Mantra na espiritualidade Cristã – Parte 2

Para se fazer o diálogo de igual para igual, ou se degrada
Jesus Cristo calando a sua divindade, ou se exaltam os fundadores de outras
religiões, fazendo deles a quase encarnação de Deus, mediadores e salvadores,
equiparados a Jesus Cristo.

Um Espírito vagante

Para sustentar estas teorias, algumas vezes é usada também a
teologia do Espírito.  Alguns teólogos asiásticos insistem sobre a obra
universal do Espírito, fora do âmbito da Igreja.  Alguns relacionam-na com
a universalidade do ministério do Cristo-Logos, que está presente e opera em
toda parte graças ao Espírito.  Outros tendem a separar a atividade do
Espírito de Cristo.  Ambas as correntes vêem contudo, no Espírito
universalmente presente e operante, outra razão para afirmar o valor salvífico
das diversas religiões independentemente de Cristo.

Um Reino amorfo

Em paralelo e em estreita ligação com as teorias expostas,
inclusivistas ou pluralistas, é enfatizado o Reino. Afirma-se que o universal
desígnio divino de salvação consiste na promoção do Reino, deslocando o centro
da Igreja para o Reino.  O Reino torna-se assim como o “novo ponto
local”  da evangelização.

E então que é este “Reino”, sem, com freqüência,
nem sequer lhe acrescentar “de Deus” ?  Ele compreenderia todas
as religiões, as quais são chamadas a construi-lo num diálogo recíproco,
identificar-se-ia com a “nova humanidade”, que uniria todos os homens
em comunidade de amor, justiça e paz; seria o “bem-estar da
humanidade”, a “libertação humana”.  O Reino tende, portanto,
a ser concebido como uma “utopia”, uma “coisa”.

Assim, constrói-se o “reino centrismo”, para o
contrapor ao “eclesiocentrismo” da “plantatio Eclesiae” que
é comumente delcarado superado e falso.  Por exemplo, escreve-se “A
missão primária da Igreja é a construção do Reino, e o diálogo com as outras
religiões e o meio para este objetivo.  A Igreja não é chamada a
construir-se a si mesma, mas a servir … é chamada também a morrer para que o
mundo possa viver”.

O que é completamente ignorado por estes teólogos, é o fato
de que Jesus não só anunciou o Reino, mas se proclamou Rei no qual o Reino de
Deus se torna presente.  Jesus Cristo, com o seu mistério pascal, dá o
significado mais profundo e específico ao Reino, sem Ele “falar do reino é
simplesmente uma ideologia”, como observou L. Newbigin.

Consequências sobre a
missão

Elas são simplesmente devastadoras.  A finalidade da
evangelização é desviada e reduzida, a necessidade da fé em Jesus Cristo, do
batismo e da Igreja, é posta em dúvida.  “Neste contexto do
pluralismo religioso – exclama um teólogo indiano – ainda tem sentido proclamar
Cristo como o único Nome em que todos os homens encontram a salvação a chamar a
fazerem-se discípulos mediante o batismo e a entrar na Igreja”?

A evangelização no sentido global, em que o “novo ponto
focal” é a construção do Reino, ou seja, da nova humanidade, consistiria
só no diálogo, na inculturação e na libertação. Estranha mas
significativamente, é omitido o anúncio ou proclamação; antes, ela é classificada
como propaganda ou proselitismo.  A evangelização é reduzida ao diálogo de
tipo social ou à promoção econômico-social e à “libertação” das raças
com todos os meios, incluída a violência.  Sobre a conversão, um teólogo
indiano escreve: “A conversão religiosa é o resultado do jacobinismo
ocidental e da sua intolerância … A conversão nasce do sentido de
superioridade de uma religião a respeito de outra, enquanto nenhuma religião
tem o monopólio da verdade”.

 

O abandono das estações missionárias, das pregações do
Evangelho e da catequese, por parte dos missionários, do clero, das religiosas,
e a fuga para obras sociais, como também o contínuo falar em sentido redutivo
dos “valores do Reino” (justiça, paz) é um fenômeno difundido na Ásia
e propagandado por alguns centros missionários, também noutros continentes.

O valor de
“Redemptoris Missio”

Sobre este quadro ambiental, a recente Encíclica do Santo
Padre, “Redemptoris Missio”, mostra-se não só tempestiva, mas até
mesmo providencial.  Quem considerou os três primeiros capítulos abstratos
e repetitivos da doutrina bem conhecida, deverá mudar de opinião.  Eles
parecem extremamente necessários para reafirmar a fé da Igreja nas verdades
postas em perigo pelas teorias aqui esboçadas.

E é já uma enorme ajuda para quem quer seguir a voz do
Papa.  Contudo, a problemática já tem tal amplitude e as teorias expostas
difundem-se com tanta rapidez, que a Santa Sé não pode ficar passiva. 
Eles criam um grave perigo para a fé em Jesus Cristo, tal como é professada pela Igreja
todos os domingos e dias de festa no “Credo”, e como é ensinada no
Concílio de Calcedônia; além disso, no campo prático produzem o efeito de
enfraquecer o espírito missionário, de reduzir a evangelização apenas ao
desenvolvimento e ao diálogo, com o abandono do anúncio, da catequese e,
logicamente, das conversões e dos batizados.  Elas confirmam fortemente as
bases e a justificação de dois fenômenos denunciados na Encíclica
“Redemptoris Missio”: “a mentalidade do indiferentismo, hoje muito
difundida” e “um relativismo religioso, que leva a pensar que
“tanto vale uma religião como a outra” (n. 36)

Se a Índia é o epicentro destas tendências, e a Ásia o campo
principal, tais idéias já circulam na Oceânia, nalguns países da África e na
Europa.  A missão é, pois, insidiada duplamente: na atividade direta de
evangelização nos territórios missionários e no influxo negativo sobre as
vocações missionárias nas Igrejas de antiga cristandade.

Põe-se, portanto, com toda a seriedade, o quesito: que se há
de fazer para que a Palavra de Deus sobre a salvação, que nos é dada unicamente
em Cristo, seja anunciada na sua pureza: “Ut verbum Dei currat et
clarificetur”?

Refletindo …

1. O Cardeal Tomko aponta para uma nova teoria oriunda de
ambientes teológicos da Índia e de outros países, teoria segundo a qual se
deveria distinguir entre o Cristo Logos cósmico e o Jesus histórico:

– o primeiro seria o próprio Deus, que se estaria
manifestando em todas as religiões, de modo que todas estariam voltadas para o
mesmo Deus.

– o segundo, o Jesus da história, seria uma faceta do Cristo
Lógos cósmico, aquele que se manifestou no Cristianismo, teria outras facetas
paralelas e equivalentes, de sorte que se deveriam equiparar entre si Jesus
Cristo, Buda, Maomé, Confúcio …  As religiões seriam caminhos
equivalentes entre si dirigidos para o mesmo Deus.

 

Em conseqüência, o objetivo da missão dos católicos não
seria reunir todos os povos na Igreja fundada por Jesus Cristo, e entregue a
Pedro e seus sucessores, mas seria congregar todos os homens, de qualquer
religião, no Reino (de Deus), o Reino se caracterizaria não por determinada
crença religiosa, mas por amor, justiça, paz, bem estar da humanidade,
libertação dos homens … O zelo missionário, que procura anunciar a fé
católica a todos os homens e batizá-los em nome do Pai, do Filho e do Espírito
Santo (cf. Mt 28, 18-20), seria condenável como proselitismo e intolerância, a
evangelização se reduziria à promoção econômico-social e à libertação das
raças, coisas estas que todos os homens aceitam independentemente de suas
crenças religiosas.

 

2. Ora a propósito impõem-se algumas considerações:

a) É ilógico ou irracional dizer que todas as crenças
religiosas são equivalentes entre si, pois elas propõem Credos diferentes, que
se excluem mutuamente no plano da lógica ou da própria razão.  Com efeito;
as religiões professam ou o politeísmo (haveria muitos deuses) ou o panteísmo
(tudo seria Deus) ou o monoteísmo (há um só Deus transcendental, Criador do
mundo e do homem a partir do nada).  Ora politeísmo é ilógico, porque
multiplica o Absoluto e o Infinito (Deus); o panteísmo também é irracional,
porque identifica o Absoluto com o relativo, o Eterno com o temporal, o
Necessário com o contigente.  Por conseguinte, só resta uma forma de
religião lógica (aos olhos da razão mesma), que é o monoteísmo, este se
encontra na linha judeu-cristã-muçulmana (o judaísmo é a preparação para o
Messias Jesus Cristo, ao passo que o islamismo é a fusão de judaísmo e
Cristianismo com elementos da religião árabe antiga, marcada por tendências
nacionalistas, como são as da guerra de conquista ou guerra santa).

b) O Reino de Deus não é a realização meramente natural ou
sócio-econômica dos homens.  Isto seria muito pouco para quem experimenta
a sede do Infinito. É, sim, o encontro com Deus face-à-face à luz da Verdade
Única que é Deus revelado por Jesus Cristo.  O Reino de Deus não é
meramente secular, temporal, mas é religioso e transcendental, supõe a pregação
religiosa de Jesus Cristo, que não se confunde com a de Buda, Maomé, Confúcio

c) A Igreja é o sacramento do Reino ou é o Reino de Deus
iniciado na terra, mas ainda velado pelo claro-escuro da fé e pelos sinais que
transmitem a graça e a vida definitiva por entre as penumbras desta
peregrinação.  A Igreja de Cristo (confiada a Pedro e seus sucessores) é o
caminho objetivamente obrigatório a todos os homens para chegarem à plenitude
do Reino; cf. Constituição Lumen Gentium nº 14; Decreto Ad. Gentes nº 7.

d) Fora da Igreja Católica, há sementes de verdade e de bem,
que devem ser estimadas, mas que ainda são gérmens destinados a desabrochar
plenamente.  A pregação missionária tem por objetivo precisamente
catalisar o desabrochamento dessas sementes de verdade e bem esparsas fora do
Catolicismo, e fazer que todos os homens cheguem ao conhecimento da Verdade
revelada por Jesus Cristo e fielmente conservada na sua Igreja (cf. 1Tm 2.4; Mt
16, 16-19; Lc 22, 3ts; Jo 21, 15-17).

e) Deve-se reconhecer que há muitas pessoas de boa fé a
professar o panteísmo, o politeísmo ou crenças religiosas não católicas. 
Estas pessoas, na medida em que são candidamente fiéis ao que julgam ser a
Verdade e o Bem, chegarão ao único Deus revelado por Jesus Cristo; cf. Constituição
Lumen Gentium nº 16.  Deus não há de lhes pedir contas daquilo que não
lhes tiver revelado.  Esses fiéis pertencem invisivelmente à Igreja de
Cristo, ao passo que outros lhe pertencem visivelmente; salvar-se-ão mediante
Jesus Cristo e a Igreja, embora professem a fé islâmica, budista ou outra, pois
na verdade há um só Salvador dos homens; Jesus Cristo, que exerce a sua obra
redentora através dos séculos mediante o sacramento da sua Igreja confiada a
Pedro e seus sucessores.

f) Vê-se que não há como distinguir realmente entre o Logos
cósmico e Jesus Cristo (o Jesus da história).  O Lógos cósmico é a segunda
Pessoa da SS. Trindade, que se fez homem no seio de Maria Virgem, e, como
homem, tomou o nome de Jesus.  A pregação de Jesus é a do Lógos. 
Este, porém, não se ocultou aos povos não cristãos, pois fala a todo homem
mediante a revelação natural, isto é:

– pelo testemunho das criaturas ou do cosmos, que apontam
para o Criador, e

–  pelo testemunho da consciência moral, inata em
todo homem, a dizer:

“Pratica o bem e evita o mal”.

Não
há contradição entre a revelação natural e a revelação bíblica, mas há
gradação; a revelação bíblica leva muito além os dados que a revelação natural
comunica aos homens, o mistério de Deus Uno e Trino, a Encarnação Redentora do
Logos, a elevação dos homens à filiação divina… São proposições que
explicitam e desenvolvem a revelação natural.  É na revelação natural,
feita a todos os homens, e não nos Credos religiosos existentes fora do
Catolicismo, que se deve procurar a base comum na qual todos os homens se
encontram.  Todos os Credos religiosos – dos quais um só é inteiramente
verdadeiro – têm a mesma base comum, que é a religiosidade natural decorrente
da revelação natural de Deus aos homens.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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