Luzes permanentemente acesas

Uma das grandes riquezas que encontrei na Arquidiocese de Salvador foi a presença de ordens e congregações contemplativas, tanto masculinas como femininas. Os religiosos e as religiosas contemplativos dedicam sua vida totalmente a Deus – isto é, voltam-se à oração e ao trabalho, ao silêncio e à contemplação, para testemunhar que Deus preenche suas vidas. Em suas orações, eles têm presente toda a humanidade. Por isso, seus mosteiros são, em nosso mundo, luzes permanentemente acesas, lembrando-nos o primado de Deus.

Dia 11 de julho, festa de S. Bento, visitei o Mosteiro do Salvador, onde moram as Irmãs Beneditinas. Sua comunidade contemplativa tem uma particularidade: acolhem em sua creche, diariamente, 50 crianças necessitadas (poderiam acolher duzentas, se houvessem recursos financeiros para isso) e duzentas adolescentes, filhas de famílias pobres. É sempre assim: quem abre seu coração para Deus, sente necessidade de acolhê-Lo na pessoa de cada um dos que precisam de atenção e ajuda.

Para incentivá-las, recordei que S. Bento (480 – 547), seu Pai espiritual, além de ser considerado o fundador da vida monástica ocidental, exerceu uma influência fundamental sobre a civilização e a cultura europeias. Uma de suas grandes preocupações foi a de “nada antepor à obra de Deus”. Em vista disso, deixou a vida de estudante em Paris e foi para Subiaco, uma região montanhosa perto de Roma. Ali, para que Deus fosse realmente o centro de seu coração, procurou superar “as três tentações fundamentais de cada ser humano: a tentação da autossuficiência e do desejo de se colocar no centro; a tentação da sensualidade; e, por fim, a da ira e da vingança”. Trata-se, pois, de um santo que, tendo vivido quase mil e quinhentos anos atrás, é de uma atualidade impressionante. Afinal, vivemos em uma época em que o “eu” é supervalorizado. Basta entrarmos em qualquer livraria para nos depararmos com uma quantidade imensa de livros de autoajuda fácil e egocêntrica – livros que procuram nos convencer de que somos muito mais importantes e melhores do que imaginávamos; tanto assim, que nem precisamos mais de Deus.

Bento era, também, um homem prudente. Graças a essa virtude, uma pessoa tem sempre diante de si os objetivos de sua vida, e procura agir para alcançá-los. Não é fácil ser prudente; muitos, procurando viver essa virtude, tornam-se covardes, pois têm medo de agir. Na verdade, têm medo é do risco, do fracasso. A pessoa prudente procura escutar Deus e apoia-se em sua Palavra, a fim de discernir o que é melhor. O prudente sabe, também, escutar os outros porque, como ensinava São Bento, “muitas vezes Deus revela ao mais jovem a solução melhor”.

O Mosteiro do Salvador e outros mosteiros contemplativos na Igreja dão “visibilidade à fé como força de vida” (Bento XVI). Eles são uma permanente lembrança da necessidade que temos de buscar incessantemente a Deus – nosso Deus que nada nos tira, ao contrário: dando-nos Seu Filho Jesus Cristo, nos possibilita viver o humanismo verdadeiro.

N.B.: Várias pessoas têm-me perguntado qual a diferença entre os títulos “Arcebispo de São Salvador da Bahia” e “Arcebispo de Salvador”. Dou uma explicação neste espaço, já que ela pode interessar a outros: 1º) Quando foi criada a primeira Diocese no Brasil (1551), seu nome oficial era “Diocese de São Salvador da Bahia”. Para a Santa Sé, esse continua sendo o nome oficial, naturalmente com a mudança que ocorreu em 1676, quando a Diocese foi elevada à Arquidiocese: “Arquidiocese de São Salvador da Bahia”. 2º) Quando se trata do título do Arcebispo, pode-se dizer: “Arcebispo de São Salvador da Bahia” ou, simplesmente, “Arcebispo de Salvador” (Estaria errado dizer: “Arcebispo de Salvador da Bahia” ou “Arcebispo de São Salvador”). 3º) De minha parte, uso tanto o título oficial – “Arcebispo de São Salvador da Bahia”, especialmente quando acompanhado do título “Primaz do Brasil”,  que lembra o fato de ser Arcebispo daquela que foi a primeira diocese (e também a primeira Arquidiocese) do país -, como o título mais resumido: “Arcebispo de Salvador”.

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Dom Murilo S.R. Krieger, scj
Arcebispo de Salvador – BA

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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