Irlanda: gesto público de petição de perdão a vítimas de abusos sexuais

Arcebispo
de Dublin lava os pés de um grupo de vítimas

DUBLIN,
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) – A Igreja está em dívida com as vítimas de
abusos sexuais do clero que se recusaram a permanecer em silêncio, mesmo quando
confrontadas com a incredulidade, disse o arcebispo de Dublin, Dom Diarmuid
Martin, no último domingo, quando celebrou uma liturgia de Lamento e
Arrependimento na concatedral de Santa Maria, no contexto de sua visita
apostólica à arquidiocese de Dublin.

Durante a
celebração, que foi preparada principalmente pelas vítimas, o cardeal Sean
O’Malley, arcebispo de Boston, e Dom Martin lavaram os pés de um grupo de
pessoas que tinham sofrido abusos de diferentes maneiras.

O cardeal
O’Malley é um dos delegados apostólicos nomeados pelo Papa.

Em sua
homilia, Dom Martin refletiu: “Uma vez alguém me lembrou a diferença entre
pedir desculpas ou dizer ‘sinto muito’, por um lado, e pedir perdão, por outro.
Eu posso esbarrar em alguém na rua e dizer ‘sinto muito’. Podem ser palavras
significativas ou uma fórmula vazia. Quando eu digo ‘sinto muito’, isso depende
de mim”.

“Quando
eu peço perdão, no entanto, isso já não depende mais de mim. Estou nas mãos de
outros. Só vocês podem me perdoar, só Deus pode me perdoar”, disse o
prelado.

“Eu,
como arcebispo de Dublin e como Diarmuid Martin, permaneço aqui, em silêncio, e
peço perdão a Deus; e também rezo por estes primeiros passos de perdão de todos
os sobreviventes dos abusos”, disse ele.

Coragem

O arcebispo
falou de outro silêncio: um silêncio que é “falta de coragem e de
verdade”.

“Hoje,
há homens e mulheres nesta catedral a quem desejo expressar a nossa imensa
gratidão pelo fato de que não permaneceram em silêncio – disse ele. Apesar do
dano que isso supôs para eles, tiveram a coragem de falar publicamente, de
falar, falar e falar, uma e outra vez, com coragem, com determinação, mesmo
diante dos incrédulos e daqueles que os rejeitavam.”

O prelado
disse que a Igreja de Dublin, a Igreja do mundo inteiro, está em dívida com
estes sobreviventes.

“Alguns
de vocês, na sua dor e indignação, acabaram rejeitando a Igreja que uma vez
amaram, mas, paradoxalmente, seu abandono pode ter ajudado a purificar a
Igreja, através do desafio de enfrentar a verdade, para sair da negação e
reconhecer a maldade que já se fez e o dano que já se causou”, refletiu
Dom Martin.

“Eu os
convido a continuar falando – acrescentou. Ainda há um longo caminho nesta
jornada de honestidade, para que possamos realmente merecer o perdão.”

A cruz

O prelado,
de 65 anos, também refletiu sobre o silêncio de Jesus na cruz, marcado por suas
palavras finais, incluindo sua declaração de perdão a um dos ladrões
crucificados com ele.

“Este
perdão não é um perdão barato – disse o arcebispo. Um dos ladrões zombou de
Jesus, não reconheceu este ato de injustiça que estava ocorrendo. O outro
reconheceu sua própria culpa e este reconhecimento lhe abriu as portas para o
perdão.”

“Nenhum
daqueles que compartilharam a responsabilidade pelo que aconteceu na Igreja de
Jesus Cristo nesta arquidiocese pode pedir perdão aos que foram abusados sem
reconhecer a injustiça cometida e o próprio fracasso pelo que aconteceu.”

“Nós
nos reunimos sob o sinal da cruz, pela qual somos julgados, mas que, em última
instância, nos liberta”, acrescentou.

O arcebispo
Martin descreveu esta liturgia como “apenas um primeiro passo”.

“A
arquidiocese de Dublin nunca mais será a mesma – disse ele. Sempre haverá esta
ferida dentro dela. A arquidiocese de Dublin não poderá descansar até o dia em
que a última vítima encontrar a paz.”

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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