Jorram Sangue e Água (Jo 19, 34s) – EB

Do lado de Cristo pendente da Cruz e aberto pela lança do soldado jorraram sangue e água (cf. Jo 19,34s). O evangelista S. João dá grande importância a este fato aparentemente secundário: “Aquele que viu, dá testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro. E Ele (Jesus) sabe que João diz a verdade, para que vós creiais”.
Por que tanta ênfase em tal pormenor?  Por causa do significado simbólico que têm esses dois elementos, simbolismo explanado pelos antigos escritores cristãos, fazendo eco genuíno ao pensamento do evangelista; este escreveu uma obra que se compraz em fazer do visível o sinal do Invisível ou do Transcendental.
A água significa o Batismo, apresentado por Jesus a Nicodemos como sendo um renascer da água e do Espírito (cf. Jo 3,5). A água, vivificada pelo Espírito e feita sacramento, é o canal pelo qual passa a vida do Filho de Deus para aqueles que são feitos filhos adotivos ou filhos no filho.
O sangue que jorra do lado de Cristo, significa a Eucaristia, o sacramento central ou o ponto alto da comunhão dos homens com Deus.
Estes dois sacramentos constroem a Igreja; enxertando os fiéis em Cristo, perfazem o Corpo Místico ou a Igreja. Pode-se então dizer que esta nasce do lado de Cristo pendente da Cruz, como Eva teve origem do lado de Adão adormecido, conforme Gn 2, 21s (numa exegese literal do texto sagrado). A Igreja é a nova Eva (Mãe da Vida)¹, que nasce do novo Adão (Jesus Cristo).
Dilatemos o nosso horizonte… A humanidade de Jesus foi o templo da Divindade ou a vida do próprio Deus: “No Logos estava a vida… E o Logos se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 4.14). Enquanto habitava visivelmente com os homens, o Logos comunicava-lhes a vida mediante os seus gestos e as suas palavras: tocando-os com as mãos e ungindo-os com lodo ou saliva, ele curava leprosos e cegos e restituía a vida aos mortos, significando assim que Ele viera para recriar ou restaurar o homem ferido pelo pecado. Uma vez terminada a sua carreira mortal, não terminou a sua obra de recriação; Ele continua a restaurar os homens comunicando-lhes a vida do Pai não mediante os gestos e as palavras de sua humanidade peregrina, mas mediante a água, o pão, o vinho, o óleo, as palavras e os gestos que perfazem a ordem sacramental e prolongam, de certo modo, a sua humanidade através dos séculos. Assim os sacramentos ministrados na Igreja e pela Igreja vêm a ser os filetes capilares que põem a todo momento os homens em contato com a eternidade e dão valor transcendental à vida de todo cristão.
São estas algumas reflexões que a celebração da Páscoa neste mês de abril nos sugere, fazendo-nos contemplar na Paixão e Morte do Senhor a vitória da Vida sobre o pecado e a morte.

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¹ Maria Ssma., como protótipo e miniatura da Igreja, participa do título e da função de nova Eva. Ela é a Mãe da Vida (Jesus Cristo).

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 443, Ano 1999, p. 145

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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