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  • José Moscati, O médico santo – EB

    Categoria: Artigos



    Em síntese: Giuseppe Moscati foi um leigo, médico, professor universitário, pesquisador, que se tornou santo através do exercício mesmo da sua  profissão. Via os pacientes como irmãos que dele esperavam não somente o alívio do corpo, mas também o incentivo espiritual. Dedicava-se-lhes nos Hospitais e em seu consultório, procurando estar sempre em dia com a ciência a fim de melhor servir aos enfermos. Desprendido de bens materiais e de seus interesses particulares, não raro dava também dinheiro aos clientes mais necessitados, de modo que morreu pobre. Deixou notas  pessoais e cartas várias, que revelam o segredo de sua nobreza de caráter ou a sua profunda vida de oração e união com Deus.

    Beatificado por Paulo VI em 16/11/1975, foi canonizado em 25/10/1987, por ocasião do Sínodo Mundial dos Bispos referente aos Leigos. São José Moscati é um testemunho de como, no mundo de hoje e no exercício de uma profissão de grande relevo, pode o cristão santificar-se, tornando-se herói de  virtudes, que em vida valeram a Moscati o título de “Médico santo”.

    A vida dos Santos é sempre um sinal que fala eloquentemente à humanidade, pois eles traduzem em termos concretos e vivenciais o que os livros apresentam em teoria; assim mostram que os mais belos ideais são viáveis e encontram, mesmo em época de materialismo, quem os ponha em prática com a  graça do Senhor Jesus. Por isto os mestres de espiritualidade recomendam a  todos os cristãos que periodicamente se voltem para a figura dos Santos, a fim de aprender deles, de modo vivencial, a arte da perfeição espiritual (que é também a plena humanização do indivíduo). Cada Santo tem suas peculiaridades, evidenciando que, com qualquer temperamento e em qualquer vocação dados por Deus, a pessoa pode chegar à plenitude das suas virtualidades; na verdade, ninguém é chamado ao meio-termo ou à mediocridade.

    Tal foi o caso, entre outros, de Giuseppe Moscati (1880-1927), médico, professor universitário e pesquisador, que o Papa Paulo VI proclamou Bem-aventurado aos 16/11/1975 e João Paulo II canonizou aos 25/10/1987 (durante o Sínodo Mundial dos Bispos que tratava dos Leigos na Igreja).

    Segue-se um perfil da vida e da personalidade deste Santo.

    1. Dados biográficos

    Giuseppe Moscati, nasceu aos 25//07/1880 em Benevento  (Itália), de família íntegra; o pai, Francesco Moscati, era jurista, que chegou a ser Presidente do tribunal de Benevento e Conselheiro  do Tribunal de Recursos de Nápoles. A Sra. Rosa De Luca Moscati era, no dizer do filho Giuseppe, a mulher forte de que fala a S. Escritura em Provérbios 31,10-31.

    Desde 1884 a família morou em Nápoles, onde também Giuseppe viveu e morreu. Fez os estudos de Humanidades em Nápoles, onde entrou para a Faculdade de Medicina em outubro de 1897, com dezessete anos de  idade.

    Dedicou-se ardorosamente  ao estudo e à prática da Medicina, procurando sempre atualizar os seus conhecimentos. Conseguiu o Doutorado em Medicina aos 4/08/1903. Poucos meses depois, prestou concurso para trabalhar nos Hospitais de Nápoles; já o seu saber científico surpreendia os examinadores.

    Em 1908 foi nomeado Assistente Ordinário no Instituto de Química Fisiológica.  Conseguiu a Livre  Docência desta matéria em 1911, e a de Clínica Médica Geral em 1921. Em 1919 foi promovido a Diretor de Sala nos Hospitais Reunidos de Nápoles.

    Dedicou-se à pesquisa, em laboratório, sobre a ação dos amidos e da glicose no organismo humano. Publicou os resultados deste estudos em cerca de trinta relatórios e comunicações editados na Itália e no estrangeiro. Estes trabalhos o tornaram famoso e estimado tanto na sua pátria como fora desta. A convite do Governo italiano, viajou para diversos países da Europa a fim de participar de Congressos: em 1911, por exemplo, esteve em Viena (Áustria) como membro do Congresso Internacional de Fisiologia; em 19923, foi a  Edimburgo (Escócia), tomando parte no Congresso Internacional de Fisiopatologia.

    Morreu com a fama de sábio e santo aos 12/041927. Com efeito; aos 12 de abril de 1927, após a S. Missa e a Comunhão, o Prof. Moscati voltou à casa e preparou-se para seguir para o Hospital. Depois de fatigosa manhã de  trabalho, dispôs-se a enfrentar a  habitual fila de clientes em seu ambulatório. Mas às 15 horas retirou-se para um quarto, dizendo: “Estou-me sentindo mal”. Sentou-se numa poltrona, cruzou os braços sobre o peito, reclinou a cabeça, e, sem uma palavra, expirou. Tinha  47 anos de idade.

    2. A figura do médico

    Giuseppe Moscati era um apaixonado da Medicina; para ele, o contato diário com os doentes era uma necessidade. Logo que se formou, começou a servir no Hospital dos Incuráveis, que ele não deixou de frequentar até o fim da sua vida. Em suas notas pessoais, encontra-se o seguinte depoimento:

    “Quando rapaz, eu olhava com interesse para o Hospital dos Incuráveis, que meu pai apontava à distância, ou seja, do terraço de casa; isto me inspirava sentimentos de compaixão pela indizível dor dos enfermos, que naquele recinto procuravam alívio. Uma salutar perturbação me acometia e eu  começava a pensar na caducidade de todas as coisas e as ilusões se dissipavam, como caíam as flores dos laranjais que me  cercavam”.

    Como às flores sucedem os frutos, assim também na vida  de Moscati a perda de ilusões levou-o a um empenho realista e fecundo em favor dos seus irmãos sofredores. O papel do médico, Moscati o descreveu em carta dirigida a um seu aluno recém-formado:

    “Lembra-te de que, segundo a  Medicina, assumiste a responsabilidade de uma sublime missão. Persevera, com Deus no coração…, com amor e compaixão para com os que são abandonados, com fé e entusiasmo, surdo aos louvores e às críticas, insensíveis à inveja, disposto unicamente à prática do bem”.

    Vê-se que Moscati considerava o exercício da sua profissão como a resposta a uma vocação; ele queria dedicar-se a esta com fé e amor, inspirado pelas mais puras intenções. Passava  longas  horas do dia e da noite no laboratório para descobrir as causas das doenças e definir os respectivos  remédios; queria assim servir,… e servir  do melhor modo possível. A sua vida tornou-se uma resposta a Deus, que o colocou no mundo para agir segundo os planos do Criador; era também uma resposta às necessidades e aos sofrimentos dos homens. Assim escreveu ele num pedaço de papel encontrado entre outros documentos:

    “Seja a  dor considerada não como uma oscilação ou uma contração muscular, e sim como o grito de uma alma, de  um irmão, ao qual outro irmão, o médico acode com o calor do amor  ou a caridade”.

    Em carta escrita a um médico, seu ex-aluno, pode-se ler:

    “Recorda-te de que te deves ocupar não apenas com o corpo, mas também com as almas”.

    Com estas palavras, Moscati revelava seu zelo pela pessoa do enfermo, que freqüentemente deseja encontrar no médico mais do que um profissional ou um técnico, e sim também um estímulo e reconforto. É o que aparece em outro escrito de Moscati:

    “O médico acha-se em posição privilegiada, pois freqüentemente está diante de pessoas que, apesar dos seus erros  passados, estão dispostos a voltar aos bons  princípios herdados de seus antepassados; estão ansiosas por encontrar apoio premidas pela dor. Feliz o médico que sabe compreender o mistério desses corações e inflamá-los novamente!”

    “Felizes nós, médicos, muitas vezes incapazes de debelar uma doença! Felizes nós, se nos lembramos de que, além dos corpos, temos  diante de nós almas imortais,… em relação às quais urge o  preceito evangélico de amá-las como a nós mesmos”.

    “Os doentes são a imagem de Jesus Cristo e aos atribulados são os diletos e preferidos de Deus”.

    O seu amor pelos doentes não lhe deixava tréguas: durante o dia estava nos Hospitais, na cátedra universitária, em visita aos doentes, especialmente aos mais miseráveis; e de noite dedicava bom espaço  de tempo ao estudo, a fim de sempre oferecer aos pacientes e alunos o melhor que pudesse saber e adquirir. Mesmo durante o dia, quando o Prof. Moscati voltava dos Hospitais para casa, encontrava a sua residência cheia de pacientes à espera.

    3. O homem de Deus

    Tal dedicação não era interesseira. Muito pelo contrário. Praticava o desapego dos bens materiais. Quando julgava os emolumentos elevados demais, restituía a metade, ou mais do que isto, aos seus clientes. Do mais necessitados não cobrava honorários, dizendo que o importante era curá-los. Na sala de espera do seu consultório havia um cesto onde os clientes podiam depositar o preço da consulta. Certo dia, pouco após a guerra de 1914-18, apareceu-lhe  um homem que estivera na frente de batalha. Após o atendimento, perguntou o paciente ao médico: “Quanto lhe devo, professor?” O doutor sorriu: “Pensa, antes do mais, em ficar bom. Se podes, coloca no cesto o que queres, mas, se precisas, tira aquilo que te é necessário”. Não raro era Moscati quem pagava aos seus doentes: alguns destes encontravam uma quantia em notas debaixo do travesseiro; outros, dentro do envelope portador da  receita… Eram proverbiais as suas iniciativas neste particular, de modo que Moscati morreu pobre.

    Os seus costumes irrepreensíveis e a sua piedade valiam-lhe zombarias de muitos, que o acusavam de louco de “maníaco religioso”, pois não o podiam atacar no plano científico e profissional. Moscati não fazia caso disso. Encontra-se mesmo em suas Notas particulares a seguinte norma:

    “Ama a Verdade. Mostra-te como és, sem disfarces e sem fingimento. E, se a Verdade te custar a perseguição, aceita-a; e, se te acarretar tormentos suporta-os. E, se por causa  da Verdade tivesses que sacrificar a  ti e a tua vida, sê forte no sacrifício” (17/10/1922).

    Moscati conhecia as intrigas, as rivalidades, os comprometimentos usuais entre colegas para chegar a posições  vantajosas na carreira médica. Lutou, porém, para acabar com práticas e costumes pouco honestos nos Hospitais, não somente porque degradam a figura do médico, mas também  porque prejudicam a formação dos estudantes, futuros médicos, e causam danos aos próprios pacientes. Combatia, pois, o nepotismo, o proteccionismo e o favoritismo nos concursos e nas promoções de carreira, que muitas vezes redundam em baixa de nível profissional e, indiretamente, em detrimento dos enfermos.

    A essa retidão de costumes o médico e professor sabia associar profunda humildade; dizia que “o Senhor lhe concedera a graça de compreender que Ele é tudo e eu nada sou”. Tinha consciência de sua absoluta dependência em relação ao Senhor da vida.

    O segredo dessa nobreza de caráter era a vida interior ou a união com Deus cultivadas por Moscati. Começava o dia dirigindo-se, muito cedo, à igreja de Gesù Nuovo, onde recebia a S. Eucaristia. As suas Notas pessoais revelam que ele sabia falar a Cristo com a simplicidade de uma criança, exprimindo-lhe quanto experimentava em sua alma. Quando tinha um pouco de lazer, passava muito tempo na igreja em oração e adoração.

    Como se vê, Giuseppe Moscati abraçou, à luz da fé, “a sublime profissão de médico”, que ele considerava um serviço de amor apostólico e um culto prestado a Deus na pessoa dos irmãos sofredores. Durante a sua breve existência terrestre, cuidou de milhares de pessoas, para as quais foi instrumento de recuperação da saúde; os seus contemporâneos pareciam entrever em sua pessoa e em seu modo de agir um aceno à bondade do próprio Deus. Daí a palavra que de boca se propagava, quando faleceu aos 47 anos de idade: “Morreu o professor santo!”

    Leigo médico, cientista e santo. Estas palavras resumem uma existência, delineiam um ideal e abrem um caminho, suscitando a imitação de quantos se achem hoje em circunstâncias de vida semelhantes.

    A propósito pode-se consultar o artigo “II Médico Santo: Giuseppe Moscati”, de Paolo Molinari S. J. em “La Civiltà Cattolica” n.º 3297, 07/11/87, pp. 236-248. Destas páginas foram transcritos os textos de Moscati citados; nas mesmas é indicada ampla bibliografia.

    Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
    D. Estevão Bettencourt, osb
    Nº 315 – Ano 1988 – p. 377


    Prof. Felipe Aquino

    assessoria@cleofas.com.br

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.