Liturgia da Palavra: Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça

Por Dom
Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração

SÃO PAULO,
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos o comentário à liturgia do
próximo domingo – VIII do Tempo Comum Is 49,14-15; 1 Cor 4, 1-5; Mt 6, 24-34 –
redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi
das Cruzes – São Paulo). Doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneo Santo
Anselmo (Roma), Dom Emanuele, monge beneditino camaldolense, assina os
comentários à liturgia dominical, às quintas-feiras, na edição em língua
portuguesa da Agência ZENIT.   

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DOMINGO
VIII do TEMPO COMUM

Leituras: Is
49,14-15; 1 Cor 4, 1-5; Mt 6, 24-34

“Buscai em
primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão
dadas por acréscimo.” 

Animado
pelo Espírito Santo durante o batismo recebido por mão de João, e proclamado
pelo Pai como o Filho em que ele se compraz, Jesus é levado pelo mesmo Espírito
ao deserto para ser submetido a várias provas pelo diabo. Sua longa batalha é
conduzida a bom fim, enquanto se deixa guiar pela repetida afirmação da sua
total submissão e dedicação ao Pai e à sua missão de messias humilde, que traz
seu vigor somente da palavra/relação com o Pai: “Não só de pão vive o homem,
mas de toda palavra que sai da boca de Deus!” (Mt 4, 4 ).

Em força
desta identificação da sua existência e missão com o Pai, Jesus inicia a pregar
a boa-nova. É ele mesmo a nova presença de Deus na história e o início da nova
maneira de existir que essa presença suscita e exige, para que a semente desta
história nova se torne messe de frutos abundantes: “Arrependei-vos, porque está
próximo o reino dos Céus/Deus” (Mt 4,17). 

  Ao
abrir “caminhos novos” para os discípulos, Jesus inicia a partir de sua própria
experiência pessoal e oferece a possibilidade de partilhar esta experiência.
Seguindo-o, em seu exemplo e em sua atração interior, o discípulo entra no
mesmo caminho para o Pai. Jesus não é somente o “mestre”, que ensina e dá
orientações de vida, como os outros mestres da lei em Israel e os sábios das
tradições sapienciais humanas. Ele é o inicio e o primeiro a viver a nova
maneira de ser homem e mulher, segundo o projeto original de Deus. É o novo
Adão, que gera uma nova humanidade, segundo a incisiva expressão de Paulo (cf.
Rm 5,14). Ele transmite no Espírito a capacidade de seguir seu caminho. “Eu sou
o caminho, a verdade e a vida!” (Jo 14,6). 

Jesus
define sua atitude fundamental em relação ao Pai e à sua missão, frente às
sugestões do diabo, que procura impeli-lo a construir, ao invés, seu próprio
projeto de Messias no sinal do poder. É o caminho que Israel, escolhido e amado
por Deus como seu “filho”, não conseguiu guardar durante a longa peregrinação
rumo a terra prometida da liberdade para servir com amor ao Senhor, reconhecido
como seu único Deus libertador. Fascinado pela perspectiva de tornar-se um povo
“como os outros”, Israel plasma o seu Deus à própria imagem e segundo as
próprias expectativas. Procura um Deus que lhe doe segurança, pela sua
semelhança a si mesmo. É pesada demais a perspectiva de uma liberdade, que faz
alguém diferente dos outros. Caminhar na multidão com a maioria dá a ilusão de
caminhar certo, sem a fadiga de pensar, de escolher, de assumir o risco e a
responsabilidade da escolha.

Jesus
assume conscientemente a escolha do messias pobre e humilde, que confia somente
na força da palavra de Deus. E abre o mesmo caminho para os discípulos de todo
tempo. Ninguém pode servir a dois senhores… Vós não podeis servir a Deus e ao
dinheiro” (Mt 6,24). 

O dinheiro
resume em si mesmo todos os ídolos e as armadilhas que, com a falsa promessa da
auto-garantia, submetem o homem e a mulher a formas de escravidão sempre novas.
O urgente convite de Jesus para, “não vos preocupeis com a vossa vida” (6,25),
não é certo um convite a deixar cair o compromisso responsável que cada um tem
que assumir frente às justas exigências da existência. 

Ao contrário,
Jesus pretende colocar no centro o que é verdadeiramente essencial: a cuidadosa
ação de Deus para com cada um dos seus filhos e filhas, cuidado que vai bem
além daquele cuidado zeloso que, por instinto maternal, tem para com seus
filhos, qualquer mãe que não seja desnaturada (primeira leitura: Is 49,
14-15). 

É a
confusão entre o essencial e o secundário, que destrói a nascente da verdadeira
vida no coração da pessoa, e transforma seu empenho por um objetivo que pode se
revelar errôneo, em desperdício da energia vital.  

Esta é a
critica pontual, embora cheia de amor, que Jesus faz a Marta, sua amiga e
hóspede tão generosa: “Marta, Marta, tu te preocupas e te inquietas com muitas
coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a parte melhor, que não lhe
será tirada” (Lc 10, 41-42). Maria tinha dado a precedência à escuta sedenta de
Jesus e à comunicação profunda e doce que tal escuta criava entre Jesus e seus
amigos. Esta ao fim era a razão que tinha feito daquela casa de Betânia, a casa
da amizade e da alegria, e que a própria Marta pretendia servir no seu afã.

Jesus
orienta os discípulos na mesma direção de atenção ao que é essencial: o dom da
vida recebida pelo Pai, e o cuidado zeloso com que o Pai providencia, com
generosidade ímpar, mesmo aos seres mais frágeis, como os pássaros e as flores
do campo. Eles ficam expostos a toda imprevisibilidade do tempo e das estações,
e o Pai não deixa lhes faltar nada, pelo contrário, os reveste de beleza e
esplendor com toda gratuidade. 

“Vós não
valeis mais do que os pássaros?…. Não fará ele muito mais por vós, gente de
pouca fé?” (Mt 6, 26.30). A contemplação da beleza, da harmonia e da ordem que
o olho simples descobre com maravilha na natureza, assim como na história, abre
a mente e o coração ao estupor, diante da criatividade fantasiosa de Deus e da
sua fidelidade ao ter cuidado dela. Hoje os instrumentos de altíssima
tecnologia à nossa disposição nos permitem dilatar quase ao infinitamente
pequeno e ao infinitamente extenso a contemplação extasiada das maravilhas do
Senhor, já cantadas pelo salmista (cf. Sl 8;19; 104). Pensemos nos detalhes
sempre menores alcançados pelos microscópios eletrônicos e, de outra parte, nas
profundidades cósmicas a que se dirigem os olhos dos telescópios de última
geração como o Kepler, recentemente lançado no espaço, e que continua
descobrindo inúmeras estrelas além do nosso sistema solar.  

É precioso
e urgente recuperar o olhar simples das crianças, capazes de se maravilhar
diante da beleza que resplende na criação, na história da humanidade, nas
vicissitudes de cada um de nós. Assim a Providência do Pai, à qual nos convida
Jesus, como o centro dinâmico que alimenta nossa vida e nossa liberdade, assume
a consistência do nosso tempo, do nosso nome, e fundamenta o nosso verdadeiro
empenho, a serviço do reino de Deus e da sua justiça, em prol dos nossos
irmãos.  

“Só em Deus
a minha alma tem repouso, porque dele é que me vem a salvação! Só ele é meu
rochedo e salvação, a fortaleza onde encontro segurança” (Sal resp., 62, 2-3).

A cultura
moderna destaca de maneira muito forte a autonomia, a iniciativa e a
responsabilidade do indivíduo, em relação ao seu presente e a seu futuro, assim
como a sorte das futuras gerações. Somos filhos e filhas da subjetividade, que
constitui um grande avanço da modernidade. Suas raízes se encontram na
dignidade da pessoa, criada à imagem de Deus. À sua responsabilidade zelosa foi
entregue o cuidado da criação e do caminho da família humana para que
alcançasse sua vida plena. A história de fato não caminhou nesta direção.
Muitas vezes o cuidado sobre o criado se transformou num desfrute destruidor, e
o cuidado recíproco se transformou em violenta competição entre os humanos e
até mesmo com Deus. É a história do pecado que envenena nosso sangue e obscurece
nossos olhos. Jesus cura esta paralisia interior e esta cegueira, abrindo o
caminho para o horizonte original. 

“Portanto
não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas
preocupações. Para cada dia bastam seus próprios problemas” (Mt 6, 34). Jesus
não ensina a despreocupar-se e a se subtrair às próprias responsabilidades da
vida, seja em relação a si próprio, seja em relação aos outros, mas convida a
restabelecer a correta escala das prioridades e das preocupações.

Quando
Israel chega à terra de Canaan, a terra recebida como dádiva pelo Senhor, e que
o povo agora tem que cultivar e promover com responsabilidade e criatividade, o
Senhor admoesta o povo para que “não esqueça” a experiência do deserto. Não se
identifique simplesmente com o bem-estar material provindo das atividades
agrícolas, do comércio ou da especulação edilícia na cidade.

“Lembra-te,
porém, de todo o caminho que Iahweh teu Deus te fez percorrer durante quarenta
anos no deserto, a fim de humilhar-te, tentar-te, e conhecer o que tinhas no
teu coração… Não vás dizer no teu coração: Foi a minha força e o poder das
minhas mãos que me proporcionaram estas riquezas” (Dt 8, 2; cf. 8, 1-20).

Esquecer a
experiência do deserto significaria perder a mais profunda identidade de povo
de Deus, chamado a viver a fraternidade entre seus membros, e não a cobiça de
ter sempre mais bens materiais, narcotizando a alma e destruindo as relações.

Talvez a
admoestação do Senhor a Israel ressoe com renovada urgência e verdade para nós
hoje. Graças ao desenvolvimento econômico mundial e do Brasil, milhões de
pessoas estão saindo da condição de pobreza e de falta de dignidade, e ganhando
novas oportunidades para se promover ao nível social, cultural e econômico. O
novo desafio para a missão evangelizadora da Igreja, isso é o desafio de cada
um de nós, neste novo contexto histórico, é o de contribuir a um processo de
desenvolvimento integral das pessoas e da sociedade, a fim de que o crescimento
numa fé mais formada, e na experiência do Senhor, possam acompanhar o
desenvolvimento social, ajudando as pessoas a se manterem abertas às dimensões
mais profundas da existência humana: “o reino de Deus e a sua justiça”. 

A Igreja
depara-se com a mesma tentação de Israel, que era a de “tornar-se como os outros
povos”, frente à modernidade. Confiar na força do evangelho, ou no poder dos
instrumentos que toda empresa econômica e social quer à sua disposição, para
potencializar sua imagem?

Como
tornar-se “memória viva e crível” da primazia de Deus, e do seu amor que chama,
escolhe e sustenta cada um em Cristo, para que as experiências inevitáveis de
“deserto” e de duras provações ao longo da vida tornem-se caminho para a vida
plena?

No deserto
Deus cuida do seu povo, dando o maná cotidiano e a água viva que jorra da
rocha. Ao mesmo tempo, porém, acompanha o dom com a indicação de recolher cada
dia somente a porção suficiente para satisfazer as necessidades do dia. Ele
entende promover e verificar a capacidade de confiar no Senhor (Ex 16,4). Deus
providencia o maná a cada dia em superabundância. E se alguém tenta guardá-lo para
o dia seguinte, com o intento de garantir a si próprio, o maná estraga (cf. Ex
16, 17 -21). 

A queixa
pela dificuldade do deserto e a monotonia de um alimento, garantido por Deus
mas “sem gosto”, exprime a recusa do povo em ficar dependente de quem tem
cuidado por ele, e a vontade de afirmar a própria independência. Mesmo se essa
possa pedir um preço muito alto: a renúncia ao caminho desafiador para a
liberdade e uma nova submissão à velha escravidão, dura, mas com a aparência de
satisfazer as necessidades mais imediatas (Ex 16, 2-3). A liberdade, e
sobretudo, a liberdade no amor, incute sempre medo. 

Jesus, pelo
contrário, abre o caminho da nova humanidade com a perturbadora perspectiva das
bem-aventuranças, e sua afirmação central: “Felizes os pobres no espírito,
porque deles é o reino dos Céus” (Mt 5,3). Mais do que constituírem o programa
fundamental da sua pregação e missão, estas palavras nos oferecem o retrato
íntimo de Jesus, e deixam vislumbrar o dinamismo profundo que guiou a sua
inteira existência, até manifestar-se plenamente no grito confiante na cruz:
“Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito!” (Lc 23,46). 

Com a força
simbólica da liturgia, cada noite, ao celebrar Completas, a Igreja nos convida
a nos unirmos ao grito confiante de Jesus, renovando a entrega da nossa vida ao
Pai. Completas é a oração da Liturgia das Horas que cumpre jornada, rezada ao
final do dia; é como a síntese dos sentimentos, trabalhos, alegrias e fadigas
de um dia. Mas é símbolo de todos os dias e de todas as atividades, através das
quais realizamos nossa missão no mundo. É o selo de uma existência vivenciada
no sinal do reconhecimento e agradecimento a Deus, da sua presença fiel ao
nosso lado, enquanto desenvolvemos nossas responsabilidades e iniciativas em
prol de nós mesmos e dos irmãos.   

“O Senhor
se tornou o meu apoio, libertou-me da angústia e me salvou porque me ama” (Antífona
de Entrada – Sal. 17, 19-20). 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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