Lavagem Cerebral: Procedimentos EB

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 499 – Ano 2004 – p. 35

Em síntese: O artigo expõe as três etapas de autêntico processo de lavagem cerebral: violência, brandura, produtos farmacêuticos. Visam a “regenerar” os dissidentes políticos, mudando por completo a sua personalidade.

O jornalista e historiador russo Anatole Krasnov-Levitine foi exilado em 1974 e fixou resistência na Suíça, conservando-se a par dos acontecimentos ocorrentes em sua terra natal. Concedeu uma entrevista sobre os episódios de perseguição religiosa mais recentes na Rússia ao periódico mensal Religia i Ateizm V SSSR (Königstein/Taunus, FRA). O texto desta entrevista foi publicado em tradução francesa pelo boletim ortodoxo SOP (Service Orthodoxe de Presse et d’Information) nº 14, janeiro 1981, pp. 10-14. É de tal fonte que o extraímos.

Que é a lavagem de crânio?

A expressão “lavagem de crânio” (ou “lavagem de cérebro” ou “limpeza da mente”) entrou no vocabulário moderno no fim da última guerra mundial; parece ser a tradução do termo chinês Hsi-Nao. Designa a aplicação de uma série de recursos da medicina e da psicologia que visam a influir no comportamento de uma pessoa a ponto de mudar (ou, como dizem, “limpar, lavar”) por completo o modo de falar e agir de tal pessoa. Em conseqüência de uma dessas lavagens de crânio, quem, por exemplo, sempre foi infenso ao sistema marxista, faz declarações entusiastas em favor do comunismo, denuncia os colegas “capitalistas burgueses”, “reconhece” ter cometido delitos contra o regime vigente e a pátria; numa palavra: desdiz totalmente os seus hábitos e suas afirmações de outrora… Por isto, há quem proponha para tal técnica o nome, certamente mais fiel, de “menticídio”.

Tal fenômeno nos interessa na medida em que constitui uma manifestação requintada da ciência e técnica, associadas à hipocrisia sádica, a fim de servir ao ódio, à mentira e à deturpação da personalidade. Toda a grandeza da criatura parece assim empenhada em contrariar ao Criador e às leis do Criador o que é satânico!

2. Os fundamentos científicos

A inteligência e a vontade, faculdades características da alma humana, necessitam, para agir, do concurso do corpo e, em particular, do cérebro. O cérebro vem a ser quase a “central telefônica” onde as impressões captadas pelos sentidos externos e pelo sistema nervoso em geral são colecionadas e ulteriormente transmitidas à inteligência, a fim de que esta distinga o essencial do acidental, formule definições, avalie as proporções entre meios e fins, etc.

Daí a grande importância que tem a saúde ou o funcionamento normal do cérebro para as manifestações da inteligência e da vontade do respectivo sujeito. Ora, conscientes disto, médicos e psicólogos modernos têm concebido métodos esmerados que conseguem influir no sistema nervoso e, por conseguinte, no cérebro de um paciente de modo tal que este produza manifestações da inteligência e da vontade bem diversas das que ele antes produzia. tais métodos consistem ora em paralisar, por inteiro ou em parte, uma determinada função do sistema nervoso ou do cérebro, ora em canalizar essa função a fim de que ela reaja sempre do mesmo modo.

A lavagem de crânio utiliza particularmente as descobertas do fisiologista russo, pai da medicina cortiço-visceral, Ivan Petrovich Pavlov, sobre os chamados “reflexos adquiridos” ou “condicionados”: por cerca do ano de 1929, Pavlov averiguou, sim, que certos estímulos ou agentes extrínsecos podem provocar ou condicionar reflexos (isto é, reações inconscientes) tão arraigados em determinado sujeito que este passa a reagir de tal modo (mesmo fora de propósito e em circunstâncias ridículos) todas as vezes que seja atingido por tal ou tal estímulo…

Uma das experiências mais significativas realizadas por Pavlov versava sobre um cão e uma campainha. Sempre que se levava o alimento a um cão. Pavlov mandava toca uma campainha; depois de assim haver feito numerosíssimas vezes, o cientista mandou tocar a campainha; depois de assim haver feito numerosíssimas vezes, o cientista mandou tocar a campainha, mas nada dar de comer ao animal por essa ocasião. Observou então estranho fenômeno: o cão acostumado a comer logo após ouvir a campainha, conservou o hábito de salivar copiosamente a boca ao som da campainha, mesmo quando já não lhe serviam comida. O animal ficou assim “condicionado” a responder ao som da campainha como se este som tivesse o odor e o sabor de alimento. Pavlov verificou ainda que outros estímulos, repetidamente aplicados ao mesmo animal, provocavam reações ou, como se diz, reflexos ainda mais complicados.

Ora, de experiência em experiência, os cientistas descobriram que também o homem é capaz de adquirir reflexos condicionados inconscientes; o que quer dizer; é capaz de contrair certos hábitos e tomar atitudes marcantes (por palavras ou gestos) mediante a influência de fatores mecânicos devidamente concebidos pelos psicólogos e médicos.

No homem a capacidade de adquirir reflexos condicionados pode ser utilizada para remediar a situações doentias e comportamentos moralmente viciados da personalidade humana. Ela pode, porém, ser explorada para o mal, ou seja, para esmagar e destruir a personalidade. É isto justamente o que faziam os “limpadores de crânio” nos países totalitários.

A técnica longa e complexa da lavagem de crânio conserva até agora índole um tanto misteriosa; as declarações das respectivas vítimas parecem, a certos peritos, tendenciosas, não merecedoras de pleno crédito.

Como quer que seja, pode-se reconstituir o curso geral de um processo de limpeza de crânio nos termos que vão abaixo delineados.

3. Como se desenvolve a técnica

A lavagem de crânio pode processar-se em três etapas, de crescente penetração e eficiência.

a) Primeira etapa: a violência

A primeira etapa costuma recorrer à violência, a fim de induzir o “réu” a confessar suas culpas ou a professar a ideologia que ele jamais quis aceitar.

A vítima é encerrada num cubículo de prisão. Dão-lhe vestes características, que às vezes apresentam uma particularidade aparentemente secundária: não têm botões; basta isto para provocar uma situação estranha; o “réu” terá que ficar continuamente sentado ou, todas as vezes que se quiser levantar, deverá fazer o papel ridículo de segurar as calças com as mãos.

Apenas dois orifícios perfuram esse cubículo de cimento: uma boca para entrada do ar, e uma viseira na porta, através da qual dois olhos, de dez em dez minutos, controlam qualquer atitude do prisioneiro. A iluminação é fornecida por uma lâmpada elétrica que “pisca” em ritmo regular, produzindo luz ora vermelha, ora amarela. Se o encarcerado pergunta ao vigia por que a iluminação é tão anômala, após a centésima interrogação respondem-lhe que a instalação elétrica está com defeito, é, porém, um defeito apto a tornar louco o paciente!

Aliás, tudo que vai acontecendo nesse cubículo, é apto a gerar a loucura. O prisioneiro não pode ver a luz natural, mas também não tem relógio, de modo que nunca sabe ao certo que horas são; assim as noções básicas de “dia” e “noite” para ele se vão esvanecendo. Quando saiu de casa, a esposa e os filhos estavam para voltar das férias, ela esperando mais um nenê; “que susto não terá ela experimentado?”, pergunta constantemente o prisioneiro de si para si. Não sabe por que nem por quanto tempo se acha na situação presente. Todo contato com o mundo externo lhe é peremptoriamente vedado; esse isolamento absoluto tende a desarraigar o prisioneiro e a subtrair-lhe os pontos cardeais segundo os quais a sua personalidade se orientava antigamente.

Dentro do cubículo, durante meses a fio verificam-se fenômenos intrigantes, de índole aparentemente inofensiva e casual, mas na realidade todos premeditados e desencadeados de modo a desconsertar cada vez mais o paciente. Por exemplo, freqüentemente lhe dirigem a pergunta: “És realmente N. N…?” Fazem-lhe ouvir discos que imitam a sua voz, em tom de sussurro, de modo que é levado a confundir vozes reais e a voz do íntimo da sua consciência em solilóquio. Um dia, a refeição principal consta de um osso apenas, como se nada mais houvera na cozinha; há ocasiões em que os olhos do carcereiro ficam a espreitá-lo incessantemente durante uma hora, a tal ponto que o encarcerado começa a duvidar da realidade da sua própria visão. O piscar sistemático da lâmpada, o fato de ter que segurar as calças nas mãos sempre que se levante, ainda contribuem para dar à vítima a impressão de que está vivendo num mundo novo, mundo em que tudo é absurdo. Nem sequer lhe permitem dormir um pouco a fim de esquecer a triste realidade em que se acha! Desta maneira o sistema nervoso da vítima se vai esgotando; cedo ou tarde poderá parecer-lhe que o preto se tornou branco, e que o branco “virou” preto.

Finalmente, nesse estado de extrema debilidade e vacilação mental o prisioneiro recebe certo dia a visita de um homem (…). Virá para conversar? O estranho, munido de capacete de aço, começa a interrogar…; mas que coisas absurdas não pergunta ele! Mostra-se, além disto, brutal; esbofeteia, aplica o choque elétrico mediante pinças fixas às partes mais sensíveis do corpo, e durante quarenta e oito horas contínuas intima periodicamente: “Confessa! Confessa! Confessa!”.

Após três visitas deste tipo, o complexo do medo está implantado na maioria dos homens corajosos, a vítima perde todo senso de crítica e de resistência, assemelhando-se a um animal medroso!

Alguns pacientes, de temperamento fraco, após tais tratamentos, se tornam totalmente maleáveis nas mãos de seus carrascos. Confessam tudo que se lhes sugira, mesmo as coisas que eles reconhecem como falsas.

b) Segunda etapa: a brandura

Admitamos que o “réu” ainda queira contradizer aos seus acusadores, mesmo após tais maus tratos. Começa então um segundo grau de “lavagem” ou de “extorsão”. – Outro visitante o vai procurar no cárcere:… alguém que, desta vez, o parece deixar à vontade e confiante; é um operário, no caso de ser o prisioneiro um operário, ou então um militar, um intelectual, uma mulher, um jovem ou um ancião, de acordo com a identidade do “réu”. Usa de voz branda, atitudes calmas, a fim de explorar a situação psicológica do paciente: este, vendo-se no extremo abandono, mil vezes hostilizado, tende a se deixar cativar espiritualmente pela primeira pessoa que se lhe  mostre benigna. Consciente disto, o “benévolo” visitante põe-se a aconselhar: “Não tens esperança de escapar, caso não confesses. Confessa, e recuperarás teu regime de vida normal, com tua esposa e teus filhos”. Essas palavras, de teor aparentemente tão amigo, não podem deixar de impressionar e mesmo desconsertar a quem só espera maus tratos. A vítima então, já muito debilitada física e moralmente, desarmada como criança, facilmente se entrega confiante, ou mesmo sentimentalmente, ao conselheiro… E confessa tudo, chegando a inventar a narrativa de faltas que lhe sejam sugeridas pelos acusadores.

O conselheiro aproveita-se da situação para fazer um exame juntamente com a vítima:

“Nunca disseste tal ou tal coisa?”

– “É possível (…) creio que sim (…) Ah, agora lembro-me: disse-o!”

– “Serias capaz de o confessar em público?”

– “É melhor. A verdade tem que ser dita”.

– “Levarão em conta a tua declaração espontânea”.

– “Sim; hei de confessá-lo”.

Assim se processa a autocrítica, muito explorada por ocasião dos “expurgos stalinianos” empreendidos pelo Governo soviético após a morte de Stalin. Muitas vezes a autocrítica se efetua numa atmosfera de “delírio místico”, em que a vítima é estimulada a se penitenciar e sacrificar em prol dos “interesses da coletividade”, chegando mesmo a aceitar como graça ditosa a pena capital!

c) Terceira etapa: os meios farmacêuticos

Dado que o segundo grau de “lavagem cerebral”, assim descrito, não produza todos os efeitos desejados, os técnicos conhecem mais um recurso, que constitui o terceiro grau, de todo irresistível. Utilizam desta vez táticas não propriamente psicológicas, mas fisiológicas e violentas; aplicam, sim, ao paciente injeções de insulina e séries de choques elétricos. A insulina queima a glicose do organismo, glicose indispensável para que o cérebro possa controlar as suas percepções; assim o cérebro fica exposto a receber, sem defesa nem capacidade de discernimento, todas as palavras e imagens sugestivas que se incutam à vítima. Os choques elétricos, por sua vez, acabam de destruir qualquer vestígio de resistência. Desta maneira destrói-se a antiga personalidade moral do indivíduo e outra, nova, lhe pode ser impingida, feita segundo a medida dos “lavadores de crânio”. Como dizem, essa nova personalidade moral é extremamente tenaz; a vítima doravante é um autômato sem identidade, “teleguiado” até a morte.

Como se compreende, os resultados obtidos pelos recursos da “lavagem” dependem, em parte, do temperamento do paciente: pessoa colérica reage aos choques mais rapidamente do que pessoa sangüínea; quem tem o senso prático da realidade, resiste melhor do que um sonhador isolado do mundo em que vive. Conscientes dessas particularidades, os limpadores de crânio tendem a produzir em torno do povo uma atmosfera de entusiasmo ou delírio coletivo; em vista disto, costumam promover vultosas concentrações de massas, em que longos discursos, espetáculos e demonstrações de esporte ou de força brutal, holofotes e gritos apoteóticos marcam profundamente a mentalidade dos participantes.

Quem respira dentro de tal atmosfera, dificilmente se subtrai à sua influência nefasta. A resistência à ação dos limpadores de crânio tem que ser empreendida já a longa distância. O conhecimento dos artifícios que eles empregam, certamente ajuda o indivíduo a desmascará-los e a imunizar-se psicologicamente contra eles. Além disto, para que alguém lhes possa resistir, torna-se necessário que viva da maneira mais coerente possível com a sua consciência, isento de conflitos internos, de paixões obcecantes, procurando dominar em tudo os impulsos e as reações da sua sensibilidade. Está claro que tal nível de vida só poderá ser adequadamente atingido com o auxílio da graça de Deus, ou seja, mediante um procedimento cristão que, removendo toda languidez e rotina de ânimo, utilize em grau máximo os dons que Deus dá a cada um de seus filhos para que se torne “sal da terra e luz do mundo” (cf. Mt 5, 13s).

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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