 19, versos 16-34 do seu livro, além de fazer várias outras referências a Maria SS. O “profeta” dá testemunho da virgindade de Maria, Mãe de Jesus, e propõe traços biográficos da mesma que, em parte, são fantasiosos.

Os muçulmanos veneram Maria e visitam alguns santuários marianos, entre os quais o de Éfeso, onde se encontra a Meryem Ana ou a casa tida como residência de Maria SS. após a Ascensão do Senhor, quando ficou em companhia de São João.

O islã, religião fundada por Maomé em 622 d.C., recolheu tradições judaicas e cristãs, que ele fundiu com noções religiosas dos árabes da península arábica. Dentre essas tradições, têm especial significado, para os cristãos, as que se referem a Maria SS. – Maomé conheceu a Bíblia do Antigo e do Novo Testamento, além de lendas judaicas concernentes aos Patriarcas e Evangelhos apócrifos dos cristãos; deu a esses documentos um sentido novo, decorrente do fato de que não aceitava Jesus como Deus feito homem, mas apenas como profeta.

Compreende-se que Maomé tenha conhecido algo do Cristianismo, pois era sobrinho do bispo nestoriano Waraga B. Nawfal e teve, como tutor, o monge Ab-Buhira. Além disto, Maomé viveu numa época em que os cristãos bizantinos atribuíam grande ênfase ao culto de Maria SS.; em suas viagens terá contemplado, muitas vezes estátuas, pinturas ou mosaicos de Maria SS. Na própria Caaba (santuário muçulmano principal em Meca) existe uma imagem colorida de Maria SS. com o menino Jesus.

Estes dados explicam as frequentes e reverentes alusões de Maomé a Maria Santíssima, que podem ser sintetizadas como a seguir, ficando claro que envolvem, ao lado de traços históricos verdadeiros, notícias lendárias. Como quer que seja, o que importa é observar a estima que Maomé alimentava para com Maria SS. e que ele transmitiu aos seus seguidores.

A Figura de Maria

É principalmente o capítulo (Sura) 19 do Corão, versículos 16 a 34, que exalta Maria SS. Este e outros textos do Livro islâmico propõem a seguinte figura de Maria SS.:

Terá sido filha de um judeu chamado Imran. A sua mãe e terá consagrado a Deus antes mesmo que nascesse. Maria é chamada “irmã” de Aarão” em virtude de uma confusão com outra Maria de que fala o livro dos Números 12, 1. O sacerdote Zacarias, diz o Corão, a tomou sob a sua tutela espiritual e ajudou-a a crescer como uma “planta viçosa”. Por ordem de Deus, o arcanjo Gabriel anunciou-lhe que ela traria em seu seio um puro e santo menino. Ela o deu à luz debaixo de uma palmeira, que milagrosamente ofereceu seus frutos a Maria. Esta se conservou sempre virgem; ao nome de Maria se segue muitas vezes no Corão a observação: “Ela conservou a virgindade”. Deus soprou em seus ouvidos o Espírito Divino, fazendo de Maria e de seu Filho “um sinal para todas as criaturas”. Foi difamada pelos judeus, mas seu Filho recém-nascido a defendeu, falando a partir do seu berço. Deus ofereceu a Maria e a seu Filho um refúgio tranquilo numa colina alta e irrigada. Em suma, de acordo com o Corão, Maria foi uma santa e devota mulher, chamada, purificada e escolhida por Deus mais do que todas as outras mulheres. Por isto Maria é tida como exemplo de fé e submissão à vontade de Deus, a ser imitada por todos os muçulmanos (é de lembrar que Islã significa submissão a Deus). Todavia, para os maometanos, nem Maria nem algum homem reto é perfeito modelo; este título convém exclusivamente a Maomé.

É de notar ainda que Maria é mencionada trinta e quatro vezes no Corão, sendo a única mulher designada por seu nome pessoal. Outras mulheres, como Khadija, Aisha e Fátima são indicadas por algum título seu ou pelo relacionamento que tiveram com Maomé.

Mais: entre os semitas, que são também os árabes, as crianças são designadas como filhas de seu pai, e não de sua mãe. Todavia os maometanos chamam Jesus “o filho de Maria” – o que exprime a estima que consagram a Maria SS. O próprio capítulo  19 do Corão tem por título “Maria” e é considerado como um dos mais comoventes capítulos do Livro.

No Corão Maria é apresentada, por vezes, em termos semelhantes aos que designam o “Profeta”. Tanto Maria como Maomé são tidos como pranchas virginais sobre as quais Deus escreveu a sua Palavra (Kalima, em árabe); Maria é dita “a Mãe da Palavra”. Tanto Maria como Maomé receberam a visita do arcanjo Gabriel, que lhes insuflou o Santo Espírito ou a Palavra de Deus. Esta Palavra tornou-se em Maria uma criança, e em Maomé um livro. Em consequência, dizem alguns comentadores, o Corão representa Jesus sob a forma de livro, e Jesus representa o Corão sob a figura de um homem.

O apreço devotado pelo Corão a Maria SS. explica que no Médio Oriente os muçulmanos, principalmente as mulheres, visitem santuários marianos, a fim de venerar a Virgem Maria e pedir a sua assistência. É o que se dá com especial interesse em Éfeso, onde se encontra a casa tida como residência de Maria, hoje chamada em língua turca Meryem Ana; lá vão rezar grupos de estudantes, militares e famílias muçulmanos. Foi o que motivou as palavras de Pio XII dirigidas a Mons. Descuffi, Arcebispo de Esmirna, em 22/7/1957:

“Meryem Ana é um centro de culto mariano único no mundo, onde os fiéis cristãos e muçulmanos de todos os ritos e de todas as nações se podem encontrar para venerar a Mãe de Jesus e confirmar a veracidade destas palavras proféticas: “Todas as gerações me chamarão bem-aventurada”.

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 415 – Ano 1996 – p. 572

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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