Liturgia da Palavra: Bendito o que vem em nome do Senhor!

Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração

SÃO PAULO, quinta-feira, 14 de abril de 2011 (ZENIT.org ) – Apresentamos
o comentário à liturgia do Domingo de Ramos – Mt 21, 1-11; Is 50, 4-7;
Fl 2. 6-11; Mt 26, 14-27, 66 – redigido por Dom Emanuele Bargellini,
Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes – São Paulo).
Doutor em liturgia pelo ‘Pontificio Ateneo Santo Anselmo’ (Roma), Dom
Emanuele, monge beneditino camaldolense, assina os comentários à
liturgia dominical, às quintas-feiras, na edição em língua portuguesa da
Agência ZENIT.

* * *

Domingo de Ramos



Leituras: Mt 21, 1-11; Is 50, 4-7; Fl 2. 6-11; Mt 26, 14-27, 66

“Na hora conveniente, reúne-se a assembleia num lugar apropriado fora da
igreja, trazendo os fieis ramos nas mãos. O celebrante abençoa os
ramos. É proclamado o evangelho da entrada de Jesus em Jerusalém.
Precedida pela cruz, a assembleia se dirige em procissão, cantando
salmos e hinos de louvor a Cristo-Rei, para a igreja na qual se celebra a
eucaristia” (Missal Romano-Domingo de Ramos).       

Gesto simples. Aparentemente óbvio e previsto nas normas do missal para
organizar a celebração do Domingo de Ramos. Na realidade, com a
linguagem simbólica própria da liturgia, ele nos introduz em maneira
espontânea no Mistério Pascal de Cristo e nos faz vislumbrar nossa
participação vital no mesmo. Este evento abre a celebração do Domingo de
Ramos e de toda a Semana Santa da Páscoa, marcando o seu movimento
interior.

Ao se reunir, como primeiro ato, a assembleia proclama e escuta o
evangelho de Jesus. Em resposta, se põe a caminho, seguindo a cruz do
Senhor. Continuará seguindo Jesus no seu caminho pascal, através de
quatro significativos movimentos ao longo dos ritos da Semana Santa,
tendo seu olhar fixo “naquele que iniciou e realizou a fé, em Jesus, o
qual, pela alegria que lhe foi proposta, sofreu a cruz, desprezou a
humilhação e sentou-se à direita do trono de Deus” (Hb 12,2). Os
movimentos marcam quase que todas as etapas de todo  caminho de fé,
caminho este que no itinerário pascal encontra seu modelo.

O primeiro movimento é a procissão dos Ramos atrás da cruz do Senhor: em
Jesus crucificado a assembleia reconhece e proclama o vencedor da morte
e o guia do seu caminho. O segundo acontece na Sexta-feira santa,
quando, ao celebrar a Paixão do Senhor, a assembleia desfila em
procissão para honrar e beijar com devoção e amor a cruz que está
elevada diante de si: a cruz é transformada de patíbulo em árvore da
vida e trono da glória de Cristo. O terceiro movimento anima o início da
solene Vigília pascal. A assembleia se põe a caminho atrás do Círio
Pascal, única luz nas trevas da noite e, ao acender as próprias velas do
mesmo Círio, se deixa iluminar pela luz de Cristo Ressuscitado. É na
luz de Cristo que os fiéis aprendem a enfrentar os desafios da vida e
dela se deixam guiar.

No cume da vigília pascal, a assembleia acabará seu caminho ao
aproximar-se, cheia de alegria e agradecimento, à mesa do Senhor,
juntamente com os neo-batizados, que pela primeira vez vão receber o
corpo e o sangue do Senhor. Inseridos como membros vivos do seu mesmo
corpo que é a Igreja, visível na assembleia celebrante, todos recebem o
convite solene e cheio de alegria do diácono, para sair da celebração,
retornando como portadores da luz e da paz de Cristo em direção àquela
mesma realidade ambígua do mundo, da qual saíram no início, para
mergulhar-se na páscoa transformadora de Jesus. O movimento interior de
adesão a Cristo, iniciado no domingo dos Ramos e alimentado pelas várias
passagens rituais, dá lugar ao movimento da vida animada pelo Espírito.

Assim, o primeiro gesto ritual com o qual, no domingo de Ramos, o povo
de Deus se reúne para iniciar a celebração da páscoa do Senhor, exprime
em síntese a totalidade do Mistério Pascal de Cristo e o profundo
envolvimento nele, na fé e no amor, de cada pessoa e da Igreja inteira.
Desde sempre a Igreja é o povo de Deus a caminho, impelida pelo
Espírito, em movimento através das vicissitudes da história, rumo à
plenitude do reino de Deus. Ela é caracterizada pela pluralidade dos
dons, das experiências culturais e espirituais, das sensibilidades
sociais, das elaborações teológicas e dos diferentes ritos litúrgicos,
porém, sempre orientada no seu olhar para Cristo Jesus, morto e
ressuscitado, origem e centro da sua comunhão.

Ela caminha procurando estar em relação profunda com Deus, empenhada a
promover a comunhão e a solidariedade entre seus membros e com toda a
família humana, para avançar na história como “povo santo e pecador,
para construirmos juntos o vosso reino que também é nosso” (Oração
eucarística V). Toda comunidade que celebra com fé a páscoa do Senhor,
embora com simplicidade de meios e na pobreza das estruturas, vive seu
momento forte e profético de povo de Deus a caminho, gerado em maneira
sempre nova pela páscoa de Jesus.

As primeiras comunidades cristãs de Jerusalém, movidas pela devoção e
pelo desejo de partilhar de perto com amor os passos de Jesus no seu
caminho de paixão e de glorificação, organizaram, sobretudo a partir do
séc. IV [1], celebrações especiais em cada lugar onde Jesus tinha vivido
seus últimos dias de presença física no meio dos seus discípulos, dias
tão decisivos no plano de Deus e para a nossa salvação: da última ceia
no cenáculo à Paixão no horto das oliveiras, da Morte no Calvário à
Sepultura e Ressurreição no jardim, até à Ascensão na colina perto de
Jerusalém. A celebração semanal da páscoa no dia do domingo e aquela
anual, acabaram enriquecendo-se de celebrações especiais ao longo do
Tríduo sagrado e da semana que precedia o Domingo da Páscoa.

A estrutura atual da nossa Semana Santa é herdeira feliz desta tensão de
amor das primeiras comunidades, finalizada a guardar a memória sagrada
dos acontecimentos históricos fundamentais no plano da nossa salvação.
Ao longo dos séculos, por variadas vicissitudes históricas, ela tinha
perdido sua linearidade celebrativa e simbólica. Felizmente conseguiu
recuperá-la, graças à iluminada ação da reforma litúrgica realizada pelo
papa Pio XII nos anos 1951 e 1955, e aperfeiçoada pelo Concílio
Vaticano II.

A força narrativa dos acontecimentos da Paixão, Morte e Ressurreição de
Jesus proclamados nas leituras bíblicas, e o intenso envolvimento
emocional que as celebrações destes dias conseguem realizar, mesmo em
pessoas que raramente participam nas liturgias, não devem nos fazer
esquecer seu profundo sentido espiritual, e a exigência de participar às
celebrações com intensidade de fé e de amor ao Senhor.

Na celebração litúrgica da Igreja se torna presente e atuante, pela ação
permanente de Cristo e do seu Espírito, o amor infinito do Pai,
manifestado no amor sacrifical de Jesus até a morte, e se renova o dom
da vida divina que nos faz viver como filhos e filhas do Pai e irmãos
uns dos outros.

Os emocionantes ritos destes dias vão muito além de uma devota
reconstrução cênica da Morte e Ressurreição de Jesus como acontecimentos
do passado. Eles nos proporcionam o encontro vivo com o Cristo vivente.
Doam-nos a energia transformadora do seu amor, fazendo-nos viver desde
agora, de antemão, as primícias da sua plenitude na relação filial com o
Pai e na relação fraternal entre nós.

Tendo presente esta perspectiva sacramental das celebrações, é possível e
muito oportuno valorizar em maneira fecunda a grande riqueza das
expressões da religiosidade popular, que foi muito criativa na sua
capacidade de fazer reviver os acontecimentos pascais, na dimensão
trágica e na de alegria jubilosa que os caracterizam.

Deixamo-nos guiar neste apaixonado caminho rumo às entranhas do Senhor,
por alguém que viveu profundamente esta experiência. “Onde podemos
encontrar repouso tranquilo e firme segurança para a nossa fraqueza, a
não ser nas chagas do Salvador?… Na verdade vou buscar confiantemente o
que me falta nas entranhas do Senhor, tão cheias de misericórdia que
não lhe faltam fendas por onde se derrame. Perfuraram suas mãos e seus
pés e transpassaram seu lado com a lança; por essas fendas é-me
permitido… provar e ver quão suave é o Senhor… Mas o cravo
penetrante tornou-se para mim a chave que abre para que eu veja a
vontade do Senhor. Clama o cravo, clama a chaga que verdadeiramente Deus
está em Cristo, nele reconciliando o mundo” (São Bernardo, Sermão 61,
3-5 sobre o Cântico dos Cânticos, LH Monástica, 2 Semana de Quaresma,
quarta-feira).

Durante os dias da Páscoa, o estilo, poderíamos dizer a arte, com que a
liturgia costuma celebrar o Mistério de Cristo, se exprime em toda a
riqueza da sua linguagem, e nos envolve em maneira fascinante no
mistério que estamos celebrando.

O Papa Bento XVI, com sua especial sensibilidade litúrgica e pastoral,
nos ofereceu novamente em maneira eficaz o ensinamento dos Padres da
Igreja e do Concílio Vaticano II, sobre esta estrutura simbólica e
sacramental da liturgia e sua capacidade de promover nossa participação
profunda: “Igualmente importante para uma correta  arte da celebração é a
atenção a todas as formas de linguagem previstas pela liturgia:
palavras e canto, gestos e silêncios, movimento do corpo, cores 
litúrgicas dos paramentos. Com efeito a liturgia, por sua natureza,
possui uma tal variedade e níveis de comunicação que lhe permite cativar
o ser humano na sua totalidade” (Exortação apostólica Sacramentum
Caritatis, n. 40 [2007]).

A Igreja nos solicita, para uma participação ativa, consciente, plena e
frutuosa, “que a própria natureza da liturgia exige e à qual, por força
do batismo, o povo cristão, ‘geração escolhida, sacerdócio régio, gente
santa, povo de sua conquista’ [1 Pd 2, 9] tem direito e obrigação”
(Constituição Sacrosanctum Concilium n. 14). Trata-se de acolher a ação
de Deus em nós, respondendo com amor ao seu amor, unindo-nos ao amor de
Cristo pelo Pai e pelos irmãos.

Cristo continua sendo o protagonista central de toda ação litúrgica da
Igreja com seu Espírito. Isto aparece em maneira ainda mais marcada nas
celebrações desta semana central do ano litúrgico, que chamamos de
“Santa”, enquanto nela se concentram os eventos decisivos da sua vida,
da sua morte e da sua ressurreição com o envio do seu Espírito, eventos
que nos tornam partícipes da vida e santidade de Deus. Convidam-nos a
nos deixar envolver plenamente no dinamismo pascal de morte ao homem
velho para a vida nova no Espírito.

“Bendito o que vem em nome do Senhor!”. Com esse refrão acompanhamos a
procissão até a porta da igreja. A entrada messiânica de Jesus em
Jerusalém, no júbilo e na alegria (evangelho de Mt 21, 1-11, e
procissão) é inseparável da proclamação da sua Paixão, centro da
liturgia eucarística deste domingo (Mt 26, 14 – 27,66). A leitura do
profeta Isaías, que delineia a figura e a missão do Servo do Senhor
sofredor, salvado por Deus e por ele escolhido a tornar-se Salvador dos
povos (Is 50, 4-7), destaca a mesma intrínseca conexão entre sofrimento e
salvação. A mesma mensagem nos entrega Paulo ao apresentar Cristo,
modelo inspirador da nova maneira de viver na comunidade dos discípulos.
Ele despiu-se voluntariamente da sua dignidade divina para assumir a
condição humana de extrema humilhação até a morte de cruz, porém, por
isso foi glorificado pelo Pai e constituído Senhor e Salvador de todos
(Fl 2, 6-11). A lógica da Páscoa se torna o sangue que corre nas veias
do corpo do discípulo irrigando a comunidade de vida.

Ela realiza a passagem de um mundo para outro. Como canta o Prefácio,
“Pelo poder radiante da cruz, vemos com clareza o julgamento do mundo e a
vitória de Jesus crucificado”. Ao canto jubiloso do salmo real cantado
pela assembleia em procissão, “Ó portas, levantai vossos frontões!
Elevai-vos bem mais alto, antigas portas, a fim de que o rei da glória
possa entrar” (Sl 23,9 – Processional), faz eco o grito sofrido e
confiante de Jesus na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me
abandonastes?…. Vós, porém, ó meu Senhor, não fiqueis longe, ó minha
força, vinde logo em meu socorro!” (Sl 21, 1. 20 – Responsorial ).

O canto alegre do Hosana e de glória e louvor a Cristo rei e redentor
durante a jubilosa procissão, se entrelaça com a sóbria meditação sobre o
extremo exemplo de humildade dado por Cristo ao se tornar homem e
morrer na cruz. A partilha com a cruz de Cristo nos permite participar
da sua glória (Oração do dia). Foi o caminho pascal de Cristo. É o
caminho da Igreja, seu corpo e sua esposa amada. É o caminho de fé e de
amor de todo discípulo e discípula.


Notas:


1. Vale a pena a leitura do texto da peregrina Etéria, que ao visitar os
lugares santos nos legou em seus diários um quadro sobre a liturgia
hirosolimitana do IV século. BECKHAUSER, A. Peregrinação de Etéria:
Liturgia e Catequese em Jerusalém no século IV. Petrópolis: Vozes, s.d.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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