Jubileu das Famílias (Parte 1)

Temas de Reflexão e diálogo em preparação ao III Encontro Mundial do Papa com as familias «Os filhos, primavera da família e da sociedade»

(Esta transcrição é feito do Jornal LOsservatore Romano, ou do site do Vaticano, edição em português, de Portugal; algumas palavras são escritas de forma diferente do português usado no Brasil)

Roma, 14-15 de outubro de 2000

Na aurora da salvação, é proclamado como feliz notícia o nascimento de um menino: Anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de Davi, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias, Senhor (Lc 2,1011). O motivo imediato que faz irradiar esta grande alegria é, sem dúvida, o nascimento do Salvador; mas, no Natal, manifesta-se também o sentido pleno de todo nascimento humano, pelo que a alegria messiânica se revela fundamento e plenitude da alegria por cada criança que nasce (cf. Jo 16,21).
Se é certo que uma criança constitui a alegria dos pais, e também da Igreja e da sociedade inteira, é igualmente verdade que nos nossos tempos, infelizmente, muitas crianças sofrem e vivem ameaçadas, em várias partes do mundo: padecem fome e miséria, morrem por causa das doenças e da desnutrição, caem vítimas das guerras, são abandonadas pelos pais e condenadas a ficar sem casa, privadas do calor de uma família própria, sofrem muitas formas de violência e prepotência por parte dos adultos.

Apresentação
O Pontifício Conselho para a Família alegra-se em apresentar alguns temas de reflexão e de diálogo em preparação ao III Encontro Mundial do Papa com as Famílias – Jubileu das Famílias, que se realizará em Roma, nos dias 14 e 15 de outubro do ano 2000, no contexto do Grande Jubileu.
O III Encontro Mundial é continuação do primeiro, realizado em Roma durante o Ano da Família (1994), e do segundo, que teve lugar no Rio de Janeiro, em 1997. A celebração do ano 2000 se reveste de um caráter todo particular e se situa em pleno Jubileu, no momento histórico da abertura do Terceiro Milênio da Era Cristã.
O lema inspirador: Os filhos, primavera da família e da sociedade foi escolhido por ocasião da oração do Ângelus do domingo 27 de dezembro de 1998, festa da Sagrada Família. A Família de Nazaré, expressou o Papa, irradia uma luz de esperança também sobre a realidade da família de hoje. Em Nazaré brotou a primavera da vida humana do Filho de Deus, no momento em que Ele foi concebido por obra do Espírito Santo no seio da Virgem Maria. E entre as paredes hospitaleiras da Casa de Nazaré, se desenvolveu, num ambiente de alegria, a infância de Jesus. Este mistério ensina, portanto, toda família a gerar e educar os próprios filhos, cooperando de forma admirável na obra do Criador e oferecendo ao mundo, em cada criança, um novo sorriso.
Os encontros que seguem, em número de 12, têm como objetivo desenvolver alguns dos temas mais significativos relacionados às crianças, consideradas como filhos, em sua relação com os pais e com a família, no âmbito de toda a sociedade. As propostas apresentadas, de forma sintética e fácil, repropõem temas fundamentais do ensinamento da Igreja e foram extraídas dos documentos mais recentes, especialmente do Concílio Vaticano II e do Pontificado de João Paulo II.
Estes subsídios podem ser utilizados como guias pelos agentes de pastoral familiar, num encontro de reflexão e de diálogo, que se pode realizar preferencialmente nas assembléias familiares, adaptando os temas às diversas culturas e aos contextos sociais locais. Essas assembléias familiares consistem em reuniões de algumas famílias, pais e filhos, durante as quais, com a ajuda de um dirigente, se reflete sobre os temas propostos.
A estrutura de cada reunião é muito simples: depois de um canto inicial e da oração do Pai Nosso, lê-se um trecho da Bíblia. Passa-se, em seguida, à leitura do tema, após a qual o padre ou o dirigente podem fazer uma breve reflexão que introduza os participantes ao diálogo e à adoção de um compromisso. A reunião termina com as orações da Ave Maria e da Evangelium Vitae e com um canto final. Os temas de reflexão e diálogo são adequados à preparação do Jubileu das Famílias, tanto para aqueles que forem a Roma nos dias 14 e 15 de outubro deste ano, como para aquelas famílias que celebrarão seu Jubileu em suas respectivas Dioceses.

Índice
1.O dom da vida
2.Os filhos: sinal e fruto do amor conjugal
3.A dignidade sublime da criança
4.Paternidadematernidade, participação na criação
5.A responsabilidade de transmitir a vida e proteger as crianças
6.Os direitos da criança
7.As crianças ante a cultura de morte
8.A gravidade do crime do aborto
9.Filhos, órfãos de pais vivos
10.O direito das crianças a serem amadas, acolhidas e educadas em família
11.A educação sexual da criança: verdade e significado
12.O direito dos filhos a serem educados na fé

1. O dom da vida Canto inicial Oração do Pai Nosso Leitura Bíblica
Tu formaste os meus rins, tu me teceste no seio materno. Eu te celebro por tanto prodígio, e me maravilho com as tuas maravilhas. Conhecias até o fundo do meu ser: meus ossos não te foram escondidos quando eu era feito, em segredo, tecido na terra mais profunda. Teus olhos viram o meu embrão. No teu livro estão todos inscritos os dias que foram fixados, e cada um deles nele figura (Sl 139,1315).

Reflexão
Dom para os pais.
É mesmo verdade que o novo ser humano constitui um dom para os pais? Um dom para a sociedade? À primeira vista, nada o parece indicar. Por vezes, o nascimento de um ser humano parece reduzir-se a um simples dado, registrado como tantos outros nas estatísticas demográficas.
Certamente, o nascimento de um filho significa para os pais ulteriores canseiras, novos encargos econômicos, outros condicionamentos práticos: motivos esses que podem induzi-los na tentação de não desejarem outro nascimento. Em alguns ambientes sociais e culturais, então, a tentação faz-se ainda mais forte. Mas o filho não é um dom? Vem só para consumir, e não para dar? Eis algumas perguntas inquietantes, de que o homem de hoje tem dificuldades em libertar-se. O filho vem ocupar espaço, quando espaço no mundo parece haver cada vez menos. Mas, é mesmo verdade que ele não dá nada à família e à sociedade? Porventura não é uma parcela daquele bem comum, sem o qual as comunidades humanas se fragmentam e correm o risco de morrer? Como negá-lo? A criança faz de si um dom aos irmãos, às irmãs, aos pais, à família inteira. A sua vida torna-se dom para os próprios doadores da vida, que não poderão deixar de sentir a presença do filho, a sua participação na existência deles, o seu contributo para o bem comum deles e da família. Não obstante toda complexidade, ou mesmo a eventual patologia da estrutura psicológica em certas pessoas, esta verdade permanece óbvia na sua simplicidade e profundidade.
Dúvida e perplexidade.
O progresso científico-técnico que o homem contemporâneo amplia continuamente no domínio sobre
a natureza, não só desenvolve a esperança de criar uma humanidade nova e melhor, mas gera também
uma sempre mais profunda angústia sobre o futuro. Alguns se perguntam se viver é bom ou se não
teria sido melhor nem sequer ter nascido. Duvidam portanto da liceidade de chamar outros à vida,
que talvez amaldiçoarão a sua existência num mundo cruel, cujos terrores nem sequer são previsíveis.
Outros pensam que são os únicos destinátarios das vantagens da técnica e excluem os demais, impondo-lhes meios contraconceptivos ou técnicos ainda piores. Outros ainda, manietados como estão pela mentalidade consumística e com a única preocupação de um aumento contínuo de bens materiais, acabam por não chegar a compreender e, portanto, por rejeitar a riqueza espiritual de uma nova vida humana. A razão última destas mentalidades é a ausência de Deus no coração dos homens, cujo amor só por si é mais forte do que todos os possíveis medos do mundo e tem o poder de os vencer. Nasceu assim uma mentalidade contra a vida (antilife mentality), com emerge de muitas questões atuais: pense-se, por exemplo num certo pânico derivado dos estudos de ecólogos e futurólogos sobre a demografia, que exageram, às vezes, o perigo do incremento demográfico para a qualidade da vida.
Sim à vida.
Mas a Igreja crê firmemente que a vida humana, mesmo se débil e com sofrimento, é sempre um
esplêndido dom do Deus da bondade. Contra o pessimismo e o egoísmo, que obscurecem o mundo,
a Igreja está do lado da vida: e em cada vida humana sabe descobrir o esplendor daquele Sim,
daquele Amém que é o próprio Cristo (cfr. 2Cor 1,19; Ap 3,14). Ao não que invade e aflige o
mundo, contrapõe este Sim vivente, defendendo deste modo o homem e o mundo de quantos
insidiam e mortificam a vida. A Igreja é chamada a manifestar novamente a todos, com uma firme e
mais clara convicção, a vontade de promover, com todos os meios, e de defender contra todas as
insídias a vida humana, em qualquer condição e estado de desenvolvimento em que se encontre. Por
tudo isso a Igreja condena como ofensa grave à dignidade humana e à justiça todas aquelas atividades
dos governos ou de outras autoridades públicas, que tentam limitar por qualquer modo a libertade dos
cônjuges na decisão sobre os filhos.

Reflexões do sacerdote ou do dirigente Diálogo
Cada filho é para nós um dom? Deixamo-nos influir pela mentalidade comum que rejeita a
criança, especialmente se foi concebida num ato de violência, ou se vai nascer deficiente?
Qual é nossa atitude para com os pais que têm dificuldades em acolher o dom dos filhos?
Estamos dispostos a ajudá-los?
Ave Maria, cheia de graça…; Rainha da Família, rogai por nós! Oração da Evangelium Vitae
Canto Final

2. Os filhos: sinal e fruto do amor conjugal
Canto inicial
Oração do Pai Nosso
Leitura Bíblica
Os filhos são a herança de Yahweh, é um salário o fruto do ventre. Como flechas na mão de um guerreiro são os filhos da juventude. Feliz o homem que encheu sua aljava com elas; não ficará envergonhado frente às portas, quando litigar com o inimigo (Sl 127,3.5).
Reflexão
A imagem divina no homem
Com a criação do homem e da mulher à sua imagem e semelhança, Deus coroa e leva à perfeição a
obra de suas mãos: Ele chama-os a uma participação especial do seu amor e do seu poder de Criador e de Pai, mediante uma cooperação livre e responsável deles na transmissão do dom da vida humana. Assim, a tarefa fundamental da família é o serviço à vida. É realizar, através da história, a bênção originária do Criador, transmitindo a imagem divina pela geração de pessoa a pessoa (Cfr. Gên 5,13).
A fecundidade é o fruto e o sinal do amor conjugal, o testemunho vivo da plena doação recíproca dos esposos: O cultivo do verdadeiro amor conjugal e toda a estrutura da vida familiar que daí promana sem desprezar os outros fins do matrimônio, tendem a dispor os cônjuges a cooperar corajosamente
com o amor do Criador e do Salvador que por intermédio dos esposos aumenta e enriquece diariamente Sua família. A fecundidade do amor conjugal não se restringe somente à procriação dos filhos, mesmo que entendida na dimensão especificamente humana: alarga-se e enriquece-se com todos aqueles frutos da vida moral, espiritual e sobrenatural que o pai e a mãe são chamados a doar aos filhos e, através dos filhos, à Igreja e ao mundo. A doutrina da Igreja sobre a transmissão da vida se colocase hoje numa situação social e cultural que a torna mais difícil de ser compreendida e ao mesmo tempo mais urgente e insubstituível para promover o verdadeiro bem do homem e da mulher.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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