Jesus sabia que era Deus? EB (Parte 2)

Segundo estádio: o ensino de Jesus aos discípulos

Na primeira fase de sua pregação, sobretudo na Galileia, Jesus se dirigia principalmente às multidões; quando estas se foram desligando dele, consagrou seu magistério, antes do mais, à formação dos discípulos. A estes Jesus se revelou mais precisa e explicitamente como Filho de Deus. Vejam os textos seguintes:

Jesus, o Filho de Deus

Mc 13,32: “Daquele dia e da hora ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, mas somente o Pai” (cf. Mt 24, 36). Neste texto há um crescendo: os anjos, o Filho, o Pai. O Filho está acima dos anjos. Quanto à sua “ignorância” do dia do juízo, há de ser entendida no sentido de que não estava na missão de Jesus revelar aos homens a data da consumação da história.

Mt 11,25-27: “Eu te louvo, ó Pai,… Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho a não ser o Pai, e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (cf. Lc 10,21s). – Com estas palavras Jesus presume ter um conhecimento do Pai incomparavelmente superior ao dos outros homens. Este é, na verdade, um não-conhecimento, se comparando ao de Jesus. Aqui temos uma declaração sem paralelo na Bíblia, no judaísmo e no helenismo. Nunca alguém pretendeu ser o único a conhecer Deus.

Reciprocamente, Deus é o único a conhecer a verdadeira personalidade de Jesus. Este traz em si um mistério só por Deus conhecido. Pergunta-se: se o Pai conhece perfeitamente o Filho porque o Pai é Deus, não se pode dizer que o Filho também conhece perfeitamente o Pai porque o Filho é Deus? A resposta positiva é lógica. Aos homens o Filho revela o Pai na medida em que O possam compreender.

Abbá

Jesus chamava Deus Abbá, papai, pai querido. Isto era totalmente inédito, pois nenhum judeu ousava interpelar Javé; este apelativo sugere uma intimidade singular entre Jesus e o Pai. Tenhamos em vista o texto de Mc 14, 36, em que Jesus ora dizendo: “Abbá, Pai…”; o mesmo vocábulo, em sua forma aramaica, ocorre na prece dos cristãos chamados a participar, a seu modo, de relação única do Filho com seu Pai:   

Rm 8, 15: “Não recebestes um espírito de escravos, para recair no temor, mas recebestes um espírito de filhos adotivos, pelo qual clamamos: Abbá! Pai” (cf. Gl 4,6).

Podemos supor o mesmo apelativo abbá nas fórmulas em que o texto grego emprega pater:

Mt 11,25s: “Por esse tempo, pôs-se Jesus a dizer: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e doutores e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado”.

Lc 23,34: “Jesus dizia; “Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem”.

Lc 23,46: “Jesus deu um grande grito: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”.

2.2.3. Terceiro estádio: Jesus e os discípulos mais chegados

É certo que, entre os Apóstolos, três gozavam de peculiar proximidade de Jesus: Pedro, Tiago e João; foram testemunhas exclusivas da ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,37), da transfiguração (Mc 9,2) e da agonia no horto das Oliveiras (Mc 14,33). Juntamente com André, foram ouvintes do discurso escatológico (Mc 13,3) e, a quanto parece, presenciaram a cura da sogra de Pedro (cf. Mc 1,29). É de crer que, como todo mestre, Jesus confiava aos seus seguidores mais íntimos verdades que os outros ainda não podiam compreender e que eles deveriam oportunamente transmitir aos demais Apóstolos e discípulos.¹ Tal prática era usual entre os judeus, como atestam os escritos apócrifos: Moisés, Elias, Baruque são fantasiosamente apresentados a confiar determinados ensinamentos a discípulos seletos, que deverão divulgar a mensagem no momento adequado.

Que terá Jesus transmitido a Pedro, Tiago, João e… André?

– Não temos, nos Evangelhos sinóticos (Mt, Mc, Lc), explícita notícia dessa doutrinação mais profunda. Todavia devemos levar em conta os seguintes dados:

Logo após Páscoa aparece, na pregação dos Apóstolos, a doutrina da preexistência e da Divindade de Jesus: a atitude do cristão para com Jesus Ressuscitado há de ser idêntica à do judeu em relação a Javé: At 9, 35; 11,21 (é preciso converter-se a Jesus); At 3, 16 (… crer em Jesus como em Javé). O hino de Fl 2,6-11, que parece anterior a São Paulo ou anterior ao ano 49, afirma que Jesus tem o nome inefável do próprio Deus (Kyrios) e recebe a adoração de todas as criaturas. Este mesmo hino professa a preexistência de Jesus: “Sendo de condição divina, não considerou o ser igual a Deus como algo a que se apegar ciosamente, mas esvaziou-se a si mesmo…” (Fl 2,6s). Outros textos evidenciam a fé da Igreja na preexistência de Jesus:

1Cor 8,6:  “Para nós existe um só Deus, o Pai… e um só Senhor Jesus Cristo, por quem tudo existe e por quem nós somos”;

2Cor 8,9: “Conheceis a generosidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, como por causa de vós se fez pobre, embora fosse rico, para vos enriquecer por sua pobreza”. Ver ainda Gl 4,4; Rm 8,3.32.

Coloca-se agora a pergunta: de onde surgiu a doutrina da preexistência e da Divindade de Cristo? – É um fato que pede explicação.

Responderemos por partes:

1) Não é plausível que os primeiros cristãos tenham criado ou forjado tal doutrina. – E por que não?

Os discípulos de origem judaica eram totalmente avessos a qualquer tipo de endeusamento; este feriria o monoteísmo, que Israel considerava seu privilégio exclusivo; cf. Mt 26,65; At 14,14; 17, 16; Sb 14,12-20. Verdade é que no Antigo Testamento a Sabedoria de Deus era considerada como preexistente à obra da criação (Pr 8,22; Sb 7,26; Eclo 24,1-5; Is 55,10s); mas tratava-se de mero artifício literário, que personificava apenas um atributo de Deus. Essa ficção literária não pode ter dado origem à noção de um Ser Divino (Jesus) que deve ser adorado como o Pai Celeste, sem se confundir com Ele.

De outro lado, os cristãos oriundos do paganismo não deviam estranhar a deificação de seus heróis, pois conheciam  “homens divinos”. Mas o surto tão rápido da doutrina da preexistência e da Divindade de Jesus entre  os cristãos deu-se nos primeiros anos da pregação cristã, quando a influência dos cristãos de origem pagã era nula ou quando a quase totalidade dos dirigentes da jovem Igreja era de origem judaica.

Quanto à ressurreição de Jesus, ela podia ser aceita pelos cristãos sem que fossem obrigados a admitir a preexistência e a Divindade de Jesus, pois havia no Antigo Testamento episódios de ressurreição (em 2Rs 4,34-36 Eliseu e o filho da Sunamita; em 2Rs o cadáver ressuscitou ao tocar os ossos de Eliseu). Sem dúvida, o fato da ressurreição ajudou os cristãos a aceitar a Divindade de Jesus, mas não fundamentou a crença nesta.

2) Por conseguinte, o surto da doutrina da preexistência e da Divindade de Jesus só pode ser explicado porque houve uma revelação do próprio Jesus a respeito,… revelação suficientemente credenciada para superar todas as resistências que tal doutrina deveria encontrar. A ressurreição de Jesus corroborou a crença anteriormente concebida pelos discípulos através dos ensinamentos de Jesus.

Tal revelação deve ter sido feita aos discípulos mais chegados a Jesus (Pedro, Tiago, João…). O Evangelho de São Jorge parece supor esse ensinamento mais profundo de Jesus, recebido pelo Apóstolo João, meditado e amadurecido durante decênios na consciência do Evangelista e de sua escola, de modo a se cristalizar finalmente no texto do quarto Evangelho. Neste lemos afirmações como: “Aquele que me viu, viu o Pai… Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim?” (Jo 14,9s);  “O Pai e eu somos um” (Jo 10,30); “Sejam todos um como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti” (Jo 17, 21); “Antes que Abraão existisse, Eu sou” (Jo 8,58).

Pergunta-se, porém: o Evangelista João terá sido fiel intérprete do pensamento de Jesus? Não terá criado uma imagem de Jesus fictícia ou falsamente divinizada? – Em resposta, observamos que o Evangelista faz questão de se apresentar como testemunha ocular e auricular (Jo 1,14; 19, 35; cf. Jo 21,24); é discípulo que Jesus amava e que esteve presente ao lava-pés (Jo 13,23), no Calvário (Jo 19, 25-27), na manhã de Páscoa junto ao sepulcro (Jo 20,2), no lago de Tiberíades (Jo 21,7).

O Evangelista São João, embora seja o mais teológico e profundo, é também o mais preciso em dados topográficos e cronológicos – o que mostra que, ao desenvolver sua teologia, ele não perdeu o contato com a realidade histórica, mas, ao contrário, transmitiu o sentido profundo dos ditos e feitos reais de Jesus.

Recapitulação

A temática até aqui desenvolvida abrange etapas sucessivas de um raciocínio perspicaz. É por isto que o Pe. Dreyfus, às pp. 84-86 do seu livro, apresenta, à guisa de recapitulação do seu arrazoado. Julgamos oportuno transcrever essa síntese.

“Formulamos a seguinte hipótese de trabalho: as afirmações cristológicas do Novo Testamento, em particular as do quarto evangelho, sobre a divindade e a preexistência de Cristo, correspondem ao que Jesus pensava de si próprio. E ele, Jesus, procurou transmitir esta convicção por sua palavra e por seus atos.

Tentamos determinar, de certa maneira a priori, de que modo Jesus seria obrigado a proceder, caso pretendesse comunicar essa certeza, suposta a mentalidade de seus ouvintes, o caráter absolutamente da mensagem que ele tencionava comunicar e as precauções que tinha de tomar para evitar as falsas interpretações de tipo politeísta. Lá concluímos que se impunha um método marcadamente progressivo: um anúncio muito velado à multidão, mais preciso aos discípulos já ligados ao Mestre e que o consideravam como profeta que transmite a verdade de Deus. Porém, uma revelação mais exata, não era possível fazê-la senão a um pequeno número de íntimos.

Faltava verificar essa hipótese de trabalho pela pesquisa histórico-crítica, à qual se consagraram os dois capítulos precedentes.

Terá sido concludente a verificação?

Dúvida não pode haver quanto à existência dos dois primeiros estádios. Menos evidente é a existência da terceira etapa; mas precisamente no decurso da pesquisa relativa a esse terceiro estádio foi apresentada uma argumentação que, por si só, basta para estabelecer a justeza da tese exegética proposta: Jesus estava convicto de sua preexistência e de sua divindade, e ensinou-as.

Desculpando-nos da repetição, apresentamos ainda uma vez este argumento que parece decisivo.

– A fé na preexistência e na divindade do Ressuscitado já se encontra largamente presente nas comunidades cristãs menos de vinte anos após a Páscoa.

– Nessa época, estava começando a evangelização do mundo pagão. O influxo dos cristãos de origem pagã no aparecimento dessa doutrina deve-se considerar desprezível. Logo, essa evolução aconteceu no meio judeu.

– Ora, o meio judeu era visceralmente alérgico a semelhante doutrina; parecia-se demais com a idolatria dos homens divinizados e dos deuses descendo à Terra, concepção tida em horror pelo povo judeu.

– Tal doutrina não podia impor-se senão graças a uma certeza capaz de romper todos os obstáculos: Jesus a ensinara e Deus tinha confirmado seu ensino pela Ressurreição. Não parece possível apresentar outra solução.

– Isto é confirmado pelo quarto Evangelho. Seu autor quer persuadir-nos de que esse Cristo que ele nos apresenta é mesmo o Jesus histórico que tinha a convicção de ser Filho de Deus, Deus ele próprio, e que disse isto mesmo. O historiador deve reconhecer a solidez dos argumentos que apoiam esta opinião (testemunhos internos do evangelho e atestações extrínsecas de santo Irineu).

Ficando estes pontos assentes, a existência do terceiro estádio (ensino de Jesus a discípulos privilegiados) torna-se verossímil que se pode considerar como estabelecido: só mesmo um auditório particularmente receptivo e já totalmente devotado a Jesus era capaz de acolher tal ensino e a seguir, após a Páscoa, difundi-lo, apesar de todos os obstáculos.

Concluindo, não se poderá dizer: há inegável correspondência entre, de um lado, a hipótese de trabalho anteriormente formulada… e, de outro, a pesquisa histórica que descrevemos?

A probabilidade de que nossa hipótese de trabalho corresponda à realidade parece extremamente forte, sobretudo dada a ausência de qualquer outra explicação válida para o mesmo dado”.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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