Instrução sobre as orações para alcançar a Deus a cura

Introdução

O anseio de felicidade,
profundamente radicado no coração humano, esteve sempre associado ao desejo de
se libertar da doença e de compreender o seu sentido, quando se a experimenta.
Trata-se de um fenômeno humano que, interessando de uma maneira ou de outra
todas as pessoas, encontra na Igreja particular ressonância. Esta, de facto, vê
a doença como meio de união com Cristo e de purificação espiritual e, para os
que lidam com a pessoa doente, como uma ocasião de praticar a caridade. Não é
só isso porém; como os demais sofrimentos humanos, a doença constitui um
momento privilegiado de oração, seja para pedir a graça de a receber com
espírito de fé e de aceitação da vontade de Deus, seja também para implorar a
cura.

A oração que implora o
restabelecimento da saúde é, pois, uma experiência presente em todas as épocas
da Igreja e naturalmente nos dias de hoje. Mas o que constitui um fenômeno sob
certos aspectos novo é o multiplicar-se de reuniões de oração, por vezes
associadas a celebrações litúrgicas, com o fim de alcançar de Deus a cura. Em
certos casos, que não são poucos, apregoa-se a existência de curas alcançadas,
criando assim a expectativa que o fenómeno se repita noutras reuniões do género.
Em tal contexto, faz-se por vezes apelo a um suposto carisma de cura.

Essas reuniões de oração
feitas para alcançar curas põem também o problema do seu justo discernimento
sob o ponto de vista litúrgico, nomeadamente por parte da autoridade eclesiástica,
a quem compete vigiar e dar as directivas oportunas em ordem ao correcto
desenrolar das celebrações litúrgicas.

Achou-se, portanto,
conveniente publicar uma Instrução, de acordo com o cân. 34 do Código de
Direito Canônico, que servisse sobretudo de ajuda aos Ordinários do lugar para
melhor poderem orientar os fiéis neste campo, favorecendo o que nele haja de
bom e corrigindo o que deva ser evitado. Era porém necessário que as
disposições disciplinares tivessem como ponto de referência um fundado enquadramento
doutrinal que garantisse a sua justa aplicação e esclarecesse a razão
normativa. A tal fim, fez-se preceder a parte disciplinar com uma parte
doutrinal sobre as graças de cura e as orações para alcançá-las.

Aspectos Doutrinais

Doença e cura: seu
significado e valor na economia da salvação

«O homem é destinado à
alegria, mas todos os dias experimenta variadíssimas formas de sofrimento e de
dor».(1) Por isso, o Senhor, nas suas promessas de redenção, anuncia a alegria
do coração ligada à libertação dos sofrimentos (cfr. Is 30,29; 35,19; Bar
4,29). Ele é, de facto, «aquele que liberta de todos os males» (Sab 16,8).
Entre os sofrimentos, os provocados pela doença são uma realidade
constantemente presente na história humana, tornando-se, ao mesmo tempo,
objecto do profundo desejo do homem de se libertar de todo o mal.

No Antigo Testamento,
«Israel tem a experiência de que a doença está misteriosamente ligada ao pecado
e ao mal».(2) Entre os castigos com que Deus ameaça o povo pela sua infidelidade,
as doenças ocupam espaço de relevo (cfr. Dt 28,21-22.27-29.35). O doente que
pede a Deus a cura reconhece que é justamente castigado pelos seus pecados
(cfr. Sal 37; 40; 106,17-21).

A doença porém atinge também
os justos e o homem interroga- se sobre o porquê. No livro de Job, essa
interrogação está presente em muitas das suas páginas. «Se é verdade que o
sofrimento tem um sentido de castigo, quando ligado à culpa, já não é verdade
que todo o sofrimento seja consequência da culpa e tenha um carácter de
punição. A figura do justo Job é uma especial prova disso no Antigo Testamento.
(…) Se o Senhor permite que Job seja provado com o sofrimento, fá-lo para
demostrar a sua justiça. O sofrimento tem carácter de prova».(3)

A doença, embora possa ter
uma conotação positiva, como demonstração da fidelidade do justo e meio de
reparar a justiça violada pelo pecado, e também como forma de levar o pecador a
arrepender- se, enveredando pelo caminho da conversão, continua todavia a ser
um mal. Por isso, o profeta anuncia os tempos futuros em que não haverá mais
desgraças nem invalidez, e o decurso da vida nunca mais será interrompido com
doenças mortais (cfr. Is 35,5-6; 65,19-20).

É todavia no Novo Testamento
que encontra plena resposta a interrogação porque a doença atinge também os
justos. Na actividade pública de Jesus, as suas relações com os doentes não são
casuais, mas constantes. Cura a muitos deles de forma prodigiosa, tanto que
essas curas milagrosas tornam-se uma característica da sua actividade: «Jesus percorria
todas as cidades e aldeias, ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho
do reino e curando todas as doenças e enfermidades» (Mt 9,35; cfr. 4,23). As
curas são sinais da sua missão messiânica (cfr. Lc 7,20-23). Manifestam a
vitória do reino de Deus sobre todas as espécies de mal e tornam-se símbolo do
saneamento integral do homem, corpo e alma. Servem, de facto, para mostrar que
Jesus tem o poder de perdoar os pecados (cfr. Mc 2,1- 12); são sinais dos bens
salvíficos, como a cura do paralítico de Betsaida (cfr. Jo 5,2-9.19-21) e do
cego de nascença (cfr. Jo 9).

Também a primeira
evangelização, segundo as indicações do Novo Testamento, era acompanhada de
numerosas curas prodigiosas que corroboravam o poder do anúncio evangélico.
Aliás, tinha sido essa a promessa de Jesus ressuscitado, e as primeiras
comunidades cristãs viam nelas que a promessa se cumpria entre eles: «Eis os
milagres que acompanharão os que acreditarem: (…) quando impuserem as mãos
sobre os doentes, ficarão curados» (Mc 16,17-18). A pregação de Filipe na
Samaria foi acompanhada de curas milagrosas: «Filipe desceu a uma cidade da
Samaria e começou a pregar o Messias àquela gente. As multidões aderiam
unanimemente às palavras de Filipe, ao ouvi-las e ao ver os milagres que fazia.
De muitos possessos saíam espíritos impuros, soltando enormes gritos, e
numerosos paralíticos e coxos foram curados» (Actos 8,5-7). São Paulo apresenta
o seu anúncio do Evangelho como sendo caracterizado por sinais e prodígios
realizados com o poder do Espírito: «não ousaria falar senão do que Cristo
realizou por meu intermédio, para levar os gentios à obediência da fé, pela
palavra e pela acção, pelo poder dos sinais e prodígios, pelo poder do
Espírito» (Rom 15,18-19; cfr. 1 Tes 1,5; 1 Cor 2,4-5). Não é por nada
arbitrário supor que muitos desses sinais e prodígios, manifestação do poder
divino que acompanhava a pregação, fossem curas prodigiosas. Eram prodígios que
não estavam ligados exclusivamente à pessoa do Apóstolo, mas que se
manifestavam também através dos fiéis: «Aquele que vos dá o Espírito e realiza
milagres entre vós procede assim por cumprirdes as obras da Lei ou porque
ouvistes a mensagem da fé?» (Gal 3,5).

A vitória messiânica sobre a
doença, aliás como sobre outros sofrimentos humanos, não se realiza apenas
eliminando-a com curas prodigiosas, mas também com o sofrimento voluntário e
inocente de Cristo na sua paixão, e dando a cada homem a possibilidade de se
associar à mesma. De facto, «o próprio Cristo, embora fosse sem pecado, sofreu
na sua paixão penas e tormentos de toda a espécie e fez seus os sofrimentos de
todos os homens: cumpria assim quanto d’Ele havia escrito o profeta Isaías
(cfr. Is 53,4-5)».(4) Mais, «Na cruz de Cristo não só se realizou a Redenção
através do sofrimento, mas também o próprio sofrimento humano foi redimido.
(…) Realizando a Redenção mediante o sofrimento, Cristo elevou ao mesmo tempo
o sofrimento humano ao nível de Redenção. Por isso, todos os homens, com o seu
sofrimento, se podem tornar também participantes do sofrimento redentor de
Cristo».(5)

A Igreja acolhe os doentes,
não apenas como objecto da sua solicitude amorosa, mas também reconhecendo
neles a chamada «a viver a sua vocação humana e cristã e a participar no
crescimento do Reino de Deus com novas modalidades e mesmo mais preciosas. As
palavras do apóstolo Paulo hão-de tornar-se programa e, ainda mais, a luz que
faz brilhar aos seus olhos o significado de graça da sua própria situação:
“Completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo, em benefício do
seu corpo que é a Igreja” (Col 1,24). Precisamente ao fazer tal
descoberta, encontrou o apóstolo a alegria: “Por isso, alegro- me com os
sofrimentos que suporto por vossa causa” (Col 1,24)».(6) Trata-se da
alegria pascal, que é fruto do Espírito Santo. Como São Paulo, também «muitos
doentes podem tornar-se veículo da “alegria do Espírito Santo em muitas
tribulações” (1 Tes 1,6) e ser testemunhas da ressurreição de Jesus».(7)

O desejo da cura e a oração
para alcançá-la

Salva a aceitação da vontade
de Deus, o desejo que o doente sente de ser curado é bom e profundamente
humano, sobretudo quando se traduz em oração confiante dirigida a Deus. O
Ben-Sirá exorta a fazê-lo: «Filho, não desanimes na doença, mas reza ao Senhor
e Ele curar-te-á» (Sir 38,9). Vários salmos são uma espécie de súplica de cura
(cfr. Sal 6; 37; 40; 87).

Durante a actividade pública
de Jesus, muitos doentes a Ele se dirigem, ou directamente ou através de seus
amigos e parentes, implorando a recuperação da saúde. O Senhor acolhe esses
pedidos, não se encontrando nos Evangelhos o mínimo aceno de reprovação dos
mesmos. A única queixa do Senhor refere-se à eventual falta de fé: «Se posso?
Tudo é possível a quem acredita» (Mc 9,23; cfr. Mc 6,5-6; Jo 4,48).

Não só é louvável a oração
de todo o fiel que pede a cura, sua ou alheia, mas a própria Igreja na sua
liturgia pede ao Senhor pela saúde dos enfermos. Antes de mais, tem um
sacramento «destinado de modo especial a confortar os que sofrem com a doença:
a Unção dos enfermos».(8) «Nele, por meio da unção e da oração dos presbíteros,
a Igreja recomenda os doentes ao Senhor padecente e glorificado para que os
alivie e salve».(9) Pouco antes, na bênção da óleo, a Igreja reza: «derramai a
vossa santa bênção para que [o óleo] sirva a quantos forem com ele ungidos de
auxílio do corpo, da alma e do espírito, para alívio de todas as dores,
fraquezas e doenças»;(10) e, a seguir, nos dois primeiros formulários da oração
após a Unção, pede-se mesmo a cura do enfermo.(11) A cura, uma vez que o sacramento
é penhor e promessa do reino futuro, é também anúncio da ressurreição, quando
«não haverá mais morte nem luto, nem gemidos nem dor, porque o mundo antigo
desapareceu» (Ap 21,4). Por sua vez, o Missale Romanum contém uma Missa pro
infirmis, onde, além de graças espirituais, se pede a saúde dos doentes.(12)

No De benedictionibus do Rituale
Romanum existe um Ordo benedictionis infirmorum que contém diversos textos
eucológicos para implorar a cura: no segundo formulário das Preces,(13) nas
quatro Orationes benedictionis pro adultis,(14) nas duas Orationes
benedictionis pro pueris,(15) na oração do Ritus brevior.(16)

É óbvio que o recurso à
oração não exclui, antes encoraja, o emprego dos meios naturais úteis a
conservar e a recuperar a saúde e, por outro lado, estimula os filhos da Igreja
a cuidar dos doentes e a aliviá-los no corpo e no espírito, procurando vencer a
doença. Com efeito, «reentra no próprio plano de Deus e da sua Providência que
o homem lute com todas as forças contra a doença em todas as suas formas e se
esforce, de todas as maneiras, por manter-se em saúde».(17)

O carisma da cura no Novo
Testamento

Não só as curas prodigiosas
confirmavam o poder do anúncio evangélico nos tempos apostólicos; o próprio
Novo Testamento fala de uma verdadeira e própria concessão aos Apóstolos e aos
outros primeiros evangelizadores de um poder de curar as enfermidades em nome
de Jesus. Assim, ao enviar os Doze para a sua primeira missão, o Senhor,
segundo a narração de Mateus e de Lucas, concede-lhes «o poder de expulsar os
espíritos impuros e de curar todas as doenças e enfermidades» (Mt 10,1; cfr. Lc
9,1) e dá-lhes a ordem: «Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, sarai os
leprosos, expulsai os demônios» (Mt 10,8). Também na primeira missão dos
setenta e dois, a ordem do Senhor é: «curai os enfermos que aí houver» (Lc
10,9). O poder, portanto, é concedido dentro de um contexto missionário, não
para exaltar as pessoas enviadas, mas para confirmar a sua missão.

Os Atos dos Apóstolos
referem de modo genérico prodígios operados por estes: «inúmeros prodígios e
milagres realizados pelos Apóstolos» (Atos 2,43; cfr. 5,12). Eram prodígios e
sinais e, portanto, obras portentosas que manifestavam a verdade e a força da
sua missão. Mas, além destas breves indicações genéricas, os Atos referem
sobretudo curas milagrosas, realizadas pelos evangelizadores individualmente:
Estêvão (cfr. Atos 6,8), Filipe (cfr. Atos 8,6-7) e sobretudo Pedro (cfr. Atos
3,1-10; 5,15; 9,33-34.40-41) e Paulo (cfr. ctos 14,3.8-10; 15,12; 19,11-12;
20,9-10; 28,8-9).

Quer a parte final do
Evangelho de Marcos quer a Carta aos Gálatas, como antes se viu, alargam a
perspectiva e não circunscrevem as curas prodigiosas à atividade dos Apóstolos
e de alguns evangelizadores que tiveram papel de relevo na primeira missão.
Neste particular contexto, são de extrema importância as referências aos
«carisma de cura» (1 Cor 12,9.28.30). O significado de carisma é, por si, muito
amplo: o de «dom generoso»; no caso em questão, trata-se de «dons de curas obtidas».
Estas graças, no plural, são atribuídas a um único sujeito (cfr. 1 Cor 12,9) e,
portanto, não se devem entender em sentido distributivo, como curas que cada um
dos curados recebe para si mesmo; devem, invés, entender-se como dom concedido
a uma determinada pessoa de obter graças de curas em favor de outros. É dado in
uno Spiritu, sem contudo se especificar o modo como essa pessoa obtém as curas.
Não seria descabido subentender que o seja através da oração, talvez
acompanhada de algum gesto simbólico.

Na Carta de São Tiago,
faz-se aceno a uma intervenção da Igreja, através dos presbíteros, em favor da
salvação, mesmo em sentido físico, dos doentes. Não se dá, porém, a entender se
se trata de curas prodigiosas: estamos num contexto diferente do dos «carismas
de curas» da 1 Cor 12,9. «Algum de vós está doente? Chame os presbíteros da
Igreja para que orem sobre ele, ungindo-o com o óleo em nome do Senhor. A
oração da fé salvará o doente e o Senhor o confortará e, se tiver pecados,
ser-lhe-ão perdoados» (Tg 5,14-15). Trata-se de um ato sacramental: unção do
doente com óleo e oração sobre ele, não simplesmente «por ele», como se fosse
apenas uma oração de intercessão ou de súplica. Mais propriamente, trata-se de
uma ação eficaz sobre o enfermo.(18) Os verbos «salvará» e «confortará» não
exprimem uma ação que tenha em vista, exclusivamente ou sobretudo, a cura
física, mas de certo modo incluem-na. O primeiro verbo, se bem que nas outras
vezes que aparece na dita Carta se refira à salvação espiritual (cfr. 1,21;
2,14; 4,12; 5,20), é também usado no Novo Testamento no sentido de «curar»
(cfr. Mt 9,21; Mc 5,28.34; 6,56; 10,52; Lc 8,48); o segundo verbo, embora
assuma por vezes o sentido de «ressuscitar» (cfr. Mt 10,8; 11,5; 14,2), também
é usado para indicar o gesto de «levantar» a pessoa que está acamada por causa
de uma doença, curando-a de forma prodigiosa (cfr. Mt 9,5; Mc 1,31; 9,27; Actos
3,7).

As orações para alcançar de
Deus a cura na Tradição

Os Padres da Igreja
consideravam normal que o crente pedisse a Deus, não só a saúde da alma, mas
também a do corpo. A propósito dos bens da vida, da saúde e da integridade
física, Santo Agostinho escrevia: «É preciso rezar para que nos sejam
conservados, quando se os tem, e que nos sejam concedidos, quando não se os
tem».(19) O mesmo Padre da Igreja deixou-nos o testemunho da cura de um amigo,
alcançada graças às orações de um bispo, de um sacerdote e de alguns diáconos
na sua casa.(20)

A mesma orientação se
encontra nos ritos litúrgicos, tanto ocidentais como orientais. Numa oração
depois da Comunhão, pede-se que «este sacramento celeste nos santifique
totalmente a alma e o corpo».(21) Na solene liturgia da Sexta-Feira Santa
convida-se a rezar a Deus Pai todo-poderoso para que «afaste as doenças… dê
saúde aos enfermos».(22) Entre os textos mais significativos, destaca-se o da
bênção do óleo dos enfermos. Nele pede-se a Deus que derrame a sua santa bênção
sobre o óleo, a fim de que «sirva a quantos forem com ele ungidos de auxílio do
corpo, da alma e do espírito, para alívio de todas as dores, fraquezas e
doenças».(23)

Não são diferentes as
expressões que se lêem nos rituais orientais da Unção dos enfermos. Citamos
apenas alguns dos mais significativos. No rito bizantino, durante a unção do
enfermo reza-se: «Pai Santo, médico das almas e dos corpos, Vós que enviastes o
vosso Filho unigénito Jesus Cristo para curar de toda a doença e libertar-nos
da morte, curai também, pela graça do vosso Cristo, este vosso servo da
enfermidade do corpo e do espírito que o aflige».(24) No rito copto pede-se ao
Senhor que abençoe o óleo para que todos os que com ele forem ungidos possam
alcançar a saúde do espírito e do corpo. Depois, durante a unção do enfermo, os
sacerdotes, depois de terem mencionado Jesus Cristo, mandado ao mundo «para
curar todas as enfermidades e libertar da morte», pedem a Deus «que cure o
enfermo das enfermidades do corpo e lhe indique o recto caminho».(25)

5. O «carisma de cura» no
contexto actual

No decorrer dos séculos da
história da Igreja, não faltaram santos taumaturgos que realizaram curas
milagrosas. O fenómeno, portanto, não estava circunscrito ao tempo apostólico.
O chamado «carisma de cura», sobre o qual convém hoje dar alguns
esclarecimentos doutrinais, não fazia parte porém desses fenómenos taumaturgos.
O problema põe- se sobretudo com as reuniões de oração que os acompanham,
organizadas no intuito de obter curas prodigiosas entre os doentes que nelas
participam, ou então com as orações de cura que, com o mesmo fim, se fazem a
seguir à Comunhão eucarística.

As curas ligadas aos lugares
de oração (nos santuários, junto de relíquias de mártires ou de outros santos,
etc.) são abundantemente testemunhadas ao longo da história da Igreja. Na
antiguidade e na idade média, contribuíram para concentrar as peregrinações em
determinados santuários, que se tornaram famosos também por essa razão, como o
de São Martinho de Tours ou a catedral de Santiago de Compostela e tantos
outros. O mesmo acontece na actualidade, como, por exemplo, há mais de um
século com Lourdes. Estas curas não comportam um «carisma de cura», porque não
estão ligadas a um eventual detentor de tal carisma, mas há que tê-las em conta
ao procurar ajuizar, sob o ponto de vista doutrinal, as referidas reuniões de
oração.

No que concerne as reuniões
de oração feitas com a finalidade precisa de alcançar curas, finalidade, se não
dominante, ao menos certamente influente na programação das mesmas, convém
distinguir entre as que possam dar a entender um «carisma de cura», verdadeiro
ou aparente, e as que nada têm a ver com esse carisma. Para que possam estar
ligadas a um eventual carisma, é necessário que nelas sobressaia, como elemento
determinante para a eficácia da oração, a intervenção de uma ou várias pessoas
individualmente ou de uma categoria qualificada, por exemplo, os dirigentes do
grupo que promove a reunião. Não havendo relação com o «carisma de cura», é
óbvio que as celebrações previstas nos livros litúrgicos, se realizadas em
conformidade com as normas litúrgicas, são lícitas e até muitas vezes
oportunas, como é o caso da Missa pro infirmis. Quando não respeitarem as
normas litúrgicas, perdem a sua legitimidade.

Nos santuários são também
frequentes outras celebrações que, por si, não se destinam especificamente a
implorar de Deus graças de curas, mas que nas intenções dos organizadores e dos
que nelas participam têm, como parte importante da sua finalidade, a obtenção
de curas. Com esse objectivo, costumam fazer-se celebrações litúrgicas, como é
o caso da exposição do Santíssimo Sacramento com bênção, ou não litúrgicas, mas
de piedade popular, que a Igreja encoraja, como pode ser a solene reza do
Terço. Também estas celebrações são legítimas, uma vez que não se altere o seu
significado autêntico. Por exemplo, não se deveria pôr em primeiro plano o
desejo de alcançar a cura dos doentes, fazendo com que a exposição da
Santíssima Eucaristia venha a perder a sua finalidade; esta, de facto, «leva a
reconhecer nela a admirável presença de Cristo e convida à íntima união com
Ele, união que atinge o auge na comunhão sacramental».(26)

O «carisma de cura» não se
atribui a uma determinada categoria de fiéis. É, aliás, bem claro que São
Paulo, quando se refere aos diversos carismas em 1 Cor 12, não atribui o dom
dos «carismas de cura» a um grupo particular: ao dos apóstolos ou dos profetas,
ao dos mestres ou dos que governam, ou a outro qualquer. A lógica que preside à
sua distribuição é, invés, outra: «é um só e mesmo Espírito que faz tudo isto,
distribuindo os dons a cada um conforme Lhe agrada» (1 Cor 12,11). Por
conseguinte, nas reuniões de oração organizadas com o intuito de implorar
curas, seria completamente arbitrário atribuir um «carisma de cura» a uma
categoria de participantes, por exemplo, aos dirigentes do grupo. Dever-se-ia
confiar apenas na vontade totalmente livre do Espírito Santo, que dá a alguns
um especial carisma de cura para manifestar a força da graça do Ressuscitado.
Há que recordar, por outro lado, que nem as orações mais intensas alcançam a
cura de todas as doenças. Assim São Paulo tem de aprender do Senhor que
«basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se manifesta todo o meu
poder» (2 Cor 12,9) e que os sofrimentos que se têm de suportar podem ter o
mesmo sentido do «completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo, em
benefício do seu corpo que é a Igreja» (Col 1,24).

II. DISPOSIÇÕES
DISCIPLINARES

Art. 1 – Todo o fiel pode
elevar preces a Deus para alcançar a cura. Quando estas se fazem numa igreja ou
noutro lugar sagrado, convém que seja um ministro ordenado a presidi-las.

Art. 2 – As orações de cura
têm a qualificação de litúrgicas, quando inseridas nos livros litúrgicos
aprovados pela autoridade competente da Igreja; caso contrário, são orações não
litúrgicas.

Art. 3 – § 1. As orações de
cura litúrgicas celebram-se segundo o rito prescrito e com as vestes sagradas
indicadas no Ordo benedictionis infirmorum do Rituale Romanum.(27)

§ 2. As Conferências
Episcopais, em conformidade com quanto estabelecido nos Praenotanda, V, De
aptationibus quae Conferentiae Episcoporum competunt(28) do mesmo Rituale
Romanum, podem fazer as adaptações ao rito das bênçãos dos enfermos, que
considerarem pastoralmente oportunas ou eventualmente necessárias, com prévia
revisão da Sé Apostólica.

Art. 4 – § 1. O Bispo
diocesano(29) tem o direito de emanar para a própria Igreja particular normas
sobre as celebrações litúrgicas de cura, conforme o can. 838, § 4.

§ 2. Os que estão
encarregados de preparar ditas celebrações litúrgicas, deverão ater-se a essas
normas na realização das mesmas.

§ 3. A licença de realizar ditas
celebrações tem de ser explícita, mesmo quando organizadas por Bispos ou
Cardeais ou estes nelas participem. O Bispo diocesano tem o direito de negar
tal licença a qualquer Bispo, sempre que houver uma razão justa e proporcionada.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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