Inspiração e Canonicidade – EB

Revista: “PERGUNTE E
RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, osb

Nº 492 – Ano 2003 – p.
259

 

Em síntese: Não há outro
critério para se reconhecer a inspiração divina e, conseqüentemente, a
canonicidade de um livro senão a Tradição oral. Esta se manifestou já em 393 no
Concílio regional da Hipona, que proclamou canônicos os livros ainda hoje
existentes na Bíblia católica. Não são critérios válidos e conteúdo
(edificante), o estilo literário burilado, o autor do livro sagrado.

A Redação de PR recebeu a
seguinte carta:

“Um pastor protestante
argumentou que os livros dos Macabeus não são inspirados pelo Espírito Santo
pois em 2MC 2, 19-32 o editor diz que “se a composição está medíocre, é porque
melhor não pude fazer”. Pois bem, alega o pastor que Deus jamais usaria uma
expressão assim, por isto os citados livros não deveriam constar na Bíblia.
Deveriam ser apenas literatura como “A Divina Comédia”.

As palavras atribuídas ao
autor de 2Mc na carta atrás não se encontram nem na Bíblia de Jerusalém nem na
da CNBB. Como quer que seja, o autor sagrado confessa que resumiu num só os
cinco livros de Jasão de Cirene, trabalho este que lhe causou vigílias e
suores.

Trata-se agora de examinar
se tais afirmações são compatíveis com a inspiração e canonicidade de um livro.

Comecemos por examinar:

1. Inspiração: que é?

a) Quando se fala de inspiração
bíblica, talvez aflore à mente a noção de ditado mecânico, semelhante ao que o
chefe de escritório realiza junto à sua datilógrafa; esta possivelmente escreve
coisas que não entende e que são claras apenas ao chefe e à sua equipe.

Oral tal não é a inspiração
bíblica. Ela não dispensa certa compreensão por parte do autor bíblico (= hagiógrafo)
nem a sua participação na redação do texto sagrado.

b) A inspiração bíblica também
não é revelação de verdades que o autor humano não conheça. Existe, sim, o
carisma (= Dom) da Revelação, que toca especialmente aos Profetas, mas é
diverso da inspiração bíblica; esta se exercia, por exemplo, quando o hagiógrafo
descrevia uma batalha ou outros fatos documentados em fontes históricas, sem
receber revelação divina.

c) Positivamente, a inspiração
bíblica é a iluminação da mente do autor humano para que possa, com os dados de
sua cultura religiosa e profana, transmitir uma mensagem fiel ao pensamento de
Deus. Além de iluminar a mente, o Espírito Santo fortalece a vontade e as potências
executivas do autor para que realmente o hagiógrafo escreva o que ele percebeu;
cf. 2Pd 1, 21. As páginas que assim se originam, são todas humanas (Deus em
nada dispensa a atividade redacional do homem) e divinas (pois Deus acompanha
passo a passo o trabalho do homem escritor). Assim diz-se que a Bíblia é um
livro divino-humano, todo de Deus e todo do homem; transmite o pensamento de
Deus em roupagem humana; assemelha-se ao mistério da Encarnação, pelo qual Deus
se revestiu da carne humana (judeu, grego, arcaico, com todas as
particularidades de expressão).

Importa frisar bem o fato de
que a inspiração bíblica não dispensa os esforços do autor sagrado; ele
trabalha como qualquer outro escritor, até mesmo hesitando e voltando atrás,
como aconteceu a São Paulo em 1Cor 1, 14-15:

“Dou graças a Deus por não ter
batizado ninguém de vós a não ser Cristo e Caio. Assim ninguém pode dizer que
foi batizado em meu nome. É verdade, batizei também a família de Estéfanas;
quanto ao mais, não me recordo de ter batizado algum outro de vós”.

Deus jamais hesitaria à
semelhança de São Paulo no texto atrás nem falaria como o autor de 2Mc 2,
19-32, de modo que, se quiséssemos seguir o arrazoado do nosso missivista;
deveríamos eliminar do catálogo bíblico também a 1Cor. Pergunta-se então

2. Como se reconhece a
inspiração?

Têm sido propostos vários
critérios para se reconhecer como algum livro é inspirado. Ei-los:

1) Conteúdo edificante. Sem
dúvida, deve-se reconhecer que há belíssimas passagens na Bíblia, aptas a
reconfortar e edificar. Mas não se pode negar a existência de secções pouco
edificantes como são guerras, homicídios, o incesto das filhas de Lote (Gn 19,
30-38)… isto é tão evidente que a Regra de São Bento (século VI) proíbe a
leitura de certos livros no ofício de Completas (oração da noite):

“Não se leia o Heptateuco ou
o livro dos Reis, porque não seria útil às inteligências fracas ouvir tais
partes da Escritura nessa hora” (cap. 42).

2) Esmerado estilo literário.
De fato há nas Escrituras de grande beleza literária, como são as do Profeta
Isaías, alguns trechos de São Paulo (1Cor 13, 1-13; 1, 17-31; Rm 8, 31-39)…
Mas também há na Bíblia secções mal construídas, inacabadas, falhas no tocante à
gramática, principalmente o Apocalipse, o livro do vidente comete erros que em
português correspondem  a “nós vai, eles
diz”…

3) Autoria de Patriarca,
Profeta ou Apóstolo. Também este critério é falho, pois há livros sagrados
cujos autores ignoramos ou são discutidos. Um livro pode ser inspirado e canônico
sem que saibamos quem o escreveu.

4) Para os livros do Antigo
Testamento, seria critério de inspiração o fato de serem citados por Jesus ou
algum Apóstolo. Observa-se, porém, que não são (nem implicitamente) citados no
Novo Testamento livros que, de resto, todos os cristãos têm como canônicos;
assim Eclesiastes, Ester, Cântico dos Cânticos, Esdras, Neemias, Abdias, Naum,
Rute, Provérbios.

5) A Tradição oral.  Este é o único critério aceito, de resto também
muito lógico. Com efeito, a Palavra de Deus foi anunciada primeiramente de viva
voz; a escrita (bíblica) é o eco e a cristalização da palavra oral, de modo que
esta aponta, recomenda e explicita a palavra escrita. A Tradição oral tem seu
porta-voz no magistério da Igreja assistido pelo Espírito Santo.

Formula-se uma objeção: a
tradução grega dita dos Setenta foi adotada pelos Apóstolos e escritores do
Novo Testamento. Ora tal versão contém, além dos livros canônicos e deuterocanônicos,
vários outros que a Tradição oral e o Magistério da Igreja não assumiram assim 3/4
Macabeus, 3/4 Esdras, Odes de Salomão… Não parece isto um jogo arbitrário,
que Deus não terá inspirado? – Em resposta, observamos que não podemos impor
critérios a Deus. O cânon bíblico, proveniente por vias autênticas, contém 73
livros. Isto é um fato que o teólogo não discute, mas aceita num ato de fé. A
teologia parte deste princípio: há 73 livros sagrados. Poderiam ser mais numerosos,
poderiam ser menos. A teologia é a ciência que procede da fé, procura ilustrar
as verdades da fé.

3. Como saber se um livro é
canônico?

Livro canônico é o livro
incluído no cânon ou no catálogo sagrado. Pois bem, há dois tipos de livros canônicos:
os protocanônicos e os deuterocanônicos.

Protocanônicos são os livros
catalogados em primeira instância (proton = primeiro) sem ter sido
controvertidos.

Deuterocanônicos são os
livros catalogados deuteron ou em segunda instância, após ter sido controvertidos
são os sete seguintes: Tobias, Judite, Eclesiástico, Baruque, Sabedoria, 1/2 Macabeus,
fragmentos de Estes e Daniel. Tais escritos foram controvertidos ente os cristãos
dos primeiros séculos, porque não eram aceitos pelos judeus da Palestina (mas sim
pelos de Alexandria). As hesitações cessaram no fim do século IV, quando o Concílio
Regional de Hipona em 393 definiu o cânon como ele é hoje, com seus 73 livros.

Para os católicos, os livros
deuterocanônicos do Antigo Testamento são tão valiosos como os protocanônicos;
são a Palavra de Deus inerrante, que, aliás, os próprios judeus da Palestina
estimavam e liam como textos edificantes. Por exemplo, os próprios rabinos
serviam-se do Eclesiástico até o séc. X como Escritura Sagrada; o 1Mc era lido
na festa de Encênia, ou da Dedicação do Templo (Hanukkah), Baruque era lido em
alta voz nas sinagogas do séc. IV d. C., como atestam as Constituições Apostólicas.
De Tobias e Judite temos midrachim ou comentários em aramaico, que atestam como
tais livros eram lidos na sinagoga.

Aliás, o próprio Lutero
traduziu para o alemão os livros deteurocanônicos: na sua edição alemã datada
de 1534 o catálogo é o dos católicos – o que bem mostra que os deuterocanônicos
eram usuais entre os cristãos. Não foi o Concílio de Trento que os introduziu
no cânon. De resto, as Sociedades Bíblicas protestantes até o séc. XIX incluíam
os deuterocanônicos em s

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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