Liturgia e Música Sacra- Parte 2

objetos-liturgicosPonto de partida e norma para uma correta união de liturgia e música

Abstenho-me de aprofundar interiormente estes problemas; devemos concentrar-nos para encontrar o ponto de partida e a norma para uma correta união de liturgia e música. De fato, mesmo deste ponto de vista, é de grande alcance a constatação de que o verdadeiro sujeito da liturgia é a Igreja e, mais precisamente, a communio sanctorum de todos os lugares e de todos os tempos. Resulta daí, não só — como Guardini no seu escrito juvenil «Liturgische Bildung» mostrou de modo particularizado — a indisponibilidade da liturgia em relação ao arbítrio do grupo e do indivíduo (mesmo do clero e dos especialistas), em suma, aquilo que Guardini chamava a sua objetividade e a sua positividade.

Resultam daí sobretudo também as três dimensões ontológicas em que ela vive: o cosmos, a história e o mistério. A referência à história compreende um desenvolvimento, isto é, a pertença a algo de vital, que tem um início, o qual continua a operar, permanece presente sem estar concluído, e vive na medida em que se desenvolve interiormente. Algo se atrofia, algo é esquecido e regressa depois sob nova forma, sempre, porém, o desenvolvimento significa participação num início aberto para a frente. Com isto já tocámos uma segunda categoria que, posta em relação com o cosmos, adquire a sua importância específica: a liturgia compreendida desse modo vive na forma fundamental da participação.

Ninguém é o seu primeiro e único criador, para cada um ela é participação numa realidade mais ampla, que o supera, mas cada um é igualmente também um «ator», precisamente porque é receptor. A referência ao mistério, enfim, significa que o início do acontecimento litúrgico nunca está em nós próprios. É resposta a uma iniciativa do alto e a um ato de amor que é mistério. Os problemas existem para ser esclarecidos; o mistério, pelo contrário, não se desvela à clarificação mas somente quando é aceite no Sim que, à luz da Bíblia, podemos tranquilamente chamar obediência, ainda hoje.

Dimensões ontológicas da liturgia:o cosmos, a história e o mistério

Assim chegamos a um ponto de grande importância pela ligação com o fator artístico. A liturgia de grupo, de facto, não é cósmica, precisamente porque vive da autonomia do grupo. Não tem história, mas é caraterizada precisamente pela emancipação da história e pelo fazer por si mesmo, muito embora se trabalhe com cenários históricos.

Não conhece tão-pouco o mistério, porque nela tudo é esclarecido e deve ser esclarecido. Por isso, o desenvolvimento e a participação lhe são tão estranhos quanto a obediência.

Em lugar de tudo isto, coloca-se agora a criatividade em que a autonomia do emancipado tenta mesmo confirmar-se. Uma tal criatividade que quereria ser a atuação de autonomia e emancipação, precisamente por isso contrasta nitidamente com qualquer participação. Os seus sinais distintivos são o arbítrio como forma necessária de recusa de toda a forma ou norma existente: a irrepetibilidade, porque a repetição seria já dependência; a artificialidade, porque deve tratar-se realmente de pura criação do homem. Assim, porém, torna-se manifesto que a criatividade humana, que não quer ser, nem receber, nem participar, na sua essência é absurda e falsa, porque o homem unicamente recebendo e participando pode ser ele mesmo. Tal criatividade é fuga à condição humana e, por isso, falsidade. Por este motivo inicia a decadência da cultura quando, com a perda da fé em Deus, deve ser contestada também uma racionalidade que nos precede e é inerente ao ser.

Resumindo: erros de determinada concepção de liturgia Resumamos quanto até agora adquirimos, para poder depois tirar as consequências para o ponto de partida e para a forma fundamental da música própria da Igreja. Viu-se que o primado do grupo vem de uma compreensão da Igreja como instituição, baseada numa ideia de liberdade que não se presta a ser relacionada com a ideia e com a realidade da instituição e que já não está em condições de perceber a dimensão do mistério na realidade da Igreja. A liberdade é compreendida a partir das ideias mestras de autonomia e de emancipação. E concretiza-se na ideia da criatividade, que, neste pano de fundo, se coloca em contraste com aquela objetividade e positividade que são essenciais à liturgia eclesial. O grupo deve todas as vezes inventar-se ex novo, somente então é livre. Vimos também que a liturgia que merece este nome é radicalmente oposta a isto. Ela é contra o arbítrio a-histórico, que não conhece nenhum desenvolvimento, caminhando por isso no vazio; é contra uma irrepetibilidade que também é exclusivismo e perda de comunicação para além de cada agrupamento; não é contra a tecnologia, mas sim contra a artificiosidade em que o homem cria o seu contra-mundo, perdendo da vista e do coração a criação de Deus. Os contrastes são claros; no seu ponto de partida também é clara a motivação intrínseca do modo de pensar do grupo, ditado por uma ideia de liberdade compreendida de modo autonomístico. Agora, porém, devemos interrogar-nos positivamente acerca da concepção antropológica em que se baseia a liturgia no sentido da fé da Igreja.

3. O MODELO ANTROPOLÓGICO DA LITURGIA ECLESIAL

Duas palavras da Escritura se apresentam como chaves para responder à nossa pergunta. Paulo gravou o termo logikè latreía (Rom 12, 1) que dificilmente se pode traduzir numa das nossas línguas modernas porque lhes falta um equivalente real do termo Logos. «Serviço litúrgico determinado pelo Espírito», poderemos dizer, remetendo ainda para as palavras de Jesus relativas à adoração em espírito e verdade (Jo 4, 23).

Mas também se poderia traduzir «veneração de Deus plasmada pela Palavra» e, nesse caso, é natural que o termo «Palavra» na sua acepção bíblica (e também no mundo grego) é mais do que simples linguagem: é uma realidade criadora. E todavia é também mais do que uma simples ideia e do que um mero espírito: é o Espírito que se exprime, que se comunica. Desta realidade de fundo derivaram em cada época, como princípios preliminares, a referência à Palavra, a racionalidade, a compreensibilidade e a sobriedade da liturgia cristã e da música litúrgica.

Seria uma interpretação restritiva e falsa, se se quisesse compreender com isto uma rígida referência ao texto de toda a música litúrgica e se se quisesse declarar a compreensibilidade do texto como seu pressuposto geral. A Palavra, em sentido bíblico, é de facto mais do que um «texto», e a compreensão é mais ampla e profunda do que a banal compreensibilidade de quanto se vê logo com clareza, de quanto se pode sistematizar forçadamente a racionalidade mais genérica. É certo, porém, que a música que serve a adoração «em espírito e verdade» não pode ser êxtase rítmico, nem sugestão sensual ou atordoamento, nem sentimentalismo subjetivo, nem entretenimento superficial, mas antes está associada a um anúncio, a uma afirmação espiritual e racional, no sentido mais nobre. Com outras palavras: é certo, portanto, que do seu íntimo a música deve fundamentalmente corresponder a esta «Palavra», melhor, deve pôr-se ao seu serviço.

Com isto somos já levados para um outro texto bíblico, o fundamental para o problema do culto. Este texto diz-nos mais precisamente que coisa significa a «palavra» e que relação tem conosco. Estou a aludir à passagem do prólogo joanino: «E o Verbo Se fez carne e veio habitar no meio de nós e nós vimos a sua glória» (Jo 1, 14). Falando da «Palavra» a que se refere o serviço litúrgico cristão não se trata em primeiro lugar de um texto, mas de uma realidade viva: de um Deus, que é sentido que se comunica tornando-se Ele próprio homem. Esta encarnação é agora a tenda sagrada, ponto de referência de todo o culto, que é um contemplar a glória de Deus e dar-Lhe honra. Estas asserções do prólogo de João não são, porém, ainda tudo. Elas têm sido mal entendidas se lidas em separado dos discursos de despedida em que Jesus diz aos seus: «Eu vou e voltarei para junto de vós. Se vou, venho de novo.

É bem que eu vá, porque, se eu não for, não virá a vós o Consolador» (Jo 14, 2 s; 14, 18 s; 16, 5 ss. etc.). A encarnação é apenas a primeira parte do movimento. Ela adquire pleno sentido e torna-se definitiva somente na cruz e na ressurreição: da cruz o Senhor atrai tudo a Si e leva a carne, isto é, o homem, e todo o mundo criado para a eternidade de Deus.

A música litúrgica resulta da exigência e da dinâmica da encarnação da Palavra: Palavra feita carne e carne feita Palavra

A liturgia está submetida a esta trajetória e este movimento é, por assim dizer, o texto fundamental a que se refere toda a música litúrgica, como sua medida. A música litúrgica é uma consequência resultante da exigência e da dinâmica de encarnação da Palavra, porque esta significa que também entre nós a Palavra não pode ser simples falar. O modo central com que a encarnação continua a operar são em primeiro lugar os próprios sinais sacramentais. Mas eles acabam por ficar privados de um contexto vital, se não estiverem imersos numa liturgia que, na sua totalidade, siga esta expansão da Palavra na corporalidade e na esfera de todos os nossos sentidos. Daqui deriva, ao contrário dos tipos de culto judaico e islâmico, o direito, ou melhor, a necessidade de usar imagens. E daqui vem também a necessidade de não perder de vista as esferas mais profundas do compreender e do responder que se revelam na música. A fé que se torna música faz parte do processo da encarnação da Palavra.

Mas este tornar-se música é contemporaneamente unido, de modo totalmente único, àquela transformação interior do acontecimento da encarnação a que há pouco procurava acenar: Sobre a cruz e na ressurreição a encarnação da Palavra torna-se carne feita Palavra. Ambas se compenetram. A encarnação se retrata; torna-se definitiva somente no momento em que o movimento, por assim dizer, se inverte: a própria carne é «feita logos», mas precisamente este tornar-se Palavra da carne cria uma nova unidade de toda a realidade que Deus tem em tal conta que a pagou com a cruz do Filho. Tornar-se música da Palavra é por um lado encarnação; é trazer a si forças pré-racionais e meta-racionais, que são também tornadas sensíveis; é trazer a si o som escondido da criação, descobrir o canto que repousa no fundo das coisas. Mas assim, tornar-se música é já também a viragem do movimento: não é apenas a encarnação da Palavra, mas ao mesmo tempo espiritualização da carne. A madeira e o metal tornam-se som, o inconsciente e o indefinido torna-se sonoridade ordenada plena de significado. Alternam-se uma corporização que é espiritualização e uma espiritualização que é corporização. A corporização cristã é sempre também espiritualização e a espiritualização cristã é corporização que penetra no corpo do Logos  encarnado.

4. AS CONSEQUÊNCIAS PARA A MÚSICA LITÚRGICA

a) Questões de princípio

Enquanto se realiza na Música esta complementação de ambos os movimentos, ela serve na medida máxima e de maneira insubstituível àquele êxodo interior que a Liturgia sempre pretende ser. Isso significa que a conformidade da Música litúrgica é medida com base na sua correspondência a esta forma base antropológica e teológica. Uma tal afirmação à primeira vista, parece estar distante da concreta realidade musical.

Porém, torna-se subitamente concreta se observamos os modelos opostos de música para o culto, indicados por mim pouco antes.

Tipo dionisíaco de religião e sua música. Música Rock e Pop

Pensemos por momentos no tipo dionisíaco de religião e sua música, que Platão examinou a partir do seu ponto de vista religioso e filosófico. Em não poucas formas de religião a música é dirigida ao delírio, ao êxtase. A superação do limite da condição humana que a fome de infinito, própria do homem, procura, deve ser atingida por frenesim sagrado, de delírio do ritmo e dos instrumentos. Tal música destrói os limites da individualidade e da personalidade; o homem nela se liberta do peso da consciência. Música passa a ser êxtase, libertação do Ego, união com o universo. O retorno profanado deste tipo encontramo-lo hoje na música Rock e Pop, cujos festivais são um anti-culto na mesma direção: prazer na destruição, abolição das barreiras do dia a dia, ilusão de redenção na libertação do Ego, no êxtase furioso do ruído e da multidão. Trata-se de práticas de redenção, semelhantes à droga e fundamentalmente opostas à concepção de Redenção da fé cristã.

Assim, é consequência lógica que aumentem nesta área, hoje, cada vez mais cultos e músicas satânicas, cujo poder perigoso na intencionada destruição e dissolução da pessoa não foi ainda suficientemente tomado a sério.

O debate que Platão instituiu entre música dionisíaca e apolínica não é o nosso, porque Apolo não é Cristo. Mas a pergunta que ele levantou interessa-nos de forma muito significativa. Música tornou-se, hoje, uma forma que, uma geração antes, nem teríamos podido imaginar, um veículo decisivo de uma anti-religião e um palco de divisão dos espíritos. Porque a música Rock procura a redenção no caminho da libertação da personalidade e da sua responsabilidade, enquadra-se, de um lado, exatamente nas ideias anárquicas de Liberdade que hoje dominam no Ocidente mais abertamente do que no Oriente, mas justamente por isso é diametralmente oposta à ideia cristã sobre redenção e liberdade; é a sua verdadeira contradição. Não por motivos estéticos, não por insistência conservadora, não por imobilidade histórica, mas por uma questão de princípio deve a música deste tipo ser excluída da Igreja.

Poderíamos continuar a concretizar a nossa pergunta, analisando a base antropológica dos variados tipos de música. Há música de agitação, que anima o homem para diferentes finalidades coletivas. Há música sensual, que leva o homem ao erótico e à procura de outras satisfações sensuais. Há música só para entretenimento, que não pretende dizer nada, mas deseja apenas interromper o peso do silêncio. Há música racionalista, na qual os sons apenas servem a construções racionais, mas não alcança uma penetração verdadeira do espírito e dos sentidos. Certos cânticos inconsistentes, construídos sobre textos catequéticos, certos cânticos modernos construídos em comissões teriam aqui o seu lugar. A música que corresponde ao culto divino d’Aquele que se fez homem e foi elevado na cruz, vive de uma síntese maior, mais extensa de espírito, intuição e som perceptível. Pode-se dizer que a música ocidental, desde o canto gregoriano passando pela música das catedrais e da grande polifonia, pela música da Renascença e do Barroco até Bruckner e ainda para além dele, vem da riqueza interior desta síntese e desenvolveu uma plêiade de possibilidades. Esta grandeza só existe aqui, porque pôde crescer unicamente do fundamento antropológico que unia espiritual e profano numa última unidade humana. E ela se dissolve na medida em que desaparece esta antropologia. A grandeza desta música é para mim a verificação mais imediata e evidente da imagem cristã do homem e da fé cristã da redenção que nos oferece a história. Quem realmente é tocado por ela, sabe, no seu íntimo, que a fé é verdadeira, mesmo que necessite ainda de muitos passos para realizar esta intuição com inteligência e vontade.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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