Liturgia da Palavra: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”

Por Dom
Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração

SÃO PAULO,
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos o comentário à liturgia do
próximo domingo – III do Tempo Comum Is 8, 23b – 9,3; 1 Cor 1, 10 – 13.17;
Mt 4, 12 -23 – redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da
Transfiguração (Mogi das Cruzes – São Paulo). Doutor em liturgia pelo Pontificio
Ateneo Santo Anselmo (Roma), Dom Emanuele, monge beneditino camaldolense,
assina os comentários à liturgia dominical, sempre às quintas-feiras, na edição
em língua portuguesa da Agência ZENIT. 

* * *

III DOMINGO
DO TEMPO COMUM 

Leituras: Is
8, 23b – 9,3; 1 Cor 1, 10 – 13.17; Mt 4, 12 -23

“O povo que
vivia nas trevas viu uma grande luz, e para os que viviam na região escura da
morte brilhou uma luz” (Mt 4,16, citando Isaías 9,1).

O violento
furacão da prepotência de Herodes e dos caprichos de Herodíades mal tinha
apagado a luz e a voz incômoda de João Batista (Mt 4,12; cf Mc 6, 17 – 29),
quando uma nova luz mais brilhante e uma voz bem mais potente se levantaram no
meio do povo, na “Galiléia dos pagãos”. A Galiléia era a região de Israel mais
afetada, ao longo da história, mesmo ainda no tempo de Jesus, pelos sofrimentos
da ocupação estrangeira e pagã e pela perda de identidade étnica e religiosa. O
lugar menos provável para ali aparecer o Messias, como destaca com ironia
Natanael: “De Nazaré pode sair algo de bom?” (cf. Jo 1,46).

Surpreendente
estilo de Deus! O Verbo de Deus não só quis se fazer natural de Nazaré, mas, já
adulto e fortalecido “com a força do Espírito Santo”, também escolheu a
Galiléia e Nazaré como cenário da sua entrada na missão; embora saiba que
exatamente a familiaridade com sua vida cotidiana de homem comum, muito, ou
melhor, demasiadamente parecida com a dos outros habitantes do povoado e por
isso mesmo bem conhecida pelos seus cidadãos, se torne causa de desconfiança e até
de agressividade (cf. Lc 4, 16-30). O que impele Jesus a atuar neste lugar
marginal e neste estilo solidário é o mesmo Espírito que o compenetrou no
batismo no Jordão e o impeliu para o deserto onde enfrentou o adversário,
aquele que atrapalha, que desde sempre com suas ilusões de poder procura
afastar o homem da sua relação original com Deus.

Jesus não
escolhe a cidade santa de Jerusalém, nem o lugar sagrado do seu templo, para
iniciar sua missão. Chegará até lá, certo, mas no tempo estabelecido pelo Pai e
como meta de um caminho interior que atravessa toda sua vida, como uma
geografia espiritual a percorrer. A “subida a Jerusalém”, como sublinha
fortemente Lucas, será uma viagem interior antes que transferência para um
lugar físico, que o próprio Jesus vai construindo com escolhas sucessivas,
amadurecidas no segredo de tantas noites de oração, para realizar a missão
recebida pelo Pai. 

Neste
caminho Jesus introduz paulatinamente e com muita dificuldade os discípulos,
que continuam imaginando a própria aventura com o Mestre como possibilidade de
realizar sonhos ainda muito humanos (cf. Lc 9, 51. 57-62). O destino do
discípulo não pode ser diferente da sorte do mestre, ontem, bem como hoje. Os
três anúncios sucessivos da sua morte e de sua Ressurreição que deverá ocorrer
em Jerusalém, e as brigas entre os doze sobre quem deveria ser primeiro no
reino de Jesus, revelam a pedagogia cuidadosa e forte de Jesus e a dificuldade
dos discípulos de entrarem na lógica do Verbo feito carne e do filho do homem
que não tem onde apoiar a cabeça. Somente a luz interior, que brotará da
dramática experiência da Páscoa e da inteligência despertada pelo Espírito
Santo, desvelará aos discípulos o verdadeiro sentido do caminho de Jesus e do
seu seguir-lhe.

Esta
passagem dos critérios humanos para a inteligência do Espírito continua sendo a
lei fundamental do caminho espiritual do discípulo de Jesus, em qualquer tempo,
e qualquer seja a modalidade específica com que cada um procure responder ao
chamado à santidade seguindo Jesus, como coloca bem em evidência a
constituição Lumem Gentium, do Concílio Vaticano II, no capítulo 5º:
“Vocação universal à santidade na Igreja”. 

A segunda
leitura (1 Cor 1,10-13;17), da qual emerge a contraditória situação interna da
comunidade de Corinto, por certos aspectos tão rica dos dons do Espírito e tão
entusiasta, evidencia quão árduo seja o caminho a percorrer, para se chegar a
viver segundo a nova lógica: a da cruz de Cristo e do amor oblativo que ela
traz consigo. Junto com a luminosidade da nova criação em Cristo, ficam
subsistindo, nos cantinhos mais obscuros da pessoa, as trevas do homem velho,
que se recusa a morrer para re-nascer da novidade de Cristo.

Com a
escolha da Galiléia como cenário privilegiado do início da sua missão, Jesus
escolhe o rumo escuro das contradições e dos sofrimentos do seu povo, espelho
da humanidade inteira. Continua atuando na vida cotidiana o processo da sua
encarnação e a sua descida nas ambiguidades da experiência humana para ali
irradiar sua luz. Se o profeta Isaías (primeira leitura) prometia ao povo
de Jerusalém salvação e novo futuro por parte de Deus, enquanto vivia o risco
da guerra, Jesus penetra na situação do seu tempo, não menos sofrida, como luz
que acende na noite a aurora de um novo dia, anunciando a Boa-nova do reino de
Deus.

Ele se
aproxima como luz que abre novo caminho à esperança e à novidade que vem de
Deus, e como calor que alivia e cura as feridas da vida (Mt 4, 23). Luz que
revela e atrai ao amor do Pai, que infunde coragem e suscita amor. Seu lugar
não pode ser senão a Galiléia, bela e sofrida, familiar e hostil. Na Galiléia
se concentra o mundo inteiro de todos os tempos. E Jesus continua escolhendo-a
como sua casa e lugar, onde irradiar luz e gerar novas possibilidades de vida.

O
evangelista nos diz que Jesus, com sua escolha pela situação mais complicada e
com seu estilo de solidariedade e compaixão para com os necessitados, cumpre o
misterioso desígnio de Deus, preanunciado na profecia de Isaías. Deus é fiel às
suas promessas; é fiel ao seu cuidado em favor da vida, afim de que as pessoas
tenham vida e vida plena, mesmo através das vicissitudes obscuras da vida e da
história.

Com o breve
aceno a João Batista aprisionado, e colocado no início da atividade de Jesus
(Mt 4, 12), Mateus parece já projeta sobre o caminho dele a sombra da cruz. Ela
tomará espaço crescente na experiência e no ensino de Jesus, assim como sobre o
caminho a ser percorrido pelos discípulos de então e pelo discípulo de todo
tempo que se põe no seu seguimento. Então disse Jesus aos discípulos: Se
alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt
16,24). A liturgia, desde os primeiros passos do Tempo Comum, nos proporciona,
junto com o mistério de Jesus, a vocação e a sorte do discípulo, e indica os eixos
essenciais da sua identidade e da sua espiritualidade pascal.

“Daí em diante Jesus iniciou
a pregar dizendo: ‘Convertei-vos, porque o reino dos céus está próximo”. Jesus
anuncia que uma nova maneira de existir, iluminada pela aliança doada por Deus
– o reinado de Deus – está iniciando. Antes, está já presente nele mesmo. Sua
pregação, à diferença daquela de João, que pregava a necessidade da conversão
em virtude da proximidade do severo juízo de Deus, anuncia que cada um e todos
são procurados pela misericórdia de Deus. Sua presença exige uma opção radical:
mudar a orientação da própria existência, passando da posição de uma
auto-referência, fonte e fruto do pecado e do mal-estar existencial e nas
relações humanas, para uma relação de si mesmo, totalmente orientada para Deus
e o evangelho pregado por Jesus. Propõe e exige um re-nascer de novo e do alto,
para entrar de verdade na novidade de vida que Jesus abre (cf. Jo 3, 3).

João
anunciava o aproximar-se do esposo, e como seu amigo ficava contente em poder
ouvir e escutar sua voz. Feito tal anúncio, fiel ao mandato recebido, retira-se
com alegria, ciente que é necessário que ele cresça e eu diminua” (Jo
3, 29 -30). Deixa que até alguns dos seus discípulos mais próximos, solicitados
pela sua fala sobre Jesus como o Eleito de Deus, o abandonem para seguirem a
Jesus (Jo 2, 34-37). 

Alertar com
cuidado forte, insistente e ao mesmo tempo materno, cada pessoa para a
conversão ao Senhor e apontar a estrada para o encontro direto e pessoal com o
próprio Jesus é a vocação e a tarefa da Igreja. Mas é também vocação e tarefa
de cada discípulo e discípula de Jesus, em força da unidade com ele gerada pelo
batismo.

“Iluminados”,
assim eram chamados nos primeiros séculos os batizados em Cristo. Iluminados
e chamados a ser luz no mundo, em continuidade e derivação da única fonte da
luz, que é o próprio Jesus (cf. Mt 5,14).

Jesus olha
com amor a cada um na sua situação concreta de vida. Ele vê o que passa dentro
do seu coração. Seu olhar ilumina com a luz de amor, se faz chamado a olhar
para ele, se faz chamado a segui-lo. É o que acontece à beira do mar da
Galiléia, quando Jesus, andando, vê antes Pedro e seu irmão André e depois
Tiago e seu irmão João. Todos estão empenhados no próprio trabalho de
pescadores.

Olhos que
se encontram; histórias que deste momento para frente se cruzam. Nascem os
primeiros discípulos, chamados a partilhar a vida com ele e sua missão, não por
própria iniciativa mas pelo olhar amante de Jesus. Arrancados do mar de
Galiléia e jogados no grande mar da aventura pessoal de Jesus e da história
nova do mundo que com ele está nascendo. Subtraídos à rotina de uma magra pesca
de peixe, destinada ao sustento da vida cotidiana de si mesmos e da própria
família, e transformados em “pescadores de homens”, junto com ele que está
dedicando a si próprio para salvá-los das tempestades da vida sem rumo.

Se em Nazaré Jesus
encontrou resistência, nos quatro irmãos pescadores a sua voz encontra uma
ressonância imediata e incondicionada. “Jesus disse a eles: ‘Segui-me, e
eu farei de vós pescadores de homens’. E eles imediatamente deixaram as redes e
o seguiram… Jesus os chamou. Eles imediatamente deixaram a barca e o pai, e o
seguiram” (Mt 4, 19.21-22).

Chamado por
parte de Jesus, escuta atenta, resposta imediata, escolha radical de deixar
tudo para trás e entrada no seguimento de Jesus para partilhar sua vida e sua
missão: estas são as características do discipulado de Jesus em todo tempo,
para cada um. 

O Tempo
Comum e a vida cotidiana são o tempo e o lugar em que cada pessoa humana, como
Pedro e seus companheiros à beira do mar de Galiléia, fica recebendo seu
chamado à vida por parte de Deus. A Igreja, comunidade dos discípulos e das
discípulas de Jesus, é o espelho simbólico desta relação dialógica de Deus para
com cada pessoa, e o lar privilegiado onde cada um de nós pode ficar ouvindo o
chamado sempre novo de Jesus a partilhar sua vida e sua missão a serviço do
reino de Deus. 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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