Jesus jamais condenou o homossexualismo – EB

Revista:
“PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D.
Estevão Bettencourt, osb


389 – Ano 1994 – p. 475

Em
síntese: Há quem alegue que na Bíblia não se encontra a palavra
homossexualismo; por isto não se pode dizer que a S. Escritura condena tal
prática. – Em resposta, observamos que, se a palavra não ocorre, ocorre, sim, o
conceito de homossexualismo, que é severamente condenado em Lv 20,13; Rm
1,23-27; 1Cor 6,9s.

Alega-se
também que Jesus jamais condenou o homossexualismo; se fosse tão grave, Ele o
teria repudiado. – Respondemos que  os
Evangelhos não pretendem ser um relato completo de tudo o que Jesus disse e
fez, como nota São João no final do seu Evangelho (cf. 20,30s; 21,25). Por isto
os Evangelhos hão de ser lidos no contexto dos demais escritos do Novo
Testamento; estes, sem dúvida, rejeitam o homossexualismo, como se depreende
dos textos atrás citados. – Ademais, antes que a Escritura condene tal prática,
a própria lei natural, incutida em todo ser humano, o rejeita, visto que a
natureza conhece dois sexos, que são complementares entre si.

A
campanha homossexualista não cessa de procurar justificar a prática que ela
propugna. Temos em mãos um panfleto intitulado “O que todo cristão deve saber
sobre homossexualidade”; foi-nos enviado com um pedido de esclarecimentos, que
passamos a propor, distinguindo quatro pontos do panfleto.

“Na Bíblia não se encontra a palavra Homossexualismo”

Assim
começa o impresso:

“Não
há na Bíblia nenhuma só vez as palavras Homossexual, Lésbica nem Homossexualismo. Todas as Bíblias que empregam estas expressões, estão erradas
e mal traduzidas. A palavra Homossexual só foi inventada em 1869, reunindo duas
raízes lingüísticas: HOMO (do grego, significa “igual”) e Sexual (do latim).
Portanto, como a Bíblia foi escrita de dois a quatro mil anos atrás, não
poderiam os escritores sagrados ter usado uma palavra só no século passado.
Elementar, irmão!

A
prática do amor entre pessoas do mesmo sexo, porém, é muito mais antiga que a
própria Bíblia. Há documentos egípcios de 500 anos antes de Abraão, que revelam
a prática do homoerotismo não só pelos homens, mas também entre os deuses Horus
e Seth. “O homossexualismo é tão antigo como a própria humanidade”, dizia o
célebre escritor Goethe”.

A
propósito observamos:

a)
a antiguidade da prática homossexual não é suficiente para legitimá-la. Nem
tudo o que é antigo, é aceitável;

b)
o fato de que a Bíblia nunca apresenta a palavra “homossexualismo”, nada quer
dizer; a Bíblia descreve o homossexualismo e condena peremptoriamente a sua
prática. Assim:

Lv
20,13; “O homem que se deita com outro homem como se fosse uma mulher, ambos
cometeram uma abominação; deverão morrer, e o seu sangue cairá sobre eles”.

Rm
1,23-27: “Trocaram a glória do Deus incorruptível por imagens do homem
corruptível, de aves, quadrúpedes e répteis. Por isto Deus os entregou, segundo
o desejo de seus corações, à impureza em que eles mesmos desonraram seus
corpos…, suas mulheres mudaram as relações naturais por relações contra a natureza;
igualmente os homens, deixando a relação natural com a mulher, arderam em
desejo uns para com os outros, praticando torpezas homens com homens e
recebendo em si mesmos a apaga de sua aberração”.

Não
resta dúvida, portanto, de que a S. Escritura rejeita severamente o
homossexualismo.

“Jesus jamais o condenou”

Mais
adiante diz o folheto em foco:

“O
maior argumento para se comprovar que as Escrituras Sagradas não condenam o
amor entre pessoas do mesmo sexo é o fato de que Jesus Cristo nunca falou alguma
palavra contra os homossexuais. Se o homossexualismo fosse uma coisa tão
abominável, certamente o Filho de Deus teria incluído esse tema em sua
mensagem. O que Jesus condenou, sim, foi a dureza do coração, a intolerância
dos fariseus hipócritas, a crueldade daqueles que dizem Senhor, Senhor!, mas
foi o próprio Messias quem deu o exemplo de tolerância em relação aos
“desviados”, andando e comendo com prostitutas, pecadores e publicanos. E tem
mais: Jesus Cristo mostrou-se particularmente aberto à homossociabilidade,
revelando carinhosa predileção por João Evangelista…”

A
propósito observamos:

a)
Os Evangelhos não são uma súmula teológica ou um compêndio sistemático das
verdades da fé e da moral cristã. Também os Evangelhos não pretendem
transmitir-nos tudo o que Jesus disse e fez. O próprio S. João no fim do seu
Evangelho o observa em duas passagens:

20,30s:
“Jesus fez, diante de seus discípulos, muitos outros sinais ainda, que não se
acham escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para crerdes que Jesus
é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo tenhais a vida em seu nome”.

21,25:
“Há muitas outras coisas que Jesus fez e que, se fossem escritas uma por uma,
creio que o mundo não poderia conter os livros que se escreveriam”.

Positivamente,
os Evangelhos são o eco da pregação oral dos Apóstolos. Esta não foi toda
consignada por escrito; ficou viva na Tradição oral da Igreja. Por isto, para
ler corretamente os Evangelhos, devemos colocá-los sempre dentro do quadro da
Tradição oral. Esta, de geração em geração, vem transmitindo as verdades que
não foram registradas nos escritos sagrados. Jamais será lícito isolar os
Evangelhos dos demais escritos bíblicos e da Tradição oral da Igreja. Ora é
certo que a Escritura condena o homossexualismo. Além dos textos já citados,
outros se podem aduzir:

1Cor
6,9s: “Não sabeis que os injustos não herdarão o Reino de Deus? Não vos
iludais. Nem os impudicos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os
depravados, nem os efeminados nem os sodomitas… herdarão o Reino de Deus”.

Nesta
passagem o Apóstolo se refere aos sodomitas, lembrando assim o episódio de
Sodoma, a cidade dos homossexuais que foi tremendamente punida, como narra Gn
19,1-29. – A propósito, porém, o panfleto que analisamos, levanta uma objeção:

Por
que os católicos conservam somente a condenação do homossexualismo dentre as
sentenças legislativas do Antigo Testamento e abandonam dezenas de outras
proibições decretadas pelo mesmo Senhor; assim esquecem que o Antigo Testamento
proibe comer carne de porco (cf. Lv 11,7); não obstante, os católicos comem
carne de porco.

Respondemos
que a proibição de homossexualismo é algo decorrente da própria natureza ou da
lei natural, como diremos mais adiante. Ao contrário, a proibição de comer
carne de porco é algo decorrente de uma lei positiva, lei momentânea,
passageira, não fundada na natureza humana como tal. A proibição de carne de
porco se devia, no Antigo Testamento, a uma norma de higiene: julgavam os
antigos que o porco era um animal imundo e contaminava os homens; por isto não
se devia comer a sua carne. Ora hoje pode-se pensar diversamente.

 b)
O final do texto atrás transcrito, em que se fala da homossociabilidade de
Jesus chega a ser irreverente ou blasfemo. – Jesus teve discípulos masculinos, porque
os homens eram tidos como indicados para continuar a história dos doze
Patriarcas do Antigo Testamento; a Igreja está fundada sobre os doze Apóstolos
(cf. Ap 21, 14), que representavam as doze tribos de Israel, cada qual
encabeçada por um dos filhos de Jacó.

A
Lei Natural

É
de notar que, antes mesmo que a Escritura condene o homossexualismo, a própria
lei natural o repudia. É uma aberração ou um desvio das funções que o Criador
instituiu. Se existem dois sexos, isto se dá precisamente para que um complemente
o outro; o homem tem predicados que a mulher não tem, e vice-versa. Por isto o
casamento só pode ocorrer natural e legitimamente entre homem e mulher.

Saul e  Jônatas

Lê-se
o seguinte no panfleto mencionado:

“Se
o homossexualismo fosse prática tão condenável, como justificar a indiscutível
relação homossexual existente entre o rei Davi e Jônatas? Eis a declaração do
salmista para o seu bem-amado: “Tua amizade me era mais maravilhosa do que o
amor das mulheres. Tu me eras deliciosamente querido!” (2Sm 1,26)… Negar o
amor homossexual entre estes dois importantes personagens bíblicos… é negar a
própria evidência dos fatos”.

Observamos
em resposta:

1)A
interpretação gay do texto bíblico é destituída de fundamento, como será
evidenciado a seguir. Mas, ainda que o vício existisse entre Davi e Jônatas,
não seria modelo aprovado pela Bíblia para legitimar o homossexualismo. A
Escritura narra também as fraquezas dos homens que Deus escolhe como seus
instrumentos.

2)
Na verdade, Davi parece ter nutrido para com Jônatas a amizade de dois bons
companheiros de luta, interessados em apaziguar os ânimos do rei Saul; Davi era
o perseguido e Jônatas o protetor de Davi. Esta atitude de Jônatas basta para
explicar a profunda gratidão e amizade de Davi para com Jônatas.

Notemos,
aliás, que Davi teve muitas mulheres – o que não se dá com os homossexuais
propriamente ditos. Seja citado o texto de 2Sam 5, 13-16:

“À
sua chegada de Hebron, tomou Davi ainda concubinas e mulheres em Jerusalém, e
nasceram-lhe filhos e filhas. Estes são os nomes dos filhos que lhe nasceram em
Jerusalém: Samua, Sobab, Natã, Salomão, Jebaar, Elisau, Nafeg, Jáfia, Elisama,
Baalida, Elifalet”.

Considerem-se
também os dizeres de 2Sm 16,21s, que falam repetidamente das “concubinas de
Davi”.

Ademais
é muito significativo o caso de Davi, que se apoderou da mulher Betsabéia, do
general Urias, e, por isto, mandou matar Urias expondo-o na frente de batalha
às invectivas do inimigo; cf. 2Sm 11,2-17. O texto sagrado dá a entender que
Davi se apaixonou por tal mulher e dela teve um filho, que morreu, e outro, que
foi o rei Salomão. Ora tais coisas não costumam acontecer aos homossexuais.
Donde se vê que gratuita é a hipótese de ter sido Davi um homossexual. Como
dito, mesmo que o tivesse sido, daí não se poderia depreender argumento nenhum
em favor do homossexualismo.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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