Japão e Brasil: descubra as diferenças!

No dia 11 de março de 2011 o Japão foi sacudido por um dos tsunamis mais violentos de que se tem notícia na história da humanidade. O que, talvez, nem todos saibam é que, em novembro, entre os escombros deixados pela fúria da natureza, foram encontrados carteiras e cofres com dinheiro e barras de ouro equivalentes a 125 milhões de reais. O “detalhe” é que todo o “material” foi entregue à policia, para que chegasse a seus respectivos proprietários.

Por se tratar de uma quantia relevante, também no Japão o fato mereceu certo destaque na mídia. A maior parte da população, porém, não entendeu a admiração suscitada pelo fato na imprensa internacional, já que, para ela, a honestidade faz parte da normalidade de uma sociedade adulta e organizada.

Para o Pe. Olmes Milani, um missionário scalabriniano nascido no Rio Grande do Sul e atuando entre os migrantes brasileiros no Japão há nove anos, «aqui, a honestidade não é notícia. É um hábito diário. Sua origem se perde nos séculos, mas recebeu forte impulso no tempo dos samurais, por volta dos séculos XII e XIII. O cerne da educação do povo consistia – e continua consistindo – na honradez, na honestidade e na lealdade. Hoje já não existem samurais, mas permanecem a cultura e a educação nas convicções do povo».

Ele confirma suas palavras com um exemplo: «Permitam-me que partilhe o que aconteceu comigo no mês de setembro, numa grande estação ferroviária de Tóquio, onde passam dezenas de milhares de pessoas por dia. Ao tirar do bolso o cartão eletrônico que permite o acesso à estação, uma nota de 5.000 yens – equivalente a pouco mais de RS 100,00 – caiu no chão, sem que eu percebesse. Eu já me havia distanciado uns metros das máquinas leitoras, quando percebi que alguém roçou alguma coisa no meu braço, com a tradicional expressão japonesa “sumimassen” – que significa “desculpe” -, e me entregou o dinheiro, dizendo que era meu e que o vira cair do meu bolso».

Concluindo, o padre explica: «Ao encontrar alguma coisa na rua, nas estações ou nos parques, ninguém leva para casa. O conceito popular no Brasil: “Achado não é roubado”, não existe no Japão. Os japoneses pensam diferente: “O que foi perdido não me pertence. Ele tem dono”. É muito bonito ver como as pessoas, ao encontrarem uma carteira ou qualquer objeto de valor no chão ou na rua, têm a delicadeza de colocá-lo sobre um muro próximo para ser visto, julgando que, quem o perdeu, voltará para o buscar. Não há dúvidas, no trigal ou arrozal as ervas daninhas crescem também. No Japão, elas existem, mas, em geral, podem ser consideradas exceções. Uma vez detectadas, a justiça faz a sua parte».

Não sei quais as lembranças que o Pe. Olmes guarda do Brasil. Mas, certamente, há muitas diferenças – e algumas semelhanças – entre ambos os países, como prova o fato ocorrido no mês de abril de 2011, no Rio de Janeiro.

O motorista de ônibus Joilson Chagas, de 31 anos, com um salário mensal de R$ 1.400,00, um filho de 14 anos e a esposa grávida, era uma das vítimas das chuvas que haviam castigado o Estado. Certo dia, ele encontrou no ônibus que dirigia, uma maleta com R$ 74.800,00. Sem delongas, procurou e devolveu ao dono a quantia. Resultado? Durante muito tempo, acabou ridicularizado pelos colegas, que o taxaram de bobo e careta. Jogaram seu crachá no vaso sanitário e escreveram na parede do banheiro: «Chagas otário!». A gozação dos companheiros confirma o que, com muita acuidade, escreveu Luís Fernando Veríssimo: «O Brasil é um país de corruptos sem corruptores!». Ou seja, no Brasil todos são contra a corrupção… feita pelos outros!

Não foi por nada que, em 2007, os bispos latino-americanos declararam no final de sua conferência, em Aparecida: «Cabe assinalar, como grande fator negativo em boa parte do Continente, o recrudescimento da corrupção na sociedade e no Estado, envolvendo os poderes legislativos e executivos em todos os níveis, alcançando também o sistema judiciário que, muitas vezes, inclina seu juízo a favor dos poderosos e gera impunidade, o que coloca em sério risco a credibilidade das instituições públicas e aumenta a desconfiança do povo, fenômeno que se une a um profundo desprezo pela legalidade».

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Dom Redovino Rizzardo

Bispo de Dourados (MS)

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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