Luigi Lilio: o inventor do calendário

Livro conta a história de um homem tão brilhante quanto desconhecido

ROMA, segunda-feira, 9 de janeiro de 2012 (ZENIT.org) – Contamos os dias e os anos do calendário de acordo com a reforma que ele projetou. Foi médico, astrônomo e matemático de grande genialidade. O papa Gregório XIII, cardeais e cientistas lhe agradeceram publicamente. Uma cratera na Lua e um asteróide têm o seu nome. O rosto e a figura de seu irmão estão gravados em baixo-relevo na Basílica de São Pedro, mas seu nome e suas obras são desconhecidos para a maioria.

Estamos falando de Luigi Lilio, nascido em Cirò, na província italiana de Crotone, em 1510. É ele o brilhante idealizador da reforma do calendário gregoriano.

Para conhecer a história, os eventos, os méritos de Luigi Lilio, o historiador Egidio Mezzi e o pesquisador Francesco Vizza escreveramLuigi Lilio, médico, astrônomo e matemático de Cirò: idealizador da reforma do calendário gregoriano.

O calendário, assim como o conhecimento e a técnica para calcular as horas, os dias, as semanas, meses e anos, compõe uma busca que percorre toda a história da humanidade. De olho no céu, o homem tentou medir e calcular os movimentos da lua e das estrelas, para definir com precisão a seqüência de variações sazonais.

Ter um calendário o mais exato possível era de total importância para regular as atividades humanas e prever as da natureza. Para a Igreja católica, o calendário assumiu um significado maior quando foi preciso calcular o dia exato da Páscoa.

Em 325 d.C., o primeiro Concílio de Niceia discutiu o atraso do calendário para determinar essa festa, que, na tradição e para evitar a sobreposição com outras festas, foi fixada no equinócio da primavera, em 21 de março. Mas o calendário juliano estava sempre atrasado e a Páscoa acontecia mais tarde.

Para restaurar o cálculo adequado, a reforma do calendário foi discutida também no Concílio de Constança (1414-1418), no de Basileia e no de Latrão (1512-1517). O papa Leão X estabeleceu um comitê, que não chegou a nenhuma conclusão. Vários papas ainda tentaram o mesmo, sem sucesso: Eleutério, Vítor I, João I, Clemente IV, Clemente VI, Sisto IV.

No Concílio de Trento (1545-1563), decidiu-se novamente remeter a questão ao papa. Gregório XIII instituiu então uma comissão, em 1572, cujos trabalhos foram concluídos em 1580.

Em 1582, com a bula papal “Inter gravissimas”, Gregório XIII finalmente decretou a utilização do calendário que ainda hoje está em vigor na maioria dos países.

É um calendário solar, baseado no ciclo das estações. O ano é composto por 12 meses de durações diferentes (28 a 31 dias), num total de 365 ou 366 dias. Os anos de 366 dias são chamados de bissextos: um ano bissexto a cada quatro anos, com algumas exceções: 2200 não será bissexto, mas serão bissextos os anos de 2400 e 2800.

Quanto ao problema do deslocamento do equinócio da primavera devido ao calendário juliano, Lilio propôs eliminar 10 dias para solucioná-lo. Foi o jesuíta alemão Cristóvão Clavius ??que, com base na proposta de Lilio, sugeriu que se pulasse do dia 4 para o dia 15 de outubro em 1582.

O livro de Mezzi e Vizza faz uma pesquisa cuidadosa sobre o contexto cultural, científico e histórico daqueles anos. Narra, por exemplo, as boas relações que se desenvolveram entre destacados humanistas, cientistas e cardeais.

A partir deste levantamento, fica mais claro que Luigi Lilio foi o verdadeiro inventor da reforma do calendário gregoriano.

Em 1582, o famoso jesuíta Cristóvão Clavius, matemático e astrônomo, membro da comissão instituída por Gregório XIII para estudar a reforma do calendário, escreveu sobre Lilio: “Oxalá estivesse ainda vivo Aloysius Lilius Hypsichronaeus [Luigi Lilio, na versão latinizada de seu nome], homem mais do que digno de imortalidade, que foi o autor principal de uma correção tão importante e que se destacou pelas coisas que descobriu”.

Luigi não viveu para ver as suas reformas aprovadas pelo papa, e muito menos para vê-las publicadas. Quem levou em frente o seu projeto foi seu irmão mais novo, Antonio, cuja imagem também está esculpida em baixo-relevo no mausoléu de Gregório XIII, na Basílica Vaticana, onde, de joelhos, ele oferece ao papa o livro do novo calendário.

É também Antonio Lilio quem se encontra entre os nove membros da comissão pontifícia criada para realizar o trabalho. Antonio Lilio era o único membro leigo da Comissão.

Mas o trabalho de Luigi Lilio foi tão importante para calcular e determinar a precisão do calendário que o papa Gregório XIII escreveu em 3 de abril de 1582: “Queremos favorecer com graça especial o mesmo Antonio, dando-lhe o mérito de grandes e laboriosos estudos voltados a examinar e compilar a reforma idealizada por seu irmão Luigi”.

Para agradecer o trabalho de Luigi Lilio, o papa concedeu a Antonio o direito exclusivo de publicar o calendário reformado, durante um período de dez anos.

Apesar das vicissitudes que ocasionaram a perda de vista da contribuição de Luigi, seu trabalho era conhecido em seu tempo. Tanto que, em 1651, o astrônomo Giovanni Battista Riccioli, co-autor de um antigo mapa lunar com o padre jesuíta Francesco Grimaldi, deu a uma cratera da Lua o nome de Luigi Lilio.

O nome de Lilio também foi dado ao asteróide 2346 do cinturão principal, descoberto por Karl Wilhelm Reinmuth. E há pelo menos cinco retratos que nos revelam os traços de Luigi Lilio.

Na conclusão do volume, Egidio Mezzi e Francesco Vizza escreveram que “depois de séculos, Lilio foi o único a conseguir elaborar um calendário que, considerando os vários movimentos do planeta, recriou com a melhor aproximação possível o número de dias que reproduzem a inclinação exata do eixo da Terra em referência ao sol”.

“A Igreja e a comunidade científica têm a tarefa de honrá-lo como ele merece, para que o seu nome escape do esquecimento e sobreviva no grande livro da ciência”.

Antonio Gaspari

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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