Jesus sabia que era Deus? EB (Parte 3)

Fé da Igreja e Mentalidade Moderna

A última Parte do livro considera objeções que a Filosofia moderna levanta contra a tese de que Jesus sabia que era Deus. A primeira questão assim se formula:

3.1. Jesus tão clarividente era realmente homem?

Eis a dificuldade: Se Jesus tinha consciência de ser verdadeiramente Deus, preexistente na glória desde toda a eternidade, Ele já não é verdadeiro homem, semelhante a seus irmãos em tudo, exceto no pecado (cf. Hb 4,15). Com efeito; como podia sofrer profundamente se Ele conhecia o desfecho glorioso do seu sofrimento? O grande teólogo Hans Urs von Balthasar enfatiza o problema dizendo: “Jesus é homem autêntico, e a nobreza inalienável do homem consiste em poder, ou mesmo dever, projetar livremente o plano de sua existência num futuro que ele ignora… Privar Jesus dessa chance é fazê-lo avançar para um termo conhecido de antemão e distante apenas no tempo; isto redundaria em despojá-lo da sua dignidade do homem” (pp. 102s da obra de Dreyfus).

A tal objeção Dreyfus responde com as seguintes ponderações:

1) Quem aceita a posição de Urs von Balthasar, dirá que os mestres e Santos de todos os tempos “despojaram Jesus de sus dignidade de homem”. Para eles era límpida e clara a afirmação de São João ao falar da Paixão de Jesus: “Sabendo tudo que lhe ia acontecer, Jesus adiantou-se…” (18,4; ver também Jo 13,1). Jesus sabia de antemão o que aconteceria em breve: a Paixão, a Crucifixão e a Ressurreição. Ora pergunta-se: será que todos os mestres ignoraram, até o século XX, o que é “ser homem autêntico” em sua nobreza e em sua dignidade? Seríamos nós superiores, neste ponto, aos Evangelistas e a toda a Tradição?

2) A definição de “homem autêntico” depende da pré-compreensão ou das premissas de quem a formula. Filósofos e exegetas partem de premissas diversas e, por isto, formulam definições diferentes de “homem autêntico”; na verdade, o herói que vai ao encontro de um desafio previamente conhecido e bem ponderado, pode ser tão nobre e generoso quanto aquele que vai ao encontro do desconhecido. Ora diante da gama de premissas ou pré-compreensões possíveis, Dreyfus prefere ficar com a Tradição da Igreja. A pré-compreensão de “homem autêntico” na Tradição cristã não exclui a pré-ciência de Jesus.

3) Qual seria então o significado de “Jesus é verdadeiro homem” para a Tradição cristã? – Ei-lo enunciado em poucos itens:

Jesus compartilhou a sorte de todo homem no tocante às alegrias, aos sofrimentos e à própria morte;

b) Jesus foi infinitamente superior a todos os homens no plano da vida moral ou na santidade;

c) Embora fosse verdadeiro homem, Jesus se distingue dos outros homens sob certos aspectos, derivados da união hipostática ou do fato de que, conforme o Concílio de Calcedônia (451), nele há um só eu (uma só pessoa, um só sujeito divino) e duas naturezas (a divina e a humana). Ele, como Deus que era, podia realizar milagres mediante a sua natureza humana (esta era carnal do poder de Deus). Assim também, como Deus que era, Ele possuía a oniciência de deus, que se expressava por conceitos e palavras humanas, frutos de uma inteligência humana; a inteligência divina do verbo se comunicava à inteligência humana de Jesus segundo as capacidades desta. Jesus, enquanto homem, sabia tudo o que Deus sabe, dentro das modalidades de toda inteligência humana. O saber divino do Verbo era comunicado ao saber humano do filho de Maria para que Ele o pudesse utilizar.

Na verdade, Jesus, como homem, foi semelhante a nós em tudo, excetuados aqueles pontos em que a semelhança dificultaria a sua missão de Salvador. Isto quer dizer que Ele teve a santidade perfeita e também o conhecimento do plano de Deus e do seu próprio mistério (mistério da Encarnação).

Passemos agora diretamente à questão do sofrimento de Jesus.

Jesus sofreu realmente?

Como dito atrás, se Jesus conheceu o desfecho glorioso da sua paixão, parece entrar em xeque a autenticidade de sua dor.

A esta objeção responde Dreyfus:

– O conhecimento que Jesus tinha de sua Divindade e da sua glorificação, não tornou seus sofrimentos mais leves, como querem crer autores contemporâneos. O contrário é que é verdadeiro: a Paixão de Cristo tornar-se-ia banal se minimizássemos a consciência que Jesus tinha do seu mistério da sua eminente dignidade de Filho de Deus e da sua missão de Salvador; sim, muitos homens sofreram, em seu físico, mais do que Jesus, pois Cristo ficou pendente da Cruz durante três horas apenas, ao passo que naquela época os crucificados pendiam vários dias, e era absolutamente proibido abreviar seus sofrimentos dando-lhes o golpe de misericórdia, que eles impetravam suplicantes. Se, ao contrário, admitimos que Jesus sabia ser o Filho de Deus, que veio salvar o mundo, os seus sofrimentos tomam dimensão muito mais profunda e atroz: eram os de uma Pessoa Divina, que conscientemente sofria na natureza humana assumida em nosso favor. A dignidade infinita daquele que sofria, fazia que a dor de Jesus tivesse intensidade única e insuperável. Ele sofria não apenas em seu corpo ferido, mas também em seu coração, vítima de um amor que os homens escarneciam e haviam de escarnecer até o fim dos séculos. Jesus padecente via com clareza única e hediondez do pecado, que é ódio a Deus e fator de desgraças para os homens, e que se repetiria ingratamente até o fim dos séculos.

Jesus quis voluntariamente mergulhar no abismo da dor; quis experimentar o que o homem experimenta quanto peca, a ponto de exclamar na Cruz, compartilhando a solidão do pecado: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34; cf. Sl 21,2). O Pai não abandonara Jesus nem Jesus perdera a consciência de ser o Filho bem-amado; mas Cristo, durante a sua Paixão, quis baixar um véu sobre a luz da presença do Pai, que brilhava somente no fundo mais íntimo do seu ser, sem iluminar a sua inteligência, a sua vontade e a sua sensibilidade, imersas nas trevas mais densas.

Jesus não só conheceu, mas também quis de antemão, todo esse sofrimento, pois sabia que isso transfiguraria a sorte do homem réu, acabrunhado pela dor. Ele mesmo dizia: “Devo receber um batismo, e quanto me angustio para que ele seja consumado!” (Lc 12, 50). Ou ainda: “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15, 13). Mais: “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate pela multidão” (Mc 10, 45).

Desenvolvamos ainda esta temática, considerando outro título de objeções.

Ciência e ignorância de Jesus

Certos textos do Evangelho insinuam ignorância ou erro de Jesus sobre determinados pontos. Antes, porém, de abordá-los, seja colocada uma questão de ordem:

Jesus na terra via Deus como os Santos o veem no céu?

Os teólogos hoje costumam responder negativamente a esta pergunta. Todavia um exame atento do quarto Evangelho leva à afirmativa, em consonância com autores antigos e medievais e, recentemente, com o Papa Pio XII na encíclica sobre o Corpo Místico (1943)¹.

Com efeito; no Evangelho segundo João, parece indubitável que Jesus gozava plenamente do conhecimento do pai que Ele tinha antes da Encarnação:

“Deus, ninguém jamais O viu. O Filho Único, que está no seio do Pai, no-lo revelou” (Jo 1,18)².

“ninguém viu o Pai a não ser aquele que vem de Deus. Este, sim, viu o Pai” (Jo 6,46).

“Quanto a mim, digo o que vi junto do meu Pai” (Jo 8,38).

“Aquele que vem do céu (Jesus), dá testemunho do que viu e ouviu” (Jo 3, 32).

Estes testemunhos são menosprezados pelos exegetas que recusam o valor histórico do quarto Evangelho. É de notar, porém, que o Evangelista está convicto de apresentar o Jesus da história (cf. Jo 19, 35; 21,24). De resto, não há razão científica para rejeitar o quarto Evangelho, fruto da reflexão do discípulo que Jesus amava e que aprofundou durante séculos os dizeres do Mestre antes de os escrever. Consequentemente, dir-se-á que os textos atrás citados correspondem exatamente ao que Jesus dizia e pensava de si mesmo. Jesus na terra gozava daquele conhecimento do Pai que tinha desde toda a eternidade.

Os demais escritos do Novo Testamento corroboram, indiretamente, esta conclusão pelo fato de que nunca falam da fé de Jesus. Em Hb 3,2.5 lê-se que Jesus foi fiel (pistós), como em 1Cor 1,9 São Paulo diz que Deus é fiel. Todavia a epístola aos Hebreus não menciona a fé de Jesus, embora o capítulo 11 desta carta desse ótimo ensejo a isto (trata da fé dos heróis do Antigo Testamento). A razão deste silêncio pode ser encontrada em 2 Cor 5,6s, onde o Apóstolo diz que a fé é o regime “dos que vivem no exílio, longe do Senhor”, regime contraposto ao da “visão clara”. Não se pode dizer que os autores do Novo Testamento sentiam, quase instintivamente, que a condição de mero peregrino não era a condição de Jesus sobre a terra?

Para ilustrar a visão que Jesus, como homem, tinha do Pai sobre a terra, os teólogos a assemelham à visão de Deus face-à-face que toca aos justos na bem-aventurança celeste (cf. Mt 5,8; 1Cor 13,12; 1Jo 3,2; Ap 22,4). Além dessa intuição direta, Jesus, como homem, tinha o que se chama “a ciência adquirida”, resultado da experiência e do estudo; esta se desenvolvia normalmente, como em todos os homens (cf. Lc 2,52); era esta ciência que Jesus utilizava sempre que o desempenho da sua missão não exigisse o recurso a conhecimentos mais profundos.

Há, porém, quem replique: um Jesus tão rico em saber ou dotado do saber divino em sua inteligência humana já não é semelhante aos homens em tudo, exceto no pecado (cf. Hb 2,17; 4,15). – Responde Dreyfus: a figura de Jesus pode ser comparada à do artista; este (músico, poeta, pintor…) tem uma intuição genial; vê o inefável e incomunicável e tenta fazer passar essa intuição para o plano das suas faculdades humanas, limitadas, exprimindo palidamente através da suas obras artísticas aquilo que ele intui e que é sempre mais profundo ou maior do que os seus meios de expressão. Um Gênio artístico permanece sempre homem autêntico, filho da estirpe humana. Assim também foi Jesus.

E agora vamos diretamente aos textos que falam de

A “ignorância” de Jesus

Consideremos três passagens:

1) Mc 10, 18: Ao jovem que o chama “Bom Mestre”, Jesus responde: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus só”. Com isto queria Jesus negar a sua natureza divina? – Tal interpretação não corresponderia ao conjunto de afirmações do Novo Testamento sobre Jesus. A explicação autêntica do texto é a seguinte: o jovem percebeu, na pessoa e na pregação de Jesus, uma profundidade e um encanto que O exaltavam acima dos rabinos; por isto deu-lhe um atributo que não era concedido aos rabinos, mas caracterizava tão somente Deus. Jesus então quis ajudá-lo a completar a sua intuição: já que o jovem percebia em Jesus algo mais, a ponto de Lhe atribuir um predicado exclusivo de Deus, compreendesse claramente que bom é só Deus e que, por conseguinte, Jesus era Deus.

2) Mt 10, 23: “Em verdade eu vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel até que venha o Filho do Homem”.

Mc 9, 1: “Em verdade eu vos digo que alguns dos que estão aqui presentes não provarão a morte até que vejam o Reino de Deus”.

O Pe. Dreyfus comenta: “A explicação destes textos, a melhor sem comparação, é a que vê neles o anúncio do mistério pascal: paixão, Ressurreição, Ascensão, Pentecostes… Pois é pelo mistério pascal que o Reino de Deus veio em toda verdade. O fim do mundo apenas manifestará… o que estava na realidade presente e agindo poderosamente, mas só perceptível aos olhos da fé” (p. 132).

Poder-se-iam entender os mesmos textos no sentido de que Jesus se referia à queda de Jerusalém em 70 d.C., evento este que seria um prenúncio do juízo final ou da vinda do Filho do Homem em seu reino. Tal é, por exemplo, a interpretação adotada pela “Bíblia de Jerusalém” em nota a Mt 10, 23. Ver também PR 304/1987, p. 391.

3) Mc 13, 32: Jesus diz ignorar a data do juízo final porque não estava no âmbito da sua missão revelá-la aos homens, como foi dito atrás (ver p. 55).

Na Conclusão do livro, o Pe. Dreyfus faz uma síntese de seu arrazoado.

Não podemos deixar de reconhecer o valor de tal estudo. Chama a atenção para aspectos novos da clássica doutrina da Igreja, que é ilustrada e corroborada pela aplicação de exigente método de trabalho. Possam assim dissipar-se errôneas concepções recentes que, sem negar a Divindade de Jesus, tendem praticamente a reduzi-lo à qualidade de mero Profeta!

Ver a propósito um estudo da Comissão Teológica Internacional sobre a consciência que Jesus tinha de si e de sua missão, em PR 294/1986, pp. 482-497.

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¹ Tradução do Pe. José Nogueira Machado, que acrescenta oportunas “Notas do Tradutor” e faz a apresentação do livro. – Ed. Loyola 1987, 138 x 208 mm, 148 pp.
² Temos consciência de que as páginas subseqüentes serão densas e exigirão esforço de raciocínio do leitor em matéria muito elevada. Cremos, porém, que a questão do saber de Jesus, para ser tratada com a devida seriedade, deve ser estudada em termos precisos e técnicos. Daí a necessidade de paciência da parte do leitor.
³ “Le Verrier formulou uma hipótese de trabalho: as irregularidades nos movimentos dos astros era causados pela influência perturbadora de um planeta desconhecido. Colocou esse planeta na abóboda celeste (“suponhamos o problema resolvido”). E calculou a posição e as dimensões do planeta de maneira que ele causasse as mesmas perturbações que o astrônomo observara.
  Sabe-se que o planeta foi descoberto exatamente no lugar calculado” (p. 51).
¹ Jesus cita Dt 6,4 em Mc 12,29.
¹ “É claro, é normal, é natural que os discípulos mais afinados espiritualmente com o ensino de Jesus, os mais ligados a ele, tenham querido saber mais sobre o conteúdo de suas palavras enigmáticas. O espantoso, o incompreensível seria o contrário, a saber: que nenhum discípulo manifestasse o espanto, pusesse a mínima questão acerca dessa declarações misteriosas, desse comportamento insólito de Jesus ao chamar Deus de “Abbá” (p. 85).
¹ “Por aquela bem-aventurada visão de que gozava, desde que foi concebido no seio da Mãe de Deus…” (Denzinger-Schönmetzer, Enquirídio nº 3812).
² Este texto se compreende melhor se observamos que o Eclo 43,31 interroga: “Quem viu a Deus para que o possa descrever?” A resposta no Antigo Testamento seria: “Ninguém”. São João, porém, responde: “Jesus”.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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